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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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LENDO DOM QUIXOTE 29 de julho de
2010 São quatro os
caminhos possíveis para abordar o livro de Miguel de Cervantes, DOM QUIXOTE. O
primeiro deles é o estritamente literário, incluindo seu aspecto lingüístico;
o segundo o histórico/biográfico; o terceiro o ângulo da filosofia política;
por fim, o ângulo da psicologia analítica. Apenas esta última pode dar uma
visão de conjunto definitiva sobre a obra. A abordagem literária
sobre o Dom Quixote é a mais prolixa e foi objeto de
praticamente a totalidade dos grandes escritores de todos os tempos. Um
exemplo recente, feito com muita competência, é a introdução de Vargas Llosa
à edição comemorativa do Quarto Centenário, publicada sob o patrocínio da
Casa Real espanhola. O peruano desvenda os tempos, as técnicas narrativas e a
genialidade daquele que criou o romance moderno. Temos ensaios como o de
Thomas Mann, escrito a bordo de um navio, em 1934, quando partia para o
exílio nos EUA. Mann fez a sensacional descoberta de que a negação do Dom
Quixote é o Zaratustra de Nietzsche e bem se vê que sua futura obra prima,
DOUTOR FAUSTO, resultou dessas meditações. Outro exemplo é o que
escreveu Vladimir Nabokov (LECTURES ON DON QUIXOTE), um trabalho exaustivo
para o qual faço restrições, especificamente à afirmação de que a obra cervantina contém um traço de crueldade e mistificação.
Nada mais falso. Nabokov deveria ter visto o contrário, que a trindade
Verdade, Beleza e Bondade são os traços predominantes do Cavaleiro da Triste
Figura. Talvez o tom cômico genialmente utilizado tenha obnubilado
a leitura do russo. A paródia e o non sense em Dom Quixote são os
instrumentos pelos quais Cervantes pode dizer o que bem quis,
analisar, profetizar e discorrer sobre as mazelas do seu tempo sem ser
importunado pela censura e nem torturado pela prisão. Ele fez os poderosos
rirem de si mesmos, sem se dar conta. Quem melhor o
compreendeu, sob o ponto de vista literário, foi Miguel de Unamuno no livro A VIDA DE DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA,
obra escrita em 1905 e comemorativa do seu terceiro centenário. Corretamente Unamuno viu no Quixote o espírito cristão que vagava
desencarnado sobre a terra, depois da emergência do humanismo renascentista.
Cervantes deu vida a esse espírito. “Eu sou o que sou”, um homem a procura
de si mesmo, o oposto do revolucionário moderno, que quer ser aquilo que
deseja ser e transformar o mundo ao seu talante. Por isso Unamuno
sugere que a criação literária é maior do que seu autor, visão diametralmente
oposta à de Ortega y Gasset. Viu também
corretamente que o modelo usado para a construção do personagem foi a biografia de Santo Inácio de Loyola. Unamuno
se aproxima, de maneira formidável, do método da psicologia analítica antes
mesmo dele ter sido inventado. Um exemplo é o tratamento dado ao feminino na
personagem Dulcinéia. Unamuno
a equipara à entronização do feminino na corte celeste, na figura da Virgem
Maria. Até sugere que dessa forma a Trindade se tornaria uma quaternidade, tema tão caro a Jung e a sua psicologia
analítica. A segunda abordagem é
a histórico/biográfica. Todas as biografias escritas sobre Cervantes fizeram
isso, de maneira melhor ou pior. Particularmente tenho preferido usar a obra
de Jean Canavaggio (CERVANTES, Editora 34, São
Paulo, 2005), que situou a vida de Cervantes dentro do contexto da vida
política e literária da Europa do seu tempo. A lição mais importante é
compreender que Dom Quixote só faz sentido tendo-se em conta a rica e
aventureira vida de seu criador. A terceira abordagem
é dada pela filosofia política. Os autores mais salientes são Ortega y Gasset e Eric Voegelin, que
viram no Dom Quixote o mecanismo de criação da Segunda Realidade, na qual
toda a política moderna mergulhará. O reino dos céus é substituído pelo poder
da lei estatal na salvação das massas. Será talvez a mais sensacional
descoberta de Miguel de Cervantes, trazendo consigo grande poder heurístico.
