|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
HISTÓRIA DO CRISTIANISMO
CRISTO E
PAULO 31/12/2001 Acabei a leitura do livro do
Paul Johnson, História do Cristianismo,
(Ed. Imago, 2000) e resolvi escrever alguns artigos a partir dos grandes
temas sugeridos pelo mesmo, consolidando as reflexões que tenho feito de
longa data. Neste primeiro resolvi discutir a relação entre as personalidades
de Cristo e Paulo, o que significa discutir a origem da Igreja Cristã, bem
como as suas relações com o judaísmo. O segundo artigo que pretendo escrever
terá como tema a relação entre Paulo e Agostinho, o que significa também
discutir a relação entre o cristianismo e o Império Romano. O terceiro terá
como tema a Reforma, suas origens e conseqüências. E, finalmente, o quarto
artigo da série abordará o doloroso momento da Segunda Guerra Mundial, na
qual as Igrejas Cristãs, em sua maioria, tiveram uma vergonhosa ação, com as
exceções de regra. Significará também a discussão da relação das Igrejas com
os movimentos coletivistas totalitários, como o nazismo e o comunismo. Sintomaticamente, Paul Johnson
inicia sua narrativa com a personalidade de Paulo de Tarso, e não a de
Cristo, como seria de se esperar. E o momento é o Concílio de Jerusalém, por
volta de 49 d.C., ocasião em que a linha paulina – a
evangelização gentílica – definiu os rumos da nova fé, salvando-a de ser mais
uma seita judaica, que constelava em torno dos rituais do Templo de
Jerusalém, em nada diferindo das ramificações tradicionais do judaísmo. A
personalidade incandescente de Paulo, o judeu nascido de judeus, sua adesão
apaixonada à Verdade, solapou o movimento judaizante característico dos
primeiros cristãos que foram as testemunhas da vida e paixão de Cristo. Nesse
Concílio, que foi o primeiro ato político do cristianismo, ficou definido que
a Lei – e a circuncisão – só valeria para os nascidos judeus e não para os
não judeus. Com isso quebrou-se as amarras para que
o cristianismo viesse a se tornar uma religião universal, em contraposição ao
judaísmo, característicamente um credo nacional e,
como diz Johnson, mesmo uma religião municipal, na medida em que o espaço
sagrado era definido na época como sendo o Templo. Nas suas palavras: “Paulo é o primeiro cristão puro: o primeiro a compreender plenamente
o sistema de teologia de Jesus, a perceber a magnitude das mudanças que
incorporava, bem como a integralidade da ruptura com a lei judaica”
(página 49). O salto permitido pela
teologia paulina começa por dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, o
espaço sagrado passa a ser a alma do indivíduo e não mais um lugar
geográfico. E, em segundo lugar, a adesão ao novo credo perde a sua origem
racial e condição de nascimento para se caracterizar como uma adesão a ele de
livre e expontânea vontade do indivíduo consciente.
E, ainda uma novidade importante, Cristo viria a ser o último sacrificado,
tornando obsoleta toda a Lei, especialmente as prescrições de sacrifícios de
animais, em holocausto. Em substituição, ficou instituída a celebração da
última ceia, um simulacro de sacrifício ritual que
tornava a nova religião muito mais simpática aos gostos civilizados dos romanos
e dos sofisticados gregos. A idéia cristã, sublinhada por
Paulo, de que o Povo Escolhido será todo aquele que abraçar a promessa de
Cristo é absolutamente revolucionária, pois vai dar a dignidade e igualdade
de todos diante de Deus. Será a semente do fim das estruturas sociais
aristocráticas, bem como a semente da moderna sociedade aberta de que
desfrutamos, assim como o reconhecimento da igualdade jurídica e de
oportunidade de todos como a conhecemos no Ocidente judaico-cristão. E a liberdade cristã é sobretudo a liberdade interior, independentemente das
condições históricas. Um cristão é, simultaneamente, um revolucionário e um
conformista, na medida em que aceita como tal a ordem vigente, mas não cede
um milímetro nas suas convicções religiosas. É a condição para que indivíduos
diferenciados irrompam na História, em substituição às massas estupidificadas
pelos coletivos imperiais. Antes, verdadeiramente só poderiam ser
considerados indivíduos raros homens de Estado e filósofos. Com a nova religião,
até mesmo os simples poderiam sê-lo e a liberdade interior veio a ser a marca
da nova religião. O Reino de Cristo não é desse Mundo, de modo que nem mesmo
a morte poderia atemorizar os cristãos, prontos que estavam para o Juízo
Final. Então a separação completa
entre o indivíduo, de um lado, e o Estado, do outro, é um acontecimento novo.
