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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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THE
MANCHURIAN CANDIDATE 30/11/2004 Como sempre, aqueles que se
fiaram no que leram em nossa imprensa sobre o novo filme de Jonathan Demme, “The Manchurian
Candidate”, traduzido para o título imbecil de “Sob o Domínio do Mal”, não
foi ajudado na compreensão do enredo. Um grande diretor no comando de um
grande elenco, com uma grande história para contar, só poderia produzir um
ótimo filme. Só não é uma obra-prima porque deixou de explorar um pouco mais
o tema fundamental do filme, o incesto, tabu maldito que se torna ainda mais
maldito quando envolve mãe e filho. Temos um Édipo e uma Jocasta,
só que aqui não mais produzidos pela vontade dos deuses, mas pela razão
consciente de uma Mãe terrível, tomada por uma sede de poder desmesurada. Esse é o ponto essencial. A
questão política, à qual a imprensa deu grande ênfase, é adjacente e a guerra
uma mera moldura para o desenrolar de uma história
eletrizante, pela qual a Mãe terrível, plutônica, escraviza seu filho,
tornando-o o seu próprio falo, um guerreiro obediente aos seus caprichos. O
menino perde a individualidade, a vontade, a memória
e passa literalmente a executar, qual zumbi, as vontades mais cruéis e
megalomaníaca da Mãe. O filme é um remake do roteiro originalmente dirigido por John Frankenheimer, tendo como principal astro Frank Sinatra.
Nessa primeira filmagem a história se passa na Guerra da Coréia, enquanto Demme ambienta seu enredo na Guerra do Golfo. Frankenheimer coloca com toda a força o duelo da Guerra
Fria e a vontade da Grande Mãe fica eclipsada pela conspiração comunista. Demme pôde ir mais longe na
exploração das sutilezas psicológicas porque, com o fim do império soviético,
o Ocidente afinal descobriu que o mal está dentro de si mesmo, em cada um. O
feminino demoníaco, o súcubo que atenta e domina o
homem tornado menino eterno, ao mesmo tempo filho, amante e herói, será
talvez o que de pior pode acontecer ao Homem. O momento em que a Mãe beija o
filho nos lábios, em ambas as fitas, é o seu ponto alto, a revelação de toda
a tragédia psicológica do jovem dominado pela Mãe. O elenco dirigido por Demme é sensacional. Meryl Streep não poderia estar melhor do papel da senadora, a Mãe, e ninguém faria esse papel melhor que ela. Denzel Washinton, a cada nova
película me agrada mais e mais e aqui está de encher os olhos. Os atores
todos são muito bons. Em ambos os filmes, técnicas
psicológicas são utilizadas para fazer a lavagem cerebral dos soldados, a fim
de produzir um falso herói. Demme teve a felicidade
de colocar o falso herói no centro da
trama, ao torná-lo o candidato à vice-presidência, destinado a se tornar ele
próprio o candidato cabeça de chapa. Na versão de Frankenheimer
os experimentos do picareta do Pavlov são lembrados, com o inverossímil uso
de técnicas de hipnose e condicionamentos para obter os propósitos de lavagem
cerebral, aparecendo os russos como vilões; na de Demme,
vemos técnicas químicas produzidas por uma indústria de material bélico
inescrupulosa, em conluio com a Mãe senadora. O final, em ambos os filmes, é
imprevisível e sensacional. São filmes assim que fazem do cinema a Grande
Arte, sucedânea do conjunto de todas as demais. ACASO E
MALDADE EM “ 15/01/2003 O filme “ O roteiro é muito bom mas o diretor, Alejandro
González Iñárritu, que também assina o roteiro
junto com Guillermo Arriaga,
ainda precisa amadurecer no ofício. Não que o resultado final tenha sido
ruim, pelo contrário. Mas um roteiro tão bom, trabalhando com atores tão
primorosos, poderia ter produzido uma obra-prima inesquecível. É um filme para adultos,
colocando as grandes interrogações existenciais. Os principais personagens
femininos são fortes e dominantes, refletindo a minha própria experiência com
o ser feminino. As mulheres da história, muito bem interpretadas pelas
atrizes Noami Watts, Charlotte Gainsbourg
e Melissa Leo, literalmente “seguram a onda” dos
seus homens, incondicionais diante daquilo que lhes é trazido pelo destino.
Abnegação, amor, compreensão, perdão: vastas virtudes são nelas encontradas e
sem elas a vida dos homens ou cessaria ou sucumbiria no vale sombrio da falta
de sentido. A história entrelaça a vida de
três famílias, a de Paul Rivers (Sean Penn, novamente excelente
no papel), a de Jack Jordam (vivido por Benicio Del Toro de forma espetacular) e o Michael (com Danny Houston no papel). O eixo principal da narrativa,
feita de forma descontínua, o que torna o filme confuso nos seus primeiros
momentos, se dá pela ocorrência de um acidente com Jack. Ele é um homem que
cumpriu sentença por crimes, carregando um grande complexo de culpa, tendo
abraçado o cristianismo católico de forma fanática. Sua fé é genuína. Jack é
o motorista de uma caminhonete que mata Michael e suas duas filhas pequenas.
O coração dele é doado para Paul, paciente terminal com doença cardíaca. A
viúva Cristina entra em cena com toda a dor da solidão. A perda de toda a
família torna a sua vida patética e sem sentido. Jack é a encarnação da Sombra
que precisa ser redimida. Ele, um homem muito pobre, pai de dois filhos
pequenos, havia ganho o carro em um sorteio, tendo-o
recebido como um presente de Deus, reforçando o seu fanatismo. Uma grande
cruz tatuada no braço e um brinco em forma de cruz dão a medida de sua
entrega ao Inefável. Seu carro estava pintado com dizeres religiosos, do tipo
“Jesus salva”. O que torna mais trágica a história é que o acidente só
aconteceu porque um amigo lhe retardou a partida de onde estava. Havia um
encontro marcado com a tragédia naquela esquina. O mesmo Deus que lhe deu o
carro fazia-o instrumento para destruir uma linda família. A ação de Benicio Del Toro como ator é simplesmente brilhante. Não há respostas no filme,
apenas indagações. Não há lição de moral, ele apenas mostra que do mal pode
provir o bem, algo bastante paradoxal e inerente à condição humana. O
acidente que ceifou a vida de Michael permitiu a Paul
não apenas prolongar a sua existência, mas melhorar a sua qualidade de vida.
Há um sentido na vida? Pode ser que sim, pode ser que não. Estou do lado
daqueles que pensam haver um sentido e um Deus ordenador do Universo. Pensar
o contrário me levaria à loucura e ao niilismo. O filme sugere, ainda que de
forma não categórica, que há um sentido, sim, que tudo se conecta numa trama
para além da compreensão das limitadas percepções do Homem.. MYSTIC RIVER 12/12/2003 Meu caro
leitor, desde que vi a cena do choro de Pacino no
filme THE GODFATHER III, no instante da morte da filha baleada na porta do
teatro, aquele choro que arranca da alma a dor mais cruel, eu não via um ator
interpretar de forma tão perfeita um personagem, sendo capaz de me levar às
lágrimas. Refiro-me à Sean Penn no papel de Jimmy Markum no filme MYSTIC RIVER. Uma tripla obra-prima, pelo
roteiro sensacional, pela direção espetacular de Clint
Eastwood e
pela inesquecível atuação do ator principal. O filme é sublime. Entrou para a
minha galeria especial, ao lado dos filmes de Kubrick
e de Coppola. É uma superprodução com um superelenco de atores. A tradução do título para
SOBRE MENINOS E LOBOS banaliza o filme. O título em inglês é mais adequado,
pois invoca o rio que separa a vida da morte, uma alusão ao Rio Estige da mitologia. É onde se
chega à terceira margem do rio, do nosso grande Guimarães Rosa. É na margem
do rio que Markum pratica a sua justiça com as
próprias mãos. A cena em que ele abate sua vítima (Dave
Boyle, vivido por Tim Robbins) a facadas e, depois,
a tiros, de tão realista e cruel, de tão bem encenada, é simplesmente
apavorante e poética. Afinal, poesia é vida e a crueldade faz parte da vida.
