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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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MATRIX – A
CONCLUSÃO 10/11/2003 Filho do homem,
profetiza, e dize: Assim diz o SENHOR: dize: A espada, a espada está
afiada e polida. Ezequiel
21:9 Filho do homem, eis que, de um golpe
tirarei de ti o desejo dos teus olhos, mas não lamentarás, nem chorarás, nem
te correrão as lágrimas. Ezequiel
24:16 Porque o Filho do homem veio salvar o que
se tinha perdido. Mateus
18:11 O último filme da série Matrix surpreendeu-me favoravelmente. A miscelânea de
símbolos religiosos e filosóficos que está no filme não perdeu de vista o
eixo cristão. Neo, o Filho do Homem, é morto em
sacrifício pela humanidade e a sua entrega em holocausto é simbolizada pela
cruz irradiante que se sobrepõe à sua imagem. Salvou o Mundo do Mal. De algum modo o filme recoloca
a problemática levantada por Jung, de que Deus salva o homem, mas o homem
também salva Deus, sendo esse o propósito da sua consciência reflexa. No Matrix, o Deus Todo Poderoso é representado por um
engenho que lembra uma espécie de buraco negro, a realidade astronômica que
tudo devora e destrói. É como se fosse um carro de Javé
representado em termos modernos, o mesmo carro da visão de Ezequiel. É como
se Javé dos Exércitos mostrasse novamente a sua
face. Gostei. Não teria gostado se a representação de Deus de algum modo
fosse antropomórfica. Seria uma blasfêmia e uma falsificação. O Arquiteto revelou-se não
mais que um anjo decaído, um duplo de Smith. O Mal que ganhou autonomia e nem
Deus parecia mais ter alguma forma de controle sobre ele. Foi preciso que o
Filho do Homem, em gesto de escolha livre, enfrentasse-o. Venceu para o bem
da Humanidade. O Mal tem muitas faces no
filme. É o Arquiteto, é Smith, é o Merovíngio, é o
Senhor dos Reinos Inferiores, representado feio e velho. São muitas faces
para a mesma realidade. Do lado oposto, temos a figura feminina do Oráculo,
uma forma de Sofia do Antigo Testamento, guardiã dos homens e inimiga do Mal.
E aqui ele, o Mal, é representado no que tem de pior: é homicida, é estuprador de crianças, é rancoroso, é ímpio, é lascivo.
Só quem pode ir além e enfrentá-lo é o Filho do Homem, que com isso redime a
raça. É uma escolha e é um ato de Amor do Filho do Homem. Não há dúvida de que o filme
tem um caráter gnóstico, no sentido de contrariar a
ortodoxia cristã. Mas continua cristão. Sublinha o que há de essencial no
cristianismo. Coloca a cruz como símbolo mais alto, que preside o ato de
extremo sacrifício. É o mito do Ocidente que afinal redime a Humanidade. É preciso aqui ressaltar que Matrix é um produto da globalização, feito para todos os
mercados. Os personagens são representados por atores de quase todas as
raças. O ator principal é um mestiço da raça branca com a chinesa, algo
emblemático. Elementos de todas as filosofias são recitados. É um filme para
agradar as massas de todos os quadrantes do Globo. Mas continua sendo um
filme que rende homenagem ao Ocidente. O cristianismo é o seu eixo. É, essa última película, um
filme mais sombrio e mais violento que os anteriores. As lutas são de vida e
morte e até a coreografia empobrece em face da extrema violência. O Mal é
retratado de forma mais crua. Mesmo assim é um belo filme. Os diretores
alcançaram os seus objetivos. Matrix será visto
muitas vezes por aqueles que amam o cinema. MATRIX OU O
BEM CONTRA O MAL 04/06/2003 Fui ver o Matrix
Reloaded e gostei muito, como também gostei do
primeiro filme da série. Hesitei em emitir este comentário, pela mesma razão
pela qual não comentei a película anterior: é uma obra ainda inacabada.
Depois de ler uma dezena de comentários os mais idiotas sobre esse belo
filme, decidi por fim dar o meu ponto de vista. A dificuldade maior está no
fato de faltar a última fita da série de um filme
que, a cada cena, amplia as informações para o espectador. Os Irmãos Warchowski fizeram uma bela fábula moderna, usando o que
há de mais requintado nas técnicas de produção cinematográficas, falando de
algo tão antigo quanto a humanidade, que é a questão
religiosa, naturalmente enfocando-a sob o prisma da tradição greco-judaico-cristã. Também não tive acesso ao roteiro e
só vi a segunda película uma única vez, o que não impede de ter uma visão de
conjunto. Na condição de observador interessado em cinema, considero que a
obra de arte tem que ser vista enquanto tal, independente das intenções dos
realizadores. Vale o que é exibido e visto, o que se
conseguiu produzir. Sinto que as críticas vazias
dos que acompanham cinema para os meios de comunicação no Brasil, que eu li,
devem-se a dois vieses insuperáveis nesses comentaristas. Em primeiro lugar,
a ideologia antiamericana, que vê nas produções de
Hollywood sempre uma manifestação menor da arte cinematográfica, o que, além
de injusto, é falso. É politicamente correto objetar contra os americanos.
