|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
LIBERALISMO E REVOLUÇÃO 12
de março de 2010 O que, de fato,
do ponto de vista da ciência política, inaugura os tempos modernos? No meu
ponto de vista dois fatos são fundamentais: o deslocamento da fonte da ordem
da transcendência para a vontade imanente do governante e o abandono conseqüente
do direito natural clássico. Tudo que veio depois é conseqüência desses dois
fatos exponenciais. Da obra de Hobbes
(e de seu discípulo dissimulado, Locke, o o “sage” Locke) emerge a
idéia do contrato social, dos direitos fundamentais e da igualdade. De Grocius a idéia de que a lei natural deve ser compreendida
como uma equação matemática e que o direito deve emergir de sistemas gerais
aplicados a todos os casos. De Maquiavel a idéia de que a obtenção do poder é
ato voluntarista do “novo” príncipe, cujo único compromisso é com a manutenção
do poder, uma vez esse conquistando, abandonando qualquer ilusão de justiça
ou de equidade que se esperava dos governantes até então. Como pano de
fundo o laicismo e o ateísmo, militante ou camuflado, que tem acompanhado a
ciência política desde então. E, claro, o desdobramento inexorável dos
direitos fundamentais em direitos humanos e a busca obsessiva pelo dogma da
igualdade. Esse é o receituário liberal desde a origem e aqui podemos ver nele
contido todo o germe revolucionário jacobino, que vai se desdobrar nas
revoluções. As três maiores
revoluções ─ a Reforma, a Francesa e a marxista, no século XX ─
foram derivações dessa rebelião original contra os fundamentos metafísicos da
ciência política e do direito. Não por acaso que Leo Strauss fará na sua obra
maior – DIREITO NATURAL E HISTÓRIA – a demonstração de que a modernidade é, ela mesma, um mergulho integral na loucura coletiva, já
descrita na obra imortal de Miguel de Cervantes. Na mesma linha
está a obra de Eric Voegelin. Aqui quero sublinhar
seu ensaio “Liberalismo and history”, publicado
originalmente em “The review
of politics”, Vol 36, nº 4 (Outubro de 1974). Com elegância e erudição Voegelin mostrou aqui o movimento interno da modernidade
depois da ruptura com o cristianismo e a filosofia clássica. Desde então
haverá uma sucessão de revoluções, contra-revoluções, restauração e
conservadorismo, todos elementos do drama moderno
oriundos da ruptura original. O liberalismo é ele mesmo essencialmente revolucionário,
mas toda revolução gera o seu contrário e o próprio liberalismo acabou por
ser ele mesmo a variante que precisa controlar a anarquia revolucionária,
estabilizando-a. Voegelin
sublinhou quatro dimensões ou conceitos associados ao liberalismo: o
político, o econômico, o religioso e o científico. Há uma tendência a se
olhar a doutrina liberal apenas sob a ótica dos dois primeiros. O liberalismo
político logrou grande parte da sua aceitação e legitimidade porque a luta
contra os abusos do poder absolutista carregava em si um elemento óbvio de
justiça, propondo a separação de poderes e a limitação do tamanho do Estado.
Da mesma forma, o liberalismo econômico, que demonstrou cientificamente a
superioridade da ordem fundada no Estado mínimo e nas livres trocas, com o
mínimo ou a total ausência de regulação. O aspecto
religioso do liberalismo, que inicialmente se identificou com a Reforma e,
posteriormente, com o materialismo ateu, é a sua ponte mais ostensiva com os
movimentos coletivistas revolucionários da mesma natureza. Por isso que os
liberais estão na linha de frente em questões como o aborto, gaysismo, a eutanásia, a liberação das drogas e a livre
sexualidade (e a destruição do casamento monogâmico tradicional, sua conseqüência
inevitável). Talvez por isso que nos EUA “liberal” equivale a esquerdista, pois aqui não há que se fazer distinção:
ambos comungam da rebelião contra Deus. A adoção das doutrinas epicurista e
estóica (utilitarismo e centralidade imanentista no
ego como um substituto de Deus) é elemento que torna o liberalismo e o
marxismo, por exemplo, uma única e mesma realidade política doutrinal. No âmbito da
pesquisa científica a coisa é ainda mais clara. Voegelin
demonstra que Augusto Comte será o filósofo que influenciará fortemente as
ciências no século XX (aqui nos referimos às ciências sociais), de tal sorte
que se projeta no mundo científico todas as conseqüências
do materialismo ateu. O resultado é duplo: o relativismo e o niilismo,
conforme o autor demonstrará em outra obra (A NOVA CIÊNCIA DA POLÍTICA). É por isso que o
argumento liberal não pode ser usado eficazmente para combater o
irracionalismo e a anarquia revolucionária. É o mesmo que querer apagar fogo
com querosene. É por isso que a tese degenerada dos direitos humanos prospera
em todo o mundo, sob o patrocino da ONU e os braços cruzados dos liberais.
Nenhum comentário político hoje deixa de se remeter a essa tolice teórica dos
direitos humanos. Veja-se o recente caso da morte do cubano em greve de fome,
coincidente com a visita de Lula a Fidel. Todos os comentaristas disseram que
Lula se esqueceu dos direitos humanos, por ele outrora defendidos. Não viram
que a locução “direitos humanos”não passa de slogan
revolucionário que tem plasticidade suficiente para se aplicar a qualquer
situação no rumo da revolução. Direito humanos
estão além do cinismo habitual da política, situam-se na crença profunda dos
revolucionários de que vale tudo para se chegar à perfeição revolucionária.
Tudo se legitima para se chegar a esse objetivo que, se sabe de antemão, é inatingível.
Só tolos que não conhecem o conteúdo teórico escondido por detrás da locução
para se escandalizar com gestos como os de Lula. O liberalismo
dito “clássico”, basicamente aquele compreendido na dimensão econômica e
política, foi derrotado inexoravelmente desde o século XX. O agigantamento do
Estado mostra que mesmo na sua dimensão econômica ele desapareceu. Não serve
mais de elemento de estabilização política. A única força capaz de fazer
frente ao movimento revolucionário em curso é o retorno à ciência política
clássica. Ou seja, contra os direitos humanos revolucionários existe apenas o
direito natural clássico. |
|