É especialmente chocante que Markum exige a
confissão antes do sacrifício, para ter certeza da sua justiça – afinal, eram
amigos de infância – e Boyle, na confusão mental em que estava, acabou por
fazê-la. É cruel. O filme foca a história de
três meninos, amigos na infância que continuam a morar na
mesma cidade, e como o destino joga com a vida de cada um deles.
Coloca no centro da discussão a dualidade livre arbítrio x destino e a ação
do Mal nesse mundo. Dave Boyle é raptado por
pedófilos na cena inaugural e passa quatro dias
sendo seviciado por dois homens, um deles com aparência de sacerdote, que usa
um anel onde está gravada uma cruz. É uma vítima inocente que cai diante dos
algozes. Claro que a experiência deixa no menino seqüelas psicológicas
profundas, a tal ponto que Boyle, adulto, acaba por matar um pedófilo que está
abusando de um garoto. É nesse ponto que a questão do
destino e da gratuidade do Mal surge com toda relevância. No mesmo instante e
hora a filha de Markum é morta. Boyle está no bar
em que ela é vista pela última vez. Como tem as idéias confusas e é incapaz
de contar o que aconteceu, acaba por ser objeto da suspeita da própria
esposa, que acaba por contar a Markum que ele teria
sido o matador da filha. O interessante é que tudo levava a crer que era
mesmo, desde o sentimento de culpa que ele carregava, a sua conversa
desconexa, o horário, o local e, para o azar definitivo, o tipo sanguíneo de
sua vítima é igual ao da menina morta. E, claro, a falsa confissão final. Markum é o centro da história. É um pequeno comerciante que foi
delinqüente, acabou preso, mas que passou a ter uma vida honrada. O homem que
o entregou à polícia foi morto por ele mesmo, em vingança, à margem do rio,
no mesmo local em que Boyle foi justiçado. Ele carrega várias tatuagens no
corpo, entre elas uma cruz no alto das costas, que é focalizada após a morte
de Boyle, a mesma cruz que aparece no anel do estuprador na infância. Boyle é
duas vezes vítima inocente do destino. O símbolo da cruz aqui coloca muitas
interrogações, pois está associada a Cristo e ao Bem. Como um inocente pode
ser imolado à sombra de sua imagem? É de se notar que os três
amigos de infância formam uma trindade, outro símbolo caro à tradição cristã.
Markum é católico praticante e a morte da menina
sua filha ocorre no dia da Primeira Comunhão de sua outra filha, a alusão
direta à morte de Cristo. Na hora da cerimônia, Markum
ouve as sirenes da polícia de dentro da Igreja, se deslocando para a cena do
crime. O policial que chefia as investigações é Sean
Devine (vivido por Kevin Bacon), o terceiro
componente da trindade de amigos. O sacrifício de inocentes
sempre foi o enigma da existência, pois nesse momento é que o Deus da bondade
pode ser questionado seriamente. Na Bíblia temos muitas passagens sobre isso,
a começar pelo próprio Cristo – o Supremo Bem – imolado no altar do Pai. Mas
desde o antigo testamento temos muitos relatos, como o sacrifício dos
primogênitos no Egito, o sacrifício dos adversários de Israel a mando do
próprio Jeová, o sacrifício de Jó, o bom servo de
Deus atirado às tentações de Satanaz. E um que é
especialmente tocante, o sacrifício do bom soldado de David, Urias, que foi
mandado à morte propositalmente para que David lhe tomasse a esposa, com quem
já havia cometido adultério. Dessa união virá a nascer o grande Salomão. É
uma das mais terríveis histórias do Antigo Testamento. Não há como não se indagar:
por que Deus permite que o Mal opere? Por que ele é tão poderoso? Por que
devora os inocentes como Dave Boyle? Por que, para
combater o Mal, o próprio Cristo se deu em sacrifício? Diante do Nefando, só
nos cabe calar e temer. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do
Mal”. Está além da capacidade humana compreender os
propósitos divinos diante da autonomia do Mal. É como se alguns nascessem
predestinados a serem suas vítimas e aí a simbologia astrológica do tema
natal de cada um se impõe: ninguém nasce impunemente sob o poder de Plutão.
Está escrito nas estrelas. Paro por aqui. Apesar de
antecipar algumas coisas importantes da história, há muito
o que se ver. É toda uma mitologia e uma indagação religiosa que é
posta diante dos nossos olhos pelas câmaras. Imperdível. O IMPOSTOR 02/12/2003 Ontem ocupei o meu fim de
noite de forma não planejada, assistindo ao muito bom filme de Gary Fleder, O Impostor, na Tv
a cabo. Há momentos na película em que citações são feitas a Blade Runner, o cult que todo mundo viu, mas considero que a temática é
muito mais profunda no filme de Fleder. O elenco tem Gary Sinise, Madeleine Stowe e Vicente D’Onofrio
vivendo bons momentos em suas carreiras. Sinise
encarna o personagem Spencer Olham, cientista notável, especialista em armas,
casado com a médica Maya Olham (Stowe).
D’Onofrio vive o agente especial Hathaway, que persegue alienígenas infiltrados nas
comunidades humanas. O resumo da ópera é que o casal torna-se veículo dos
alienígenas, carregando em seus corações formidável capacidade de destruição
na forma de explosivos equivalentes, em poder de destruição, aos nucleares. O
filme é surpreendente. Não se vê grandes efeitos especiais. Boa parte das
seqüências de filmagens se dá no interior de ambientes fechados. Não
obstante, prende o telespectador com a narrativa eletrizante. A bomba no coração é uma
metáfora perfeita para o mal e o seu poder de destruição sobre a humanidade.
