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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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GETÚLIO VARGAS, POR LIRA NETO 26/05/2012 A Companhia
das Letras fez chegar ao mercado o primeiro volume da biografia de Getúlio
Vargas (Getúlio - 1882, 1930 - Dos anos de formação à conquista do poder), de
Lira Neto, prevista para ser uma trilogia. Um grande feito editorial, narrado
em detalhes no posfácio (que bem poderia ser um prefácio)
do próprio autor. A editora apostou no projeto, financiou-o e pôs à
disposição do autor os meios para realizar sua obra. O fato é inusual no nosso acanhado mercado editorial, no qual
geralmente os editores são medrosos e argentários, fugindo do risco. Não bastante,
a editora precificou o volume em apenas R$ 52,50, um grosso volume bem encadernado,
em excelente papel. Segundo a revista Veja a tiragem inicial foi de trinta
mil exemplares, muito acima da média nacional. O livro é tão bom, o preço tão
acessível e o personagem tão fascinante que deverá ser esgotada rapidamente.
Se o autor está de parabéns pela iniciativa, mais ainda está o editor Luiz
Schwartz. Que outros sigam o exemplo. Lira Neto é
já um consagrado escritor, autor da biografia de José de Alencar e da melhor
feita sobre o Padre Cícero, seu trabalho anterior, que virou best seller . Ele é um
pesquisador exaustivo e também um escritor talentoso. Sua narrativa lembra,
em muito, aquela utilizada por Fernando Moraes ao escrever o já clássico Chatô - O rei do Brasil. Sem perder nunca o fio ele narra
a vida do biografado intercalando diferentes momentos e diferentes episódios,
criando um efeito parecido com aquele encontrado nos melhores livros
policiais. O suspense é integral. Mesmo se
conhecendo a vida de Getúlio Vargas, a técnica narrativa prende o leitor de
forma magnética. Eu simplesmente fui largando tudo que lia para poder dar
cabo à leitura do excelente livro do Lira Neto. Um grande prazer e um
suplemento adicionais de informações, não apenas biográficas, mas da política
brasileira no período abordado. O painel feito é uma perfeição, acrescentando
informações importantes sobre o que aconteceu naqueles momentos fatídicos do
início do século XX, quando os destinos do Brasil foram moldados. Para o bem
e para o mal, Getúlio Vargas tornou-se o principal responsável pela formação
política que herdamos. A chamada
República Velha foi o período de transição entre o Império e os tempos
contemporâneos. O Brasil era, de fato, uma federação e o poder central estava
longe de ser o que é hoje, um força esmagadora de um Estado central. As liberdades
eram maiores, tanto para as unidades políticas subalternas como para as
pessoas. Desde Vargas entrou-se em um ciclo de concentração de poderes ao qual estamos agora submetidos. Não seria
mais possível, depois de Vargas, haver uma "revolução" por cima, a
partir de um dos estados federados. A desproporção de forças é tamanha que
algo como se viu em 1964 só é possível a partir da própria unidade central. Getúlio foi
um personagem fáustico, personificando o pacto que
nosso país realizou. Sua própria morte trágica é sinal hiperbólico desse
pacto. Não ao acaso o mantra do desenvolvimento - o desenvolvimentismo -
deriva diretamente da intervenção getulista em nossa história. O desenvolvimentismo
é a ideologia desse pacto, abraçada por todas as forças políticas desde
então, fazendo do poder de Estado a alavanca motora. Getúlio chegou ao Rio de
Janeiro para subir no promontório e ver sua obra fáustica
se realizar, algo como narrado esplendidamente por Goethe em seu poema
monumental. O escritor
que melhor retratou essa mudança na República Velha foi Guimarães Rosa.
Grande Sertão, Veredas, Sagarana e Corpo de Baile
são ambientados nessa época. Ler a obra do escritor mineiro em conjunto com a
biografia de Getúlio, por Lira Neto, é altamente esclarecedor das metamorfoses
por que passou o Brasil, em consonância com aquelas vividas por todo o
Ocidente. Lira Neto,
assim, ajuda-nos a compreender a nossa própria formação como Nação e
esclarece pontos obscuros desse processo. Não fosse por outra razão, esta já
seria suficiente para tornar seu belo livro um clássico, de leitura
obrigatória por aqueles interessado em entender o Brasil. |
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