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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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LIBERALISMO E CONSERVADORISMO 24 de fevereiro
de 2010 Alguns leitores
perceberam que nos últimos tempos minha convicção íntima me levou a uma
mudança de visão de mundo. Até então eu pensava que o corpo de doutrinas
liberais poderia ser suficiente para sustentar um projeto de poder - mais, um
projeto de Estado - que pudesse restaurar a ordem perdida desde o início do
século XX, qual seja, mínima tributação, mínimo gasto e ainda menor
regulação. As minhas
leituras em filosofia política me fizeram retornar sobre os elos históricos
que formam a filosofia moderna. Fico extremamente grato por ter dado o curso
A ERA DO ESTADO TOTAL e AS ARMADILHA DA LEI no Instituto Internacional de Ciências Sociais -
IICS (este que estou ministrando, no momento, na cidade do Rio de Janeiro
e, em março também em Porto Alegre). A pesquisa bibliográfica e o desafio de
ter de comunicar a uma eminente platéia as minhas conclusões me levaram a
pesquisar a fundo a modernidade. Tanto assim que
no segundo semestre deverei dar um terceiro curso, agora examinando a obra e
a biografia de Miguel de Cervantes, que fez a crônica dos tempos modernos.
Estudar o Dom Quixote é imperativo da mais alta
urgência para quem quiser compreender o que se passa no presente momento,
como bem frisou Mario Vargas Llosa: o Dom Quixote é um livro para o século
XXI. O fato
substantivo é que as doutrinas liberais foram muito bem sucedidas em
desenvolverem um corpo científico em Economia, inovador e, a meu ver,
definitivo, para explicar a lei da escassez, o processo de produção e
distribuição de riquezas e - o mais valioso de tudo - determinar
o exato papel do Estado no processo de produção das riquezas. Em paralelo, a
doutrina liberal cultivou a liberdade, a política assim como a individual,
abrindo uma nova dimensão para o ser humano, sem igual na História. Essas
grandes conquistas foram uma aquisição permanente para a humanidade. Ocorre que o
desenvolvimento filosófico que permitiu essas conquistas levou também ao
desenvolvimento da variação jacobina do liberalismo, as doutrinas
historicistas que se fundaram sobretudo em Rousseau,
mas não podem negar sua gênese em Locke. Na minha investigação cheguei à raiz
do problema, que é dupla: de um lado, a doutrina do jusnaturalimo,
que propõe uma nova antropologia filosófica, assumindo saber o que é a
natureza humana e, a partir daí, propondo a tese do contrato social e a
doutrina dos direitos fundamentais, que são os mal afamados direitos humanos. Essa suposta
natureza humana seria moldável e aperfeiçoável, a grande ilusão dos
revolucionários desde então. Não é possível
estudar o assunto sem concluir que os direitos humanos de segunda e terceira
geração têm a sua raiz teórica em Hobbes. O pai do liberalismo é também o pai
do comunismo e de todas as variações socialistas que florescem em toda parte,
mormente agora no Brasil. Do outro lado
temos a questão dos valores, sejam
eles de origem religiosa, sejam as virtudes filosóficas. A exacerbação do
individualismo e de sua liberdade anárquica leva à degeneração dessa
aquisição preciosa da tradição, descambando para o relativismo moral e para o
niilismo. O liberalismo vinculou-se indelevelmente a esse aspecto deletério
da modernidade e está na raiz da crise totalitária do século XX. No século
XIX o apogeu do liberalismo clássico só foi possível de ser conquistado
porque a inércia dos valores cristãos impediu o regresso civilizacional
verificado no século subseqüente, tanto na Europa como nos EUA e em toda
parte. É bom lembrar que
as grandes conquistas da ciência econômica do liberalismo foram integralmente
subscritas pelos autores conservadores, assim como o culto à liberdade,
desprovido de sua faceta relativista e niilista. Os conservadores, como se
pode ler nas obras magistrais de Leo Strauss e Eric Voegelin,
apontam as insuficiências filosóficas e os seus perigos e propõem a retomada
da filosofia clássica. Ambos afirmarão (juntamente com Michel Villey, o gigante francês da filosofia do Direito) que é
preciso o retorno imediato do direito natural clássico e a denúncia do falso
direito natural moderno, sob pena do caos do relativismo e do niilismo se
instalar. Meu ponto foi
ainda além. Olhando a história política desde meados do século XIX dei-me
conta da paulatina derrota dos liberais dentro do poder de Estado, em toda
parte, inclusive e sobretudo nos EUA. A causa dessa
derrota é que liberais e socialistas têm o mesmo paradigma filosófico
originário, os primeiro fazendo um discurso racional e os segundos um
discurso que chamei “do coração”, emocionando as massas. A cada direito
humano conquistado, a cada eleição realizada o campo liberal perdeu forças
para os socialistas. O resultado foi também duplo: a implantação do
totalitarismo e do Estado de bem estar social, sua variação homeopática, que
venceu em toda parte. O peso dos
impostos e dos gastos públicos está no seu apogeu, no presente momento, e foi
resultado de um século de derrotas dos liberais. Dentro do atual quadro é
impossível voltar ao status quo ante, a proposta
liberal, sem que se tenha um discurso capaz de vencer os socialistas no seu
campo, no proselitismo político. Os liberais, por apelarem para a razão e por
defenderem valores assemelhados com os socialistas, não têm como fazer
reverter o quadro dentro da normalidade democrática. Os conservadores
podem fazer isso. Há um anseio das massas por uma ordem justa e por valores
compatíveis com a tradição. Há um anseio por um Estado que não ameace a vida
prática, que não tome o cidadão por mera mônada
indefesa, à disposição dos burocratas, esses engenheiros sociais portadores
de total insensibilidade. Os conservadores têm também os argumentos“do coração”, capazes de trazer para o
seu lado as multidões. A voz da tradição é mais poderosa do que os apelos
materialistas, relativistas e niilistas dos socialistas, valores estes
incapazes de serem combatidos pelos liberais. Quando Eric Voegelin resenhou o livro da Hannah Arendt, em 1953, A
ORIGEM DO TOTALITARISMO, já apontava
a questão filosófica
fundamental: “The true dividing line in the contemporary crisis does not run between
liberals and totalitarians, but between the religious and philosophical
transcendentalists on the one side and the liberal and totalitarian immanentist sectarians on the other side”.
Voegelin
resumiu toda a discussão. Chegou o tempo dos conservadores irem à praça
pública e passar sua mensagem, retomar a tradição, reconstruir o Estado que
tem sido deformado em todas as dimensões, sobretudo na dimensão jurídica,
pelos sucessivos governos socialistas. De novo, é preciso que a ordem
temporal seja o reflexo da ordem da alma. Esse é o verdadeiro tema de nosso
tempo. |
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