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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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LULA E ADIB
JATENE 24/05/2008 Ao acabar de escrever o artigo
de ontem (A idiotia de Lula) posso ter cometido com Lula uma tremenda injustiça,
que quero aqui reparar. Não que eu retire qualquer palavra que foi escrita,
muito ao contrário. Assusta-me formidavelmente saber que a sociedade
brasileira está em ritmo de estouro de rebanho, conduzido por uma rês de
chocalho fanho que é o nosso presidente. Minha
insatisfação foi ter ligado o seu notório predicado de apedeuta ao
descolamento da realidade, sem demonstrar que os doutos brasileiros também
estão a sofrer do mesmo mal irremediável. Repito enfaticamente que ignorância
não é sinônimo de idiotia. Quero fazer aqui uma
comparação muito procedente, de Lula com o cirurgião Adib Jatene, a fim de
reparar a minha falha. Quem não rende homenagens ao cardiologista consagrado?
Eu, portador que sou de cardiopatia, entregaria aos seus cuidados, sem
hesitação, meu delicado e enfartado coração. Não duvido da sua capacidade de
curar, da sua instrução médica exemplar, da sua competência tão sobejamente
comprovada e demonstrada. Também não duvido da sua criatividade e
inventividade na prática médica, mundialmente aclamadas. Mas, como Lula, Adib Jatene
padece também da mesma idiotia do homem-massa.
É ele um exemplar acabado deste espécime. Toda a gente vê apenas a biografia
do cientista e do médico consagrado quando ele vai à TV defender a CPMF, mas
não enxerga o outro lado do Dr. Jatene: um funcionário público desde sempre,
formado em escola pública e que professa sem nenhum pudor uma ideologia
política muito próxima do Partido Comunista, ou petista, se quisermos atualizar os termos. É um barnabé de alma. Então,
quando emite opiniões políticas, mais das vezes Dr. Jatene deixa o diploma de
medicina de lado e veste a persona do barnabé, um
homem que desconhece como funciona a economia de mercado e tem absoluta
ojeriza à lei da escassez. É todo direito
e nenhum dever ao falar em público.
Por isso ele foi o criador e é o mais afamado defensor da CPMF, de triste memória. Tomemos, por exemplo, as
declarações recentes do Dr. Jatene relatadas na Folha de
São Paulo: "A gente vive em um país colonial e
imperialista em que os amigos do rei não gostam de pagar imposto", disse Jatene
durante a solenidade, no Palácio do Planalto. "O governo fica na
contingência de arrecadar muito de quem ganha pouco e arrecadar pouco de quem
ganha muito", reiterou. Emocionado e com a voz embargada, Jatene
descreveu o trabalho dos profissionais de saúde e criticou as limitações
impostas ao setor. "Não aceito as limitações que a área econômica impõe
à saúde", disse. "A área econômica está muito perto da
riqueza, quando o ministro da Fazenda vai a São Paulo vai à Fiesp, não vai à
periferia." Antes de analisar as
declarações do médico famoso, regato aqui a análise poderosa de Ortega y Gasset sobre o homem-massa
encarnado no homem de ciência, no especialista.
Vejamos (peço desculpas pelas longas e necessárias citações): “Seria de grande
interesse, e maior utilidade que a aparente à primeira vista, fazer uma
história das ciências físicas e biológicas, mostrando o processo de crescente
especialização no trabalho dos investigadores.
Isso faria ver como, geração após geração, o homem de ciência tem sido
constrangido, encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais
estreito. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria, mas
justamente o inverso: como em cada geração o científico, por ter de reduzir
sua órbita de trabalho, ia progressivamente perdendo contato com as demais
partes da ciência, com uma interpretação integral do universo, que é o único
merecedor dos nomes de ciência, cultura, civilização européia. O caso é que, fechado na estreiteza de
seu campo visual, consegue, com efeito, descobrir novos fatos e fazer avançar
sua ciência, que ele apenas conhece, e com ela a enciclopédia do pensamento,
que conscienciosamente desconhece. Como foi e é possível coisa semelhante?
Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência
experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente
medíocres, e menos que medíocres. Quer dizer, que a ciência moderna, raiz e
símbolo da civilização atual, deu guarida dentro de
si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. A
razão disso está no que é, ao mesmo tempo, vantagem maior e perigo máximo da
ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a
mecanização. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em
biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer
pessoa. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a
ciência em pequenos segmentos, encerrar-se em um e desinteressar-se dos
demais. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática
desarticulação do saber. Trabalha-se com um desses métodos como com uma
máquina, e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir
idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. Assim a
maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência
encerrados num nicho de seu laboratório, como a abelha no seu alvéolo. Por isso cria uma casta de homens
sobremodo estranhos. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza
tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua
pessoa. Com certa aparente justiça se considerará como ‘um homem que sabe’.
