NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

CRISTO E PAULO

31/12/2001

 

Acabei a leitura do livro do Paul Johnson, História do Cristianismo, (Ed. Imago, 2000) e resolvi escrever alguns artigos a partir dos grandes temas sugeridos pelo mesmo, consolidando as reflexões que tenho feito de longa data. Neste primeiro resolvi discutir a relação entre as personalidades de Cristo e Paulo, o que significa discutir a origem da Igreja Cristã, bem como as suas relações com o judaísmo. O segundo artigo que pretendo escrever terá como tema a relação entre Paulo e Agostinho, o que significa também discutir a relação entre o cristianismo e o Império Romano. O terceiro terá como tema a Reforma, suas origens e conseqüências. E, finalmente, o quarto artigo da série abordará o doloroso momento da Segunda Guerra Mundial, na qual as Igrejas Cristãs, em sua maioria, tiveram uma vergonhosa ação, com as exceções de regra. Significará também a discussão da relação das Igrejas com os movimentos coletivistas totalitários, como o nazismo e o comunismo.

 

Sintomaticamente, Paul Johnson inicia sua narrativa com a personalidade de Paulo de Tarso, e não a de Cristo, como seria de se esperar. E o momento é o Concílio de Jerusalém, por volta de 49 d.C., ocasião em que a linha paulina – a evangelização gentílica – definiu os rumos da nova fé, salvando-a de ser mais uma seita judaica, que constelava em torno dos rituais do Templo de Jerusalém, em nada diferindo das ramificações tradicionais do judaísmo. A personalidade incandescente de Paulo, o judeu nascido de judeus, sua adesão apaixonada à Verdade, solapou o movimento judaizante característico dos primeiros cristãos que foram as testemunhas da vida e paixão de Cristo. Nesse Concílio, que foi o primeiro ato político do cristianismo, ficou definido que a Lei – e a circuncisão – só valeria para os nascidos judeus e não para os não judeus. Com isso quebrou-se as amarras para que o cristianismo viesse a se tornar uma religião universal, em contraposição ao judaísmo, característicamente um credo nacional e, como diz Johnson, mesmo uma religião municipal, na medida em que o espaço sagrado era definido na época como sendo o Templo. Nas suas palavras:

 

Paulo é o primeiro cristão puro: o primeiro a compreender plenamente o sistema de teologia de Jesus, a perceber a magnitude das mudanças que incorporava, bem como a integralidade da ruptura com a lei judaica” (página 49).

 

O salto permitido pela teologia paulina começa por dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, o espaço sagrado passa a ser a alma do indivíduo e não mais um lugar geográfico. E, em segundo lugar, a adesão ao novo credo perde a sua origem racial e condição de nascimento para se caracterizar como uma adesão a ele de livre e expontânea vontade do indivíduo consciente. E, ainda uma novidade importante, Cristo viria a ser o último sacrificado, tornando obsoleta toda a Lei, especialmente as prescrições de sacrifícios de animais, em holocausto. Em substituição, ficou instituída a celebração da última ceia, um simulacro de sacrifício ritual que tornava a nova religião muito mais simpática aos gostos civilizados dos romanos e dos sofisticados gregos.

 

A idéia cristã, sublinhada por Paulo, de que o Povo Escolhido será todo aquele que abraçar a promessa de Cristo é absolutamente revolucionária, pois vai dar a dignidade e igualdade de todos diante de Deus. Será a semente do fim das estruturas sociais aristocráticas, bem como a semente da moderna sociedade aberta de que desfrutamos, assim como o reconhecimento da igualdade jurídica e de oportunidade de todos como a conhecemos no Ocidente judaico-cristão.

 

E a liberdade cristã é sobretudo a liberdade interior, independentemente das condições históricas. Um cristão é, simultaneamente, um revolucionário e um conformista, na medida em que aceita como tal a ordem vigente, mas não cede um milímetro nas suas convicções religiosas. É a condição para que indivíduos diferenciados irrompam na História, em substituição às massas estupidificadas pelos coletivos imperiais. Antes, verdadeiramente só poderiam ser considerados indivíduos raros homens de Estado e filósofos. Com a nova religião, até mesmo os simples poderiam sê-lo e a liberdade interior veio a ser a marca da nova religião. O Reino de Cristo não é desse Mundo, de modo que nem mesmo a morte poderia atemorizar os cristãos, prontos que estavam para o Juízo Final. 

 

Então a separação completa entre o indivíduo, de um lado, e o Estado, do outro, é um acontecimento novo. O poder político desde então se estabeleceu como oposição aos indivíduos da nova fé, mesmo quando esse poder veio a ser controlado por cristãos. “Dai a César o que é de César” foi a sentença de Cristo que dessacralizou completamente o poder político, tornando efêmeras e sem importâncias as glorias do Mundo. O Reino cristão está no Além.

