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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O DEUS DE OBAMA 21 janeiro de 2009 A festa de
posse Barack Hussein Obama
não poderia ter sido mais grandiosa. Seu desfile pelas ruas de Washington
lembrou o de um César No
primeiro parágrafo foi empregada a palavra humildade, mas o discurso inteiro é uma peça arrogante. O
presidente hesita diante das dificuldades dos tempos atuais e das conquistas
da América desde seu nascimento. Pudera, em face do franco contraste. O
presidente bem lembrou: “Nossa
nação se encontra em guerra contra uma rede de violência e ódio de grande
extensão. Nossa economia está gravemente enfraquecida, consequência
da cobiça e irresponsabilidade da parte de alguns, mas também de nosso
fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar o país para uma nova
era. Residências foram perdidas, empregos desapareceram, empresas foram
fechadas. Nosso sistema de saúde é oneroso demais, nossas escolas reprovam
alunos demais, e cada dia traz mais evidências de que a maneira como
consumimos energia fortalece nossos adversários e põe em risco nosso planeta”. Atentemos,
todavia, para o que disse. A nação está em guerra? Sim, mas em uma guerra de
agressão, duas pequenas (Iraque e Afeganistão), na verdade, contra países
nanicos e incapazes de qualquer defesa. A rigor os EUA não estão em guerra,
entrando aqui a palavra mais como hipérbole militar do que propriamente como
a descrição de um fato. E tem motivo: todos aqueles, como Obama,
que pretendem atingir o coração do povo precisam fazer brotar o patriotismo
guerreiro, que tem naquela gente notável ressonância. O potencial de
violência incluído aqui é visível. Atribuir a crise econômica à “cobiça
e irresponsabilidade de alguns”
é entrar em desacordo com a verdade. Qualquer observador bem informado da
história e da economia norte-americanas sabe que a causa da crise é única: o
agigantamento do Estado, sua pretensão de eliminar artificialmente a
escassez, a exorbitância legislativa que regula de forma desmedida os
mercados (mais à frente aprofunda esse visão
equívoca, como veremos). Não é a minoria rica (implícita) a culpada pela
crise, nem o próprio mercado. Este é na verdade a grande vítima. Obama, como um prometedor de milagres de feira livre, faz
diagnóstico errado precisamente para escapar de pôr o dedo na ferida. Residências
foram perdidas, sim, mas pelo único e exclusivo motivo de que compradores
temerários assinaram empréstimos impagáveis, almejando viver além das
próprias posses. E definitivamente as escolas não reprovam alunos; alunos é
que são reprovados por sua insuficiência acadêmica. Mais uma vez a relação de
causa e efeito fica aqui completamente invertida. O sistema de saúde é
oneroso e o será sempre, enquanto o Estado entender que é o patrono da Saúde.
Como qualquer bem que depende do trabalho, os serviços de saúde não deveriam
ser objeto de doação pelo Estado, fazendo assim sua demanda tender ao
infinito. Como qualquer serviço, deveria ser deixado ao mercado satisfazer as
necessidades coletivas. Não foi surpresa
para mim que o discurso de Obama tenha repetido na
literalidade o discurso de Lula: “Estamos
aqui neste dia porque optamos pela esperança em lugar do medo”. A
eloqüência dos populistas nada tem de original, se repete em toda parte. Contrastando
com a fingida humildade do parágrafo inicial, disse Obama:
“Ao reafirmar a grandeza de nosso país,
compreendemos que a grandeza jamais é dada. Ela precisa ser conquistada.
Nossa jornada nunca foi uma jornada de atalhos ou de nos contentarmos com
menos”. O inocente pronome coletivo aqui confunde propositadamente a
figura do presidente com a história da nação. A inflação de ego salta aos
olhos. Prossegue Obama, quase que de forma ingênua:
“Continuamos a ser o país mais próspero
e poderoso da Terra”. Por quanto tempo mais ainda? Se há uma coisa que
percebo é que essa crise vai redistribuir o poder mundial, ampliando o da
Europa, da Rússia e da China. A América precisaria voltar a ser aquela que
emergiu no alvorecer do século XX para continuar a ser aquilo que Obama gostaria que fosse sob a sua tutela. E, num
crescente, proclamou: “O Estado da
economia pede ação, ousada e veloz, e vamos agir – não apenas para gerar
novos empregos, mas para deitar novas bases para o crescimento”. É aqui
que se descortina na inteireza toda a alienação obâmica,
sua figura quixotesca. Esse “vamos agir” significa estatizar mais, emitir mais moeda,
regular mais a vida privada. Ou seja, tudo aquilo que contribuiu para gerar a
crise e pôr a América de joelhos será repetido e aprofundado. Obama não escondeu suas (más) intenções. “Há quem questione a escala de nossas
ambições – quem sugira que nosso sistema não pode tolerar planos grandiosos
demais”. A retórica é fraca, mas serve para lembrar um saboroso diálogo
do filme BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS. O Coringa diz ao personagem que o
caos acontece quando o plano, ainda que maléfico, não funciona. Se funcionar
a multidão fica tranqüila. O que as pessoas não toleram é a incerteza, a
falta de previsibilidade. Ora, o patrono desses novos tempos obâmicos é o Coringa. Planos não funcionarão, a
burocracia estatal vai tatear no improviso diário a cada resposta errada da
economia de mercado aos planos mirabolantes, aos bailouts grandiosos, aos
resgates imorais. O Coringa agora é o próprio Estado agigantado, o causador
do caos. Para o
momento histórico que foi sua posse o discurso está desproporcionalmente
fraco, sem grandes vôos retóricos. Destaco aqui um ponto que será talvez o
seu apogeu, onde ele desvela o seu Deus: “É
chegada a hora de reafirmar nosso espírito duradouro, de escolher nossa
história melhor; de levar adiante aquela dádiva preciosa, aquela idéia nobre
que vem sendo transmitida de geração em geração: a promessa dada por Deus de
que todos são iguais, todos são livres, e todos merecem a oportunidade de
lutar por sua medida de felicidade”. Esse
certamente não é o Deus de Abraão. Será o deus de Epicuro.
E de Rousseau. O deus dos ateus, se quisermos ser
exatos e mordazes com o novo presidente. Muito apropriado para quem se
pretende o grão-sacerdote do Estado, o deus de nosso tempo. |
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