Tido como alienígena = fora do homem, o mal é uma força cósmica que pode se
apossar de qualquer um, mesmo de um belo casal integrado na sociedade e
exercendo atividades produtivas nobres. A humanidade, enquanto coletivo,
precisa combater o mal. O poder de destruição que esse tem pode ser elevado à
enésima potência, especialmente quando o coração que se torna o seu veículo
tem destaque e acesso aos centros de poder. Literalmente se aplica no filme o
nosso velho ditado popular de que, quem vê cara, não vê coração. O coração,
no Ocidente, é associado ao centro das emoções e onde reside o amor. Pode se
transformar no seu oposto. No filme o duelo não se dá
entre o indivíduo e a força maligna, mas entre o mal e o Estado, representado
pelo agente Hathaway. Os indivíduos são mortos e
substituídos pelo pelos alienígenas assumindo a sua forma humana, só restando
como contraponto a enfrentá-los a força do Estado. O agente Hathaway encarna esse paradoxo de que, para combater o
mal, é preciso praticar o mal. Ou seja, o mal precisa experimentar de seu
próprio veneno. Hathaway não hesita em sacrificar
inocentes no combate ao mal, não hesita em torturar, é um duro que não tem a
menor ilusão sobre a sua tarefa: o mal precisa ser combatido e destruído a
qualquer preço. A morte de dez inocentes é justificada pela salvação de
milhares. É como a guerra: se o Ocidente não tivesse triunfado, talvez
vivêssemos hoje sob o domínio nazista e comunista. Para derrotá-los, todavia,
foi preciso usar de toda a força, praticar o mal, até mesmo explodir
artefatos atômicos. É a condição humana. O filme sublinha a tese
valiosa dos liberais clássicos, de que é necessário o Estado para manter a
ordem e enfrentar o mal da desordem destrutiva. Acredito nisso. Não gosto do
Estado nem da sua violência e nem do mal que pratica, mas que ele é
necessário, não há dúvida alguma. Essa é a grande lição da História. O
problema é viver com uma anaconda (para usar a
palavra da moda) dentro de casa, sabendo que ela cresce a cada dia e que,
embora espante os inimigos, ela pode um dia devorar o próprio criador. São as
contradições da alma humana, engarrafada em suas limitações cósmicas, que
delimitam a sua existência no Universo manifesto. UMA MENTE
BRILHANTE 01/03/2002 Eu não sei porque
uma bela história de amor pode ter tantas reticências da crítica. O filme de Ron Howard, estrelado pelo
inquieto e competente neozelandês Russel Crowe – Uma Mente Brilhante - é
capaz de arrancar lágrimas da platéia, simplesmente porque o diretor focaliza
o essencial na história da vida de John Nash Jr., o
brilhante e esquizofrênico matemático que fez revolução também na ciência
econômica. E o essencial na vida de John Nash Jr. nem era a economia e nem a matemática: era a
mulher Alicia e a sua doença mental. Quem quiser saber das teorias que leia
os livros, não precisa ver o filme. Teorias matemáticas não são simpáticas
numa sala de cinema, até porque a maioria das pessoas nem entenderia. Mas
quem quer ver a face humana de um homem doente que encontra a sua redentora
musa, e está disposto a soltar uma lágrima desconcertante e viver duas horas
de emoção e sonho, então vá correndo ao cinema antes que o filme saia de
cartaz. Penso que a arte maior do
filme está na habilidade do diretor em narrar as tristes e desconcertantes
cenas de esquizofrenia e na atuação ainda uma vez perfeita de Russel Crowe. E
não é possível aqui não lembrar de Jung e da sua psicologia profunda. O homem
de intelecto extraordinário só pode ser redimido pelo amor; o gênio tem a sua
Anima personificada em uma figura infantil, não desenvolvida, que jamais
cresce. E também não é possível deixar de notar o quatérnio
formado pelas figuras projetadas.Tem algo mais junguiano? “Tudo está conectado”, frase
que me fez lembrar dos belos textos do escritor campineiro Martim Vasques da Cunha. Essa é a essência das teorias de Nash Jr e talvez seja a
essência da própria existência humana. E a doença dele também “se conecta”: é
a expressão sombria da genialidade. As funções psíquicas não desenvolvidas exigiram
o seu lugar no mundo do personagem, ainda que ao preço de transformá-lo numa
caricatura de gênio, sujeito à gozação de muita gente. O filme impressiona também por
isso. Vivo fosse, Jung aplaudiria o trabalho narrativo. Genialidade e loucura
andam de mãos dadas. O que é deslumbrante na vida do personagem é
precisamente que ele resiste ao mergulho na indiferenciação
e, qual um Sócrates com o seu daimon, leva a vida a
dialogar com os seres imaginários, nascidos das profundezas da psique. Como
não admirar e não se apiedar de alguém assim? O grande prêmio recebido pelo
personagem foi o amor de Alicia. Ganhar as canetas dos sábios da universidade
– e o Prêmio Nobel – foi apenas um detalhe para aquele que já recebera o
prêmio maior. O que não deixou de ser momentos altos de sua existência. É um filme muito bonito, vale
a pena ver. Paga o ingresso e o tempo gasto. GANGUES DE
NOVA YORK 09/02/2003 Fui ver hoje o novo de filme
de Martim Scorsese, “Gangues de Nova York”.
Preparei-me de forma diferente para ir assisti-lo, pois não li as críticas e
revi ontem o seu “Os Bons Companheiros”, filme pelo qual tenho especial
predileção. Fiquei um pouco dividido ao sair do cinema, talvez porque
esperasse mais do que pode ser considerada uma superprodução épica. Ainda
assim é um filme que nenhum cinéfilo pode perder. Por que gosto tanto de Scorsese? Acho que por dois motivos fundamentais. Em
primeiro lugar, seus filmes refletem uma psicologia extremamente realista da
violência, que, ao mesmo tempo, fascina e amedronta. Sangue corre aos rios
nas películas e aqui acontece notável pletora sanguinolenta. Nada há de
poético no ato violento, embora ele possa ter muito de heroísmo. A
humanidade, desde sempre, louvou os seus guerreiros, que é uma forma branda
de dizer que ela louvou os seus melhores e mais letais matadores. Mesmo os
bandidos mais sanguinários são respeitadíssimos no meio popular, como é o
exemplo de nosso Lampião, que virou lenda e sinônimo de valentia e, mais
recentemente, os chefes do tráfico de drogas no Brasil. Há uma inclinação
natural das pessoas a cultuarem os valentes. [Um gênio como Sconsese faria um filme monumental sobre a história do
cangaço, que ainda precisa ser mais bem contada pelas telas.] Seus filmes são, por isso mesmo, viris. Os personagens masculinos estão longe
da ambigüidade psicológica de muitas das produções. É o apogeu do macho. Os
personagens femininos, por seu turno, são complementares e cumprem as funções
femininas tradicionais de esposas, amantes, prostitutas, mães e filhas. Aqui
não foi diferente. Intercalar ficção com fatos
históricos tem dado bons frutos aos grandes diretores. Não é essa a faceta
talvez mais encantadora do “Godfather” do Coppola? Sconsese consegue algo
semelhante aqui. O elenco é magistral, sendo que
Leonardo DiCaprio como Amsterdan Vallon foi uma grata
surpresa. O desempenho de Daniel Day-Lewis como o arquivilão “William ‘The Butcher’ Cutting” é
simplesmente sensacional, o elemento central do filme. Um personagem
fascinante, pois não obstante ser um carrasco sanguinário,
tem consciência de sua própria força, é um destemido que tem no ar
irônico um tom de desafio diante dos inimigos e, ao mesmo tempo, é portador
de uma surpreendente honra pessoal, que louva a coragem dos vencidos. Lembra
muito dos guerreiros da Grécia clássica, implacável. Outro ponto notável é a
percepção de que, por trás de tudo que é humano, há sempre o duelo de duas personalidade, mesmo que o enfrentamento seja
coletivo. Organizações, turbas, gangues, máfias, polícias, exércitos,
qualquer coletivo tem no topo de seu poder uma forte personalidade, que duela
com seus inimigos. Os demais são mero instrumento de seu desejo de poder.
