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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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MAQUIAVEL, POR OLAVO DE CARVALHO 03/07/2011 Ficha Técnica: Maquiavel ou a Confusão Demoníaca Autor: Olavo Luiz Pimentel de Carvalho Campinas, Vide Editorial, 2011 Dentro do grande esforço da obra que o
filósofo Olavo de Carvalho está escrevendo – A MENTE REVOLUCIONÁRIA – o
capítulo sobre Maquiavel foi destacado neste livro que acaba de chegar ao
público brasileiro. De imediato o li. Olavo nos brinda com suas profundas
reflexões, ornadas pela prosa magistral e clara que lhe é peculiar. Esta aula
sobre o florentino permite que mesmo principiantes possam lê-la com proveito.
Na verdade, mais que isso: é, ela própria, um roteiro de leitura para
conduzir quem está se aprofundando pelos meandros da ciência política e da
filosofia política. O fato é que Olavo de Carvalho destrincha os
segredos últimos do autor renascentista, tão obscuro quanto fascinante. Essa
obscuridade deu margem a diferentes interpretações ao longo do tempo, muitas
delas contraditórias entre si. Olavo, centrando na biografia e na própria
produção de Maquiavel, desvenda os mistérios e os equívocos e demonstra como
o filho de Florença foi o protótipo do intelectual moderno, o engenheiro de
almas que quis transformar o mundo sem perceber as suas próprias contradições
internas. Flagrou Maquiavel como exemplo clássico de paralaxi
cognitiva, conceito descoberto por Olavo: teorizou de forma a ele mesmo se
fazer vítima potencial de suas teorias. Ao aconselhar os novos príncipes a eliminar os conselheiros que lhe ajudaram a
chegar ao poder não viu que mandava seus aconselhados liquidarem a si mesmo. O livro é também uma survey
exaustiva do status quaestionis
da obra do florentino, resenhando os principais escritores que se debruçaram
sobre o autor de O Príncipe. A começar por Isaiah
Berlin, que enxergou nele um precursor do liberalismo, claro que de forma
equivocada. Olavo vai dizer que “hoje é
quase impossível deixar de enxergar nele o precursor voluntário e consciente
do Estado altamente burocratizado e interventor em que vai se transformando a
democracia liberal americana”.
Importante sublinhar essa percepção olaviana,
porque o eixo histórico a se desenrolar no século XXI passa pelo que vai
acontecer dentro da estrutura do Estado norte-americano e seu duelo com as
forças que lutam pela Nova Ordem Mundial. E também pelo duelo com a emergente
força do império comunista chinês. As raízes do que está por vir já brotaram
e estão prenhes de medonha violência, muito maior do que aquela que vimos na
primeira metade do século XX. A idéia maquiavélica da Terceira Roma toma aqui
o sentido dado pelo florentino a ela: o despertar das forças pagãs, anulando
as aquisições morais e científicas do contributo judeu-cristão à Roma dos Apóstolos. Toda ciência política que partiu de Maquiavel
é essencialmente a negação do saber clássico, que via o Estado como
instrumento do bem comum e a figura do governante como o primeiro servidor desse
princípio, comprometido com a ordem justa, à luz da lei natural. O
maquiavelismo é a negação desse saber superior, que começou a ser descoberto
com Platão e encontrou em Tomás de Aquino sua plenitude. O mundo moderno é o
mundo revolucionário, igualitarista, democrático,
desprovido de uma elite egrégia, como constatou Ortega y Gasset.
O paraíso dos novos príncipes
aventureiros, que passaram a buscar o poder apenas pelo poder, fim em si
mesmo, e não meio para alcançar o bem estar coletivo, sobretudo a paz. O
Estado permanente de guerra é a hipótese de Maquiavel. Exemplos acabados
desses novos príncipes são abundantes: Robespierre,
Lênin, Stalin, Fidel e tutti quanti. Olavo enumera uma a uma as diversas
interpretações dadas à obra de Maquiavel ao longo da história e deixo ao
leitor interessado ir buscar no livro quais foram estas. Será talvez a sua
parte mais útil aos estudantes de ciência política. O mapa do caminho para
não se perder nas linhas densas desse poderoso sofista. Maquiavel foi um
barnabé com mania de grandeza e portador de um recalque imenso, aconselhando
aos outros aquilo que ele mesmo era incapaz de
fazer. Desprovido da Virtú
e amaldiçoado pela Fortuna, Maquiavel foi também o protótipo do
revolucionário fracassado que se refugiou nas letras, esse meio maleável no
qual a mentira pode alcançar sua abjeta plenitude de utopia. A propósito, Olavo identifica o conceito de
Fortuna com Deus. Discordo. Como filho do Renascimento, Maquiavel acreditava
nas idéias dominantes do seu tempo, na magia, na astrologia, na alquimia. A
Fortuna era, para ele, esse determinante cósmico que provinha das forças da
natureza, idéia que irá percorrer toda a modernidade e terá em Goethe o seu
poeta maior. A Fortuna como o espelho da carta do Tarô. Fortuna é o destino,
que precisa ser moldado pela Virtú, pela intrepidez amoral dos novos príncipes. Deus está longe das preocupações do pervertido
florentino. Os supostos materialistas e “realistas” que citam Maquiavel para
justificar suas próprias tolices mal sabem que a raiz primeira do autor
renascentista é a mais baixa magia, o culto satânico mais rasteiro, a maldade
transformada em virtude. Sozinho, esse pequeno livro já colocaria
Olavo no panteão dos grandes filósofos políticos da atualidade. Dá para
imaginar o que virá na obra maior, em gestação, A MENTE REVOLUCIONÁRIA.
Espero com ansiedade sua publicação. |
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