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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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LEI
NATURAL E DIREITO 16 de agosto de 2009 Em artigo anterior referi-me ao problema da elaboração
das leis, não propriamente do ponto de vista de sua técnica legislativa, mas
de como são concebidas. No mundo contemporâneo as leis podem emanar dos
Legislativos, bem como da iniciativa do Poder Executivo, que mais das vezes
exorbita de suas funções. Mesmo o Poder Judiciário também legisla, seja de
forma negativa, derrogando leis consideradas inconstitucionais, seja de forma
positiva, firmando interpretações que passam a ter força de lei sobre toda a
sociedade. Referi-me a sua concepção, sua inspiração, a quem, de fato, elabora
a lei do ponto de vista intelectual. Está em curso uma padronização dos
sistemas jurídicos nacionais, no rumo do Governo Mundial. É a materialização
das mais tenebrosas distopias. Uma realidade
dessas é aterradora. As leis perdem, assim, qualquer vínculo com a comunidade
e a religião, sendo concebidas pelas mentes deformadas da burocracia
encastelada na ONU e nos seus tentáculos. Na verdade, há uma unidade nesse
coletivo que chamo aqui, à falta de melhor termo, de burocracia: são os membro
de um partido invisível, o Partido, de concepção marxista em sua roupagem
gramisciana. Do ponto de vista da filosofia do Direito temos aqui a grande
síntese do ateísmo materialista, o casamento perfeito das idéias de Epicuro e
Zenon. A fonte do Direito, para essa gente, é a razão pura e os Estados têm como
objetivo, sob seu comando, garantir
uma ordem hierarquizada, de cima para baixo. Essa gente acredita ter o
sentido da história, pensa que sabe não apenas o que é bom para a humanidade,
mas o que é o melhor. Acham-se eles
os patronos da felicidade da raça humana. Têm a pretensão inclusive de serem
os portadores da paz universal, da concórdia geral, da fraternidade de todos
os povos, de patrocinarem a liberdade geral. Pensam-se os portadores da
Vontade Geral nos termos propostos por Rousseau. Quem leu meu
comentário sobre a entrevista de Fernando Henrique Cardoso deve se
lembrar que ele, FHC, é um dos mais valorosos lutadores em prol do governo
mundial. Lá ele fala do Partido. Esse Partido com P maiúsculo não é uma
entidade apenas nacional, mas é mundial. Estamos a ver o triunfo global dos
globalistas, inclusive no Brasil. Não preciso
dizer que estamos diante de um grande delírio, de um enorme perigo como
jamais houve em nenhum momento da história, diante da demência mais insana transformada
em bandeira política. Nem César, nem Alexandre, nem Gengis Khan e nenhum
construtor de império nos tempos antigos quis governar a intimidade dos seus
súditos, a vida prática, as liberdades privadas. Impunham sua paz e deixavam
a vida seguir seu curso. Os novos césares mundialistas do século XXI, ao
contrário, querem gerir os mínimos detalhes da vida privada, pois acreditam
que podem aperfeiçoar a humanidade
usando o instrumento da lei positiva. Renascem as velhas heresias gnósticas
destruídas pelo cristianismo, que pregavam a salvação ainda neste mundo. Veja,
caro leitor: é uma alucinação quixotesca em escala mundial, que leva à
criação de uma Segunda Realidade
idealizada em termos legais. Basta ver o que temos nos EUA hoje: cerca de 2%
de sua população adulta está encarcerada, número que cresce a cada ano. Quanta
gente do Estado precisa-se para prender, julgar e manter enjaulada essa
enorme população? A “perfeição” estóica do homem conseguiu transformar o
Estado – o sistema jurídico – numa prisão em larga escala. O sistema legal é
a prisão ela mesma. É essa precisamente a maior de todas as tragédias de
todos os tempos: o apogeu do Estado policial, que diz a todos o que comer, o
que fumar (pregam liberar a maconha e proibir o tabaco), aonde ir, o que
estudar, quando e como ter filhos, o que rezar... Nenhum espaço ficou
reservado àquilo que, em última análise, é o que faz de um homem a criatura
especial de Deus: o livre arbítrio. A
desdivinização do homem é a sua deshumanização também: a vida em breve não
terá valor algum, tudo será permitido ao poder público conduzido pela
burocracia globalista. A engenharia da raça humana executada de todas as
formas, contra as leis divinas. A vontade
tirânica desses neo-estóicos, evidentemente, não pode abolir a Lei Natural e
nem o Direito Natural. A Lei Natural é um elemento transcendente que o
Ocidente descobriu e cultiva desde Platão e os profetas hebreus e que o
cristianismo conseguiu, por cerca de mil e quinhentos anos, inseri-la nos
sistemas jurídicos dos diversos Estados que se sucederam ao longo da
história. Com a crise dos valores cristãos, a partir do Renascimento –
precisamente o momento em que o lixo filosófico herdado dos gregos emergiu
com toda força, o estoicismo assim como o epicurismo – vimos a degradação
jurídica acontecer pari passu à
degradação dos valores religiosos e da moralidade pública. O Eu estóico,
agigantado de poder e fortalecido pelas ilusões hedonistas dos epicuristas,
tomou conta da política e do Estado. Primeiro tivemos o horrendo século XX,
de guerras de extermínio como nunca houve; agora temos essa insana tentativa
de formatar o governo mundial. É claro que o
materialismo ateu, que é a matriz religiosa dessa gente, leva a cumprir a profecia
de Nietzsche, o auto-proclamado matador de Deus: a tresvalorização de todos
os valores. E, com isso, vem junto a destruição da liberdade, seja no sentido
abstrato, seja no sentido literal. Hoje os Estados – os agentes do poder
públicos – regulam a vida de toda gente nos mínimos detalhes. E a regulação
cresce a cada dia, a fábrica de leis não para nunca. Mas a lei
Natural não foi revogada. Sua matriz transcendente permanece e ela é uma
verdade eterna. Está aí para novamente servir de guia aos homens. E também o
Direito Natural, essa grande conquista humana que foi dada pela pena do
grande Aristóteles. Hoje se vive sob o império do positivismo jurídico
concebido hierarquicamente. E aqui me refiro não apenas ao papel do
magistrado, chamado a arbitrar conflitos e a distribuir a justiça. Refiro-me
à lei que é a pele e o esqueleto da sociedade, a lei que comanda as legiões
de funcionários públicos, com suas múltiplas polícias e cobradores de
impostos. A lei que dá delegação espúria aos seus agentes. Antes de virar
elemento de justiça a lei é o poder público em ação, vale dizer, violência
organizada, utilizando as maravilhosas e letais técnicas modernamente
desenvolvida. O Estado assim organizado virou o Dinossauro mais estúpido, de
menor cérebro e de maiores dentes de que se tem notícia. É a Besta no sentido
bíblico da expressão. O Grande Leviatã. Difícil
imaginar como tudo isso vai terminar. O certo é que o Ocidente precisa de uma
nova con-versão, um novo voltar-se para o Bem. Infelizmente, estamos longe
disso. |
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