NIVALDO
CORDEIRO: um espectador engajado
OCASO DE UM TRAIDOR
15/09/2005
Foi
consumada a cassação de Roberto Jefferson. Merecido. Traidores não são
perdoados nem no mundo do crime. Seu gesto de usar a inconfidência para se
vingar não poderia ter dado em outra coisa além de colocar toda a classe
política contra si. Foi seu melancólico final político. Não houve virtude em
suas ações, em nenhum momento. Movido pelo ódio e pela sede de vingança,
perdeu-se em meio a revelações de que todo mundo bem informado já sabia,
gerando as manchetes jornalísticas que lhe condenaram no meio de seus pares.
Por um momento até temi pela sua vida, mas não temos criminosos políticos
intrépidos a esse ponto. Sorte sua.
Em outro
artigo escrevi que, se nas CPIs
os réus tornassem-se julgadores e os julgadores, réus, pelos mesmos processos e
mesmos crimes, nenhuma injustiça seria cometida, ressalvando-se as exceções de
regra. E as condenações seriam idênticas, trocando apenas os nomes. São todos culpados, como a política é culpada. A
singularidade de nosso tempo é que o descaramento de nossa classe política
alcançou contornos de escárnio ao deixar-se filmar pelas câmaras de televisão,
mas nada de substancialmente diferente do que se faz em política desde sempre.
Reafirmo o que escrevi. Minha descrença nos poderes desse mundo vem da
observação direta. Depois de viver quase cinco décadas não tenho o direito de
me enganar.
Defendo a
condenação dos culpados. Defendo que as penas não se esgotem na esfera
política, mas se estendam na esfera jurídica, nos tribunais. Afinal, quase tudo
na vida é teatro, são papéis não decorados em que os atores são movidos pelos
atrativos irresistíveis do poder, do dinheiro e do sexo. Assim é a humanidade,
desde sempre. O show da política, como a vida, tem que continuar.
Jefferson
tornou-se mais singular porque sua inconfidência trouxe o benefício inesperado
de desacreditar o PT e o presidente Lula. Aliás, de toda a esquerda expôs a
podridão e as mentiras que lhe são peculiares e que tão bem vinham escondendo.
Isso inscreveu o parlamentar de forma indelével nas páginas da História. Talvez
tenha salvado o Brasil de uma tragédia de grandes proporções, que se desenhava
com a possível longevidade do PT no poder. Seu vício pessoal tornou-se uma
virtude pública não esperada. Ao mesmo tempo, revelou o traço de caráter de
nossos revolucionários de botequim, ora no poder, com sua psicologia de
barnabés. Contentam-se com uma boquinha no serviço público, seu ímpeto mudancista esgota-se com sua nomeação no Diário Oficial,
para os muitos e, para os chefes, com as malas de dinheiro, produto de suas
negociatas.
Não
conseguimos ter um criminoso empedernido como um Hitler ou um Stalin. Dirceu, o
“sai já daí”, que pensei que tivesse tutano e fosse o arquétipo do criminoso
revolucionário, revelou-se um delinqüente menor, um fanfarrão inconseqüente, um
cagão. Não foi capaz de dar a grande ordem. Estamos
fadados à mediocridade até na capacidade de cometer crimes políticos. Dirceu
recolheu-se ao que é, um manipulador da máquina
partidária, um Richelier caipira. Um insuflador
estudantil, que se comportar como adolescente aos sessenta anos.
Virou-se uma
página na História. O saldo é positivo para o Brasil.