Uma produção cujo custo supera a casa de centenas de milhões de dólares,
usando o que há de melhor em técnicas de cinema, com um elenco de atores de
primeiro nível, tem que ter no mínimo respeito. O segundo viés é a má
formação dessas pessoas, que nunca estudaram história das religiões e
religiões comparadas. Ora, toda grande obra de arte tem que falar desse
assunto, senão deixa de ser obra maior. Matrix fala
da nossa tradição, da salvação, da mitologia ocidental. Se você não tem esse
conhecimento prévio e tende a olhar o mundo apenas com as lupas desfocadas de Marx e Freud, aí trava tudo e as críticas viram uma mixórdia incompreensível, porque seus autores
não compreenderam o objeto analisado. O primeiro Matrix
mostra um sujeito, Morpheus, que é uma espécie de
João, o Batista, em busca do salvador, Neo. Esse
personagem é um jovem com uma vida banal, até ser chamado. Não por acaso os
nomes: o mundo do sono (sonhos) é a realidade da alma. Deus sempre falou com
a humanidade através de sonhos e continua a fazê-lo, mesmo que a humanidade
tenha perdido a habilidade de compreendê-los. O universo manifesto é uma
ilusão, idéia que tem, concordemos ou não com ela, uma raiz na filosofia
ocidental que vem desde Platão. A verdadeira realidade é a realidade da alma. As alegorias usadas pelo filme
para falar do duelo entre o bem e o mal são muito apropriadas e criativas. Os
críticos materialistas vêem as lutas de Smith e Neo
como uma mera dança de lutas orientais estilizadas. Visto de perto, é. À
distância, é bem outra a mensagem. Tão bem feitas são as cenas que atraem os
jovens. Mas filmes de lutas existem aos montes e não atraem as multidões,
donde se conclui que não é a luta, mas o que ela representa na psique das
pessoas, o que as leva a querer ver o filme mais de uma vez. O sucesso não
ocorre por acaso. Smith é uma excelente metáfora
para o Diabo, cujo nome é legião. O mal tem sempre a mesma cara e se
multiplica infinitamente. A luta interminável de Neo
com Smith é a mesma luta que travamos nós, caro
leitor, todos os dias, com a banalidade do mal. É uma luta que nos consome,
nos cansa e que nunca acaba, do nascimento à morte. Achei essa alegoria
perfeita para falar dessa verdade permanente e não vejo nessa plástica nenhum
demérito, não obstante reconhecer que há nela um apelo mercadológico. E daí?
O filme tem que se pagar. Achei perfeita também a visão
de que a normalidade é composta pelos homens-massa, sem individualidade,
meras sombras enfeitadas que circulam sobre a Terra. Quando alguém se torna
um indivíduo, vira um pária, passa a viver nas
cavernas (Zion), escondido, pois tornou-se
diferente. Indivíduos não são tolerados, pois são ameaçadores, pensam e
buscam o sentido da vida. É disso que fala Matrix.
O mal tem nesses indivíduos o seu inimigo, que precisa ser destruído. O filme pode ser visto também
como uma retratação do mistério da morte e do renascimento, que tem na figura
de Cristo a sua plenitude. Neo só adquire superpoderes para enfrentar o mal quando morre e renasce,
por um ato de amor. Da mesma forma, Trinity, o
duplo feminino de Neo, morre e renasce pelo mesmo
mecanismo, quando a mão de Neo lhe toca o coração.
É a mais velha história mitológica da humanidade. O Diabo no Matrix
Reloaded assume a forma de um sujeito afrancesado (Merovingian), O nome não é casual. Os monarcas da cultura
merovígia mantiveram as suas práticas pagãs e são uma peculiaridade no mundo cristão europeu. São uma boa representação do poder mundano diabólico e
também não casualmente a esposa do personagem chama-se Perséfone, aquela que
foi raptada pelo senhor dos reinos inferiores, Plutão, uma das mais antigas
representações do Diabo. Não pude deixar de associar também a francofonia do personagem às recentes (e antigas)
posições políticas da França no cenário mundial, sempre contra os americanos.
