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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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LINCOLN, DE SPIELBERG O filme
Lincoln, de Spielberg, é uma construção cinematográfica grandiosa, que dá ao
expectador o efeito específico que só o cinema consegue: o impacto visual da
reconstrução biográfica do grande presidente dos EUA. Além do notável diretor
temos a ação dos grandes atores do elenco. Daniel Day-Lewis no papel
principal equiparou-se agora aos maiores atores de todos os tempos, no nível
de Al Pacino. Tudo que se escreveu sobre ele é merecido e quem vê o filme sai
do cinema de queixo caído, admirado. O foco da
narrativa é as últimas semanas de vida de Lincoln e sua batalha parlamentar
para aprovar a Décima Terceira Emenda, a que aboliu a escravatura. O diretor
talvez pudesse abreviar essa narrativa e dar um pouco mais de dinamismo ao
filme. Mesmo assim, sua escolha foi boa, para mostrar como é a mecânica da aprovação
das leis, mesmo daquelas mais emblemáticas. No filme foi sublinhado que mesmo
ele, o incorruptível Lincoln, passou a corromper para que a lei pudesse ser
aprovada. Momentos de verdadeiro “mensalão”, como tivemos
por aqui. Coisas da vida política. O Daniel
Day-Lewis captou a psicologia do personagem. A perfeição que conseguiu na
reprodução do corpo e dos gestos (talvez da voz) de Lincoln é admirável. O
rápido envelhecimento, a máscara dos últimos dias de vida, é evidência do
desgaste da lula política, da administração da guerra e do drama familiar.
Mas penso que é sobretudo resultado do esgotamento
do tempo faustico. Lincoln foi uma figura faustica, um construtor de império que não hesitou em
fazer o sacrifício de 600 mil vidas para esmagar as liberdades federativas
originais, pondo em seu lugar um Estado mais centralizado, de vocação
imperial. Essa
constatação nos leva necessariamente a meditar sobre a história
norte-americana, de forte impacto nos acontecimentos globais, desde então.
Com Lincoln, os EUA realizaram o esplendor do Estado moderno, guerreiro,
expansionista, realizador. O papel desempenhado desde então por aquele país,
em todos os conflitos relevantes, parece confirmar o destino manifesto.
Tornou-se hegemônico. Suplantou a Europa. Virou policia do mundo. Explodiu a
bomba atômica. Muita gente
vê os EUA como um Estado providencial. Penso ser um engano. É da mesma
natureza que os demais Estados modernos. Se a história lhe reservou certos
papéis mais moderadores foi por circunstância, pois ele nunca esteve
dissociado nem da logica de movimento e nem dos propósitos dos demais
Estados. O Estado moderno é sempre o devorador de homens, o matador em escala
industrial. A guerra civil foi um momento conspícuo dessa jornada assassina. Lincoln é a
figura chave na construção do Estado norte-americano. Seu legado político fez
sucumbir o idealismo daqueles que apostavam na federação de fato, na
“federação de reinos autônomos”. No
lugar das liberdades federativas temos a União centralizadora e determinadora
das formas jurídicas e políticas do existir.
No momento, a grande ameaça é o Estado mundial, desejado por muita
gente, inclusive por Obama, mas não se sabe muito bem qual o formato que
terá. Os que lutam pelo Estado mundial ainda não têm a fórmula de
implantação, mas seguem o caminho necessário da homogeneização dos marcos
jurídicos nacionais, passo a passo, e da implantação da agenda da nova moral,
anticristã. A nova moral mundial. Sem que
Lincoln tivesse obtido seu êxito o mundo teria sido bem diferente no século
XX e estaria bem diferente agora. Talvez as ameaças fossem menores, mas isso
é tão impossível de saber quanto se contar a história do que poderia ter
sido. |
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