Ortega y Gasset, na sua obra de estréia
(MEDITACIONES DEL QUIJOTE) cunhou a famosa fórmula filosófica “Eu sou eu e a minha circunstância e, se não
as salvo, não salvo a mim mesmo”. Isso é Dom Quixote falando, como bom
cristão. Mas Ortega estava demasiadamente mergulhado no neokantismo de Marburgo e sua visão errada sobre a formação
européia, que excluía o cristianismo de qualquer papel relevante na sua
formação cultural. Triste erro, que levará Ortega a um beco sem saída
filosófico. Morreu sem saber que Dom Quixote e Kant são inconciliáveis. Ortega,
ao contrário de Thomas Mann, tentou usar expressões nietzschianas para
analisar o livro, usando especialmente a intuição do alemão sobre a oposição
superfície/profundidade (ou consciência como superfície, inconsciente como
profundidade) e o tema da floresta. Viu certo, mas não compreendeu por
inteiro a sua intuição. Difícil é
saber como Ortega conciliou seu agnosticismo com essa visão francamente ativa
da transcendência. Mas Ortega foi
maravilhosamente cervantino ao desenvolver a sua
teoria da rebelião das massas. O tema já estava em Dom Quixote. O
desaparecimento das elites e a emergência das massas desembestadas são
simbolicamente demonstrados pelo episódio do duque, que se rebaixa ao nível
de Sancho Pança. Sancho entroniza-se o
duque de Baratária. É a sombra governando o mundo,
conforme desenvolvido mais abaixo. O poder foi enlouquecido pelo
igualitarismo. Eric Voegelin foi genial ao escrever sua filosofia política
usando o conceito de Segunda Realidade. Ele também analisa a corrupção das
elites alemãs, tornadas “ralé” pelo nazismo. Será assim o único filósofo a
compreender corretamente o fenômeno do nazismo, pois apenas este conceito cervantino dá conta de explicar o que aconteceu. Ele viu
além de Ortega. E diga-se de passagem que Voegelin, no âmbito da filosofia, foi o autor que levou
mais longe a descoberta cervantina, tornando-a o
fundamento da sua análise. No livro HITLER E OS ALEMÃES ele dedicou um
capítulo ao Dom Quixote, único meio de clarear sua análise. Sua filosofia
política deve muito ao texto de Miguel de Cervantes. O ponto central é a
perda da hierarquia natural, conforme era vista pelos clássicos e pelos
filósofos cristãos. A igualdade
virou o mantra da rebelião das massas. Por fim, temos a
quarta abordagem, a da psicologia analítica. Basicamente é o método inventado
por Carl Jung e empregado brilhantemente por ele para analisar Nietzsche nos
famosos seminários sobre o Zaratustra, ocorridos entre 1934 e 1939. Dom
Quixote é todo construído por duplos que refletem figuras arquetípicas. A
narração é, toda ela, simbólica. Um exemplo: a saída
para a primeira jornada se dá pela porta falsa dos fundos da casa, claramente
uma alusão a um mergulho no inconsciente. Ela tem duração de três dias, o
tempo de Cristo no túmulo. No capítulo IV é relatado que, na estalagem a que
chegou ao fim do dia mais quente do verão (solstício, a primeiro grau de
Leão), Dom Quixote se deparou com um antro infernal: prostitutas (negação da
pura Dulcinéia), criadores e condutores de varas de
porcos, tocando
instrumentos musicais (o espírito dionisíaco/demoníaco), e o gordo estalageiro, que prefigura Sancho Pança, vindo em seu
auxílio. (Porcos são animais impuros para os quais Jesus expulsou os
demônios, animais malditos pelo judaísmo. Alonso Quijano
só comia carnes de boi e ovelha, uma pista da ascendência judaica de
Cervantes). Não há lugar na estalagem para ele dormir, no antro infernal. Era