 

Cristo é uma personalidade cujo registro histórico é escasso. Sabemos muito mais de Paulo do que de Cristo. Os relatos que sobreviveram estão marcados pela sua condição de Filho de Deus, cobrindo com uma sombra o Jesus histórico. Em contrapartida, Paulo é a personalidade melhor conhecida entre os primeiros cristãos, graças às suas Epístolas, aos Atos dos Apóstolos, redigido por Lucas, e outras fontes independentes.

 

A doutrina teológica cristã estava implícita nos ensinamentos de Jesus, conforme relatado nos Evangelhos. Será Paulo quem sistematizará esses ensinamentos em uma prodigiosa teologia, expressa de forma elegante e apaixonada nas Epístolas. Especialmente aquela dirigida aos Romanos, a verdadeira certidão de nascimento da nova religião (não podemos esquecer que a redação dos Evangelhos aconteceu em data posterior, a partir da tradição oral). Sem Paulo certamente não haveria o Cristianismo. Cristo é a sua condição de existência, o Filho de Deus feito Homem, mas será Paulo, ao receber a missão do próprio Cristo, na visão a caminho de Damasco, quem terá a responsabilidade de construir a nova Igreja.

 

Talvez a história do cristianismo tivesse sido outra se os romanos não tivessem destruído Jerusalém em 70 d.C., pois a destruição englobou também a Igreja daquela cidade, sendo o centro da nova fé transferido para Roma, local onde viveram e foram sacrificados Pedro e Paulo no governo de Nero. Roma passou a ser a sede da Igreja do Ocidente, mantendo a unidade até a Reforma.

 

 

PAULO E AGOSTINHO

01/01/2002

 

Sei que ao me propor fazer comentários, ainda que breves, sobre a temática religiosa, me expus ao debate, que desde já digo que é bem vindo. Ao primeiro artigo dessa série pude sentir o calor da argumentação em torno do tema, vindo de pessoas de diversos credos religiosos. Recebi muitos e-mails e me propus a responder a todos. Estou aberto ao debate franco.

 

Apenas, como advertência, gostaria de citar aqui um trecho do Prólogo do História do Cristianismo, de Johnson, fazendo minhas as suas palavras:

 

"Afinal, o cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar – e, adequadamente compreendido, de fato o faz – que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o seu campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E, naturalmente, também destruindo a natureza da sua religião, qual seja uma revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, um cristão, a meu ver, não deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com efeito, é, positivamente, fadado a segui-la. De fato, ele deve ser mais livre que o não-cristão, comprometido por princípio com sua própria rejeição".

 

Os quase quatro séculos que separam a ação de Paulo de Tarso da ação de Agostinho foi um período rico para a expansão da nova fé em todo o Império Romano. É como se o mundo todo estivesse pronto para receber a nova fé que pregava o Deus Único; é como se o cristianismo tivesse sido moldado para suprir essa carência.

 

Mas as leituras das verdades cristãs a ser feitas pelo novos crentes poderiam ser muito diversas, como de fato foram, na ausência de um clero organizado e de uma igreja coercitiva. Era tudo que não queria Paulo; foi tudo que Agostinho construiu. Embora o segundo obviamente tivesse se apoiado no primeiro, decididamente a visão de ambos sobre a vivência da fé diferia enormemente. Johnson não economiza elogios a Paulo e críticas a Agostinho. Vejamos o trecho abaixo:

 

"É verdade que os cristãos dispunham, agora, de um corpo doutrinário homogêneo e extremamente viril: o evangelho paulino, ou kerygma. Ele tinha uma boa chance de sobreviver e difundir-se. Mas não havia organização por traz de si. Paulo não acreditava em tal coisa. Acreditava no Espírito, operando por meio dele e de outros. Por que iria o homem regulamentar algo, quando o Espírito agiria em seu lugar? E é evidente que ele não queria um sistema fixo, com regras e proibições: ‘se vocês forem guiados pelo Espírito, não estão submetidos à lei’. A Igreja era uma inversão da sociedade normal. Seus líderes exerciam sua autoridade mediante dons de Espírito, não em virtude do ofício. Os dois dons mais nobres eram a profecia e a pregação... O controle clerical parecia dispensável e inadequado. O clima das igrejas paulinas foi reproduzido em outros lugares, em um movimento de rápida disseminação" (página 59).

 

A religião de Paulo era de uma total liberdade interior do indivíduo, sem qualquer intermediação entre ele e Deus. A essa liberdade correspondia a escolha entre a salvação e a danação eternas. É verdade que Paulo esperava a parusia ainda no seu tempo de vida e nisso ele se enganou. Mas insistiu sempre na vigilância do homem de fé, para os sinais do Espírito e a harmonia entre a fé e a ação no mundo. Seu cristianismo pressupunha, pois, esse individualismo radical, com a respectiva liberdade e responsabilidade de cada um.

