|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
O ARTIGO DE CESAR MAIA 15 de fevereiro de 2009 Não posso
deixar de comentar o artigo de estréia de Cesar Maia (“Barebones Parliament”), publicado ontem na Folha de
São Paulo. Além de homem público já de longa carreira, Cesar Maia tem um
intelecto notável e suas observações são muito apropriadas para aqueles que
acompanham a cena política brasileira. É um misto de testemunho e de análise
o que ele escreveu. Não
obstante, suas conclusões padecem de uma miopia impressionante e o que tem de
mais esclarecedor é precisamente isso, que reflete a visão distorcida da
nossa elite política sobre si mesma, fato espelhado nesse texto. Cesar Maia é
um dos melhores quadros produzidos por nossa classe política. Peguemos o
primeiro parágrafo: “As instituições políticas nacionais vêm
sendo desintegradas. O processo de construção
institucional, aberto na Constituinte de 1988 e testado pela crise
presidencial de 1992, começou a ruir quando reformas econômicas supostamente
modernizantes avançaram sobre a ordem do dia, serviram para justificar o superativismo presidencial e deram aval até ao aluguel de
votos, de forma a garantir o que se dizia imprescindível”. Se é
fato que as instituições políticas estão sendo desintegradas, a perceber-se a
olhos vistos, não é fato que as reformas econômicas sejam o fator decisivo
para a sua precipitação. Elas, as reformas econômicas, são corolário lógico
do mal que está na etiologia de tudo. A nova Constituição, que generalizou o
voto e que deu esse direito aos maiores de dezesseis anos, praticamente impôs
o império da vontade das multidões aos governantes. Junte-se a isso a
inexistência de um partido político liberal-conservador e a profusão de
legendas (de fato, sublegendas) de partidos de esquerda, herdeiros da
tradição do antigo Partidão e empenhados em levar adiante a revolução nos
termos gramscianos, temos o quadro posto por
completo. Os piores foram alçados ao poder e não há maneira institucional de
tirá-los de lá. A hipertrofia
da Presidência da República é a realização da Vontade Geral nos termos de
Rousseau, que leva sempre ao exercício do poder de contornos ditatoriais, que
de outra coisa não nos fala Cesar Maia, com propriedade. Cabalar votos de
eleitores e, depois, de parlamentares é da lógica do processo, é seguir mero
formalismo jurídico-eleitoral para o exercício do pleno poder do governante
empossado. A ditadura não reside na pessoa do governante do dia, mas no feixe
de leis autoritárias que rouba a liberdade e a renda dos cidadãos, no limite
da asfixia. O germe de Estado policialesco já emergiu nas ações de gente como
Protógenes, o “delegado do povo”, e do ministro da
Justiça Tarso Genro, homem desprovido de qualquer escrúpulo e de perfil
talhado para ser um Beria tupiniquim. O Estado
policial aberto só não ganhou maior envergadura até agora porque o processo
não é linear em todas as instâncias de poder. O STF tem sido um bastião de
racionalidade, a segurar as aberrações do Executivo e das instâncias
inferiores de Justiça. O mesmo pode ser dito das Forças Armadas, que jamais
descuidaram da sua missão constitucional, embora nada possam fazer no que se
refere à vilania da classe política. Mas, por quanto tempo? Quando a
revolução gramsciana destruirá esses dois últimos
bastiões? Cesar Maia
se prende à conseqüência e não vê a origem do processo. Ele teria que denunciar a falsa democracia que vige e o desastre que é
nosso sistema eleitoral se enxergasse o real, o grande perigo em que
vivemos. Não tem ele como fazê-lo, todavia, porque teria que passar a lutar
contra o sistema pérfido que se instalou. Isso custa muito caro em termos
pessoais. Ele é parte integrante do sistema, um membro notável do establishment. O ponto é que sua percepção de uma
ditadura de fato é cristalina: “Numa
situação dessas, tanto faz ter ou não partido na base parlamentar. É até
melhor não ter. A votação da Lei do Orçamento -coluna vertebral do
Legislativo- passou a ser uma espécie de "videogame" para
parlamentares, além de ocupação do noticiário. Tanto faz aprová-la ou não,
uma vez que é possível a criação de despesa por medida provisória”. A ditadura legal é a pior delas. Estamos em
plena ditadura. Por isso
Cesar Maia aponta suas baterias para a
fraqueza do Legislativo, como podemos ler: “Há uma década as contas dos
presidentes e os vetos presidenciais não são votados. Ou seja, inexiste a
função fiscalizadora do Legislativo, e as leis -com vetos- não se completam.
Sem sua vértebra institucional básica, a democracia está amputada. E o ‘Estado’
funciona com dois Poderes e um terceiro, de expectadores usurpados, mas que
se dizem felizes”. Isso é conseqüência, não causa. A causa é o sistema
político que praticamente entregou o poder nas mãos de gangues de facínoras
socialistas, que se alternam no poder. Na raiz está o sistema eleitoral, que
permitiu a deformação do ordenamento jurídico ao longo de tantos anos de
exercício de poder por parte dessa canalha, do sistema de educação, dos meios
de comunicação assalariados ao poder, de todo o processo pedagógico
pervertido, essencial para a compreensão do real. O mérito
de Cesar Maia não está na sua análise, mas na simples colocação do problema.
Não poderíamos esperar mais dele, comprometido que está com o status quo. -x-x-x- Na mesma
linha está a entrevista de Jarbas Vasconcelos na revista Veja que chegou à bancas, denunciando a corrupção em larga escala do PMDB,
seu próprio partido. Equivale a um denuncia em larga escala do próprio
governo, a começar pelo presidente da República. Suas palavras ficarão ao
vento, infelizmente. Toda a classe política é sócia direta do esbulho
bilionário gerado pela corrupção. Nada há a fazer. Jarbas Vasconcelos se
esqueceu de dizer que o PMDB não tem o monopólio da corrupção, que está
generalizada por todo o sistema político. Outra conseqüência dos fatos que
apresentei acima. |
|