A espetada aqui foi muito oportuna. A França, de fato, tem sido maléfica,
ficando contra os interesses maiores do Ocidente. No Matrix
Reloaded aparece um novo personagem, ampliando a
mensagem religiosa, que é o demiurgo, suposto criador do universo manifesto
nas versões neoplatônicas ou gnósticas
da mitologia ocidental. Neo diante do demiurgo é
uma das cenas mais notáveis e desnorteantes. Se o filme acabasse aqui, eu
diria: os irmãos Warchowski falharam feio. O gnosticismo é uma doença que acompanha a alma ocidental
desde a origem e tem raiz diabólica. Acompanhando a trajetória da narração do
filme, todavia, acho que seremos favoravelmente surpreendidos pelo epílogo.
Os roteiristas sabem o que fazem e acredito que o mito demiúrgico
será desmascarado. É esperar para ver. Uma cena eu achei que ficou
fora de lugar, que é a dança em que a multidão de Zion
faz, com muita insinuação erótica, durante o coito ritual de Neo e Trinity. Mas nada é
perfeito. Ainda espero o epílogo para ver se há sentido para a mesma. Respondendo a pergunta que os
críticos não conseguiram responder: Matrix fascina
porque fala da alma, do mito ocidental, da mesma história tantas vezes
reescrita usando agora de técnica, talento e profissionalismo aplicados ao
cinema. Não são as lutas marciais, a beleza dos jovens atores, os efeitos
especiais, a alusão à informática e a intensa ação que segura o espectador
atendo. Tudo isso, eu diria, é quase uma normalidade em qualquer filme que
tenha a pretensão de se consagrar. Matrix se
distingue por ir além disso, uma vez que coloca toda
a nossa tradição dentro da técnica cinematográfica, em uma trama bem urdida,
ainda que incompleta para o público espectador. Caro leitor, veja o filme sem
qualquer preconceito. É ótima diversão, que fala de nós mesmos e de nossa
rica tradição. 'MATRIX' DO
IMPOSTOR 18/06/2003 Volto ao filme, agora para
fazer a crítica à crítica do impostor-mor da
imprensa brasileira, Arnaldo Jabor. Seu comentário
publicado ontem nos jornais é sobre o Matrix Reloaded, o de sempre: um misto de arrogância,
ignorância, antiamericanismo, despeito para com a
indústria cinematográfica mais próspera do mundo, niilismo militante,
propaganda anti-Bush, tudo em poucos parágrafos. Claro, Jabor
não entendeu o filme. Três exemplos: (1)"Os dramas gregos tinham uma função: buscavam a regulação do desejo na
polis . Estes filmes buscam a abolição do Desejo e
da esperança". Essa frase é um verdadeiro atestado de ignorância. Os
dramas gregos falavam da alma do Homem e do processo de revelação da ordem
divina, coisa que o freudismo de orelhada de Jabor
nem sabe o que é. Quem leu meu texto anterior sobre o 'Matrix'
sabe da ênfase que o filme tem na questão religiosa, que passa ao largo do
desejo (entendido como concupiscência) e aponta para um epílogo de redenção,
uma apologia à tradição greco-judaico-cristã. (2) "O mundo de Bush quer acabar com a grande qualidade da boa democracia
americana: a enorme capacidade de se auto-reformar. A nova ideologia da qual
Bush é um sintoma quer paralisar qualquer reformismo democrático, se
adiantando com uma falsa "denúncia" de direita, excludente, boçalizante, negando a complexidade e a diferença".
Que diabos tem a ver Bush com o 'Matrix'? Em uma
breve cena aparece a sua foto, associada a Hitler, o que no mínimo mostra que
a equipe de produção do filme é democrata e, portanto, injusta com ele. O
filme nada fala de formas de governo e menos ainda de democracia. É um caso
para se levar ao hospício! Politizar o que não é politizável, é isso que Jabor tenta fazer,
pois seus acanhados conhecimentos e seu enganoso referencial de mundo não lhe
permitiram produzir mais do que essa cacofonia politicamente correta. (3) "Filmes como "Matrix"
mostram que surgiu uma nova mercadoria: a liberdade". Ora, 'Matrix' não fala de sistemas econômicos e, portanto, não
fala de mercadorias. A liberdade que tenta expressar é a liberdade do
Espírito, algo que Jabor também não sabe o que é. O
duelo do Bem e do Mal, é essa a essência do filme.