O poder político desde então se estabeleceu como oposição aos indivíduos da
nova fé, mesmo quando esse poder veio a ser
controlado por cristãos. “Dai a César o que é de César” foi a sentença de Cristo que dessacralizou
completamente o poder político, tornando efêmeras e sem importâncias as
glorias do Mundo. O Reino cristão está no Além. Cristo é uma personalidade
cujo registro histórico é escasso. Sabemos muito mais de Paulo do que de
Cristo. Os relatos que sobreviveram estão marcados pela sua condição de Filho
de Deus, cobrindo com uma sombra o Jesus histórico. Em contrapartida, Paulo é
a personalidade melhor conhecida entre os primeiros cristãos, graças às suas
Epístolas, aos Atos dos Apóstolos, redigido por Lucas, e outras fontes
independentes. A doutrina teológica cristã
estava implícita nos ensinamentos de Jesus, conforme relatado nos Evangelhos.
Será Paulo quem sistematizará esses ensinamentos em uma prodigiosa teologia,
expressa de forma elegante e apaixonada nas Epístolas. Especialmente aquela
dirigida aos Romanos, a verdadeira certidão de nascimento da nova religião
(não podemos esquecer que a redação dos Evangelhos aconteceu em data
posterior, a partir da tradição oral). Sem Paulo certamente não haveria o
Cristianismo. Cristo é a sua condição de existência, o Filho de Deus feito
Homem, mas será Paulo, ao receber a missão do próprio Cristo, na visão a
caminho de Damasco, quem terá a responsabilidade de construir a nova Igreja. Talvez a história do
cristianismo tivesse sido outra se os romanos não tivessem destruído
Jerusalém em 70 d.C., pois a destruição englobou
também a Igreja daquela cidade, sendo o centro da nova fé transferido para
Roma, local onde viveram e foram sacrificados Pedro e Paulo no governo de
Nero. Roma passou a ser a sede da Igreja do Ocidente, mantendo a unidade até
a Reforma. PAULO E
AGOSTINHO 01/01/2002 Sei que ao
me propor fazer comentários, ainda que breves, sobre a temática religiosa, me
expus ao debate, que desde já digo que é bem vindo. Ao primeiro artigo
dessa série pude sentir o calor da argumentação em torno do tema, vindo de
pessoas de diversos credos religiosos. Recebi muitos e-mails e me propus a
responder a todos. Estou aberto ao debate franco. Apenas, como advertência,
gostaria de citar aqui um trecho do Prólogo do História
do Cristianismo, de Johnson, fazendo minhas as suas palavras: "Afinal, o cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar –
e, adequadamente compreendido, de fato o faz – que qualquer interferência à
verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um
historiador cristão que estabelece limites para o seu campo de investigação,
em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E,
naturalmente, também destruindo a natureza da sua religião, qual seja uma
revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, um cristão, a meu ver, não
deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com
efeito, é, positivamente, fadado a segui-la. De fato, ele deve ser mais livre
que o não-cristão, comprometido por princípio com sua própria rejeição". Os quase quatro séculos que
separam a ação de Paulo de Tarso da ação de Agostinho foi um período rico
para a expansão da nova fé em todo o Império Romano. É como se o mundo todo
estivesse pronto para receber a nova fé que pregava o Deus Único; é como se o
cristianismo tivesse sido moldado para suprir essa carência. Mas as leituras das verdades
cristãs a ser feitas pelo novos crentes poderiam ser
muito diversas, como de fato foram, na ausência de um clero organizado e de
uma igreja coercitiva. Era tudo que não queria Paulo; foi tudo que Agostinho
construiu. Embora o segundo obviamente tivesse se apoiado no primeiro,
decididamente a visão de ambos sobre a vivência da
fé diferia enormemente. Johnson não economiza elogios a Paulo e críticas a
Agostinho. Vejamos o trecho abaixo: "É verdade que os cristãos dispunham, agora, de um corpo doutrinário
homogêneo e extremamente viril: o evangelho paulino, ou kerygma. Ele
tinha uma boa chance de sobreviver e difundir-se. Mas não havia organização
por traz de si. Paulo não acreditava em tal coisa. Acreditava no Espírito,
operando por meio dele e de outros. Por que iria o homem regulamentar algo,
quando o Espírito agiria em seu lugar? E é evidente que ele não queria um
sistema fixo, com regras e proibições: ‘se vocês forem guiados pelo Espírito,
não estão submetidos à lei’. A Igreja era uma inversão da sociedade normal.
