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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O DISCURSO DO SARNEY 18 de junho de 2009 Eu sempre
soube que Vossa Excelência, senador José Sarney, nunca foi um estadista, no sentido
dicionarizado de ser uma pessoa que tem liderança política e sabedoria para
se portar acima dos interesses gremiais menores e
em prol dos interesses gerais. Sempre me pareceu que Vossa Excelência pautou
sua vida política pela mesquinharia, pelo compadrio, pelo usufruto do poder
de Estado para fazer prevalecer seus instintos de clã naquilo que tem de mais
retrógrado. Tem me parecido que a ética dos cupinchas
é a que preside as suas relações de poder, desde a origem. A crise
que eclodiu nos últimos dias, em torno dos atos ditos secretos do Senado (uma
vergonha inominável, mais do que uma afronta à Constituição), é a expressão
mais degradante das práticas nepotistas de que se tem notícia. Esses atos
colocaram Vossa Excelência sob as luzes da ribalta e atraíram a ira de toda a
Nação brasileira. Noticiou-se que irmão, neto, sobrinho e sabe-se
lá mais quantos familiares seus foram objeto dessa forma suja de ocultação do
ato administrativo ordinário. Houve uma locupletação
espantosa de sua parentela com as verbas públicas. O que mais
incomodou no seu discurso é o pseudo tom majestático que Vossa Excelência lhe
deu, como se o seu passado servisse de biombo para esconder as “pequenas”
estripulias nepotistas que foram noticiadas, como se, associadas a elas, não
estivesse a falta gravíssima de não se dar a devida
publicidade legal aos atos de gestão. Não, senador José Ribamar Sarney, nem o
seu passado é grandioso e nem as atuais denúncias
são miudezas. Elas testemunham, sim, a mesquinharia de quem se julga dono do
poder e acima das leis, como um Faraó renascido no Maranhão. Nem ditadores
conseguiram essa proeza de ficarem acima das leis, quanto mais nobres
senadores, símbolos da República e das práticas republicanas, que têm que dar
satisfação cotidiana dos seus atos. Graças a Deus ainda vivemos dentro de uma
sociedade aberta e que tem uma imprensa livre, apesar de tudo. Nada pode ter
ocultação permanente, esse é o testemunho que nos ficou dos grandes
escândalos recentes do governo Lula, como o do Mensalão,
de triste memória. Enumerar
sua longa carreira política como álibi no seu discurso só demonstrou a má fé
que o move. Qualquer um, se somar seus atos bons e esconder
seus atos indignos, poderá fazer crer aos interlocutores que é um
portador de santidade, uma evidente falsificação. O fato é que sua vida
política, para além dos cargos eletivos ocupados e das honrarias angariadas
por força desses cargos, ao longo de sua vida pública, aí incluindo a eleição
para a Academia Brasileira de Letras, está longe de ser virtuosa. Toda gente
sabe de sua responsabilidade maior sobre a origem da hiperinflação que legou
ao término de seu mandato na Presidência da República, testemunha indelével
da má gestão administrativa oriunda de sua ética de cupinchas . Eu próprio
pude testemunhar a febre de nomeações imorais de levas e levas de cabos
eleitorais, para cargos públicos estáveis, durante o seu governo, sob a
vigência da lei anterior à Constituição atual, legalidade que jamais serviu
para esconder a imoralidade do que foi feito. Os últimos dias antes de vigir a nova Constituição foram pavorosos em matéria
dessas nomeações imorais, devidamente assinadas nos decretos pelo presidente
em exercício, que era Vossa Excelência. Basta consultar o Diário Oficial da
época, pois então não se usava a prática de atos secretos. Nunca é
demais recordar que seu Estado de origem, o Maranhão, continua a ser uma das
unidades federativas mais pobres e subdesenvolvidas do Brasil, em grande
parte por causa da incúria dos governantes que se sucederam no poder ao longo