Nesse sentido, há um forte eco nietiszchiano na
construção dos seus personagens do filme Posso dizer que tive uma bela
tarde de domingo. O TIGRE E O
DRAGÃO 04/12/2002 Em meu comentário anterior
sobre o filme “Dragão Vermelho”, cometi um lapso que só é perdoável porque me
deu um mote para voltar ao tema. Referi-me no texto ao poeta Milton, quando
na verdade quis dizer William Blake, que, além de
poeta, foi também pintor. Graças ao gentil e-mail de um leitor, volto ao
tema, pois o uso da citação desse autor é central na peça e só a partir da
sua compreensão é que cenas obscuras à primeira vista tornam-se clara. A figura tatuada do dragão às
costas do personagem, uma viva e pictórica representação da Sombra, vale
dizer, do mal, é de autoria daquele poeta e pintor. É mais do que evidente a
necessidade de compreender o simbolismo envolvendo a obra de Blake. É de se recordar a cena em que
o o vilão Francis Dolarhydes (Ralf Fiennes) leva a personagem cega, Reba
(Emily Watson), para um zoológico, no qual um magnífico espécime de tigre
está anestesiado, à espera de cuidados odontológicos, ocasião em que Reba pôde acariciá-lo e até mesmo tocar propositalmente
na sua genitália. Quem não conhecer o poema “O Tigre”, de Blake,
não compreende a cena, que é essencial para o descortino da doentia
personalidade de Dolarhydes. Eis o poema (tradução
de José Paulo Paes): O TIGRE Tigre, Tigre, viva chama Que as florestas da noite
inflama, Que olho ou mão imortal podia Traçar-te a horrível simetria? Em que abismo ou céu longe
ardeu O fogo dos olhos teus? Com que asas
ousou ele o Vôo? Que mão ousou pegar o fogo? Que arte & braço pôde
então Torcer-te as fibras do
coração? Quando ele já estava batendo, Que mão & que pés
horrendos? Que cadeia? que
martelo, Que fornalha teve o teu
cérebro? Que bigorna? que tenaz Pegou-lhe os horrores mortais? Quando os astros alancearam O céu e em pranto o banharam, Sorriu ele ao ver seu feito? Fez-te quem fez o Cordeiro? Tigre, Tigre, viva chama Que as florestas da noite
inflama, Que olho ou imortal mão
ousaria Traçar-te a horrível simetria? Entre outras características,
o tigre é um dos poucos animais que tem no homem uma de suas presas. É um
caçador aterrador e implacável para as comunidades humanas que lhe são
próximas, o que mostra a identificação do serial killer
com o animal. Dolarhydes quis dizer a Reba que ele tinha a força e a psicologia de um tigre,
que era o próprio tigre, um devorador soturno de homens. É interessante notar que no
verbete “Tigre” do Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Ed. José Olympio, 1992), podemos
ler: “O tigre evoca, de forma
geral, as idéias de poder e ferocidade; o que só comporta sinais negativos. É
um animal caçador e, nisso, um símbolo da casta guerreira. Tanto na geomancia quanto na alquimia chinesa, o tigre opõe-se ao
dragão; mas se vem a ser, no primeiro caso, um símbolo maléfico, é, no
segundo, um princípio ativo, a energia, em oposição ao princípio úmido e
passivo, o chumbo oposto ao mercúrio, o sopro do sêmen”. Voltemos ao poema. Os
seguintes versos são enigmáticos: Quando os astros alancearam O céu e em pranto o banharam, Sorriu ele ao ver seu feito? Fez-te quem fez o Cordeiro? A alusão a Cristo e, portanto,
a Deus, é óbvia aqui. Como não ligar o Cordeiro às ovelhas de “O Silêncio do
Inocentes”? E segue: Que olho ou imortal mão
ousaria Traçar-te a horrível simetria? Reba o faz. É a maneira com que Dolarhydes
procura alerta-lhe do perigo de vida que corre estando próxima dele. A cena,
vista desse ângulo, é ao mesmo tempo poética, forte, simbólica e dá pleno
sentido à sua inserção na película. Compreendê-la assim induz-nos aplaudir
ainda de forma mais intensa os seus criadores. É um belíssimo filme. DRAGÃO
VERMELHO 02/12/2002 Ontem fui ver o filme “Dragão
Vermelho”, dirigido por Brett Ratner,
diretor que eu não conhecia. É um excelente filme. No elenco, além do notável
Anthony Hopkins, que dá vida ao personagem Hannibal Lecter, o psiquiatra
que é psicopata, temos uma constelação de excelentes
atores, como Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Mary-Louise Parker,
Emily Watson e Philip Seymour
Hoffmann. O filme completa a trilogia da
história de Hannibal Lecter
e está ambientado no início de sua carreira macabra. O roteiro foi
filmado por Michel Mann em 1986 (“Manhunter”). Completam a trilogia o memorável “O Silêncio
dos Inocentes”, de Jonathan Demme, e “Hannibal”, dirigido por Ridley
Scott. “O Silêncio dos Inocentes” foi
objeto de um sensacional ensaio de Olavo de Carvalho (
www.olavodecarvalho.org ), analisando os diálogos e os personagens no que têm
de mais simbólicos, nada havendo a acrescentar ao seu exaustivo texto. É das
três a película mais importante, uma verdadeira obra-prima. O filme dirigido
por Scott, por sua vez, foi mal recebido pela crítica, mas ainda assim eu
gostei dele. Scott tornou o personagem mais sanguinário, perdendo muito das
sutilezas do seu antecessor, mas ainda assim é um filme bem superior à média
e merece ser visto. “Dragão Vermelho” tem a sua
história centrada no eixo que une os três personagens principais: Hannibal (Anthony Hopkins), que
é identificado e preso pelo policial Will Graham (Edward Norton) e no
novo serial killer Francis Dolarhydes
(Ralf Fiennes). É, ainda
uma vez, o duelo entre o bem e o mal. Dolarhydes é
o personagem do cinema que melhor traduziu o conceito psicológico de Sombra:
a enorme tatuagem impressa em suas costas, do dragão, figura teratológica
extraída dos delírios de Milton, é a sua expressão mais plástica. A Sombra
está sempre às costas, é o lado obscuro da consciência humana. O homem Dolarhydes ficou completamente possuído por ela,
tornando-se um matador e mesmo um devorador de carne humana. Ainda assim, nos
momentos de lucidez ele procura resistir ao mal. Como o filme trata de um
personagem masculino, o roteiro associa o mal com o feminino, o que é
psicologicamente correto. Dolarhydes teria sido
maltratado pela avó, que dele cuidou na infância, advindo daí o seu
desequilíbrio psíquico. O que o diferencia de Hannibal
é que esse último, por regra, matava e devorava suas vítimas, quase sempre
escolhidas entre pessoas más. A única de suas vítimas que ele não devorou,
mas deu sua carne ao cachorro, foi o pederasta que o persegue na película de
Scott. Não nos escapa aqui o significado desse evento singular. O requinte do filme é que seus
personagens não são chapados, têm nuances. O próprio Dolarhydes
descobre sua porção “do bem”, pois mesmo no Mal Absoluto a semente do seu
oposto está presente, como na representação do Yin/Yang chinês. Nesse filme a maldade de Hannibal é mais chocante, embora seja menos sanguinolento
do que a película de Ridley Scott. É um homicida frio e implacável, que passa a usar o seu
duplo em liberdade para realizar a sua vingança contra o policial que o
prendeu. Isso o torna um roteiro de um suspense admirável. A cena em que ele
ouve os erros do flautista, que é morto e servido aos membros dirigentes da