 

Fruto dessa visão, os primeiros séculos de vida cristianismo foram ricos na geração de diferentes seitas, muitas vezes antagônicas, que professavam o novo credo a partir de Paulo. Algumas dessas seitas ficaram conhecidas como gnósticas, e muitas vezes tinham uma visão errada e herética da verdade cristã. Muitas vezes os ingredientes cristãos eram misturados a idéias nacionalistas de povos subjugados por Roma, alimentando focos de revolução política, algo bastante distante de Paulo e do próprio Cristo, mas muito perigoso para o conjunto de todos os cristãos. As perseguições não tardaram a vir e o martírio dos muitos também.

 

O fato é que o cristianismo se disseminou rapidamente em todo o Império Romano e, quando se tornou a religião de Estado, já podia ser considerada a religião de uma boa maioria. Foi um processo, por assim dizer, quase que natural a absorção feita por Constantino do cristianismo como religião oficial do Império.

 

É nesse contexto que devemos entender a personalidade de Agostinho e justificar, em parte, a sua maneira de ser. Se as seitas gnósticas não tivessem sido combatidas com rigor, é provável que a história contada fosse outra, seja em termos de doutrina, seja em termos de perseguição, seja em termos de consolidação do cristianismo como religião de massa. Jonhson lamenta que muitos que foram acusados de heréticos não o eram, na verdade. Seriam reformadores como Lutero e tudo que queriam era a vivência cristã nos termos paulinos.

 

A consolidação do cânon oficial e reconhecido por todos foi um processo de luta que demorou. Apareceram muitos escritos que foram recusados pela ortodoxia do Ocidente e do Oriente e nesse processo de depuração muitos documentos religiosos importante foram perdidos para sempre. Mesmo alguns livros, como o Apocalipse de São João, hoje considerados inspirados, só a muito custo foram introduzidos no cânon. Mas, uma vez que esse foi consolidado, serviu de guia para o conjunto da cristandade. Foi um grande bem para a pacificação da Igreja.

 

Johnson afirma: "A verdade é que , no decorrer das operações anticristãs, em larga escala da segunda metade do século III, o Estado foi forçado a admitir que seu inimigo mudara e tornara-se um aliado em potencial. Na longa batalha pela supressão da clivagem interna, pela codificação de sua doutrina e expansão de suas fronteiras, o cristianismo havia se tornado, sob vários aspectos impressionantes, uma imagem do próprio império. Era católico, universal, ecumênico, ordenado, internacional, multirracial e cada vez mais legalista. Era administrado por uma classe profissional de eruditos que, sob determinados aspectos, faziam as vezes de burocratas, e seus bispos, como governadores imperiais, legados ou prefeitos, detinham amplos poderes discricionários para interpretar a lei... Afinal, o cristianismo tinha se tornado um fenômeno tão secular como espiritual: era uma imensa força para a estabilidade, com suas próprias tradições, propriedades, interesses, e hierarquia. Diferente do judaísmo, não possuía aspirações nacionais incompatíveis com a segurança do império; pelo contrário, sua ideologia servia às metas e necessidades do estado imperial" (páginas 93/94).

 

E mais à frente:

 

"No final do século IV, de fato, a Igreja se tornara não apenas a religião predominante do império romano, tendendo ser considerada a oficial, como, na verdade, era a única" (página 125).

 

E em que consistia a ortodoxia cristã, a corrente que acabou vingando na conquista do Império Romano e na supremacia sobre as demais correntes? O ponto crucial é a intermediação da fé entre o crente e Deus pelo clero, que passou a ser o único intérprete das Escrituras. Era exatamente o oposto da visão paulina. Outro ponto importante que emergirá forte no período da Reforma é a discussão se a salvação se dá pela graça ou pelas obras.

 

É nesse contexto do triunfo da ortodoxia e na absorção do império romano pelo cristianismo – e vice-versa – que devemos compreender a figura de Agostinho. Johnson é muito duro e antipático ao se referir a ele: "Agostinho foi o gênio das trevas do cristianismo imperial, o ideólogo da aliança entre Igreja e Estado e o gerador da mentalidade medieval. Depois de Paulo, que forneceu a teologia básica, ele fez mais para moldar o cristianismo que qualquer outro ser humano" (páginas 136/137). Mais à frente: "Em Cidade de Deus, Agostinho já compara a vulnerável cidadela mundana com o imperecível reino do cristianismo. O homem devia ter em vista o segundo; nada se deveria esperar na terra. Sua última obra, inacabada, examinava a teodicéia e todo o problema do mal. Era tolice supor, escreveu... que Deus fosse eqüitativo em sentido humano. Sua justiça era tão inescrutável como qualquer outro aspecto de sua natureza. As idéias humanas de eqüidade eram como ‘orvalho no deserto’. O sofrimento humano, merecido ou não, só ocorria porque Deus estava zangado. ‘Esta vida, para os mortais, é a ira de Deus. O mundo é o Inferno em pequena escala’... O homem, simplesmente, tem que aprender a aceitar o sofrimento e a injustiça. Nada havia que pudesse fazer quanto a qualquer um desses... Agostinho via a raça humana como crianças indefesas. Remetia-se constantemente à imagem do bebê sendo amamentado. A humanidade era profundamente dependente de Deus. A raça estava prostrada e não havia possibilidade de que se erguesse por seus próprios méritos. Esse era o pecado de orgulho – o pecado de Satanás. A postura da humanidade devia ser de total humildade. Sua única esperança encontrava-se na graça de Deus. Agostinho faz a ponte, portanto, entre o mundo clássico e a passividade desesperançada da Idade Média. A mentalidade por ele expressa tornar-se-ia a perspectiva preponderante do cristianismo e, como tal, dominaria a sociedade européia por muitos séculos.... Até que ponto o pessimismo ! maniqueísta de Agostinho foi responsável por esses tons sombrios do pensamento cristão é difícil de avaliar; sem dúvida, se compararmos sua filosofia com a de Paulo, pode ver-se que Agostinho... foi o heresiarca – o maior de todos, em termos de influência... Adiara a construção da cidade perfeita para depois da parusia" (página 147)