Onde Jabor vê duelos de lutas marciais ele não
consegue enxergar a metáfora desse eterno combate na alma humana. A única coisa apropriada no
texto é a citação da frase de Norman Mailer: "A shitstorm is coming". Sim, tempestades de merda
são os textos obtusos que sua mente fétida tem produzido. Seu texto fede. Caro leitor, lamento pelos
termos e pelo tema, mas para mim é difícil ficar quieto diante de tamanha
intrujice. Sua crítica é uma aberração, um insulto à inteligência. AINDA O MATRIX 23/06/2003 Recebi pela internet o ensaio Wake Up! Gnosticism & Buddhism in The Matrix, de autoria de Frances Flannery & Raquel
Wagner (pode ser acessado em vários sítios da internet,
como o www.unomaha.edu,
no qual os autores mostram que o filme, nas duas primeiras películas, tem,
simultaneamente, raízes cristãs ortodoxas, cristãs gnósticas
e budistas. Esqueceram de mencionar as nuances fortes da mitologia
grega, sem as quais o filme ficaria incompreensível. Na verdade, para um ocidental
as visões gnóstica e budista, diante da ortodoxia
cristã, se equivalem. A idéia da reencarnação está em absoluta oposição à
idéia de ressurreição. Da mesma forma, a idéia de salvação por meio da
interferência do Criador, que enviou o seu próprio filho Unigênito para
realizá-la, contradiz a fórmula oriental de que se pode salvar pelo mero
esforço pessoal. Este é importante para o crsitão,
mas sem a graça de Deus nada aconteceria. Eu diria que essa associação do gnosticismo com o budismo faz parte da confusão religiosa
do homem contemporâneo ocidental, que desde pelo menos o
Renascimento vem tendo cortada a sua raiz com aquilo que é mais
sagrado, a tradição que fala do Deus dos nossos pais. E, de certa forma, podemos
dizer que o Mal, para o ocidental, pode vir travestido nessas fórmulas
religiosas estranhas, um disfarce assumido pelo Negador. O epílogo do filme
não poderá escapar a uma tomada de posição e poderá consagrar-se, ou não, de
acordo com o caminho que escolher. Se optar pelo caminho reto, tornar-se-á a
grande obra do cinema desde a cinematografia de Kubrick.
Se não, será mais uma película de puro entretenimento, para divertir a
faturar e, por que não dizer?, divulgar
o mal e a mentira. O ensaio mencionado traz
algumas observações muito interessantes, que escapariam àqueles que não
dominam e não têm no inglês a sua língua-mãe. A idéia de que o nome Ander/Son, muitas vezes
sublinhada por Smith, é uma forma de grafar a expressão bíblica "Filho
do Homem", que aumenta o significado religioso da peça. Da mesma forma,
notar que o apelido Neo é um anagrama de "One", o Um, é altamente significativo. O personagem
principal, em processo de Individuação, deve ser visto como uma imitação de
Cristo. Quero aproveitar aqui para
explorar três pontos que deixei de lado nos textos anteriores, O primeiro é a
questão da violência, o segundo a questão do poder e o terceiro é a
estranhíssima cena em que Neo "acorda",
saindo da máquina que lhe toma a energia humana para alimentar a Matrix. A questão da violência, que
permeia toda a história, não é apenas comercial. A natureza é violenta, a
vida é violenta, a existência é violenta. O próprio nascer e morrer são
feitos de forma violenta, com dor. A imagem do uroboro,
a serpente que devora a própria cauda, será talvez o maior símbolo dessa
violência intrínseca à existência no universo manifesto. A divisão dos seres
entre herbívoros e carnívoros é a condenação ao festim diabólico da carne,
que exige a morte daquele que deve ser devorado. A última ceia de Cristo, em
que pede que seja celebrada a Sua memória, dizendo "isso é o meu corpo e o meu sangue", não deixa de ser a
consagração de um espetáculo antropofágico. O filme pratica a violência
hiperbólica, mas ela é real, retrata o cotidiano. Alguém já disse que a
história do Homem é a história da guerra. A cena inaugural do primeiro
filme mostra Smith comandando a polícia e é ele mesmo um chefe de polícia. O
mal está encarnado no poder de Estado. Quando Trinity,
reagindo, liquida os policiais, ela não matou homens de carne e osso, mas
sim, formas variantes de Smith. Matrix é controle e
o Estado é controle. A mensagem não poderia ser mais clara: o Mal é o poder e
está no poder. Por fim, a cena em que ele
"acorda" é uma expressão plástica para a antiga idéia de que o
Diabo precisa de sangue humano para sobreviver, é uma espécie de vampiro. Li
algumas críticas mentecaptas fazendo conta da produção energética do corpo
humano como sendo incapaz de sustentar qualquer coisa, vez que o consumido
seria maior do que o produzido. O problema é outro, é simbólico: o Diabo
precisa do sangue humano, sem o que não sobrevive. Sem a Humanidade, o Mal
desvanece. É pelo Homem que o Mal confronta e nega Deus. Neo
liberta-se do mal, que não poderá mais lhe sugar o sangue.É
uma bela imagem. |
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