orquestra, é chocante, nauseante. A personagem cega, Reba (Emily Watson), é justamente a que “enxerga” o lado
bom de Dolarhydes. Esse é outro requinte dos filmes
da série, em que os duplos estão presentes. Claro que, no final, o bem
triunfa e o mal é destruído. Mas poderia ser diferente? O bem é sempre mais
forte, por isso que a vida continua e a consciência humana também. O fundo
religioso está sempre presente na trilogia. A ESTRELA
VERMELHA 31/08/2002 Amigo leitor, ver o filme
"Doutor Jivago" nas circunstâncias em que
se encontra o nosso Brasil é uma experiência singular, simultaneamente bela e
assustadora. Se você é jovem e ainda não teve a chance de ver essa grande
obra-prima, faça-o correndo. Os personagens do filme são arquetípicos
e seus clones, aos magotes, podem ser encontrados de norte a sul em nosso
país. É uma aula de política envolta em romance e poesia. O filme é uma superprodução
dirigida por David Lean em 1965, tendo no elenco
Omar Sharif no papel principal, que dá título ao
filme, juntamente com Julie Christie, no papel de
Lara. Filmado a partir de uma novela de Boris Pasternak, ele usa uma história
de amor para retratar a Revolução Russa de 1917 naquilo que ela teve de
essencial. Lean/Pasternak mostram a revolução pelo
olhar de um médico, sua família e sua amante (Lara), bem como o das pessoas
que os cercam. O filme saiu do lugar-comum de
se fazer a crônica histórica a partir das lideranças políticas, captando os
fatídicos acontecimentos de 1917 pelo impacto que causaram às pessoas alheias
ao meio político. Tudo no filme é superlativo. Quem, no mundo, já não cantorolou o Tema de Lara, peça principal da formidável
trilha sonora de autoria de Maurice Jarre? A
fotografia, por seu turno, é de tirar
o fôlego. O diretor gosta de usar os planos largos, retratando uma paisagem magnífica. Quando as tomadas se dão no interior de espaços
menores, a impressão é que cada cena se desenrola como se o espectador
estivesse diante de uma pintura de Da Vinci. Pura
beleza. Dois símbolos têm destaque em
todo o filme: a bandeira vermelha e a também vermelha estrela de cinco
pontas. Quem já não os viu por aí? Para quem não sabe, a estrela de cinco
pontas é um cavernoso símbolo do Demônio e o vermelho é a sua cor predileta,
cor de sangue. A Rússia, com a revolução, transformou-se em um inferno que
virou de cabeça para baixo a vida de todos. O mergulho infernal durou setenta
anos. O personagem Pasha, o jovem professor secundário ngajado
na causa, lembra muito dos nossos atuais professores. Cego pela ideológia, insensível e obstinado, tudo que quer é a
revolução. Usa óculos assemelhados aos de John Lennon.
Podemos hoje ver centenas de milhares de pessoas iguais a ele nos comícios do
PT. Posteriormente ele assume o comando de uma unidade militar e fica
conhecido como Strelnikov, um assassino frio que
destrói tudo que encontra pela frente. Outro personagem que espelha
muita gente é o burguês Komarovsky, o oportunista mal-caráter
que acha que, com a revolução, ele se dará bem. Até consegue, se comparado
aos que ficaram fora do comando político, mas seu mundo também virou de
cabeça para baixo, pois uma revolução comunista simplesmente impede que a
vida normal conteça. Quantas pessoas ricas de hoje,
os chamados empresários, se iludem ao achar que um governo revolucionário
será igual aos demais e que a vida continuará como sempre? Encontro-os todos
os dias, alegres eleitores de Lula Lá. Os líderes da revolução só aparecem
em alguns momentos, em painéis gigantescos. Vemos Lênin, Trotsky e Stalin no
estilo do realismo monumental revolucionário. O filme, todavia, busca mesmo é
mostrar o chefete, o guarda de quarteirão. É
inesquecível a cena em que o irmão de Jivago, membro
do partido comunista, chega à casa dele, agora
tomada por uma multidão de desconhecidos, que passaram a partilhá-la, e
estala os dedos, fazendo todos se calar. É chocante. Outra cena que choca é quando
a família de Jivago está no trem, em direção a uma
chácara da família, na qual pensavam que a vida poderia continuar normal, e
um sujeito acorrentado, condenado aos trabalhos forçados, diz: "eu sou o
único homem livre aqui". A liberdade deixaria de existir na Rússia por
muitas décadas. Outra é quando os revolucionários, alistados no exército para combater
contra a Alemanha, de caso pensado provocam a derrota, entregando o
território e a sua população ao exército invasor, com o objetivo de
enfraquecer o governo e dar o golpe de Estado. O grau de perfídia contra seu
próprio povo não poderia ser pior. Os portadores da estrela vermelha de cinco
pontas são capazes de qualquer maldade para tomar o poder. "Não há mais vida
pessoal", diz Pasha a Jivago,
em um certo momento. Resume tudo. Na ordem comunista
as pessoas passam a ser apenas um número nas estatísticas e a sua vontade e o
que pensam não importam. Só o comando
político importa, só os líderes são, de fatos,
pessoas. Os demais não passam de gado
descartável e a vida humana perde qualquer valor. Se os nossos canais de TV
fossem mais decentes programariam a exibição desse filme agora, no período
eleitoral. Ele diz mais do que qualquer livro de
História contemporânea, mais do que qualquer anúncio e qualquer panfleto
político. David Lean pode ter filmado cenas que poderemos viver muito em breve. REVISITANDO
KUROSAWA 29/08/2002 Tive o privilégio de rever, na
seqüência, duas obras-primas da cinematografia japonesa: “Os Sete Samurais” e
“Ran”, ambas de Akira
Kurosawa, disponíveis em DVD. O filme ‘Os
Sete Samurais”, rodado em 1954,
tornou o diretor conhecido no Ocidente e foi muito premiado. Ainda em preto-e-brando, ele retrata a vida de uma pequena aldeia
perdida no interior do Japão “medieval”, ameaçada por um bando de facínoras.
Esse filme é de uma beleza única, diria que retrata poesia. Não obstante, faz
uma análise didática do que significa a ordem e a o flagelo que é a sua
ausência, em uma situação que deve ser assemelhada a todas as povoações do
mundo em algum estágio de sua existência, antes que alguma ordem pudesse ser
estabelecida. Nesse filme a elite política
está ausente. O que vemos são camponeses, de um lado, e os bandidos, do
outro. Entre eles, os sete samurais que foram contratados para combater os
bandidos. A mensagem é que a ordem só pode ser estabelecida pela espada. Na
sua ausência, impera o caos. Quem vive com os problemas de
segurança não resolvidos, como os habitantes das grandes cidades
brasileiras, passa a ter uma empatia imediata com a película. A problemática
é a mesma, pena que aqui não haja samurais em número suficiente, com o mesmo
código de honra e a disposição de dar a vida ao custo de refeições para
enfrentar os inimigos da ordem. Os atores escolhidos são muito
bons. Os cenários, magníficos. As técnicas de uso da
espada exibidas pelos samurais lembram um dança. Belíssimo. O final, com os camponeses
realizando a semeadura, acompanhados por cânticos, é simplesmente poético.