 

Aqui convém sublinhar a idéia de Eric Voegelin de que o retardamento da parusia tenha colocado para os cristão o desafio do governo desse mundo. As escrituras não traziam uma teologia civil, no seu dizer, de modo que seria necessário criar uma, sob pena dos cristão não terem os meios para instituir uma ordem necessária. É nesse contexto que Agostinho e sua obra têm que ser compreendidos. Ele legou à cristandade a teologia civil necessária, uma teoria e, portanto, os meios para governar a cidade dos homens.

 

Nesse sentido, a visão de Jonhson não é de todo justa, embora seja precisa em suas linha gerais.

 

Veremos no próximo artigo que o debate renasce com todas as forças no período da Reforma.

 

 

ERASMO E A REFORMA

02/01/2002

 

 

Continuando a série de artigos a partir dos temas extraídos do livro de Paul Johnson, História do Cristianismo, será abordado neste a Reforma religiosa que explodiu no século XVI. Como é bem o método de Johnson, ele sempre parte de personalidades destacadas, sua biografia e sua psicologia, para construir o fio narrativo. Para esse tema, sem dúvida o autor elegeu a figura de Erasmo de Roterdã como emblemática dos novos tempos, um fiel continuador da obra paulina e um adversário intelectual de Agostinho.

 

Contudo, para entrar no tema antes é necessário contextualizar a formação do momento. Falar da Reforma é também falar do Renascimento e de sua grande e revolucionária novidade, a imprensa, mais precisamente as técnicas de impressão mecânica. A Terceira Força, no dizer de Johnson. Com ela, não mais haverá como controlar os textos sagrados, nem os clássicos, nem a difusão de conhecimento. O Imprimatur dos censores eclesiásticos passou a não controlar mais coisa alguma, o que era facílimo nos tempos das cópias manuscritas, de feitio lento e caro e inteiramente sob controle do clero. É ela que vai plantar a semente do livre exame das Escrituras, quebrando o monopólio clerical.

 

Antes, convém algumas poucas observações sobre o período medieval.

 

A Idade Média foi um tempo em que prevaleceu por toda a Europa o cristianismo total, que regulava a vida de toda a sociedade, em todas as classes sociais. A Igreja Católica dividia o poder com os reis e príncipes, estando o mesmo concentrado na esfera civil, mas não há dúvida de que o clero, e sobretudo o Papa, eram a autoridade moral. Ninguém conseguiria governar contra a Igreja.

 

Foi também um momento em que a Igreja contaminou-se pelas razões de Estado. Na verdade, o papado era uma monarquia absolutista e espelhava o modelo de Estado reproduzido no meio civil. O problema é que freqüentemente a Igreja, a partir da teologia civil de Agostinho, era o próprio Estado, com todas as suas conseqüências. Os horrores das caças aos hereges, às bruxas, aos judeus, o exercício da justiça draconiana contra os inimigos e os homens simples teve a bênção e mesmo a inspiração na Igreja. Foram tempos de injustiça e dor, mas também foram tempos de grandes avanços. As ordens religiosas revolucionam as técnicas agrícolas, sendo a Igreja e seus membros os inovadores e os detentores do conhecimento que permitiram o grande salto na oferta de alimentos, que viabilizou a expansão sem paralelo da população européia, sem dúvida uma das condições e talvez a causa mais profunda do advento dos tempos moderno.

 

Johnson vai encontrar em Agostinho a ideologia legitimadora para escorar a ação civil da Igreja, de certa forma a fonte a legitimar o poder absolutista, que muitas vezes abusou da tortura e das execuções sumárias. Não é uma página dignificante da nossa história.

 

Em paralelo, foi a Igreja a depositária e a responsável pela preservação dos conhecimentos humanistas e científicos. Praticamente nenhum homem de pensamento importante pôde frutificar fora do abrigo da Igreja. Sem ela, certamente a Europa – e o Ocidente como um todo – teria quebrado os elos culturais com a Antigüidade clássica e a erudição judaico-cristã.

