NIVALDO
CORDEIRO: um espectador engajado
O INACESSÍVEL CHÃO
02/05/2008
Ontem,
depois de concluir o artigo As duas realidades, casualmente escutei a canção gravada pela Maria Bethânia, “Sonho Impossível”, que eu sabia ser de
composição de Chico Buarque de Holanda. A música ficou na minha cabeça, baixei
a letra pela Internet e – surpresa – a
letra da canção falava precisamente do tema do artigo, do simulacro de
realidade que a comunalha cria, perdendo qualquer
contato com o real. Será que um comunalha como Chico
Buarque teria a perspicácia de captar essa coisa toda, matéria da mais
sofisticada análise filosófica? Não podia ser, a
canção falava dele mesmo, o propagandista-mor da causa entre nós. Fui atrás.
Descobri que
a canção foi o tema de um musical de 1965 na Broadway (“Man of la
Mancha), obviamente baseado no romance de Cervantes, cuja obra é
comentada por Voegelin no livro HITLER E OS ALEMÃES
como exemplo gnóstico da criação do mundo paralelo,
como só a literatura é capaz de fazer. Claro que o comunista tupiniquim só
escreveu a versão. O CD que tenho da Bethânia omite que se trata de mera
versão. O poema original é de W.H. Auden, mas a letra
foi adaptada pela dupla Joe Darion/Mitch Leigh. Captaram brilhantemente a obra do
romancista espanhol, razão pela qual farei abaixo alguns comentários sobre ela.
Vejamos a
letra na versão original, em inglês, gravada por muitos cantores importantes, inclusive
líricos como Plácido Domingo, mas a versão que marcou época foi a de Elvis Presley, em álbum gravado ao vivo. Ele jamais a gravou em estúdio.
The Impossible Dream
To dream the impossible dream
To fight the unbeatable foe
To bear with unbearable sorrow
To run where the brave dare not go
To right the unrightable wrong
To love pure and chaste from afar
To try when your arms are too weary
The reach the unreachable star
This is my quest, to follow that star
No matter how hopeless,
No matter how far
To fight for the right
Without question or pause
To be willing to march into hell
For a heavenly cause
And I know if I'll only be true
To this glorious quest
That my heart will lie peaceful and calm
When I'm laid to my rest
And the world would be better for this
That one man scorned and covered with scars
Still strove with his last ounce of courage
To reach the unreachable star
Vejamos agora a versão de Chico Buarque de Holanda:
Sonho Impossível
Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meul eito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão
“Sonhar mais um sonho impossível”, é isso
que essa gente faz. Dá as costas para a realidade como ela é e constrói os
moinhos de vento para lutar contra eles. “Lutar
quando é fácil ceder”, aqui é a inquietude do revolucionário que quer
transformar o mundo. Para que ceder à realidade? “Vencer o inimigo invencível”, a revolta contra o real terá sempre
esse caráter quixotesco. Se o inimigo é invencível, não é possível vencê-lo.
Coerência para quê? “Negar, quando a
regra é vender”. O ódio à economia de mercado está aqui sintetizado num
verso. Esplêndido.
“Sofrer a tortura implacável”. O verso caiu como uma luva para os propagandistas comunistas que
batalhavam contra o regime militar, mas o espírito da música original é bem
outro. O verso fala da tortura de se manter no universo paralelo ao real, de
não ser possível entrar na realidade. A tortura de ser lunático. “Romper a incabível prisão”. Que prisão? O real. Os rebelados do espírito
se recusam a viver simplesmente. “Voar
num limite improvável”, como só o sonho alucinado permite. “Tocar o inacessível chão”. Que verso! Que obra prima! A recriação aqui é
esplêndida! Essa gente não tem como tocar o chão, pois a realidade não é atingível
por sua mente doentia.
“É minha lei/é minha questão/virar esse
mundo/cravar esse chão”. Loucura total. Cravar o chão é morrer, o lunático gnóstico sabe que em suspenso no espaço só resta acontecer
o que aconteceu ao funâmbulo de Nietzsche, no Zaratustra. É estatelar-se no
chão, morrer. “Não me importa saber/se é
terrível demais”. Esses lunáticos são todos suicidas, homicidas, genocidas. Rebeldes contra a Criação. “Quanta guerra terei que vencer/por um pouco de paz”. A
guerra pela guerra. Abandona a paz inicial para tentar voltar à condição
original. Completa loucura.
“E amanhã, se esse chão que eu beijei/for meu
leito e perdão”. Como o funâmbulo de Nietzsche, ele sabe que tudo que sobe,
desce. Vai morrer. Sabe que o chão é seu leito de morte, é como reentrará na
realidade, na forma de um cadáver. “Vou
saber que valeu delirar/e morrer de paixão”. Mortos não sabem nada. Mais um
delírio de maluco. Não morrerá de paixão, mas de loucura. “E assim, seja lá como for/vai ter fim a infinita aflição”. E qual é
essa? O descolamento da realidade como ela é, que vai
acabar, de um jeito ou de outro. “Loco sí, pero no tonto”, como imortalizou Cervantes. “E o mundo vai ver uma flor/brotar do
impossível chão”. Servirá de adubo. É o que restará sempre de realidade aos
gnósticos incendiários em sua rebelião contra Deus.