Kurosawa recheia a sua história com humor e com romance. Aqui ele não
esqueceu de nada do que é relevante para a humanidade. “Ran”
é por muitos considerado a obra máxima de Kurosawa.
É uma adaptação à história japonesa da peça de Shakespeare “Rei Lear”. Na verdade, o filme parece ser uma grande ópera ao
ar livre. Os exércitos em movimento, com suas armaduras de combate coloridas
e as suas bandeiras, formam uma beleza singular. É uma tragédia que mostra o
ocaso de um senhor feudal que chega ao apogeu da vida e do poder. Para
conseguir tanto poder, fez a guerra e praticou o mal. Ao tomar a decisão de passar
o poder ao primogênito, desaba sobre si e os seus a desgraça. É um filme que
disseca a alma humana naquilo que ela tem de mais demoníaco, o poder. Os
diálogos são verdadeiras aulas de psicologia. É um filme triste, como o
poder é triste. Mas nisso também consiste a sua beleza. HOMEM-ARANHA 21/05/2002 Fui ver o filme do
Homem-Aranha, uma grata surpresa para mim, que aprendi a ler manuseando os
gibis do herói. Embalei os meus sonhos juvenis nas suas aventuras, e quanto
não compensei das minhas limitações dando asas à imaginação? O Homem-Aranha foi uma
referência de infância. E nunca esqueço também o desenho-animado, cuja música
trago sempre na memória. Foram tempos de sonho e de esperança, de devaneio da
meninice difícil. O filme superou qualquer das
minhas expectativas. Pensei que não fosse passar de mais um filminho
caça-níqueis de Hollywood, tipo Titanic. Engano.
Não é casual que esteja batendo todos os recordes de bilheteria, inclusive no
Brasil. Se tivessem feito um filme de censura livre, como o Harry Porter, provavelmente
teria uma bilheteria muito maior. É uma superprodução muito bem
cuidada. Nunca imaginei que pudesse ver o herói de outrora voando entre os
arranha-céus, em sua teia, de forma tão perfeita, tão convincente. O diretor Sam Raimi foi muito competente.
Gostei especialmente do ator escolhido para ser o herói, Tobey
Maguirre, que se mostrou muito adequado ao papel. E
mesmo Willen Daffoe, no
papel do vilão Duende Verde, me agradou, não obstante as críticas do meu
amigo Martim Vasques da Cunha. Por trás de um enredo simples,
vemos a eterna luta do bem contra o mal. Talvez aí esteja o segredo do
sucesso, antes no gibi, como agora na tela grande. A história da arrogância e
do poder do dinheiro sendo derrotados por aquele que foi abençoado pela
dádiva. “Quanto maior o poder, maior a responsabilidade”, relembra o tio do
nosso herói. A união da ciência, do poder e do dinheiro na mesma pessoa,
possuída de suprema soberba, não poderia projetar uma sombra diferente da
máscara mefistofélica do vilão. É o demônio
encarnado. E não escapa também o
significado simbólico da mordida da aranha geneticamente modificada (ou
radioativa, como nos gibis) pela ciência, justamente no momento em que o mal
ganha relevo destruidor, sem meios de ser combatido senão pelo herói
escolhido. A aranha é uma espécie de símbolo da mãe primitiva, um ser que
emerge do mais indiferenciado para combater a arrogância unilateral da
ciência = psique do homem moderno. O fundo religioso é evidente. Peter Parker
é alguém demasiado humano, com quem podemos nos identificar instantaneamente.
A sua fraqueza – e a sua força mágica – trazem o encanto de um conto de
fadas. É como se nos dissesse que guardamos em nós mesmos a força capaz de
tudo enfrentar, a despeito da nossa condição humana. Não escapa também o esquema
quadrangular típico dos contos de fadas, os dois duplos (Parker/Homem-Aranha
e Osborn/Duende Verde) e mais a Anima, Mary Jane,
aquela que dá sentido à vida do herói, o objeto amado e fugidio. Não escapa
também ao observador que ele só foi mordido pela aranha = agente do
inconsciente que lhe dá a força mágica, porque se atrasou para fotografar a
amada. Ver o filme é diversão
garantida, uma viagem pelo requinte da técnica do cinema. O FIM DO RIO 06/01/2002 "Éis que cedo venho! Bem aventurado aquele que
guarda as palavras da profecia deste livro." Ap
22-7 Vi hoje o Apocalypse Now Redux, a versão ampliada do filme
com as cenas que não foram utilizadas na primeira versão apresentada ao
público pelo diretor Francis Ford Coppola. Ficou
muito mais belo, mais coerente, mais chocante, mais
artístico, mais explícito. As cerca de três horas e meia de projeção
parecem um tempo curto em face da beleza da obra. Ao final muita gente da
platéia ficou sentada, sem pressa de ir embora – uma reverência à obra e ao
artista – ouvindo a bela música e vendo desfilar os créditos. Para mim,
tornou-se um outro filme, pois, com outros olhos, eu o vi. Alguns temas se prestam sob
medida a falar do Mal metafísico, como são os policiais (e as prisões) e aqueles
que retratam dramas envolvendo hospitais e hospícios. Tratam, por assim
dizer, do Mal no varejo, envolvendo indivíduos isolados. Já o tema da guerra
fala do Mal coletivo, do Destino (ou da Divina Providência, como se queira
chamar), dos horrores por atacado que engolfam as multidões e mesmo povos
inteiros, sem que os integrantes nem mesmo compreendam o que se passa. Mas
mesmo na guerra o Mal tem autoria: há sempre indivíduos que o encarnam e o
simbolizam. O Coronel Kurtz,
personagem do filme, é uma dessas encarnações do Mal. Embora a narrativa de Coppola ainda traga um pouco do engajamento contra a
Guerra do Vietnã, e por isso seja um tanto politicamente correta,
o diretor nunca perde de vista a dimensão religiosa do Mal. "O
horror, o horror..." , as palavras finais do
personagem, em agonia de morte, resumem bem essa dimensão: a morte como sendo
o horror dos viventes, mais para o homem que dela tem plena consciência. O
horror da violência gratuita que ceifa, destrói. Coppola
bem capta essa falta de sentido no diálogo com os franceses, quando é dito
que a guerra fazia sentido para o vietnamitas, para
eles mesmos, que desbravaram a terra e lá estavam há três gerações, mas e
para os americanos? Que diabos eles estavam fazendo lá? Hoje sabemos que a guerra
local era um retrato da guerra global travada pelos EUA contra o
totalitarismo comunista, o que não era claro para muita gente à época,
inclusive para Coppola. Mas isso não tira o brilho
da obra. Os fatos históricos são o de menos, o que vale é a arte de falar da
alma e das coisas transcendentes, o que ele conseguiu de forma magistral. Na
verdade, a violência vista ao microscópio, bem de perto, ela é bem estúpida,
mas tem um sentido. Jamais podemos esquecer o Dia da Ira do Senhor. O Cristo
do Apocalipse mais parece um carneiro iracundo do que um cordeiro imolado. E,
como nos alerta o livro no versículo destacado em epígrafe, "cedo Ele vem", ou seja, está
sempre aí, de atalaia. E diga-se desde logo que é
falso afirmar que a temática do filme é o embate entre civilização e
barbárie. Isso é uma simplificação besta. O filme vai muito além. É notável o momento em que um soldado se espanta ao saber o destino do capital Willard e afirma, com uma característica muito própria do
nosso Guimarães Rosa, que aquele lugar ficava no fim do rio, local em que
ninguém deveria ir e, aqueles que teimavam, jamais retornavam. O rio
tomado como metáfora da fronteira entre o Bem e o Mal. O Coronel Kurtz, ao fazer a guerra, ficou fascinado pelo Mal e
passou a agir à revelia do comando, praticando a violência cada vez mais
desenfreada, fazendo-o regredir a práticas pagãs no meio da selva, nas quais
a morte – sobretudo o assassinato em larga escala – passou a ter um papel
central. Por conta disso, Kurtz passa a ser idolatrado como um deus, pois praticava
a destruição em escala verdadeiramente apocalíptica. Era uma espécie de deus
do Mal em seu templo encravado na selva. Quando o major Willard,
escalado para matá-lo, é capturado, eles conversam e Kurtz
diz que é preciso enfrentar o horror, inclusive o horror moral, a fim de
eliminar o medo. É como se dissesse que para enfrentar o Mal é preciso
praticá-lo. Alguns momentos são patéticos.