 

O apogeu do poder de Estado coincidiu com as formas mais abjetas de simonia no seio da Igreja. As relíquias, algumas verdadeiras fraudes, serviram para explorar a crendice popular e para extorquir recursos dos crédulos. A Igreja passou a vender bênção e salvação, através de indulgências. O fato é que a Igreja estava corrompida e todos os homens respeitáveis clamavam por reformas, muito antes do século XVI. Se o papado tivesse tido a clarividência e a humildade de conduzi-las, a história teria sido outra e a cristandade não precisaria ter a sua unidade quebrada.

 

Ao iniciar a narrativa desse período, Johnson focaliza inicialmente a visita feita por John Colet, reitor da Escola de São Paulo e fundador da nova escola de gramática, e Erasmo, ao Santuário de Cantuária, na Inglaterra, por volta de 1512. O relato do autor é chocante:

 

"Em seus últimos Colóquios, Erasmo deixou-nos um relato da visita e seria difícil conceber um pequeno episódio mais pungente, às vésperas da Reforma, que esse confronto entre o santuário do triunfalista clerical martirizado e os dois mais convictos apóstolos do Novo Ensino. Os dois eruditos eram homens pios e sua visita foi reverente. Contudo, o relato de Erasmo deixa claro que ambos ficaram profundamente chocados com o que viram. As riquezas que adornavam o santuário eram espantosas. Erasmo considerou-as incongruentes, desproporcionais, tesouros ‘perante os quais Midas e Creso teriam parecido mendigos’; trinta anos depois, os agentes de Henrique VIII recolheriam, dali, 140 quilos de ouro, 125 de folheado de prata, 150 de prata pura e 26 carroças de outros tesouros. Colet irritou o sacristão que os acompanhava ao recusar-se a dar um beijo reverencial em uma importante relíquia, o braço de São Jorge, e ao tratar um velho trapo supostamente embebido no sangue de S. Tomás com um ‘assobio de desprezo’. A três quilômetros da cidade, perto do asilo de pobres de Harbledown, a impaciência do reitor com o ‘cristianismo mecânico’ foi submetida a mais um teste quando um mendigo licenciado os aspergiu com água benta e ofereceu o sapato de S. Tomás para que o beijassem: ‘será que esses tolos esperam que beijemos os sapatos de todos os bons homens que já existiram?’, indagou, furioso. ‘Por que não nos trazer seu cuspe e seus excrementos para que os beijemos?’ Após esse encontro memorável, os dois homens retornaram a Londres" (página 321).

 

Homens como eles, e mais Pico dela Mirândola, Marcilio Ficino, Lorenzo de Valla, e Johann Rauchilin, eruditos que redescobriram os tesouros culturais guardados pelos bizantinos e judeus, em grego e hebraico, foram os agentes da grande transformação que viria. "Para Ficino, Platão, cujas obras fundamentais agora se encontravam disponíveis no grego original, pertencia a um série de intérpretes do divino, que tinha início com Zoroastro e passava por Hermes Trismegisto e Pitágoras – uma sabedoria antiga que antevia e confirmava o cristianismo. Ao mesmo tempo, todo o espectro da erudição hebraica, que se havia mantido intocada na Espanha por séculos, foi disponibilizada para o Ocidente por Mirândola, que uniu a teosofia cabalista judaica à cosmologia neoplatônica... Assim, o Novo Ensino entrou em conflito, pela primeira vez, com a Igreja estabelecida. Agora, os homens tinham condições de estudar os textos gregos e hebraicos no original e compará-los com a versão recebida em latim, tratada como sacrossanta pelo Ocidente por séculos... A mensagem do Novo Testamento era, na verdade, a seguinte: um maior conhecimento é a ponte para uma verdade espiritual mais pura. Ficino, Pico e Rauchlin defendiam a existência de uma religião, por assim dizer, natural; a existência, por parte de experiências filosóficas e religiosas diversas, de uma unidade. Ao longo dos séculos, os acréscimos haviam obscurecido essa verdade: o Novo Ensino pretendia redescobri-la e purificá-la" (páginas 322/323).

 

Essa busca da verdade por meio da crítica, a partir das novas descobertas, foi a base do Renascimento e o ponto a partir do qual a reforma da Igreja tornou-se um movimento irresistível. E, claro, a alavanca motora foi certamente o surgimento das técnicas de impressão, que baratearam e abreviaram enormemente o processo de produção de livros e outros materiais impressos.

 

"A difusão de novos conhecimentos praticamente coincidiu com o desenvolvimento técnico da imprensa. A coincidência assegurou a aceleração de ambos" (página 323).

