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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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GOETHE
E A MODERNIDADE 25/12/2011 A leitura do
livro DINHEIRO E MAGIA (Rio de Janeiro, Zahar,
2011), de autoria de Christoph Binswanger
e com prefácio e posfácio de Gustavo Franco, traz
para a reflexão do leitor a atualidade do Fausto de Goethe. Estou convencido
de que é impossível a correta interpretação dos fatos candentes da atualidade,
como a própria crise econômica, sem uma revisão atenta da obra do poeta
alemão. Binswanger
fez uma abordagem muito original e interessante da problemática econômica no
Fausto, dando destaque especialmente à questão da moeda. Ele se perdeu,
todavia, por dois motivos. Em primeiro
lugar, por não perceber que a metáfora alquímica tem sido usada desde a
antiguidade para expressão da ânsia da rebelião do homem contra Deus, da
criatura contra o criador. Toda a prática alquímica é o registro desse
inconformismo da criatura limitada pela sua condição. Goethe registrou o momento em que a
mentalidade revolucionária (alquímica) alcançou o apogeu (e o poder) na
modernidade. Alquimia é uma variante sofisticada do satanismo. O poeta alemão
pode, a seu tempo, usar de toda franqueza permitida para os que conseguem
compreender sua linguagem. A Arcádia perseguida por Fausto nada mais é do que
o real transformado pela mente revolucionária, o recriar de Canaã com outro
nome e o maná transformado em leite e mel. É o delírio revolucionário
supremo. Em segundo lugar,
ao corretamente associar a moeda fiduciária de curso forçado com o ouro
alquímico Binswanger deixou de notar que esse salto
revolucionário é produto dos governantes e não dos empresários. Daí o autor,
assim como Gustavo Franco, identificar o homem fáustico
com o empresário, quando na verdade Fausto é a encarnação do governante. Só o
governante, usando o poder de Estado, tem meios para "aperfeiçoar"
a criação. A modernidade é o momento histórico em que o Estado se eleva à
condição divina, o substituto de Deus. Os empresários, assim como toda a
gente, foram escravizados pelo Estado moderno. O protótipo do homem fáustico é Lênin (e seus assemelhados), que quis criar o
Homem Novo a partir da revolução, ele que foi precedido por Robespierre. A confusão
talvez tenha origem no fato de o Ocidente estar sob processo revolucionário
desde a II Guerra Mundial, em doses homeopáticas. O pós-guerra conheceu o
triunfo da social-democracia, essa revolução sem ruptura, que prometeu a
distribuição de renda e o bem-estar social a todos, em troca do uso da moeda
fiduciária e do endividamento público para pagar a sua obra alquímica de enriquecimento
geral sem contrapartida de trabalho. No momento estamos vendo que essa visão
de Estado levou à grande crise que se instalou em toda parte e ninguém sabe
como desatar o nó da crise. O fato é que governos estão cortando o orçamento
e desfazendo as promessas da social-democracia, mas há uma perigosa rebelião
das massas acontecendo, seja pela queda de governos, seja pelas greves gerais
de protestos que se sucedem. A ameaça de ruptura política está no ar e o
fedor dos anos Trinta do século passado está em toda parte. No Fausto de
Goethe o papel-moeda é introduzido como pilhéria mefistofélica e a narrativa
deságua na crise financeira. Goethe na verdade ridicularizou o instrumento
como farsa satânica. Lord Keynes é que transformará
a pilhéria em coisa séria, depois da crise dos anos Trinta. O inglês, sim, é
que foi o teórico apologeta do homem fáustico, que se propôs a superar a crise e alcançar a
prosperidade pelo uso do truque mefistofélico da emissão de moeda sem lastro. Importante
observar que Binswanger passa ao largo das
profundas questões trazidas pelo esteticismo inaugurado por Goethe, de
profundas raízes racistas. A Noite de Walpurgis Clássica
é um canto que une a Alemanha com Esparta, uma associação que pretende
colocar os germânicos como raça superior, abolindo, com a licença poética de
saltos milenares, a herança de Roma e do cristianismo para a Europa e a
civilização. Um truque, como também é o truque de unir Fausto com o fantasma
de Helena. Na obscura cena do intercurso de ambos está apenas Mefistófeles
travestido de fórquias. Ora, Fausto teve na verdade
um intercurso homossexual com Mefistófeles e disso nasceu Eufórion,
uma personalidade doentia, inflada, que descreve antecipadamente a psicologia
alucinada de Hitler. Fausto é o cântico do delírio alemão e sua perdição.
Veremos que apenas Thomas Mann, no seu Doutor Fausto, é que fará o acerto
literário dessa alucinação toda. A mente
revolucionária faz do dinheiro o bilhete de entrada na Segunda Realidade. A
moeda, junto com o sistema jurídico descolado do Direito Natural, molda a
alucinada pseudo realidade que já havia sido notada por Cervantes no Dom
Quixote. Interessante notar que Dom Quixote é o último cavaleiro cristão, dando
lugar a essa sinistra figura da modernidade, que é o Fausto, o doutor. O poema de
Goethe concentra toda a rebelião contra Deus: aceita a tese da predestinação
de Calvino e a igualdade trazida pela Reforma e seu livre exame das Escrituras,
depois tomada como a base das revoluções, desde a Revolução Francesa. A
modernidade pretende abolir por primeiro a hierarquia natural, a começar pela
instituída pelo mandamento "amar a Deus sobre todas as coisas".
Goethe é o poeta desse delírio. Os tempos que
vivemos são os de acerto de conta com a modernidade. O que virá não sabemos.
Ler Goethe − e Binswanger − é a trilha
para que não sejamos surpreendidos com os grandes fatos que estão por acontecer. |
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