Seus líderes exerciam sua autoridade mediante dons de Espírito, não em
virtude do ofício. Os dois dons mais nobres eram a profecia e a pregação... O
controle clerical parecia dispensável e inadequado. O clima das igrejas
paulinas foi reproduzido em outros lugares, em um movimento de rápida
disseminação" (página 59). A religião de Paulo era de uma
total liberdade interior do indivíduo, sem qualquer intermediação entre ele e
Deus. A essa liberdade correspondia a escolha entre
a salvação e a danação eternas. É verdade que Paulo esperava a parusia ainda no seu tempo de vida e nisso ele se
enganou. Mas insistiu sempre na vigilância do homem de fé, para os sinais do
Espírito e a harmonia entre a fé e a ação no mundo. Seu cristianismo
pressupunha, pois, esse individualismo radical, com a respectiva liberdade e
responsabilidade de cada um. Fruto dessa visão, os
primeiros séculos de vida cristianismo foram ricos na geração de diferentes
seitas, muitas vezes antagônicas, que professavam o novo credo a partir de
Paulo. Algumas dessas seitas ficaram conhecidas como gnósticas,
e muitas vezes tinham uma visão errada e herética da verdade cristã. Muitas
vezes os ingredientes cristãos eram misturados a idéias nacionalistas de
povos subjugados por Roma, alimentando focos de revolução política, algo
bastante distante de Paulo e do próprio Cristo, mas muito perigoso para o
conjunto de todos os cristãos. As perseguições não tardaram a vir e o
martírio dos muitos também. O fato é que o cristianismo se
disseminou rapidamente em todo o Império Romano e, quando se tornou a
religião de Estado, já podia ser considerada a religião de uma boa maioria.
Foi um processo, por assim dizer, quase que natural a
absorção feita por Constantino do cristianismo como religião oficial do
Império. É nesse contexto que devemos
entender a personalidade de Agostinho e justificar, em parte, a sua maneira
de ser. Se as seitas gnósticas não tivessem sido
combatidas com rigor, é provável que a história contada fosse outra, seja em
termos de doutrina, seja em termos de perseguição, seja em termos de
consolidação do cristianismo como religião de massa. Jonhson
lamenta que muitos que foram acusados de heréticos não o eram, na verdade.
Seriam reformadores como Lutero e tudo que queriam era a vivência cristã nos
termos paulinos. A consolidação do cânon
oficial e reconhecido por todos foi um processo de luta que demorou.
Apareceram muitos escritos que foram recusados pela ortodoxia do Ocidente e
do Oriente e nesse processo de depuração muitos documentos religiosos
importante foram perdidos para sempre. Mesmo alguns livros, como o Apocalipse
de São João, hoje considerados inspirados, só a muito custo foram
introduzidos no cânon. Mas, uma vez que esse foi consolidado, serviu de guia
para o conjunto da cristandade. Foi um grande bem para a pacificação da
Igreja. Johnson afirma: "A
verdade é que , no decorrer das operações
anticristãs, em larga escala da segunda metade do século III, o Estado foi
forçado a admitir que seu inimigo mudara e tornara-se um aliado em potencial.
Na longa batalha pela supressão da clivagem interna, pela codificação de sua
doutrina e expansão de suas fronteiras, o cristianismo havia se tornado, sob
vários aspectos impressionantes, uma imagem do próprio império. Era católico,
universal, ecumênico, ordenado, internacional, multirracial e cada vez mais
legalista. Era administrado por uma classe profissional de eruditos que, sob
determinados aspectos, faziam as vezes de burocratas, e seus bispos, como
governadores imperiais, legados ou prefeitos, detinham amplos poderes
discricionários para interpretar a lei... Afinal, o cristianismo tinha se
tornado um fenômeno tão secular como espiritual: era uma imensa força para a
estabilidade, com suas próprias tradições, propriedades, interesses, e
hierarquia. Diferente do judaísmo, não possuía aspirações nacionais
incompatíveis com a segurança do império; pelo contrário, sua ideologia
servia às metas e necessidades do estado imperial" (páginas 93/94). E mais à frente: "No final do século IV, de
fato, a Igreja se tornara não apenas a religião predominante do império
romano, tendendo ser considerada a oficial, como, na verdade, era a única"
(página 125). E em que consistia a ortodoxia
cristã, a corrente que acabou vingando na conquista do Império Romano e na supremacia
sobre as demais correntes? O ponto crucial é a intermediação da fé entre o
crente e Deus pelo clero, que passou a ser o único intérprete das Escrituras.
