|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
O DESAFIO DO
MITO BRASILEIRO 15/07/2002 "Fiz de mim
o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não
desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara Estava pregada à cara. Quando a tirei e me vi no espelho. Já tinha
envelhecido." Fernando
Pessoa, "Tabacaria." Aviso: Se, caro leitor, na
aventura que será escrever as próximas linhas eu conseguir que você vislumbre o sentido que eu quis
dar aos versos postos em epígrafe, terei pago o meu trabalho. Se não,
sou mesmo um desterrado e indigno dos versos do poeta. -x-x-x- Martim Vasques
da Cunha presenteou-nos com um soberbo ensaio (O Desterro de Todos Nós,
publicado no jornal eletrônico "O Indivíduo" - www.oindividuo.com)
sobre a obra de Sérgio Buarque de Holanda, toda ela no que tem de relevante, que o garoto é muito
pretensioso, além de erudito e competente. Santa pretensão, que me deixou
há três dias com o seu ensaio na cabeça! O texto é simplesmente
brilhante. E o Martim usa e abusa do método
comparativo para narrar a sua tese. Aí vemos desfilar grandes nomes da literatura nacional e
universal, o que torna a sua criação uma pequena obra-prima. E, no
final, vemos o desfecho talentoso no rigor conclusivo: em nenhum momento perde
o fio da meada. Martim é um legítimo discípulo de Eric Voegelin. Comecemos pelo fim, que é
realmente o que nos interessa. Afinal, vivemos tempos de grandes perigos (não o Fim, obviamente), que
não foram formados de agora. Idéias têm conseqüências e a Nação brasileira está agora se confrontando com o fantasma de Sérgio Buarque de Holanda. Na
verdade, com ela mesma. Vejamos o seguinte trecho: "Por mais que evitasse a ideologia, Sérgio
Buarque de Holanda acabou caindo no mesmo poço de um passado triste:
aquele que endeusa a religião de Estado, o único que pode `compor um
todo perfeito de partes tão antagônicas'. Assim fica claro
porque o Partido dos Trabalhadores, para legitimar sua fundação em termos
intelectuais, sempre usa o nome de Sérgio e de seu filho
Chico Buarque como `fundadores do PT'. Tanto o historiador
da alma brasileira como o PT, acreditam num Estado que possa solucionar todos os
problemas sociais, num Estado que seja equilibrado, mas
que inevitavelmente descamba para o totalitarismo que mata somente a
consciência individual, a única que pode se rebelar contra os
poderes estatais, talvez por ser uma estranha parte de unidades
tão antagônicas. Mas não é só o PT: a influência de Raízes do
Brasil, Visão do Paraíso, Do Império à República e muitos outros, afetaram os
escritos de Mangabeira Unger, não por
acaso o guru do novo queridinho das pesquisas eleitorais, Ciro Gomes, além de,
obviamente, o programa falsamente neoliberal de nosso presidente FHC". Vemos que a coisa é séria. É
todo o imaginário político brasileiro que foi contaminado. Eleições não são apenas eleições. O estabelecimento de uma ordem começa pela compreensão da vida social e da História, coisa que, como povo, estamos longe de
fazer. Nossos líderes intelectuais e políticos não sabem aonde nos conduzir.
