NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

 

MÁS NOTÍCIAS

27/06/2008

 

Inflação oficial de dois dígitos: é essa a manchete de todos os jornais e a grande má notícia de que toda a gente já sabia, desde sempre, que viria a seu tempo. Foi para isso que o PT assumiu o poder, para, em nome de um suposto paraíso na terra, levar-nos a todos ao inferno. Ao horror econômico. Demoramos três gerações e passamos por muitos sofrimentos para debelar o processo inflacionário herdado desde os anos cinqüenta, tempos em que ainda tínhamos homens públicos portadores de uma irresponsabilidade quase infantil, romântica. Quanto tempo levaremos agora para voltarmos de novo ao ponto de partida? Uma geração será pouco tempo.

 

Veja você, caro leitor, no que dá governantes viverem na segunda realidade revolucionária, aquela que promete as mentiras mais abjetas: a eliminação da lei da escassez e a abolição do risco na existência, por obra do Estado. O que se consegue é precisamente o seu oposto. A tentativa de abolir a lei da escassez gera apenas uma classe de parasitas sociais e a inflação impõe-se como uma necessidade sistêmica, uma febre que tenta ao menos minimizar a parasitagem, pois afinal a renda dos que sugam o Estado, excetuando os banqueiros e os grandes rentistas, sempre protegidos pela nefasta correção monetária, será corroída. Os recebedores de salários e bolsas do setor público são os primeiros a perder o poder de compra. Mas toda a gente perde, especialmente aqueles que trabalham duro e ganham pouco e ainda têm que pagar elevados impostos.

 

A tentativa de eliminar o risco existencial pelo excesso de regulação (a última e mais insana tentativa é a reedição da Lei Seca, fato em si bastante sintomático, pelo qual a burocracia promete acabar com os acidentes de trânsito) dá na criação de um sistema legal que se torna a mais asfixiante das prisões. Vivemos a ditadura dos fiscais e – porque não dizer? – do guarda de trânsito. A liberdade está se perdendo dia a dia, em doses homeopáticas, por obra desses tiranos que querem nos proteger daquilo de que não podemos ser protegidos. Não posso deixar aqui de lembrar do melancólico poema de Anna Akhmatova:

 

AOS DEFENSORES DE STALIN

 

São estes que gritavam <Solta

Barrabás para nós na festa>, estes

Que mandam a Sócrates beber

Veneno na estreiteza muda da prisão.

 

Despejar-lhe a mesma bebida

Na boca inocentemente difamatória.

A estes queridos amantes das torturas,

Peritos na fabricação de órfãos.

 

Por vezes penso que Deus nos mandou os revolucionários para flagelar os nossos pecados e pôr à prova nossa fé. Mas penso mais ainda que é a imundície da nossa alma que os fabrica, covarde que é diante dos desafios da existência. Somos os únicos responsáveis por permitir que os insanos cheguem ao poder. Não é legítimo ao homem fugir da lei da escassez, como também não é legítimo escapar dos riscos da existência. A tentativa de fuga à sina humana traz consigo o castigo mais cruel. A inflação fora do controle é uma de suas formas.