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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O DOUTOR FAUSTO DE TOMAS MANN IV 07/11/2011 Ao anunciar meu
próximo curso on line
sobre a obra de Thomas Mann (ver Sedet), a começar no próximo dia 17, recebi um e-mail interessante de um leitor. Nele, foi-me
perguntado se o “tom” do curso seria o belo segundo os alemães. Não. O
objetivo do curso é compreender os grandes acontecimentos do século XX,
especialmente a II Guerra Mundial e o nazismo, à luz do que aconteceu na
Europa (e na Alemanha, claro) desde o século XVI, conforme está na obra de Thomas
Mann. Entendo que essa é não apenas a melhor explicação histórica para o que
aconteceu, mas é também o resumo filosófico e teológico de toda a tragédia. O
livro Doutor Fausto conseguiu essa síntese esplendorosa, por isso sua leitura
é difícil e pressupõe elos de conhecimentos que não são auto-evidentes para
os que não têm a visão de conjunto da obra e da biografia de Thomas Mann, Ademais, é impossível
compreender Thomas Mann sem a assistência essencial do conhecimento das obras
de Goethe e Nietzsche, pelo menos. Da mesma forma, uma cultura geral sobre a
música erudita é fundamental para não se perder dentro do argumento do autor,
que fez a biografia de Nietzsche na pele de um músico compositor. A questão do
esteticismo é essencial não porque este tenha alguma validade filosófica em
si. Está completamente desmoralizado depois da derrota fragorosa dos alemães
diante do Ocidente, fazendo murchar seu falso fundamento racista,
sustentáculo último dos delírios goethianos no
Fausto. O esteticismo é apenas outro nome para o niilismo resultante do
abandono a metafísica cristã. Autores como Schiller e Novalis expressaram o
desespero de quem não tem chão debaixo dos pés para fundamentar seus
preconceitos. A arte e o belo não podem ser sucedâneos para as verdades da
alma e caem no vazio existencial inexoravelmente. Nietzsche será o apogeu
dessa loucura. Thomas Mann recebeu
essa cultura esteticista integral e fascina acompanhar cada um dos livros
seus (e sua biografia) para ver a metamorfose que sofreu ao longo da vida.
Dolorosa descoberta da verdade. Quão difícil é descobrir que tudo que se tem
como certo é a falsificação da verdade? O
esteticismo era a verdade de Thomas Mann e Goethe Nietzsche seus gurus. Ele
sempre se posicionou contra a tradição católica, para afinal reconhecer que a
raiz primeira da orgia de sangue que foram as guerras da primeira metade do
século XX está na Reforma, que criou o homem
faustico, esta figura tipicamente moderna. O
homem faustico é o pequeno Satã, o rebelde contra
Deus. É aquele que foi proibido de amar ao próximo. É o Caim renascido, o
matador dos irmãos. Essa pequena síntese
pode chocar um pouco aqueles que não estão familiarizados com o tema. Mas não
se deve ler Thomas Mann com preconceitos. Ele foi o grande intérprete da tragédia
alemã, que é a tragédia da modernidade. Daí a necessidade de se beber fundo
na sua obra. Minha modesta opinião é que não se compreenderá a epopéia humana
desde o século XVI se não se mergulhar fundo na obra de Thomas Mann. |
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