Era exatamente o oposto da visão paulina. Outro ponto importante que emergirá
forte no período da Reforma é a discussão se a salvação se dá pela graça ou
pelas obras. É nesse contexto do triunfo da
ortodoxia e na absorção do império romano pelo cristianismo – e vice-versa –
que devemos compreender a figura de Agostinho. Johnson é muito duro e antipático
ao se referir a ele: "Agostinho foi o gênio das trevas do cristianismo
imperial, o ideólogo da aliança entre Igreja e Estado e o gerador da
mentalidade medieval. Depois de Paulo, que forneceu a teologia básica, ele
fez mais para moldar o cristianismo que qualquer outro ser humano"
(páginas 136/137). Mais à frente: "Em
Cidade de Deus, Agostinho já compara a vulnerável cidadela mundana com o
imperecível reino do cristianismo. O homem devia ter em vista o segundo; nada
se deveria esperar na terra. Sua última obra, inacabada, examinava a teodicéia e todo o problema do mal. Era tolice supor,
escreveu... que Deus fosse eqüitativo em sentido humano. Sua justiça era tão
inescrutável como qualquer outro aspecto de sua natureza. As idéias humanas
de eqüidade eram como ‘orvalho no deserto’. O sofrimento humano, merecido ou
não, só ocorria porque Deus estava zangado. ‘Esta vida, para os mortais, é a
ira de Deus. O mundo é o Inferno em pequena escala’... O homem, simplesmente,
tem que aprender a aceitar o sofrimento e a injustiça. Nada havia que pudesse
fazer quanto a qualquer um desses... Agostinho via a raça humana como
crianças indefesas. Remetia-se constantemente à imagem do bebê sendo
amamentado. A humanidade era profundamente dependente de Deus. A raça estava
prostrada e não havia possibilidade de que se erguesse por seus próprios
méritos. Esse era o pecado de orgulho – o pecado de Satanás. A postura da
humanidade devia ser de total humildade. Sua única esperança encontrava-se na
graça de Deus. Agostinho faz a ponte, portanto, entre o mundo clássico e a
passividade desesperançada da Idade Média. A mentalidade por ele expressa
tornar-se-ia a perspectiva preponderante do cristianismo e, como tal,
dominaria a sociedade européia por muitos séculos....
Até que ponto o pessimismo ! maniqueísta de Agostinho foi responsável por
esses tons sombrios do pensamento cristão é difícil de avaliar; sem dúvida,
se compararmos sua filosofia com a de Paulo, pode ver-se que Agostinho... foi
o heresiarca – o maior de todos, em termos de
influência... Adiara a construção da cidade perfeita para depois da parusia" (página 147) Aqui convém sublinhar a idéia
de Eric Voegelin de que o retardamento da parusia tenha colocado para os cristão
o desafio do governo desse mundo. As escrituras não traziam uma teologia
civil, no seu dizer, de modo que seria necessário criar uma, sob pena dos cristão não terem os meios para instituir uma ordem
necessária. É nesse contexto que Agostinho e sua obra têm que ser
compreendidos. Ele legou à cristandade a teologia civil necessária, uma
teoria e, portanto, os meios para governar a cidade dos homens. Nesse sentido, a visão de Jonhson não é de todo justa, embora seja precisa em suas linha gerais. Veremos no próximo artigo que
o debate renasce com todas as forças no período da Reforma. ERASMO E A
REFORMA 02/01/2002 Continuando a série de artigos
a partir dos temas extraídos do livro de Paul Johnson, História do
Cristianismo, será abordado neste a Reforma religiosa que explodiu no século
XVI. Como é bem o método de Johnson, ele sempre parte de personalidades
destacadas, sua biografia e sua psicologia, para construir o fio narrativo.
Para esse tema, sem dúvida o autor elegeu a figura de Erasmo de Roterdã como emblemática dos novos tempos, um fiel continuador da obra paulina e um adversário intelectual
de Agostinho. Contudo, para entrar no tema
antes é necessário contextualizar a formação do momento. Falar da Reforma é
também falar do Renascimento e de sua grande e revolucionária novidade, a
imprensa, mais precisamente as técnicas de impressão mecânica. A Terceira Força,
no dizer de Johnson. Com ela, não mais haverá como controlar os textos
sagrados, nem os clássicos, nem a difusão de conhecimento. O Imprimatur dos censores eclesiásticos passou a não
controlar mais coisa alguma, o que era facílimo nos tempos das cópias
manuscritas, de feitio lento e caro e inteiramente sob controle do clero. É
ela que vai plantar a semente do livre exame das Escrituras, quebrando o
monopólio clerical. Antes, convém
algumas poucas observações sobre o período medieval. A Idade Média foi um tempo em
que prevaleceu por toda a Europa o cristianismo total, que regulava a vida de
toda a sociedade, em todas as classes sociais. A Igreja Católica dividia o
poder com os reis e príncipes, estando o mesmo concentrado na esfera civil,
mas não há dúvida de que o clero, e sobretudo o
