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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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IDEOLOGIAS APARENTES E LATENTES 22 de dezembro de 2008 “Mal visto mal dito”. Samuel Beckett O segundo
número da revista DICTA&CONTRADICTA chegou às
livrarias e conseguiu a proeza de não ficar inferior ao primeiro. Não cabe
aqui um comentário genérico sobre o conteúdo amplo que carrega. Quero
sublinhar apenas a transcrição da palestra dada pelo filósofo italiano Massimo Borghesi, proferida no
Instituto Internacional de Ciências Sociais no último dia 02 de outubro. A
data permitiu ao filósofo ligar seu tema – o mundo após a crise das utopias – à crise econômica que então
emergia e que foi o fator determinante para a eleição histórica de Barack Obama nos EUA. Borghesi é professor titular de Filosofia Moral na Universidade de Perugia, de Ética e Filosofia na Universidade São Boaventura e de Hermenêutica e Filosofia na Universidade Urbaniana de Roma. Apesar de suas credenciais sua obra
não foi ainda traduzida para o português. A entrevista se reveste assim da
maior importância, pois mostra a erudição do filósofo no despojamento de uma
alocação, apresentando-se ao público brasileiro. Vêmo-lo passear pelo confronto das ideologias em seus momentos de
apogeu. Sua conclusão impressiona: “Em
resumo, o que aconteceu de Não se
pode discordar desse sensato ponto de vista. A palestra foi seguida por um
debate em que perguntas importantes foram colocadas ao palestrante, tornando
seu conteúdo ainda mais rico. A pergunta que eu lhe faria é a mesma que eu
teria feito a Voegelin se vivo fosse: o que pensa
sobre os Estado Unidos e seu papel no mundo. Borghesi,
como o filósofo alemão, parece enxergar a realidade mundial pelo prisma
europeu, como se ainda a Europa fosse o centro gerador do poder e da
economia. E, junto com essa pergunta emendaria outra, para saber a sua
opinião sobre a ideologia mais sólida, consistente e persistente no meio
universitário ocidental, o materialismo ateu diverso do marxista, de vertente
darwinista e positivista. Esta última tem moldado a alma da intelectualidade,
a ponto de, se alguém se disser cristão, passar a ser encarado como um
excêntrico. Borghesi relata o confronto entre anarquistas e marxistas em 1968, o
fim do comunismo (algo discutível) em 1989 e a derrocada da solução dada pelo
mercado globalizado desde então e aparentemente esgotada com a crise atual. O
filósofo se perguntou: “E quando o
marxismo morre, o que fica? Permanece, como vimos, a
parte negativa, que é aquela que chegou até os nossos dias a atingiu milhões
de jovens nestes últimos anos. Se não há mais nada a que valha realmente a
pena dedicar a vida, a única coisa que resta é enriquecer e progredir sem
escrúpulos. Isso significa, no final das contas, que só permanece a idéia do
‘burguês em estado puro’, um burguês que não tem mais nenhum interesse
ideal com exceção do que enriquecer sem nenhum freio ético ou moral”. Eu tenho a
impressão que o marxismo não morreu. Persiste, está mais vivo do que nunca.
Na boca dos governantes, da imprensa e dos professores universitários está
sempre a palavra mágica “igualdade”, sempre seguida de “direitos”, ecos
sonoros na filosofia de Rousseau. Este filósofo triunfou nos dois lados, na
ribalta onde as massas propagam seus slogans marxistas igualitaristas
e no silêncio murmurante das cátedras, onde as éticas materialistas não
marxistas dominam, a começar no âmbito da rainha das ciências sociais, a
Economia. Onde poderemos encontrar o “burguês
em estado puro” de forma mais acabada? Precisamente nas obras científicas
dos economistas e suas funções maximizadoras, que
carregam em si uma antropologia completamente diversa da greco-cristã, supondo uma caricatura de homem que
remonta a Epicuro. E também no âmbito do Direito e
da Ciência Política, em que a visão de Locke e Kant (vale dizer, dos
estóicos) tomou conta. Burguês em estado puro. Borghesi também afirmou: “O
último elo das ideologias de Ora, a
guerra também é política por outros meios e mesmo em tempos de paz as
relações entre os atores sociais estão longe de serem “tranqüilas”. Essa afirmação do filósofo talvez expresse menos uma
análise do que um desejo sincero. Se Borghesi estiver certo ao dizer que a ideologia cega leva
à conclusão de que, “se não há mais
nada a que valha realmente a pena dedicar a vida, a única
coisa que resta é enriquecer e progredir sem escrúpulos”, o que fazer então se a crise que
chegou impuser um empobrecimento generalizado e incontrolado, nos moldes de 1929?
Vou lhe dizer, caro leitor: esses seguidores de
ideologias, que já não vêem nenhum sentido no viver, cairão na desesperança mais
radical. Um mundo assim vai se tornar demasiado perigoso, não apenas no plano
individual, mas sobretudo no plano político. Um
mundo assim fará gente como Hitler renascer. |
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