 

Erasmo é fruto dessa nova era de estudos e comunicações. Ele "tornou-se um erudito de elevados padrões acadêmicos; era também um popularizador e jornalista, que compreendia a importância da comunicação. Queria que seus livros fossem pequenos, acessíveis e baratos e foi o primeiro escritor a compreender todas as potencialidades da imprensa. Trabalhava com velocidade, com freqüência na própria gráfica, escrevendo e corrigindo suas provas na hora. O cheiro de tinta de impressão – o incenso da Reforma – o estimulava... Na década de 1530, havia trezentas mil cópias de seu Novo Testamento grego em circulação, e mais de 750 mil de suas outras obras. Era um grande fenômeno, um best-seller mundial vivo" (página 326).

 

Dois pontos são centrais no movimento da Reforma, além dessa explosão de conhecimento permitido pela imprensa e pela erudição. O primeiro é que a consolidação de uma grande classe média, letrada e capaz de estudar independente da Igreja os textos sagrados, enfraqueceu a autoridade eclesiástica mesmo em assuntos estritamente religiosos. Essa classe média letrada era positivamente anticlerical. O segundo fator é a releitura das Epístolas paulinas, especialmente aquela dirigida aos Romanos, em tudo e por tudo contrária à Igreja enquanto instituição hierárquica e contra a simbiose entre o poder civil e a religião. A combustão foi rápida e o incêndio incontrolável. O Ocidente jamais seria o mesmo.

 

Lutero e Calvino (e os demais reformadores), os apóstolos do novo tempo, ao quebrarem a unidade da fé cristã criaram também as condições para a emergência dos maiores horrores que a humanidade já conheceu. Primeiro as guerras religiosas, depois as guerras entre os Estados cristãos, que culminaram com as Grandes Guerras do século XX. A história da Reforma é a história da intolerância. Erasmo anteviu isso com toda clarividência: "Erasmo era um pacifista. Não aceitava a doutrina da ‘guerra justa’. Se cada Estado optasse por seu próprio tipo de religião, segundo os ditames do governante, a guerra, pensava ele, seria inevitável’ (página 333). É claro que essa postura de Erasmo quanto à "guerra justa" o colocava em posição absolutamente antagônica a Agostinho.

 

 

Um olhar sobre a história européia e do cristianismo sugere que há uma evolução gradativa no processo de consciência individual, ao preço de muito sofrimento e muita dor, a começar pelo sacrifício do próprio Cristo Jesus. Desde então tem sido uma luta constante de indivíduos isolados para manter a chama da consciência, quase sempre em oposição aos poderes mundanos e muitas vezes com risco da própria vida. O tempo da Reforma não foi diferente. Por trás das controvérsias teológicas, via-se que na verdade acontecia o confronto entre o poder coletivo dos Estados (e das Igrejas) com os indivíduos que ousaram seguir o seu próprio caminho e ter as suas próprias convicções. Muitos foram covarde e impiedosamente assassinados, às vezes anonimamente. Mas os "restos de Israel" puderam sempre sobreviver.

 

Veremos no próximo artigo que durante a Segunda Guerra mundial esse eterno conflito entre César e Cristo não mudou a sua qualidade, mas assumiu dimensões ciclópicas.

 

O que consola a quem observa o processo como um todo é que, no final, o Bem sempre triunfa sobre o Mal, Mal esse que tem no poder de Estado a sua expressão mais acabada e a sua ferramenta mais afiada para sacrificar os homens tocados pelo Espírito.

 

 

TREVAS SOBRE A TERRA

08/01/2002

 

Este artigo fecha a série que me propus a escrever, a partir de temas extraídos da leitura do livro de Paul Johnson, História do Cristianismo, e aborda o específico tema do papel das igrejas cristãs durante o período que envolveu as duas grandes guerras mundiais.

 

Johnson conclui o livro afirmando que o cristianismo público fundado por Agostinho desmoronou lentamente, dando lugar a formas variadas de práticas privadas de religião, desde antes da Reforma, mas acentuada por ela. As guerras mundiais estariam diretamente vinculadas à derrocada do cristianismo público, que de alguma forma havia enjaulado a besta humana. Já havíamos visto no artigo anterior que a previsão de Erasmo sobre a união entre o poder civil e o poder religioso, com o estabelecimento das igrejas nacionais pela Reforma, infelizmente estava correta: o século XX, como de resto o tempo desde a Reforma, só veio confirmar a previsão.