E, com efeito, nele se dá um pedaço de algo que, junto com outros pedaços não
existentes nele, constituem verdadeiramente o saber. Esta é a situação íntima
do especialista, que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais
frenética exageração. O especialista “sabe” muito bem seu mínimo rincão de
universo; mas ignora basicamente todo o resto. Eis aqui um precioso exemplar deste
estranho homem novo que eu tentei, por uma e outra de suas vertentes e
aspectos, definir. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda
a história. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie
e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. Porque outrora os homens
podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos
sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido
a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o
que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é “um
homem de ciência” e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Devemos
dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é
um senhor que se comportará em todas as questões que ignora,
não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão
especial é um sábio.
Como não enxergar o Dr. Jatene
dentro deste estereótipo de primitivo e ignorante em matéria de ciência
política? Em matéria de ciência econômica? Em matéria de filosofia? No alto
de sua especialidade médica ele quer mesmo é abolir a própria lei da escassez,
o sonho impossível da comunalha .
"Não aceito as limitações que a
área econômica impõe à saúde", declarou. Ora, não é a área econômica
do governo que impõe limitações à saúde, mas a realidade enquanto tal.
Enquanto bem econômico os serviços de saúde são regulados pela lei da
escassez, quer o Dr. Adib Jatene saiba disso ou não, quer goste disso ou não.
Penso que o médico não tem a dimensão da asneira que falou. E foi mais longe na arte de
falar besteira: "A gente vive em
um país colonial e imperialista em que os amigos do rei não gostam de pagar
imposto". Claro que não vivemos em um país colonial, que já temos
quase duzentos anos de independência política. Sua declaração é um atentado
contra os livros de história. E é claro que o Brasil não é um país
imperialista, pois não se envolve em guerras territoriais desde o século XIX.
É uma besteira monumental o que disse. E, ainda que por suposto fosse o
Brasil fosse um país colonial e imperialista, o que isso teria a ver com o
fato de os supostos amigos do rei não gostarem de pagar
impostos? Nada. Por acaso os não amigos do rei gostam de pagar impostos? Os barnabés, os amigos do rei por
definição, gostam de pagar impostos? O sistema legal
faz acepção entre amigos do rei e não amigos do rei na hora de cobrar impostos? Estamos diante do samba do turco doido
que não sabe o que diz ao justificar a clamorosa injustiça do nosso sistema
tributário. Pior, ao tentar alargar a enorme injustiça tributária. Foi mais desastroso quando
declarou: "A área econômica está
muito perto da riqueza, quando o ministro da Fazenda vai a São Paulo vai à
Fiesp, não vai à periferia." Isso é a pregação do
marxismo-leninismo, a utopia mais desgraçada que já apareceu na face da
terra. É a luta de classes pregada com todas as letras. Ora, a existência de
uma classe industrial rica não é causa da pobreza, mas a maneira pela qual a
pobreza pode ser minimizada e eliminada. Jatene aqui não passou de um
panfletário comunista. Adib Jatene ignora que a saúde
não precisaria de investimentos públicos se a nossa carga tributária
estivesse abaixo de 25%. Toda a gente, inclusive a população mais pobre,
poderia comprar no mercado seus serviços, a preços justos, sem ter a intermediação
estatal. Mas Jatene é um incapaz de ver a realidade como ela é e quer, cada
vez mais, tentar molda-la aos seus preconceitos e idiossincrasias. Toda a sua
competência médica aqui de nada vale e ao se meter no que não sabe não passa
de um homem tolo, um homem-massa,
um homem perigoso para o bem-estar da coletividade. E esse monumento à
ignorância foi ministro! Criou a CPMF! Como isso foi possível? Ora, com Lula
presidente tudo o mais torna-se possível. Ortega y Gasset
foi muito feliz ao sintetizar, talvez imaginando algum Adib Jatene do seu
tempo: “E, com
efeito, este é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos
usos sociais, nas outras ciências tomará posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas as tomará
com energia e suficiência, sem admitir – e isto é o paradoxal – especialistas
dessas coisas”. O perfeito Doutor
Sabe-Tudo das farsas. O Dr. Jatene está integralmente descrito nesta citação. Como você pode ver, meu caro leitor, Lula está em boa companhia. O povo é
que não está, conduzido que é feito rebanho de gado
por esses vaqueiros do asfalto. Um bando de panacas
que não sabe o que diz e o que faz. Que não tem noção das suas limitações,
seja um douto ou um apedeuta. |
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