Papa, eram a autoridade moral. Ninguém conseguiria governar contra a Igreja. Foi também um momento em que a
Igreja contaminou-se pelas razões de Estado. Na verdade, o papado era uma
monarquia absolutista e espelhava o modelo de Estado reproduzido no meio
civil. O problema é que freqüentemente a Igreja, a partir da teologia civil
de Agostinho, era o próprio Estado, com todas as suas conseqüências. Os
horrores das caças aos hereges, às bruxas, aos judeus, o exercício da justiça
draconiana contra os inimigos e os homens simples teve a bênção e mesmo a
inspiração na Igreja. Foram tempos de injustiça e dor, mas também foram
tempos de grandes avanços. As ordens religiosas
revolucionam as técnicas agrícolas, sendo a Igreja e seus membros os
inovadores e os detentores do conhecimento que permitiram o grande salto na
oferta de alimentos, que viabilizou a expansão sem paralelo da população
européia, sem dúvida uma das condições e talvez a causa mais profunda do
advento dos tempos moderno. Johnson vai encontrar em
Agostinho a ideologia legitimadora para escorar a ação civil da Igreja, de
certa forma a fonte a legitimar o poder absolutista, que muitas vezes abusou
da tortura e das execuções sumárias. Não é uma página dignificante da nossa
história. Em paralelo, foi a Igreja a
depositária e a responsável pela preservação dos conhecimentos humanistas e
científicos. Praticamente nenhum homem de pensamento importante pôde
frutificar fora do abrigo da Igreja. Sem ela, certamente a Europa – e o
Ocidente como um todo – teria quebrado os elos culturais com a Antigüidade
clássica e a erudição judaico-cristã. O apogeu do poder de Estado
coincidiu com as formas mais abjetas de simonia no
seio da Igreja. As relíquias, algumas verdadeiras fraudes, serviram para
explorar a crendice popular e para extorquir recursos dos crédulos. A Igreja
passou a vender bênção e salvação, através de indulgências. O fato é que a
Igreja estava corrompida e todos os homens respeitáveis clamavam por
reformas, muito antes do século XVI. Se o papado tivesse tido a clarividência
e a humildade de conduzi-las, a história teria sido outra e a cristandade não
precisaria ter a sua unidade quebrada. Ao iniciar a narrativa desse
período, Johnson focaliza inicialmente a visita feita por John Colet, reitor da Escola de São Paulo e fundador da nova
escola de gramática, e Erasmo, ao Santuário de Cantuária,
na Inglaterra, por volta de 1512. O relato do autor é chocante: "Em seus últimos Colóquios, Erasmo deixou-nos um relato da visita e
seria difícil conceber um pequeno episódio mais pungente, às vésperas da
Reforma, que esse confronto entre o santuário do triunfalista
clerical martirizado e os dois mais convictos apóstolos do Novo Ensino. Os
dois eruditos eram homens pios e sua visita foi reverente. Contudo, o relato
de Erasmo deixa claro que ambos ficaram profundamente chocados com o que
viram. As riquezas que adornavam o santuário eram espantosas. Erasmo
considerou-as incongruentes, desproporcionais, tesouros ‘perante os quais
Midas e Creso teriam parecido mendigos’; trinta
anos depois, os agentes de Henrique VIII recolheriam,
dali, 140 quilos de ouro, 125 de folheado de prata, 150 de prata pura e 26
carroças de outros tesouros. Colet irritou o
sacristão que os acompanhava ao recusar-se a dar um beijo reverencial em uma
importante relíquia, o braço de São Jorge, e ao tratar um velho trapo
supostamente embebido no sangue de S. Tomás com um ‘assobio de desprezo’. A
três quilômetros da cidade, perto do asilo de pobres de Harbledown,
a impaciência do reitor com o ‘cristianismo mecânico’ foi submetida a mais um
teste quando um mendigo licenciado os aspergiu com água benta e ofereceu o
sapato de S. Tomás para que o beijassem: ‘será que esses tolos esperam que
beijemos os sapatos de todos os bons homens que já existiram?’, indagou,
furioso. ‘Por que não nos trazer seu cuspe e seus excrementos para que os
beijemos?’ Após esse encontro memorável, os dois homens retornaram a Londres"
(página 321). Homens como eles, e mais Pico
dela Mirândola, Marcilio Ficino, Lorenzo de Valla, e Johann Rauchilin, eruditos que
redescobriram os tesouros culturais guardados pelos bizantinos e judeus, em
grego e hebraico, foram os agentes da grande transformação que viria.
"Para Ficino, Platão, cujas obras fundamentais
agora se encontravam disponíveis no grego original, pertencia a um série de intérpretes do divino, que tinha início com
Zoroastro e passava por Hermes Trismegisto e
Pitágoras – uma sabedoria antiga que antevia e confirmava o cristianismo. Ao
mesmo tempo, todo o espectro da erudição hebraica, que se havia mantido
intocada na Espanha por séculos, foi disponibilizada para o Ocidente por Mirândola, que uniu a teosofia
cabalista judaica à cosmologia neoplatônica...