Quando, nas cenas iniciais, há o bombardeio da aldeia, vemos um padre
improvisar uma missa em pleno combate, rezando a Oração do Pai Nosso ao som
dos helicópteros bombardeando e do matraquear das metralhadoras. É chocante.
De alguma forma, liga-se à temática do filme, desde o título. "Mas
livrai-nos do Mal", pede Cristo ao Deus-Pai. Será que nem Ele, Cristo,
sabia como? E as cenas em que Robert Duvall
interpreta o fanfarrão e aloprado coronel Kilgore, que faz da guerra o seu parque de diversões,
também são patéticas. Coppola ridiculariza o
militarismo. Parece claro que a coisa
lógica a fazer seria mesmo matar o coronel Kurtz,
como decidiu o Alto Comando. Kurtz tornou-se um
assassino psicopata em larga escala, fora de controle. Mas, e essa questão
precisa ser colocada, seria possível combater o Mal com o Bem? Seria possível
fazer justiça com perdão? Para um assassino psicopata, só um carrasco
profissional? Essa é uma questão bem
interessante. Não há dúvida que o Mal tem nos Estados um dos seus
instrumentos mais eficazes e não casualmente eles é que são os instrumentos
da guerra. Mas, muitas vezes, cumpre-se o dito de Mefisto: "aquele que
sempre quer praticar o Mal, mas acaba sempre praticando o Bem" (Goethe).
Talvez esta seja a questão: ao Estado cabe a prática do Mal para combater o
Mal, desde que o lado do Bem vença. Mas haverá alguma garantia de que isso
sempre vá acontecer? Será que sempre os Aliados vencerão as eternas forças do
Eixo que estão sempre se reorganizando e jamais sofrem uma derrota final? Os
acontecimentos de 11 de setembro não são a prova mais cabal de que os
demônios estão sempre à espreita? HARRY PORTER O mergulho em busca do Si Mesmo 19/12/2001 Fui ver o filme Harry Porter e adorei. Agora
entendo porque os livros da tetralogia já publicados têm encantado multidões
de jovens e adultos em todo o mundo. Se o roteiro do filme tiver sido fiel à
obra, o que temos é a exposição dos símbolos mais profundos da alma, que
estão impressos em todas as sagas, de todos os temos e lugares. Mas, diga-se,
Harry Porter é uma saga
que guarda as tradições cristãs, uma recriação dos nossos contos de fadas e
da lenda da busca do Santo Graal. O filme, e
provavelmente os livros, retratam o embate de cada um de nós em busca da
pedra que não é pedra, do ser mais profundo: numa palavra, de Deus. Todos os arquétipos do
inconsciente coletivo definidos por Jung estão lá. O Velho Sábio, a Sombra, o
círculo (a bola dourada voadora), a trindade, a quaternidade.
Harry Porter poderia ter
sido apresentado com qualquer idade, pois a história continuaria a ser
interessante e verossímil. Ele é a personalidade consciente, o arquétipo do
Eu. A menina é uma manifestação da Anima. Os dois outros garotos representam
as outras duas funções psicológicas e são do sexo masculino porque a saga
refere-se a psicologia de um homem. O filme
representa a obra alquímica da transformação da alma. Repete-se sempre a fórmula do
3+1, totalizando o número 4, símbolo da personalidade total. Os quatro
elementos da Astrologia, os quatro Evangelistas, as quatro estações do ano,
os pontos cardeais. É a totalidade do mundo manifesto. O tempo todo
vemos que o Eu do Harry Porter é lançado na
aventura da alma por forças mágicas, como que em um sonho. É a longa aventura
da alma em busca de sua própria individualidade, em busca do Si Mesmo, em
busca da Divindade. Não é casual que a pedra filosofal tem o poder de dar a
vida eterna, toca-la é entrar em contato com a Eternidade. A jornada começa
com a revelação da serpente, repetindo o livro do Gêneses
com outra alegoria. Como Harry Porter,
cada um de nós nasce com um símbolo na testa e tem a obrigação de ir em busca
de si mesmo, no mais profundo do ser. É talvez isso que encante tanto as
multidões e faça do livro um dos maiores sucessos editoriais de todos os
tempos. Depois aparecem as corujas,
símbolos da sabedoria. São as mensageiras, as que trazem a Boa Nova. Harry Porter é transportado
para o seu sonho mais profundo, saindo da sua vida tirana. Na verdade, a sua
história lembra um pouco a da Gata Borralheira contada para os sexo masculino. Depois vem o mensageiro que lhe dá o
bilhete para o Trem da Vida, para que possa mergulhar na sua aventura. Então a sua saga só se torna
vitoriosa porque os elementos mágicos do inconsciente cooperam, a começar
pela menina – sua Anima que usa a lógica de forma implacável. O outro garoto,
mais amigo e mais próximo, representa a sua segunda função psicológica mais
diferenciada. O menino louro e mal, que também é representado pelo menino
bobo que é petrificado, á a terceira função com alguma diferenciação. A
menina, claro, é a sua função psíquica mais inconsciente e por isso aparece
como sexo oposto. E é ela quem sempre vai lhe ajudar nos momentos decisivos. O poço representa esse
mergulho no mais profundo do ser. É guardado pelo cão tricéfalo,
que aparece em diversos mitos. É o cão que guarda a passagem para o reino dos
mortos. Lá tem a planta que mata, uma espécie de
Árvore da Vida, o elemento mais primitivo que há no ser, seu componente
vegetal. Só quando ultrapassa esse nível, quando verdadeiramente se entrega
ao inconsciente, é que Harry Porter
se defronta com o espelho mágico, que lhe diz uma única mensagem: a pedra
filosofal está em você mesmo, no seu bolso. Foi preciso ir até lá apenas para
que ele tivesse a consciência disso. O jogo de xadrez é bem
emblemático. O xadrez é a combinação do número 8 (8 x 8), que é a composição
dupla do número 4. Simboliza o infinito. Então a salvação não é gratuita, tem
que ser conquistada. É preciso ganhar o jogo. A pedra está lá, mas é preciso
enfrentar os medos e as fraquezas e superar-se a si mesmo para fazer o lance
final da jornada, para entrar no recinto do espelho. Lá está a Sombra, o Mal,
que também precisa ser vencido. Quem toca a pedra tem o poder de destruir a
Sombra, o que significa redimi-la, integrá-la à personalidade total. Ver o filme foi uma grata
surpresa. É muito bem dirigido, denso. Com certeza não foi fácil transpor a
narrativa literária para o meio audiovisual. Mas o diretor foi muito bem
sucedido. Até por isso vale a pena assisti-lo. São três horas de pura magia e
