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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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BRASIL ELEGERÁ NOSFERATU? 16 de outubro 2009 “O
Serra é uma alma atormentada” Fernando Henrique Cardoso Meu caro
leitor, confesso-lhe que fiquei fortemente
impressionado com a reportagem trazida a público pelo último número da
revista Piauí. Claramente na origem a matéria tinha puro objetivo
propagandista eleitoral, mas a jornalista que a escreveu é demasiado
talentosa e conscienciosa para se limitar a fazer um mero panfleto.
Acompanhou José Serra por mais de um ano e trouxe à luz flashes valiosos, não
apenas para o eleitor brasileiro, como também para quem se debruça cientifica
e profissionalmente sobre a cena política brasileira. Muita gente
não conhece a revista Piauí. Eu
habitualmente não a leio, pois a acho uma publicação insossa e pretensiosa,
recheada de conteúdo para diletantes da esquerda tida por mais culta e
sofisticada. É editada por Mario Sergio Conti, talentoso jornalista que passou por vários órgãos
de imprensa e escreveu um livro magnífico (NOTÍCIAS DO PLANALTO). É
propriedade de gente ligada a uma família de conhecidos banqueiros que
abraçaram a causa esquerdista e transitam em meio à esquerda revolucionária
brasileira e mundial com desenvoltura. Este número da revista está
especialmente ótimo, com a matéria sobre José Serra e com um ensaio magnífico
do peruano Mario Vargas Lllosa sobre a arte de
escrever romance. A página de poesia nos apresenta uma poetisa, Rose Ausländer, que escreveu no idioma alemão. Vale conferir. Na
internet os poemas estão abertos ao público não assinante, bem como seu
resumo biográfico. Mas o
relevante é a matéria com o Serra. Ela traz nuances psicológicas assustadoras
do governador de São Paulo e um retrato biográfico primoroso do político da
Mooca. Enganam-se os que pensam que José Serra tenha qualquer vestígio do que
poderíamos chamar de político de direita.
Ele mesmo declarou: “O governo Lula é
de esquerda? Não dá para falar nisso. Com o significado do passado, eu
estaria à esquerda do PT. Desenvolvimento virou coisa de esquerda. Política
econômica é quase subversiva”. Nesta frase está
contida a sua psicologia e o seu dégradé político. José Serra é um
desenvolvimentista marxista convicto, à moda dos anos cinqüenta e, se eleito
presidente, não hesitará em pôr em prática as suas crenças. Elas são o
receituário consolidado da teses do PCB, do ISEB e da CEPAL. Não por acaso a
narrativa de Daniela Pinheiro registra que o único ser que ousa fumar na
frente do Serra, na sala dele, é João Manuel Cardoso de Mello, aquele mesmo
que concebeu o Plano Cruzado. Sarney levou a fama de ter feito explodir a
inflação, mas foi este indigitado senhor, auxiliado pelo Luiz Gonzaga
Belluzzo, o autor intelectual do desastre inflacionário daqueles tempos. A
velha herança do PCB, do ISEB e da CEPAL, tudo somado, é o maior equívoco
teórico sobre o papel do Estado e o capitalismo que se tem notícias. O Plano
Cruzado é a prova histórica da alucinação teórica dessa gente. Nunca se ouviu
uma palavra de mea culpa dessa gente, é como se
tudo tivesse nascido da pena nefando do Sarney. A primeira
lição que a revista nos dá é que essa gente, que está fora do poder federal,
desde aquela época, voltará em peso com José Serra, se eleito for. Ele mesmo
é um expoente dessa corrente, que tem dominado a Unicamp desde a fundação.