Assim, o Novo Ensino entrou em conflito, pela primeira vez, com a Igreja
estabelecida. Agora, os homens tinham condições de estudar os textos gregos e
hebraicos no original e compará-los com a versão recebida em latim, tratada
como sacrossanta pelo Ocidente por séculos... A mensagem do Novo Testamento
era, na verdade, a seguinte: um maior conhecimento é a ponte para uma verdade
espiritual mais pura. Ficino, Pico e Rauchlin defendiam a existência de uma religião, por
assim dizer, natural; a existência, por parte de experiências filosóficas e
religiosas diversas, de uma unidade. Ao longo dos séculos, os acréscimos
haviam obscurecido essa verdade: o Novo Ensino pretendia redescobri-la e
purificá-la" (páginas 322/323). Essa busca da verdade por meio
da crítica, a partir das novas descobertas, foi a
base do Renascimento e o ponto a partir do qual a reforma da Igreja tornou-se
um movimento irresistível. E, claro, a alavanca motora foi certamente o
surgimento das técnicas de impressão, que baratearam e abreviaram enormemente
o processo de produção de livros e outros materiais impressos. "A difusão de novos conhecimentos praticamente coincidiu com o
desenvolvimento técnico da imprensa. A coincidência assegurou a aceleração de
ambos" (página 323). Erasmo é fruto dessa nova era
de estudos e comunicações. Ele "tornou-se
um erudito de elevados padrões acadêmicos; era também um popularizador e
jornalista, que compreendia a importância da comunicação. Queria que seus
livros fossem pequenos, acessíveis e baratos e foi o primeiro escritor a
compreender todas as potencialidades da imprensa. Trabalhava com velocidade,
com freqüência na própria gráfica, escrevendo e corrigindo suas provas na
hora. O cheiro de tinta de impressão – o incenso da Reforma – o estimulava...
Na década de 1530, havia trezentas mil cópias de seu Novo Testamento grego em
circulação, e mais de 750 mil de suas outras obras. Era um grande fenômeno,
um best-seller mundial vivo" (página 326). Dois pontos são centrais no
movimento da Reforma, além dessa explosão de conhecimento permitido pela
imprensa e pela erudição. O primeiro é que a consolidação de uma grande
classe média, letrada e capaz de estudar independente da Igreja os textos
sagrados, enfraqueceu a autoridade eclesiástica mesmo em assuntos
estritamente religiosos. Essa classe média letrada era positivamente anticlerical. O segundo fator é a releitura das Epístolas
paulinas, especialmente aquela dirigida aos Romanos, em tudo e por tudo
contrária à Igreja enquanto instituição hierárquica e contra a simbiose entre
o poder civil e a religião. A combustão foi rápida e o incêndio
incontrolável. O Ocidente jamais seria o mesmo. Lutero e Calvino (e os demais
reformadores), os apóstolos do novo tempo, ao quebrarem a unidade da fé
cristã criaram também as condições para a emergência dos maiores horrores que
a humanidade já conheceu. Primeiro as guerras religiosas, depois as guerras
entre os Estados cristãos, que culminaram com as Grandes Guerras do século
XX. A história da Reforma é a história da intolerância. Erasmo anteviu isso
com toda clarividência: "Erasmo
era um pacifista. Não aceitava a doutrina da ‘guerra justa’. Se cada Estado
optasse por seu próprio tipo de religião, segundo os ditames do governante, a
guerra, pensava ele, seria inevitável’ (página 333).
É claro que essa postura de Erasmo quanto à "guerra justa" o
colocava em posição absolutamente antagônica a Agostinho. Um olhar sobre a história
européia e do cristianismo sugere que há uma evolução gradativa no processo
de consciência individual, ao preço de muito sofrimento e muita dor, a
começar pelo sacrifício do próprio Cristo Jesus. Desde então tem sido uma
luta constante de indivíduos isolados para manter a chama da consciência,
quase sempre em oposição aos poderes mundanos e muitas vezes com risco da
própria vida. O tempo da Reforma não foi diferente. Por trás das
controvérsias teológicas, via-se que na verdade acontecia o confronto entre o
poder coletivo dos Estados (e das Igrejas) com os indivíduos que ousaram
seguir o seu próprio caminho e ter as suas próprias convicções. Muitos foram
covarde e impiedosamente assassinados, às vezes anonimamente. Mas os
"restos de Israel" puderam sempre sobreviver. Veremos no próximo artigo que
durante a Segunda Guerra mundial esse eterno conflito entre César e Cristo
não mudou a sua qualidade, mas assumiu dimensões ciclópicas. O que consola a quem observa o
processo como um todo é que, no final, o Bem sempre triunfa sobre o Mal, Mal
esse que tem no poder de Estado a sua expressão mais acabada e a sua
ferramenta mais afiada para sacrificar os homens tocados pelo Espírito. TREVAS SOBRE
A TERRA 08/01/2002 Este artigo fecha a série que
me propus a escrever, a partir de temas extraídos da leitura do livro de Paul
Johnson, História do Cristianismo, e aborda o específico tema do papel das
igrejas cristãs durante o período que envolveu as duas grandes guerras
mundiais. Johnson conclui o livro
afirmando que o cristianismo público fundado por Agostinho desmoronou
lentamente, dando lugar a formas variadas de práticas privadas de religião,
desde antes da Reforma, mas acentuada por ela. As guerras mundiais estariam
diretamente vinculadas à derrocada do cristianismo público, que de alguma