das últimas décadas, basicamente Vossa Excelência em pessoa, seus familiares
e seus compadres políticos. Se há um atestado de
incompetência de um governante, temos o mesmo dado pelas agruras que até hoje
pesam sobre os compatriotas maranhenses, mais das vezes objeto de ironia
precisamente pela proeminência nos cargos maiores da Nação adquirida por
Vossa Excelência, representando aquela boa gente. Que
retórica mais pobre essa de tentar colocar como escudo protetor o espírito
corporativo do Senado, como podemos ler no trecho: “Não
é a primeira vez que digo isso aqui, vou repeti-la: a instituição é maior do
que todos nós somados”. Claro que a Instituição é maior do que cada
um dos seus membros isolados, claro que o Senado é uma das faces do povo
brasileiro. Pura redundância, um truísmo. Mas não se pode dizer que as
travessuras nepotistas secretas denunciadas tornem um dos pares diferenciados
dos demais em sentido positivo, mas o torna certamente diferenciado em
sentido negativo, motivo de execração pública. É possível que a gravidade do
escândalo leve eventualmente à abertura de processo de cassação dos
responsáveis, se o Senado reagir à altura do que esperam muitos dos
brasileiros, entre os quais me incluo. “Não seria agora, na minha idade, que iria
praticar qualquer ato menor que nunca pratiquei na minha vida”, declarou
Vossa Excelência. Precisamente o contrário, Senador. Em qualquer idade que
Vossa Excelência tenha transitado no poder, mormente agora, o que se ouve é
que a prática nepotista sempre foi usada, alargada para atender toda sorte de
compadrio político. Os documentos vindos a públicos atestam isso à sobeja. Querer
diluir a presente crise no contexto de uma suposta crise global da
instituição dos parlamentos pelo mundo é recurso sofistico atroz. É como se
não existisse fato causador do escândalo que tomou conta dos meios de
comunicação, como se o escândalo não tivesse motivação concreta, sabida e
reconhecida. Todos os nomeados têm o seu sobrenome ou lhe são aparentados.
Mesmo assim Vossa Excelência não teve pejo de dizer: “Então, é com essa responsabilidade que nunca tive meu nome associado
a qualquer das coisas que são faladas aqui dentro do Congresso Nacional, ao
longo do tempo, porque isso é uma crise mundial. O que se fala aqui no Brasil
sobre o Congresso fala-se na Espanha, fala-se na
Inglaterra, fala-se na Argentina, fala-se em todos os lugares”.
Ora, se seu irmão, seu neto, sua sobrinha e sabe-se
lá mais quem são denunciados pela imprensa, então é o seu nome, sim,
Excelência, que está conspurcado pelo nepotismo. Eles, os seus parentes
diretos, estão lá precisamente porque Vossa Excelência é senador da República
e no memento é o presidente do Senado Federal. Nunca estiveram lá por méritos
pessoais. Seus parentes diretos não apenas adquiriram ricos proventos em
cargos públicos sob a sua jurisdição, e até mesmo um garoto que pode se dizer ainda imberbe e não formado, seu neto, lá foi
nomeado. Todos usufruem ou usufruíram das sinecuras e foram para elas
nomeados em atos ditos secretos exclusivamente porque carregam
o seu nome, Vossa Excelência não tem responsabilidade sobre isso? Mesmo sendo
Vossa Excelência o presidente em exercício da Casa? Ao contrário, tem toda a
responsabilidade, sim, e é dela que lhe cobra a Nação. Não há
grandeza alguma no seu discurso, mas uma majestade postiça e inconveniente
que agrediu aos que o ouviram e agride àqueles que lêem a peça. Pura retórica
vazia. Uma palavra fantástica que nunca terá o poder de fantasiar o mal feito.
Seu discurso bem poderia ter sido mais singelo e curto e substantivo, que
dissesse o que a Nação quer ouvir, mas seria demais esperar tal grandeza. Eu
nunca esperei. |
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