 

A Primeira Guerra Mundial foi caracteristicamente um conflito entre nações cristãs. O autor afirma, não sem certa amargura:

 

"Se o ano de 1914 foi um divisor de águas na história da monarquia e da legitimidade, do privilégio e do capitalismo liberal, do imperialismo ocidental e da supremacia da raça branca – se foi um prenúncio da destruição de todas essas instituições – foi também um golpe devastador para a cristianismo. Por um lado, demonstrou a inutilidade do tipo de ação defensiva conduzida por Pio X, já que a marcha da mudança mostrou ser menos obra de acadêmicos conscienciosos que de imensas forças implacáveis, além do controle de qualquer pontífice ou Santo Ofício. O mais nocivo, porém, foi que a guerra chamou a atenção para o controle superficial que o cristianismo parecia exercer sobre as paixões das multidões ou os atos de seus governos. O cristianismo europeu, supostamente baseado em uma fundação moral comum, mostrou não ser mais capaz que a rede de relacionamentos matrimoniais entre as famílias reais de impedir o armagedon ou de evitar que ele se degenerasse em genocídio mútuo. As divisões doutrinárias e eclesiásticas do cristianismo, de história tão rica, debatidas e defendidas com tamanho estrídulo, revelaram-se igualmente – se não mais – irrelevantes. Todos os participantes declaravam estar matando em nome de princípios morais. Na verdade, tinham objetivos puramente seculares. As crenças e afiliações religiosas não tiveram participação alguma nos alinhamentos. De um lado enfileiravam-se a Alemanha protestante, a Áustria católica, a Bulgária ortodoxa e a Turquia muçulmana. Do outro, a Inglaterra protestante, a Itália e a França católicas e a Rússia Ortodoxa" (página 580).

 

Os religiosos, em sua maioria, estabeleceram a equivalência entre cristianismo e patriotismo. "Soldados cristãos de todas as denominações foram exortados a matar uns aos outros em nome do seu Salvador. Alguns clérigos foram mais longe. A provisão da lei canônica que proibia os sacerdotes de pegar em armas ou derramar sangue foi, com efeito, suspensa, e cerca de setenta e nove mil padres e freiras católicos foram mobilizados. Desses, só da França vinham quarenta e cinco mil, e mais de cinco mil padres franceses foram mortos em combate" (idem).

 

Johnson, mais à frente, é ainda mais contundente: "A Primeira Guerra Mundial, uma guerra civil entre seitas cristãs, inaugurou um período de tragédia e vergonha para o cristianismo. A guerra, assim como a paz que se seguiu, demonstrou a fraqueza das igrejas; mas, pelo menos, nenhuma delas identificou-se de modo positivo com o mal" (página 583).

 

Isso não poderá ser dito com respeito à Segunda Guerra Mundial. Talvez com a tocante exceção dos membros alemães da seita Testemunhas de Jeová , que preferiram o suplício e sacrifício à negação de suas crenças e convicções, e também com as exceções individuais de elementos de todas as igrejas, podemos dizer que esse conflito marcou o redondo fracasso do cristianismo institucional e, porque não dizer, estatal. Terá sido talvez o seu ocaso. E os pecados menores ficaram com a Igreja Católica, que se acovardou diante de Hitler – a encarnação acabada do Anti-Cristo – desde a Concordata assinada em 1933 até a olímpica inação diante da invasão da Checoslováquia, que significava o sacrifício dos católicos, e mesmo a vergonhosa partilha de um Estado católico como era a Polônia. Pio XII errou na sua avaliação, ao não perceber que o projeto nazista era infinitamente mais danoso do que o projeto comunista. Hitler tinha como propósito final aniquilar os cristãos e não caberiam meias medidas para combatê-lo; não caberia a covardia; não caberiam as razões de Estado – na suposta tese de que enfrentar Hitler significaria a criação de uma igreja estatal alemã; não caberia a omissão indecorosa e covarde diante do massacre de populações inocentes, como o judeus, negando o mais caro princípio cristão da sacralidade da vida; não caberiam a tolerância e o silêncio diante das afrontas sistemáticas de Hitler e sua gang contra a religião e os religiosos, especialmente os cristãos, a quem dedicavam um desprezo proverbial. Não, nada disso caberia, mas foi assim que aconteceu.

 

Pior. A Igreja Luterana alemã chegou ao requinte de negar Cristo e colocar em seu lugar o Führer, em subserviente e vil rendição ao Inimigo:

 

"Se o comportamento dos protestantes alemães parece inacreditável, é preciso lembrar que eles não possuíam nenhuma tradição de antagonismo com relação ao Estado. Não dispunham de nenhuma teologia dogmática ou moral para um papel de oposição. Desde os tempos de Lutero, sempre estiveram a serviço do Estado, e, de fato, sob diversos aspectos passaram a se ver como funcionários públicos. Ao contrário da Alta Igreja anglicana, por exemplo, não conseguiram desenvolver uma posição doutrinária que lhes permitisse diferenciar o pertencimento a uma igreja nacional da total subserviência ao governo. Assim, quando Hitler subiu ao poder, tiraram partido da história protestante. Em 3 de abril de 1933, a primeira Conferência Nacional do Movimento de Fé promulgou a seguinte resolução: ‘para um alemão, Igreja é a comunidade de crentes que têm a obrigação de lutar por uma Alemanha cristã. (...) O Estado de Adolf Hitler apela para a Igreja: e a Igreja deve obedecer ao apelo’.. Otto Dibelius, em uma transmissão para os Estados Unidos, dois dias depois das primeiras medidas antijudaicas, parece justificá-las, alegando que o boicote aos negócios pertencentes a judeus foi conduzido ‘em condições de lei e ordem’, como se fosse essa a questão... (Hitler) não gostava dos cristãos, muito menos daqueles prontos a rastejar aos seus pés... Nos sínodos, os pastores trajavam uniformes e cantavam hinos nazistas. Os nazistas, alguns escolhidos por Hitler, foram ordenados bispos e, os sínodos promulgaram uma lei ariana. Hitler indicou Ludwig Müller para ‘bispo do Reich’, e ele foi devidamente eleito; em seu discurso de posse, referiu-se ao Führer e aos nazistas como ‘presente de Deus’; na mesma ocasião, o pastor Leutheuser entoou: ‘Cristo veio até nós na figura de Adolf Hitler. (...) Hoje sabemos que o Salvador está entre nós (...) Temos um único dever: ser alemães, não cristãos’" (página 589-590).