um homem bom demais para isso. O solitário Quixote passa por um ritual de
iniciação ao ser tornado cavaleiro no local mais imundo e espiritualmente
degradado, ao pé de uma fonte, uma pia batismal, uma imagem notável para a
Água da Vida. Desconsiderando as
pantomimas da narrativa, temos aqui um momento decisivo da jornada do herói arquetípico,
o seu batismo de sangue. Derrota aqueles que querem conspurcar suas armas, os
condutores de mulas e porcos. Sagrado cavaleiro andante, ele retorna e busca
a sua sombra, que sempre estará de prontidão para ajudá-lo, Sancho Pança. Outro exemplo: o
episódio em que ele “salva” o garoto empregado
(Andrés) do fazendeiro (Juan Haldugo) da surra é
todo simbolismo. O garoto é o próprio Cervantes que precisa crescer dentro do
seu processo de iniciação e a surra simboliza o sofrimento necessário para o
crescimento. Ele estava sendo surrado porque falhava como pastor, deixando
que ovelhas todos os dias se perdessem. A imagem cristã fala por si. Na
seqüência, encontra o caminho que se quadrifurca,
em cruz, e encontra os mercadores toledanos. Quem são? O povo comum, miúdo, os freqüentadores de feira
livre. O povo não o reconhece cavaleiro e o mói de pancadas, sua lança é
quebrada e ele jaz por terra. A iniciação se completara com todo o sofrimento
esperado. Outro exemplo
singular da utilidade do método junguiano está no
Prólogo, dedicado ao “Desocupado leitor”. Quem? Está desocupado quem dorme e
tem assim acesso aos caminhos da alma ou aquele que está desperto para as
coisas do espírito, alheio às coisas enganosas deste mundo. Cervantes se diz
apenas o padrasto de Dom Quixote.
Quem é o pai? O daimon,
o mesmo de Sócrates, o mesmo de Nietzsche, o Virgílio de Dante, o mesmo dos
autores de todas as obras primas. A abertura da alma ao elemento
transcendente é, de fato, o pai de qualquer grande personagem, de qualquer
grande obra. Cervantes não fez literatura apenas, aqui, fez um relato
factual. Não é uma simulação de humildade, é a descrição de um fato psíquico.“O um se
fez dois...”, como escreveu o próprio Nietzsche sobre o Zaratustra certa
vez. Como Cervantes e seu Quixote são profundamente cristãos então podemos
dizer que a inspiração nasceu direto do Espírito Santo ou de um anjo do
Senhor e que Dulcinéia é, como ensinou Unamuno,
a simples encarnação da Verdade, a mais pura. Tampouco podemos
desprezar o aviso posto no Prólogo: “Eu
determino que o senhor Dom Quixote há de permanecer sepultado nos seus
arquivos de La Mancha até que o céu proporcione quem o adorne de tantas
coisas como lhe faltam, pois eu me acho incapaz de as remendar, por minha
insuficiência e poucas letras, e por ser de natureza poltrão e preguiçoso no
andar à cata de autores que digam o que eu bem sei dizer sem eles.” Um
reconhecimento definitivo de que a obra nasceu maior do que seu autor, obra
póstuma, apesar de seu sucesso imediato.
Foi preciso chegar o horrendo século XX e as brilhantes mentes de Unamuno, Ortega, Vargas Llosa, Voegelin,
Thomas Mann e Robert Musil, entre outros, mas
situar o Cavaleiro da Triste Figura na moldura de sua real grandeza. E o Dr.
Jung, o mestre de Zurique, que muito descobriu sobre a alma humana. Dom Quixote deve ser
compreendido assim, da mesma maneira como Jung compreendeu o Zaratustra de
Nietzsche. Em minha opinião é a única maneira de se esgotar o oceano de
verdades contidas na obra prima de Miguel de Cervantes. Nenhum parágrafo pode
ser deixado de lado sem a devida compreensão. |
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