forma havia enjaulado a besta humana. Já havíamos visto no artigo anterior
que a previsão de Erasmo sobre a união entre o poder civil e o poder
religioso, com o estabelecimento das igrejas nacionais pela Reforma,
infelizmente estava correta: o século XX, como de resto o tempo desde a
Reforma, só veio confirmar a previsão. A Primeira Guerra Mundial foi
caracteristicamente um conflito entre nações cristãs. O autor afirma, não sem
certa amargura: "Se o ano de 1914 foi um divisor de águas na história da monarquia e
da legitimidade, do privilégio e do capitalismo liberal, do imperialismo
ocidental e da supremacia da raça branca – se foi um prenúncio da destruição
de todas essas instituições – foi também um golpe devastador para a cristianismo. Por um lado, demonstrou a inutilidade do
tipo de ação defensiva conduzida por Pio X, já que a marcha da mudança
mostrou ser menos obra de acadêmicos conscienciosos que de imensas forças implacáveis,
além do controle de qualquer pontífice ou Santo Ofício. O mais nocivo, porém,
foi que a guerra chamou a atenção para o controle superficial que o
cristianismo parecia exercer sobre as paixões das multidões ou os atos de
seus governos. O cristianismo europeu, supostamente baseado em uma fundação
moral comum, mostrou não ser mais capaz que a rede de relacionamentos
matrimoniais entre as famílias reais de impedir o armagedon
ou de evitar que ele se degenerasse em genocídio mútuo. As divisões doutrinárias
e eclesiásticas do cristianismo, de história tão rica, debatidas e defendidas
com tamanho estrídulo, revelaram-se igualmente – se não mais – irrelevantes.
Todos os participantes declaravam estar matando em nome de princípios morais.
Na verdade, tinham objetivos puramente seculares. As crenças e afiliações
religiosas não tiveram participação alguma nos alinhamentos. De um lado
enfileiravam-se a Alemanha protestante, a Áustria católica, a Bulgária
ortodoxa e a Turquia muçulmana. Do outro, a Inglaterra protestante, a Itália
e a França católicas e a Rússia Ortodoxa" (página 580). Os religiosos, em sua maioria,
estabeleceram a equivalência entre cristianismo e patriotismo. "Soldados
cristãos de todas as denominações foram exortados a matar uns aos outros em
nome do seu Salvador. Alguns clérigos foram mais longe. A provisão da lei
canônica que proibia os sacerdotes de pegar em armas ou derramar sangue foi,
com efeito, suspensa, e cerca de setenta e nove mil padres e freiras
católicos foram mobilizados. Desses, só da França vinham quarenta e cinco
mil, e mais de cinco mil padres franceses foram mortos em combate"
(idem). Johnson, mais à frente, é
ainda mais contundente: "A
Primeira Guerra Mundial, uma guerra civil entre seitas cristãs, inaugurou um
período de tragédia e vergonha para o cristianismo. A guerra, assim como a
paz que se seguiu, demonstrou a fraqueza das igrejas; mas, pelo menos,
nenhuma delas identificou-se de modo positivo com o mal" (página
583). Isso não poderá ser dito com
respeito à Segunda Guerra Mundial. Talvez com a tocante exceção dos membros
alemães da seita Testemunhas de Jeová , que
preferiram o suplício e sacrifício à negação de suas crenças e convicções, e
também com as exceções individuais de elementos de todas as igrejas, podemos
dizer que esse conflito marcou o redondo fracasso do cristianismo
institucional e, porque não dizer, estatal. Terá sido talvez o seu ocaso. E
os pecados menores ficaram com a Igreja Católica, que se
acovardou diante de Hitler – a encarnação acabada do Anti-Cristo –
desde a Concordata assinada em 1933 até a olímpica inação diante da invasão
da Checoslováquia, que significava o sacrifício dos
católicos, e mesmo a vergonhosa partilha de um Estado católico como era a
Polônia. Pio XII errou na sua avaliação, ao não perceber que o projeto
nazista era infinitamente mais danoso do que o projeto comunista. Hitler
tinha como propósito final aniquilar os cristãos e não caberiam meias medidas para combatê-lo; não caberia a covardia; não
caberiam as razões de Estado – na suposta tese de que enfrentar Hitler
significaria a criação de uma igreja estatal alemã; não caberia a omissão
indecorosa e covarde diante do massacre de populações inocentes, como o
judeus, negando o mais caro princípio cristão da sacralidade
da vida; não caberiam a tolerância e o silêncio diante das afrontas
sistemáticas de Hitler e sua gang contra a religião e os religiosos,
especialmente os cristãos, a quem dedicavam um desprezo proverbial. Não, nada
disso caberia, mas foi assim que aconteceu. Pior. A Igreja Luterana alemã
chegou ao requinte de negar Cristo e colocar em seu lugar o Führer, em subserviente e vil rendição ao Inimigo: "Se o comportamento dos protestantes alemães parece inacreditável, é
preciso lembrar que eles não possuíam nenhuma tradição de antagonismo com
relação ao Estado. Não dispunham de nenhuma teologia dogmática ou moral para
um papel de oposição. Desde os tempos de Lutero, sempre estiveram a serviço
do Estado, e, de fato, sob diversos aspectos passaram a se ver como
funcionários públicos. Ao contrário da Alta Igreja anglicana, por exemplo,
não conseguiram desenvolver uma posição doutrinária que lhes permitisse diferenciar
o pertencimento a uma igreja nacional da total subserviência ao governo.