Sérgio Buarque parte do
referencial teórico de Weber, cuja principal conclusão é não apenas insuficiente, como incapaz de fornecer os
instrumentos para uma adequada análise do mundo ocidental, aí incluindo o Brasil (ver meu artigo anterior sobre o assunto). Martim, com muito rigor - e
até uma dureza radical - afirma: "No fim
das contas, o estilo (do Sérgio) esconde idéias perigosas que não levam a lugar nenhum - idéias que são mais desterradas
que os próprios brasileiros que Sérgio queria decifrar. Mas
como podemos solucionar um enigma, se já temos uma idéia pré-concebida do problema e desenvolvemos em dissipações ideais que vão se
rebaixando cada vez mais, chegando até uma outra realidade, que deverá
contornar a nossa para que a lacuna entre o arcaísmo e a
modernidade seja preenchida? Para superar os abismos, Sérgio Buarque de
Holanda quer andar sobre uma ponte de pó - e essa ponte é nada
mais, nada menos que o Estado." Idéias não apenas perigosas,
mas erradas, ainda que narradas de forma rica, em prosa vigorosa. Martim se pergunta: "O que o levou a esse erro tão grosseiro?" Responde: "Em primeiro lugar, apesar de Max Weber não
compreender que a vida de um católico pressupunha a aceitação do mistério, não racionalizando-a através do trabalho, ele sabia que a
ética cristã não é apenas a ética protestante, mesmo
sendo esta a que mais determinou o `espírito do capitalismo', segundo
suas conclusões. Contudo, Sérgio Buarque, amparado por Tawney, confunde a vida cristã... com a
protestante, quando esta foi uma reação de caráter gnóstico... Os
equívocos se multiplicam sem parar: desde quando a vida cristã é sistemática e organizada se ela
é, como toda vida religiosa que se preze, a aceitação do mistério da
existência? Como se pode afirmar que um cristão prefere a ação à
contemplação, se a grande novidade do Cristianismo foi justamente
a união entre a vida contemplativa e a vida ativa, para que a ação na
realidade concreta fosse muito mais plena e condizente com a
ordem divina - atitude, aliás, prenunciada por Aristóteles ao falar
sobre o spoudaios, o homem maduro que passa da contemplação à ação
numa atitude dialética, de confronto consigo mesmo, para então
encontrar a verdade que está além dos opostos? Além disso,
como se pode querer entender a alma brasileira, ancorada sobre
princípios católicos da metrópole portuguesa, se não se tem uma noção
justa da vida cristã, com todas as suas ambigüidades, mesmo que o
brasileiro seja uma perversão do Cristianismo?". Chega de citações. A análise
de Martim está corretíssima. O fato é que Sérgio Buarque errou por se apoiar em um autor (Weber)
que estava errado; errou porque mirou uma tipologia idealizada,
quando deveria ter dissecado a realidade que o cercava; errou porque
não compreendeu o Cristianismo; errou porque se portou como um
lusitano desterrado, tão bem espelhado nos versos de Fernando Pessoa, que seguem: "Outrora eu era daqui,/e hoje regresso
estrangeiro,/forasteiro do que vejo e ouço,/ velho de mim." Olavo de Carvalho, em um
artigo já antigo (Do mito à ideologia), publicado no Jornal da Tarde em 29/03/2001, afirma que "a Bíblia, mito fundador da civilização ocidental, está
no fundo de toda a nossa compreensão de nós mesmos e de todas as
nossas possibilidades de ação".E
prossegue: "Fora disso, não há
senão ideologia, erro, loucura". Quanta precisão no filósofo! A
obra de Sérgio Buarque de Holanda e a de seus discípulos e sucessores na Academia e no meio político
têm feito apenas isso: erro. Um erro levando a
outro erro. Mas como poderiam ateus entender de coisas que estão muito fora do seu alcance? São uns cegos indígenas guiados por cegos
alienígenas, rumando para o poço profundo, à escuridão mais sombria. O grande enigma do ser
brasileiro ainda está por ser decifrado? Ainda estamos a procura de uma resposta? Em busca de nós mesmos? Essa será talvez a única
lacuna no ensaio do Martim, ele que tão bem conhece as nossas letras e o grande mestre, Guimarães Rosa.
Rosa decifrou o enigma, Martim bem o sabe, mas acho que esqueceu por
um momento, atarefado que estava com os cegos de alma. É Riobaldo o seu nome, o nosso arquétipo, a síntese de todos os nossos
guerreiros, o gaúcho e o jagunço, o bandeirante e o vaqueiro, o índio, o
negro e o colonizador, a síntese de nosso povo moreno. Riobaldo
é o conquistador que ousou atravessar o Rio e enfrentar, com a ajuda do
anjo Diadorim, os nossos demônios, o Demônio. E venceu,
pela Graça de Deus. "Grande Sertão, Veredas" é a saga do
povo brasileiro transformada em obra-prima da literatura universal. Precisamos agora anunciar isso
em praça pública, nas escolas ensinar às nossas crianças, nos palanques aos eleitores, na TV a
todo o povo. Sim, temos um herói cristão que é o nosso espelho,
está no nosso sangue. Ele saiu do extremo da senzala e acabou na
Casa Grande. Antes de conquistar o
mundo, conquistou e salvou a sua alma. Quem sabe ao fazer isso, daqui
a uma ou duas gerações tenhamos perdido o medo das próximas eleições |
|