 

É um relato devastador. Alguém poderia argumentar que era uma posição pessoal desses homens ímpios. Não era, refletia a psicologia da maioria do povo. É essa a tragédia, que as igrejas todas, que deveriam ser as guardiãs das coisas mais sagradas, renegaram a Verdade e entronizaram a sua Negação. Por covardia, por cobiça, por oportunismo, por medo, pelo poder. Seja motivado pelo que for, todos esses homens contribuíram para que as trevas demoníacas dominassem a Europa e ameaçassem toda a Terra.

 

 

E, o mais grave, afirma Johnson: "Nem a Igreja Evangélica nem a Igreja Católica condenou o regime nazista".

 

Por si só essa realidade já deveria levar os cristãos de hoje, de qualquer credo, a um reflexão sobre esse período dantesco da história. Não há dúvida que há uma dupla causa para que a Europa cristã tivesse chegado a nível moral tal abjeto. Primeiro, o fracionamento da igreja pública e, segundo, a sua conseqüência mais nefasta, a submissão das igrejas (e do clero) ao poder de Estado. Será que teria sido possível evitar isso? Duvido, é exercício inútil querer imaginar a História a partir de "se isso ou aquilo". Mas não há dúvida de que a postura do Ocidente em relação à questão religiosa, que emergiu após o conflito, mostra que este partiu-se em dois pólos distintos e opostos: de um lado, aqueles que voltaram-se às raízes primitivas do cristianismo, a partir das Epístolas de Paulo e construíram, por assim dizer, a sua religião pessoal e familiar, contra e a despeito das igrejas "públicas", e, do outro, aqueles que adotaram o materialismo puro e simples, niilista.

 

Não casualmente que as sociedades ocidentais passaram a ver a explosão das taras mais gritantes, passando das drogas às práticas sexuais as mais bizarras, a aceitação como normalidade daquilo que foi condenado desde sempre, a desorientação do que venha a ser sagrado e profano, legítimo e ilegítimo, moral e imoral, são e doentio. O mundo virou de penas para o ar, profanando-se tudo que antes era considerado sagrado. Perdeu-se o rumo.

 

É notável que Johnson não tenha palavras a dizer sobre o Brasil, nós que, ao contrário dos Europeus, nem somos capazes das maiores virtudes e nem dos maiores crimes. Passamos ao largo da sua História do Cristianismo e nem a prosperidade rápida das seitas pentecostais e nem a amplitude do movimento animista representado pelo espiritismo foi objeto da sua curiosidade acadêmica. Em suma, não somos relevantes para a história mundial.

 

Para ser justo, quero fechar este escrito com uma citação de Johnson, que revela o seu amor à fé cristã e sua esperança:

 

"O relato sobre o cristianismo apresentado neste livro necessariamente enfatizou seus pontos fracos e deficiências, bem como suas distorções institucionais. Contudo, nós o avaliamos em relação às suas próprias proposições estupendas e seu idealismo sem precedentes. Como um exercício de perfeccionismo, o cristianismo não pode ser bem sucedido, nem por suas definições internas; o que ele está pronto para fazer é estabelecer metas e padrões, elevar aspirações, educar, estimular e inspirar. Sua força reside na avaliação justa do homem como criatura falível, que anseia pela imortalidade. Seu mérito moral notável está em investir o indivíduo de uma consciência e lhe ordenar que a siga. Era dessa forma específica de libertação que São Paulo estava falando ao referir-se à liberdade que os homens encontram em Cristo. E, naturalmente, é a mãe de todas as demais liberdades. Afinal, a consciência é inimiga da tirania e da sociedade compulsória; e foi a consciência cristã que destruiu as tiranias institucionais criadas pelo próprio cristianismo – o mecanismo autocorretivo em ação. Os conceitos de liberdade econômica e política são derivados do funcionamento da consciência cristã como força histórica; não é, pois, por acaso que todas as implementações de liberdade, no mundo inteiro, tenham, em última instância, uma origem cristã" (página 628).