Assim, quando Hitler subiu ao poder, tiraram partido da história protestante.
Em 3 de abril de É um relato devastador. Alguém
poderia argumentar que era uma posição pessoal desses homens ímpios. Não era,
refletia a psicologia da maioria do povo. É essa a tragédia, que as igrejas
todas, que deveriam ser as guardiãs das coisas mais sagradas, renegaram a
Verdade e entronizaram a sua Negação. Por covardia, por cobiça, por
oportunismo, por medo, pelo poder. Seja motivado pelo que for,
todos esses homens contribuíram para que as trevas demoníacas dominassem a
Europa e ameaçassem toda a Terra. E, o mais grave, afirma
Johnson: "Nem a Igreja Evangélica nem a Igreja Católica condenou o
regime nazista". Por si só essa realidade já
deveria levar os cristãos de hoje, de qualquer credo, a um
reflexão sobre esse período dantesco da história. Não há dúvida que há
uma dupla causa para que a Europa cristã tivesse chegado a nível moral tal
abjeto. Primeiro, o fracionamento da igreja pública e, segundo, a sua conseqüência
mais nefasta, a submissão das igrejas (e do clero) ao poder de Estado. Será
que teria sido possível evitar isso? Duvido, é exercício inútil querer
imaginar a História a partir de "se isso ou aquilo". Mas não há
dúvida de que a postura do Ocidente em relação à questão religiosa, que
emergiu após o conflito, mostra que este partiu-se
em dois pólos distintos e opostos: de um lado, aqueles que voltaram-se às
raízes primitivas do cristianismo, a partir das Epístolas de Paulo e
construíram, por assim dizer, a sua religião pessoal e familiar, contra e a
despeito das igrejas "públicas", e, do outro, aqueles que adotaram
o materialismo puro e simples, niilista. Não
casualmente que as sociedades ocidentais passaram a ver a explosão das taras
mais gritantes, passando das drogas às práticas sexuais as mais bizarras, a
aceitação como normalidade daquilo que foi condenado desde sempre, a
desorientação do que venha a ser sagrado e profano, legítimo e ilegítimo,
moral e imoral, são e doentio. O
mundo virou de penas para o ar, profanando-se tudo que antes era considerado
sagrado. Perdeu-se o rumo. É notável que Johnson não
tenha palavras a dizer sobre o Brasil, nós que, ao contrário dos Europeus,
nem somos capazes das maiores virtudes e nem dos maiores crimes. Passamos ao
largo da sua História do Cristianismo e nem a prosperidade rápida das seitas
pentecostais e nem a amplitude do movimento animista representado pelo
espiritismo foi objeto da sua curiosidade acadêmica. Em suma, não somos
relevantes para a história mundial. Para ser justo, quero fechar
este escrito com uma citação de Johnson, que revela o seu amor à fé cristã e
sua esperança: "O relato sobre o cristianismo apresentado neste livro necessariamente
enfatizou seus pontos fracos e deficiências, bem como suas distorções
institucionais. Contudo, nós o avaliamos em relação às suas próprias
proposições estupendas e seu idealismo sem precedentes. Como um exercício de perfeccionismo, o cristianismo não pode ser bem sucedido,
nem por suas definições internas; o que ele está pronto para fazer é
estabelecer metas e padrões, elevar aspirações, educar, estimular e inspirar.
Sua força reside na avaliação justa do homem como criatura falível, que
anseia pela imortalidade. Seu mérito moral notável está em investir o indivíduo
de uma consciência e lhe ordenar que a siga. Era dessa forma específica de
libertação que São Paulo estava falando ao referir-se à liberdade que os
homens encontram em Cristo. E, naturalmente, é a mãe de todas as demais
liberdades. Afinal, a consciência é inimiga da tirania e da sociedade
compulsória; e foi a consciência cristã que destruiu as tiranias
institucionais criadas pelo próprio cristianismo – o mecanismo autocorretivo em ação. Os conceitos de liberdade
econômica e política são derivados do funcionamento da consciência cristã
como força histórica; não é, pois, por acaso que todas as implementações
de liberdade, no mundo inteiro, tenham, em última instância, uma origem
cristã" (página 628). |
|