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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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GOETHE E A FILOSOFIA DO MAL 08/05/2011 Eu vi Satã cair do céu como um relâmpago. Lucas 10, 18 O que transforma a obra FAUSTO, de Goethe, em
um monumento imorredouro não é apenas a grandiosidade de sua construção e a
beleza de seus versos. Nem mesmo o seu tema. George Satayana
o classificou como um poema filosófico, ao lado dos poemas de Dante e de Lucrécio.
É esse caráter filosófico que lhe eleva acima do seu tempo, mas não apenas. A
genialidade de Goethe lhe permitiu fazer a síntese de uma era – os tempos
modernos ou a modernidade – e registrar para a posteridade de forma
ornamental essa fotografia histórica. O poema é também uma crônica
extraordinária. É preciso olhar a história da filosofia para
se dar conta da grandiosidade de Goethe. O Ocidente sofreu uma inflexão
filosófica no assim chamado Renascimento, que ocorreu no período que medeia o
século XIII e o século XVII. Nesse intervalo a hegemonia do pensamento
cristão na Europa ocidental sucumbiu. A filosofia que teve origem em
Sócrates, Platão e Aristóteles é questionada e, depois, abandonada. A
teologia, que colocava Deus no centro da Criação e o homem como coisa criada,
Deus como ser e o homem como ser dele dependente, é jogada no lixo. Descartes, como bem ensinou João Paulo II no livro MEMÓRIA
E IDENTIDADE, é o autor final desse processo, que se inicia com os
nominalistas. Emerge triunfante o humanismo renascentista, que refaz tudo e
recupera de novo o lema de Protágoras: o
homem é a medida de todas as coisas. A trinca de filósofos clássica e seus
seguidores cristãos, especialmente São Tomás de Aquino, é abandonada, dando
lugar à herança de Epicuro e Zenon e dos seguidores
que lhe sucederam desde a antiguidade, como Cícero. Foi uma grande revolução
no sentido exato da expressão. Os homens renascentistas talvez não tivessem a
exata dimensão espiritual e filosófica do que faziam, mas fizeram. Tudo que era sagrado foi conspurcado, tudo
que era sólido desmanchou no ar. No plano teológico o mal se introduziu
como força motora da história, o mal derivado do pecado no sentido exato como
entendido por Santo Agostinho: “Amor de
si mesmo até o desprezo de Deus”, como escreveu na Cidade de Deus. O mal, como força personificada
operante, a Igreja Católica sempre o chamou pelo nome bíblico: Satã e suas
legiões. Os cristãos sempre souberam que o homem sozinho não tem como lutar
contra essa força poderosa, que ousou confrontar o próprio Deus. A rejeição
do auxílio divino contra essa força é o famoso pecado contra o Espírito
Santo, ao qual não cabe redenção. Foi o que se deu no Renascimento. E o
Ocidente cristão, cujas idéias depois se espalharam por todo o mundo, foi
além. FAUSTO é o canto supremo desse momento, quando ainda a humanidade tinha
ao menos consciência do seu mergulho na Negação. Goethe versificou sobre esse
espírito que vagava sobre a terra e que encontrou em filósofos como Descartes, Rousseau, Kant, Hegel e Marx seus agentes
criadores. O “Penso,
logo existo”, a máxima de Descartes, deslocou o tema da filosofia do ser
para o aspecto particular das habilidades humanas, o pensar;
ao fazê-lo, rompeu com a necessidade de se refletir sobre o ser, ou seja,
Deus ele mesmo. O pensamento humano tornou-se o lócus da criação e o homem
como o autor dessa criação. Fausto e Mefistófeles narram nas suas aventuras
esse momento crucial em que o intelectual – provavelmente modelado na figura
do próprio Descartes ou alguém equivalente –
entediado diante da criação, invoca o Espírito de Negação para transformar o
mundo ao seu talante. A dialética hegeliana e,
depois, a marxista, dá foro filosófico e teológico a esse princípio de que a
negação é o motor da história e o homem é o elemento que permite a síntese
criadora. Essa filosofia dará origem a todas as
ideologias – entendidas como substitutas do real e explicações fantásticas da
realidade, ou a Segunda Realidade – que virão nos séculos subseqüentes. Nazismo,
marxismo, abortismo e gaysismo
são todas variações desse tema, e enquanto ideologias,
foram colocadas no mesmo patamar destrutivo por João Paulo II. Goethe levou sessenta anos para escrever o
poema e é possível notar que, nos momentos iniciais, ele foi mais entusiasta
com a suposta capacidade criativa do mal. O Urfaust e, depois, o Fausto I,
são documentos de vigorosa adesão às teses de que o mal é capaz de criar e
ajudar ao homem. Goethe ele mesmo aderiu a um naturalismo radical tomado da
filosofia de Spinoza – uma forma panteísta que via na matéria a própria
emanação da divindade – e, com ela, suportando essa visão dualista de cunho
teológico. Goethe abraça o maniqueísmo. Seu poema inicial é um cântico a ele.
