|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
OBAMA: UM MARCO HISTÓRICO 17/01/2009 A única
certeza que tenho é que, de fato, vivemos um momento histórico de raro
significado. O processo histórico sofreu uma aceleração equivalente aos grandes
momentos do passado, em que cortes memoráveis aconteceram,
seguidos que foram de acontecimentos cataclísmicos. Barack
Hussein Obama assume o cargo de presidente dos
Estados Unidos da América em um momento tempestuoso. Não é só a crise
econômica que lhe espera, há também o barril de pólvora do Oriente Médio. De
fato, há um forte risco de depressão econômica associado a um potencial de
conflito militar envolvendo as principais potências do mundo. No Oriente
Médio está seu detonador e essa guerra preliminar de Israel contra o Hamas
serviu de péssimo augúrio para o que está à espera. E mesmo
que os tempos não fossem tão sombrios a figura pessoal do novo presidente é
um emblema marcador de eras. Que um mulato, filho de negro africano com mãe
branca norte-americana, nascido no Havaí, sem riqueza familiar notável e sem
um passado que pudesse ser o seu apoio na sua jornada surpreendeu a todos.
Chegou onde chegou sozinho, a despeito de todos e de
tudo. O mundo viu seus últimos capítulos nas eleições que conquistou, ao
enfrentar e vencer os caciques do Partido Democrata e, ajudado pela crise, a
derrotar seu adversário do Partido Republicano, nas urnas. O que
menos quero aqui é fazer encômios como o de Lucas Mendes, publicado no site
da BBC-Brasil. Nenhuma vítima de racismo ou discriminação, enquanto tal, credencia-se a presidir a maior nação da terra. É
preciso enxergar Obama pelos seus méritos, a
despeito da questão racial, absolutamente irrelevante no caso. Obama tem estrela, está do lado superior da Roda da
Fortuna, que lhe sorriu. Mas, a que preço? A declaração que deu hoje, pouco antes de tomar
o trem na Filadélfia em direção a Washington contribuiu para aumentar as
minhas apreensões: "Acredito que nosso futuro é nossa escolha
e se pudermos nos reconhecer nos outros e unir
todos: democratas, republicanos, independentes, norte, sul, leste oeste,
negros, brancos, latinos, asiáticos, nativos americanos, gays e
heterossexuais e deficientes... então isto não apenas restauraria a esperança
e oportunidade onde são necessárias, mas talvez poderíamos aperfeiçoar nosso
país no processo." E mais: “Começando
agora, vamos levar para nossas vidas o trabalho de aperfeiçoar nosso país.
Vamos construir um governo que é responsável com o povo. Vamos aceitar nossas
responsabilidades como cidadãos para manter nosso governo responsável. Vamos
fazer nossa parte para reconstruir este país, vamos garantir que esta eleição
não é o fim do que fazemos para mudar a América, mas apenas o começo". Claro que
ele aqui procura seguir os gestos de Lincoln. Fez-se acompanhar de dez
americanos comuns, escolhidos por sorteio, uma representação plástica e
teatral da famosa expressão do antigo governante: “A democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo”, a
maior mentira já proferida em ciência política, que serve de mantra para as
formas modernas de escolha de representantes. O gesto de Obama
é uma confissão de que, com ele, o homem-massa tornou-se senhor da Casa
Branca. Já o era, na verdade, mas moderado por líderes que não recusavam seu
papel. Essa
mentira de Lincoln só troca palavras ao Obama
dizer: “Vamos construir um governo que
é responsável com o povo”. Não é o governo que é
responsável pelo povo, mas exatamente o contrário, o povo é que é
responsável pelo governo e o direito inalienável à desobediência civil está
mais vivo do que nunca. Só uma alma de ditador para dizer algo assim. “Não pergunte ao seu país o que ele pode
fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”, a célebre
declaração de John Kennedy que é ela mesma uma declaração de escravidão do
indivíduo ao Estado todo poderoso. No
discurso ouviram-se as palavras “aperfeiçoar”, “reconstruir”, “mudar”, os mantras malditos que estão na
boca de todos os demagogos, de todos os tempos. Ficou subentendida a absurda
Vontade Geral de Rousseau e seu pressuposto, a Igualdade Geral. Os demagogos
recusam a realidade como ela é e alimentam as massas com a ilusão de que há
outro mundo possível, que a humanidade é passível de perfectibilidade pela
via da política. Discursos como esse estão a dois passos da construção do
totalitarismo. Nenhum homem de alma sã e desperto pode ignorar os avisos que
essas palavras agourentas carregam. É um
discurso quixotesco, tal como Cervantes pôs na boca de seu famoso personagem: “ – Has de saber,
¡oh Sancho amigo!, que yo nací por querer del cielo en esta nuetra edad de
hierro para resucitar en ella la dorada, o de oro. Yo soy aquel para quien
están guardados los peligros, las hazañas grandes, los valerosos fechos...” Dom
Quixote era louco varrido e não tinha poder, menos ainda poder nuclear. Vemos
que é uma mente deformada pelo quixotismo da modernidade que assume plenipoteciariamente esse poder titânico. O jogo político
mundial ficou demasiadamente perigoso, entregue que está aos legítimos
representantes das massas. Obama é o homem-massa no
poder, que recusa de antemão ser o líder e diz candidamente que fará aquilo
que a multidão deseja. A lógica das massas foi levada ao centro de decisão.
Essa é uma loucura que rumina destruição, que está prenhe de todos os vícios,
que não deixará o governante hesitar diante de
qualquer dúvida moral quando os momentos letais se precipitarem. O
tratamento que se tem dado à crise econômica é deveras emblemático do que
quero dizer. Emissão desenfreada de moeda, agigantamento do Estado, doação de
quantias astronômicas a administradores pródigos, substituição do indivíduo
por coletivos nas decisões são fatos que estão acontecendo velozmente, de
forma inexorável. O suposto de tudo isso é que o Estado – o governante, o novo príncipe – teria o poder de
reformar o real, de superar (mesmo eliminar) a crise e até mesmo abolir a lei
da escassez. As pessoas sensatas sabem que isso é um disparate, uma loucura. Obama, todavia, chega ao poder imbuído dessa certeza
quixotesca e disposto e levar as expectativas das massas às últimas
conseqüências. Dane-se a realidade, construa-se o sonho impossível. O
último governante que tentou isso mandou construir fornos crematórios. Desejo ao
novo presidente dos EUA boa sorte. Que Deus tenha piedade de todos nós. |
|