Lembremos que FHC teve a sensatez de pegar os brilhantes economistas da PUC-Rio para debelar a inflação criada pela Unicamp. Com
Serra certamente teremos todo o arsenal intervencionista posto em marcha de
uma só vez: tabelamento de câmbio e preços, estatização, controle dos
salários, do comércio exterior e uma perseguição tributarista sobre as
empresas e as pessoas, do que tem dado mostra Jose Serra e seu secretário da
Fazenda aqui em São Paulo, destruindo setores inteiros da economia paulista
na ânsia pelo esbulho tributário. Será um retrocesso enorme em matéria de
política econômica. Serra considera empresários algo próximo de delinqüentes
e a propriedade privada uma espécie de roubo, à moda de Rousseau. Ele
declarou que seu compromisso é eliminar a pobreza e bem sabemos o que
significa isso na boca de um poderoso intelectual orgânico da esquerda
stalinista: a opressão do Estado sobre os que trabalham e produzem riquezas,
tentando redistribuir riquezas de forma arbitrária. Essa gente acha que a lei
da escassez é mito e que pobreza existe por falta da vontade política do
governante. Acha também que a igualdade idealizada no plano das posses
econômica é empreendimento perfeitamente exeqüível e desejável, um imperativo
moral, cabendo ao Eleito realizar a empreitada, pelo instrumento do Estado. Não podemos
esquecer que José Sarney, à época, com todos os defeitos, tinha ainda limites
morais e culturais que serviam de contrapeso ao ímpeto esquerdista da gangue
da Unicamp. Com Serra será bem diferente. Ele é de natureza autoritária e
consolida larga experiência legislativa e executiva, o que o credencia a ser
altamente eficaz na consecução dos seus objetivos. Seus auxiliares também, o
que significa que nem de um período de aprendizado necessitam na sua chegada
ao poder. Praticarão o mal coletivista desde a
primeira hora. Um governo desse naipe pode enveredar o Brasil pela senda da
tirania burocrática como jamais houve, como nem o PT ousou imaginar. O retrato
psicológico do Serra é de um homem obcecado pelo poder, incapaz de aceitar o
contraditório de quem quer que seja. Bem notado que ele se relaciona bem com
mulheres, mas não com homens. Mesmo Fernando Henrique relata que Serra sempre
preferiu conversar com Dona Ruth a conversar com ele. Serra está sempre
pronto para o enfrentamento com aqueles que ousam dizer-lhe “não” para alguma
coisa. É a psicologia do ditador. Teremos um Nosferatu
eleito Chanceler, como no filme V de Vingança? Uma psicologia assim é um
perigo, sobretudo se obtiver o poder de mando sobre as Forças Armadas e a
Polícia Federal. As dificuldades da realidade podem ser confundidas como má
vontade da população ou de certas pessoas indesejadas pelo governante. A
tentação de usar o poder de Estado para corrigir o mundo “rebelde” pode ser
irresistível. Devemos ter
em conta também que Serra não é inimigo do PT, muito ao contrário. A estranha
forma como está sendo conduzida a sucessão paulista pode esconder ações
surpreendentes de bastidores: Alckmin, o favorito ao governo do Estado, está
sendo rifado em favor de um principiante desconhecido, Aloysio Nunes
Ferreira, talvez o único homem que conta com a confiança irrestrita de José
Serra; a decisão de Gilberto Kassab de elevar de
forma escandalosa o IPTU paulistano em véspera de um pleito capital e a vinda
inesperada de Ciro Gomes para São Paulo, sob o patrocínio do PT, tudo somado
pode indicar um acordo por cima entre grupos do PSDB de José Serra e do PT.
Não devemos esquecer também que o próprio presidente da FIESP, Paulo Skaf, deve sair candidato pela legenda do PSB, o mesmo
partido de Ciro Gomes agora. É de se sublinhar também que as opiniões
emitidas por José Serra sobre Geraldo Alckmin não tiveram autorização para
serem publicadas na matéria, por motivos óbvios. Parece haver
um acordo para a partilha prévia do poder entre as facções principais da
esquerda que hoje têm o controle total da política do Brasil: Serra presidente e alguém ligado ao PT para governador do Estado
de São Paulo parece ser a solução salomônica. Por isso o PT insiste na
candidatura natimorta da inexpressiva Dilma. A
eleição não passará assim de um mero circo grotesco com o fito de cumprir o
calendário eleitoral, com tudo decidido previamente por debaixo do pano. Um
engodo para com a opinião pública, que pensará que participa de um pleito
sério. Ninguém dos interessados perderia com um acordo deste e todos nós
seríamos feitos de tolos. É notável a
perspicácia de FHC quando disse não basta arrotar competência gerencial no
comando do Estado para seduzir o eleitorado. Que uma eleição é sobretudo um processo de sedução de almas, como fez Obama nos EUA. E completou: “O Serra é um ótimo gestor e
ponto final. Mas acho que ele é mais administrador e economista do que formulador. É mais pragmático que
imaginativo”. Disse tudo. Serra é um trator que age no mundo do imaginário
político sem pensar. FHC viu o que eu vi, a alma
atormentada que pode guardar a psicologia de um ditador. Estrategicamente
Serra é mal formado. A declaração de FHC não foi do agrado de José Serra, que
a rebateu dizendo que ele tem também é “teórico”. Ora, FHC não se referia à
cultura teórica quando falou que ele não é “formulador”. O ex-presidente percebeu que em Serra há um
operacional subalterno que não amadureceu ainda o suficiente para ser o
primeiro mandatário, o formulador, aquele que pensa grande e que tem a
capacidade de administrar e enxergar além dos conflitos passageiros dos
agentes políticos do dia. É a mesma percepção minha e é aquilo que mais me
apavora em pensar no day after da eventual eleição do Serra. Um
sargento assumindo a posição de general. Depois de ler
a revista Piauí fiquei com a sensação de que Lula poderá deixar saudade,
mesmo com seu ar estúpido e risonho de torcedor de futebol. Ao menos tem alma
pacificadora, não atormentada. Não vejo bons augúrios, infelizmente, se
admitirmos que não há nenhum nome capaz de derrotar
José Serra para a Presidência da República. |
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