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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O DOUTOR FAUSTO DE THOMAS MANN - I 15/10/2011 SÍMBOLOS, é tudo que se precisa compreender para uma boa leitura da
obra de Thomas Mann, especialmente o seu Doutor Fausto. Nenhuma palavra
poderá ser desprezada no romance, sob pena de se perder o fio de raciocínio
do autor na obra. O Doutor Fausto é o apogeu da carreira de romancista de
Thomas Mann e é também a maior e melhor interpretação da tragédia alemã, que
culminou na II Guerra Mundial. Não se
pode compreender o que aconteceu se não forem buscadas as raízes. O ponto
inaugural do processo histórico alemão se deu com a Reforma, que teve duas
conseqüências. A primeira foi a negação da
hierarquia natural e, portanto, o triunfo do igualitarismo, que virá a ser a
idéia mestra da modernidade, consolidada com a Reforma. Esse igualitarismo,
no plano político, redundou na emergência do homem-massa ao poder. A segunda
foi a franca rebelião contra Deus, que irá significar
aquilo que Fernando Bayón captou sinteticamente na
fascinante personalidade do personagem Adrian Leverkhün,
a proibição de amar. Quem não
cumpre o primeiro mandamento, amar a
Deus sobre todas as coisas, não pode cumprir o segundo, amar ao próximo como a si mesmo. É nesse
contexto que se deve inserir a obra seminal de Goethe, o profeta e o grande
intérprete da Alemanha antes do próprio Thomas Mann. A lenda do Fausto (e a
também de Mefistófeles, o Demônio do Norte, seu correlato) é essa expressão
poético-literária que dá o conteúdo da alma alemã. É aqui que se funda a
idéia de germanidade, que irá gerar o racismo
nazista, de trágicas conseqüências, bem como a depreciação do elemento da civilização, um sinônimo perfeito para
a herança católica. Fausto é essa inflação do indivíduo que busca superar o
próprio criador. Goethe, ao imaginar a Noite de Valpurgis
Clássica, onde expôs o intercurso entre Helena e Fausto, mostrou esse
impetuoso desejo germânico de abolir qualquer relevância de Roma e do
catolicismo, como se isso fosse possível. A narrativa é aterradora. A beleza
poética não esconde seu caráter medonho. O filho desse intercurso, Eufórion, é uma prefiguração de Hitler. Um símbolo por
excelência. No final
do século XIX essas idéias caricatas cristalizaram-se na obra de Nietzsche
que, louco enlouquecido com a germanidade, o autoproclamado assassino de Deus e da moralidade, será
ele mesmo o ideólogo do desamor, tão essencial ao nazismo. Nietzsche é o
fundador da cultura de morte, embora dissesse o contrário, chamando a morte
de vida. Thomas Mann irá fundir simbolicamente essa trilha histórica ao
esculpir o personagem principal do Doutor Fausto. ADRIAN
LEVERKHÜN. Ao formar o personagem, Thomas Mann conseguiu somar no mesmo
símbolo Lutero, Goethe e Nietzsche. O fato de ser músico acentuou o caráter
dionisíaco – demoníaco – desse momento histórico. O riso de Adrian é o
sublinhar desse demonismo. O
personagem nasceu na região de Wittemberg, em Kaisersaschern, explicitando a raiz luterana. O pai é
mostrado como um alquimista que lê a Bíblia traduzida por Lutero, encadernada
em couro de porco. Aqui se percebe a ampla dimensão do símbolo. Nem mesmo o
couro de porco usado para a encadernação pode ser esquecido. O animal imundo
por excelência, o que não levanta a cabeça ao alto, o que fuça nos charcos
imundos e nos monturos sujos dos quintais. Percebe-se a genialidade do autor
que, nos cinco primeiros capítulos, colocou integralmente a genealogia do
problema alemão, do nazismo, do mal que emergiu por inteiro na primeira
metade do século XX. Interessante
que as primeiras aulas de música tomadas por Adrian Leverkhün
vieram de uma mulher que vivia de pés no chão, no curral. Imunda. Inculta. Um
feminino altamente negativo, demoníaco. Essa entrada da música na vida do
personagem dá bem o caráter inferior que a arte musical adquire quando posta
nas mãos de um seguidor de Dionísio. Essa ambigüidade da música é ancestral.
O riso e a música como características do elemento negador
encarnado em Mefistófeles. O cão Suso fecha o quadro do simbolismo inicial do Doutor
Fausto e estará presente ao longo da vida de Adrian Leverkhün.
O cão que sempre foi o símbolo de Mefistófeles. (continua). |
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