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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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MOBY DICK 25/03/2003 Faço aqui um breve comentário,
mais no intuito de divulgar a obra entre aqueles que não leram, ou leram na
juventude e deixaram de sorver o vinho armazenado em velhos odres, o melhor
de todos. Ler o livro de Herman Melville,
“Moby Dick” (que
abreviarei de hora em diante de MD), depois de tantos anos, é uma grande
aventura para a alma. Sim, o livro fala mesmo é de iniciação mística, da
morte e ressurreição pensadas nos termos cristãos. É atualíssimo, não
obstante a sua narrativa ser um tanto antiquada. Todo o texto fala de uma
única pessoa, o próprio autor, e para compreender a epopéia é preciso lê-lo
de trás para frente, mas isso não é possível numa primeira vez. É obra para
os espíritos velhos, de todas as idades, sobretudo para quem já passou do
meio-dia da vida. Os personagens principais não
coincidentemente recebem nomes bíblicos. Ismael, o filho de Abraão com a
serva de Sara, Agar, dá nome ao personagem principal e narrador, o único que
sobrevive à aventura heróica. Acab, personagem
casado com Jezabel, “o que era mal aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram
antes dele” (1Reis 16:30), dá nome ao segundo
personagem em hierarquia de importância. Jezabel
era aquela que matava os profetas do Senhor. Elias, diante de Acab e de todo o povo, pergunta: “até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (1Reis 18:21) Acab, o personagem, era coxo, pois o Leviatã havia lhe devorado uma das pernas. É evidente, para quem conclui
a leitura, que Acab é a velha personalidade de Ismael
que precisava morrer para renascer, sendo Ismael o único que poderia
sobreviver à louca aventura da alma. O título do Epílogo não deixa margem à
dúvida: “E só eu escapei para contar-te”,
citação extraída no Livro de Jó. Na página 204 de
MD podemos ler: “Considerai tudo isso,
e voltai-vos depois para essa verde, suave e docílima terra; considerai os dois, o mar e a terra: não descobris
estranha analogia com algo dentro de vós? Pois assim como esse pavoroso
oceano rodeia a terra verdejante, assim também na alma do homem jaz uma Taiti
insular, cheia de paz e alegria, mas cercada de todos os horrores da
existência semiconhecida. Deus te guarde! Não
desatraques dessa ilha, não podes voltar jamais”. Claro que Melville refere-se à dialética entre o Eu e o Inconsciente,
para usar a terminologia junguiana. Em outra parte, à página
406/407, podemos ler: “Oh! Meus amigos,
mas isso é matar o homem! E todavia isso é vida. Pois nem bem nós, mortais, com
longas labutas extraímos do vasto corpo desse mundo seu escasso mas valioso
espermacete; nem bem, com fatigada paciência, nos limpamos das sujeiras desse
mundo e aprendemos a viver aqui, nos puros tabernáculos
da alma; nem bem fazemos isso, quando – ‘Lá esguicha ela’ – jorra a alma, e
lá velejamos para combater outro mundo e atravessar de novo a velha rotina da
vida jovem”. Esse trecho deixa claro que a pesca da baleia é uma metáfora
para o crescimento espiritual e que a baleia pode ela mesma ser identificada
com a própria alma, posto que é um símbolo da
transformação do inconsciente. Outro personagem que
precisamos sublinhar é Quiqueb, a sombra primitiva
e canibal de um cristão civilizado, o canibal caçador de cabeças que as
vendia empalhadas, chegando a dar uma delas para Ismael. Cabeças cortadas e
empalhadas por um canibal primitivo são apenas uma
maneira que o autor encontrou para mostrar o quando vale a função pensamento
e mesmo o intelecto, desgrudado de sua plenitude com as demais funções
psicológicas, como vemos no mundo moderno. Em outra parte do MD, duas cabeças
de baleia são penduradas no navio, quais esfinges. Ainda uma vez notamos a
preocupação de Melville em denunciar a
unilateralidade do intelecto no mundo ocidental. Quiqueb
é a Sombra de Ismael porque com ele divide o leito, fato estranhíssimo para um
homem viril se não for considerado um recurso narrativo, para mostrar o
conteúdo psicológico do mesmo. Dormimos com a nossa sombra agarrada às nossas
costas, para o nosso desconforto e a nossa redenção. Em outra parte, Quiqueb e Ismael são amarados com cordas para cumprir
tarefas arriscadas, de tal sorte que um só poderia viver se o outro também vivesse, formando uma unidade. Um dos capítulos, o de
número X, dá ênfase a Quiqueb, que é chamado de
forma sintomática de “Um amigo íntimo”. O início da narrativa começa
em uma noite escura e fantasmagórica, recurso também usado por Dante para
iniciar o seu grande poema de iniciação – “A Divina Comédia” – para relatar os fatos da alma. Os tempos
também são bíblicos: três anos de viagem, três dias de caçada, tempo que se
liga diretamente a terceiro dia da paixão e morte de Cristo, quando ocorre a
sua ressurreição. O autor, por esse recurso, também faz da sua aventura a
máxima aventura do Cristianismo. Ele é salvo no final por um salva-vidas na
forma de ataúde. A morte é seguida por ressurreição. Ismael é resgatado pelo
veleiro “Raquel”, alusão àquela que não queria ser consolada, pois que seus
filhos já não viviam, personagem do livro de Jeremias. E o paralelo com o livro de
Jonas mais do que salta aos olhos. Esse livro profético mantém interesse
especial por dois motivos. O primeiro é que é uma narrativa estranhíssima e,
a rigor, não é exatamente profético. Jonas foge de uma missão dada por Deus,
mas dela não consegue se livrar. O segundo porque é o primeiro instante na
história da Revelação que a Justiça divina é suplantada por sua Misericórdia.
Por isso é um dos livros capitais da Bíblia. A metáfora do homem que por três
dias entra no ventre da baleia e depois é devolvido a terra
é uma prefiguração da história de Cristo, de sua morte e ressurreição. A pesca da baleia e seus
navios foram magistralmente utilizados por Melville
como metáfora. O baleeiro, por exemplo, tem um forno, que pode ser
considerado uma espécie de inferno das profundezas, onde ardem as almas
penadas. É notável a ausência de
personagens femininos, que aparecem apenas em esposas, mães e filhas
ausentes, e também nos nomes de outras embarcações (“Raquel”, “A Virgem”).
Mas o elemento feminino é sobretudo sublinhado pelo
oceano, as profundezas da função sentimento tão pouco desenvolvida nas
pessoas do tipo pensamento. As cabeças empalhadas de Quiqueb
mostram a compensação da consciência unilateral do autor, assim como o mar
profundo a grandeza exaltada da função feminina por excelência, a sentimento.
É uma epopéia masculina. É óbvio que a leitura do livro
pressupõe um certo conhecimento da Bíblia, sem o
qual muitas passagens não terão sentido e muito da sutiliza psicológica não
poderá ser percebida. MD é um evangelho escrito na forma de romance. |
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