Ao final, no Fausto II, o fecho do mesmo na véspera de sua morte revela que
alguma coisa mudou no seu modo de pensar, vindo Goethe a colorir os versos
derradeiros com ícones do catolicismo. Mesmo assim o poema continuou a ser
uma peça maniqueísta. A influência de Goethe na literatura foi profunda,
pois deu voz às idéias dominantes do seu tempo, que são as idéias dominantes
até os dias de hoje. Nenhum grande autor escapou à influência magnética de
Goethe. Ao cantar o Microcosmo não pensou que seu símbolo estaria, tempos
depois, inserido em todos os lugares, em todas as bandeiras, em todas as
nações. O pentagrama é o estandarte do mal metafísico que se propôs
substituir o próprio símbolo da cruz. Desde o Renascimento ele tem ganhado a
batalha iconográfica. É uma maneira de as gerações sucessivas desde então
reafirmarem sua rebelião contra Deus. O que é a modernidade? Numa definição curta e
exata a modernidade é a negação de Deus. Ela tenta, em tudo e por tudo, matar
a Revelação, conspurcar as coisas tidas como sagradas e negar a verdade. A
recente decisão do Supremo Tribunal Federal – STF sobre a união de pessoas do
mesmo sexo é um dos triunfos maiúsculos da modernidade entre nós,
brasileiros. O mesmo pode ser sito, no âmbito do Poder Judiciário, do
banimento dos crucifixos das repartições públicas, gesto repetido na primeira
hora por Dilma Rousseff, quando assumiu o
poder. Não devemos esquecer que o
Microcosmo está estampado no próprio Escudo da República e é símbolo do poder
de Estado. Vê-se que as ondas de propagação da modernidade e de Goethe, seu
grande cantor, continuam vigorosas. Não por acaso Lula mandou desenhar o
símbolo do Microcosmo nos jardins do palácio presidencial. É preciso lembrar que o FAUSTO antecipa o que
viria a ser o nazismo e o comunismo. Goethe o apresenta como o Demônio do
Norte. Fausto fará suas núpcias com Helena, a deusa
Vênus ela mesma, a representação feminina do mal, ajudado por generais
oriundos de cada uma das tribos germânicas. Nesse momento do poema afirma-se
a superioridade do germanismo, tão em voga nos tempos de vida de Goethe, e a
mentira nele embutida, a de que o germanismo é uma cultura superior a todas
as outras. Goethe liga o glorioso passado grego ao presente germânico,
ignorando Roma e o cristianismo. Esse foi o passo essencial para que no
século XX o personagem Eufórion encarnasse na
figura de Hitler. A alucinação mais delirante da mente doentia dos modernos
entrou com força na história e deixou o seu rastro de morte. Hitler foi a sua
representação. As ideologias de morte mudam de forma, mas
não desistem de seu intento. Por isso ler e compreender FAUSTO, de Goethe, é
essencial para que se compreenda o que se passa. O mal opera no cotidiano e
está à porta de cada um. Sem perceber o que se passa é impossível buscar o
único refúgio capaz de fazer frente ao mal: a tradição. Nas Escrituras estão
as profecias e o registro de tudo que se passou e que vai passar. A grande
mentira do Maligno é fazer com que as pessoas pensem que ele não existe e que
está inerte. Ler os jornais do dia sob a luz de Goethe vai mostrar o quanto
essa mentira é grotesca, como o mal é grotesco. |
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