de puro encanto. O RESGATE DO
SOLDADO RYAN 07/12/2001 Combinar a brutalidade e a
crueza da guerra com poesia e lirismo não é algo fácil, sem cair na pieguice
e sem fugir ao tema. Mas Spilberg conseguiu essa
proeza no seu O Resgate do Soldado Ryan. A cena
inaugural, do desembarque na praia de Omaha, é
daquelas inesquecíveis. Não há como deixar de ficar tocado por ela, seja pela
crueza, pela estupidez da guerra em sua totalidade, pelo sangue, pelos corpos
despedaçados. A narrativa, em tom de documentário, não deixa o espectador
respirar. A impressão que a audiência tem será talvez a mesma de alguém que
embarcou para aquele inferno, ou seja, a de que todos morrerão, que não há defesa, que tudo é inútil. A força dos defensores era
muito maior do que a dos atacantes. Não há música acompanhando a cena, apenas
o som horrorizante das explosões e dos tiros. É
difícil esquecer o estalido seco dos disparos. Aí é que entra o personagem
vivido por Tom Hanks, o misterioso capitão John. Os
seus homens simplesmente o reverenciam pela coragem e pela ousadia, pela
capacidade de improvisar e de vencer. Hanks dá vida
ao personagem de forma magistral. Ele é a combinação de um simples cidadão,
um professor de redação que acabamos por saber no final, que também ensinava
aos seus alunos o jogo de beisebol, que se transforma no guerreiro frio e
implacável. "A cada homem que matamos (dos seus, óbvio) poupamos a vida
de outros dez e talvez vinte. Isso faz sentido". O herói não é um superhomem, é alguém como qualquer um que apenas enxergou
a sua missão e tem a coragem de vive-la, sendo inclusive
acometido por sintomas de alguma doença neurológica que faz a sua mão tremer.
Não teme a morte. Não se impressiona com ela. Mas também não a deseja. Tudo
que quer é voltar ao lar. Um dos momentos de que mais
gosto é quando Spilberg mostra uma sucessão de
rostos – os rostos da guerra – de angustiados, amedrontados, esmagados por
forças maiores que provavelmente os soldados que combateram não compreendiam.
É poético. Outra quando a mamãe Ryan vai ser
informada da morte dos seus filhos. Vemos uma fazenda perdida em algum lugar
do interior dos EUA, muito bem cultivada, um mulher
cuidando dos seus afazeres domésticos, que enviou quatro filhos para o front.
A força verdadeira do exército dos EUA está nesse componente, naqueles
valentes caipiras que saem dos seus afazeres para morrer em locais
longínquos. Como é bela a cena em que ela cai ao chão, como qualquer mãe, de
qualquer lugar cairia ao receber a notícia triste. Me fez
lembrar o poema de Fernando Pessoa "O Menino de sua Mãe". Outra
cena que muito gosto é quando ele diz aos seus comandados: "mais
importante do que cumprir a missão, é vencer a guerra". Um agudo sentido
do momento, algo grandioso. Outra que muito gosto também é a citação de
Emerson, sobre o sentido da guerra, que talvez exprima de forma adequada a
psicologia do personagem principal. Não é um filme que agrade à
maioria das mulheres. Ao contrário, é um filme masculino. Ainda assim as
mulheres são heroinas, as esposas e mães à espera de que seus guerreiros retornem vivos e inteiros do inferno
que é a guerra. O roteiro insere no drama
coletivo um drama pessoal, que serve de instrumento para a narrativa. O
soldado Rayan é o único sobrevivente dos quatro
irmãos que foram à guerra e o comando, tendo que enviar três cartas em
simultâneo à mãe informando a morte dos três, decide retirar o sobrevivente.
Aí escolhe o melhor de todos os seus capitães de campo, John, para, em meio
ao caos das batalhas da invasão do Dia D, encontrar e resgatar Ryan para a sua mãe. Mesmo aqueles que não gostam
do gênero se emocionam. Spilberg é um poeta do
cinema. E aqui é uma das suas obras maiores. Ele conseguiu transmitir a
mensagem sempre verdadeira de que, nos momentos decisivos, é a personalidade
individual que faz a diferença, seja pela coragem pessoal, seja pelo
discernimento, seja pela compaixão. O personagem vivido por Hanks transmite-nos tudo isso. Spielberg não dá glamour à
guerra, mas dignidade ao homem guerreiro. E resiste à tentação de satanizar os soldados alemães, retratados também como
vítima do infortúnio político, o que não é pouco, se analisarmos
a filmografia da guerra feita em Hollywood. Outro dos grandes méritos do
diretor. Sem dúvida, é um filme para
ser visto muitas vezes. A SAGA DO
PODER 22/11/2001 Rever a saga de Francis Ford Coppola, The Godfather, é daquelas experiências estéticas
inesquecíveis. A recente chegada ao mercado da versão em DVD permitiu-me um
mergulho na trilogia. O filme é a crônica do Poder, na sua expressão
transcendente, o Poder como força que lança suas raízes nos fundamentos do
Bem e do Mal. Mario Puzzo e Coppola
conseguiram transpor para as telas o exato sentido do fascínio feiticeiro do
Poder, o domínio demoníaco que este tem sobre aqueles que são o seu
instrumento de expressão e também suas vítimas. Quando o personagem Luchesi afirma, na fita III da série, que crime e
política são a mesma coisa e que finanças é apenas
uma arma diferente do que a pistola, ele sintetiza o enredo de toda a saga. Os nomes dos personagens que
constituem a dinastia do Chefão são emblemáticos: Vitor, o vitorioso, Michel
(Michele), o vingador e Vicent (Vicenzo)
o vencedor, dizem muito de cada uma das partes. O velho fundador da dinastia
é alguém que teve a mão do poder do Mal desabando sobre a sua família,
matando todos os seus parentes. Escapou quase que por milagre. Migra e “faz a
América”. Por sua frieza e coragem, para não ser feito de tolo, ou seja, para
não continuar sendo vítima do Poder, torna-se ele mesmo o seu agente, um
matador que passa a usar a violência como última palavra para os negócios. Marlon Brando nesse papel tem atuação notável. O mesmo
pode ser dito de Robert de Niro. A história de Michel é mais
comovente e mais heróica. O velho Vitor não teve muita escolha, ele era a
vítima que se tornou algoz. Michel teve a oportunidade de não entrar na
espiral de violência, mas preferiu torna-se o vingador e fez o seu batismo de
sangue, ao matar o concorrente Solozzo e um capitão
da polícia. Depois do batismo de sangue, veio a escalada vingadora, que não
perdoou sequer o irmão. Tornou-se uma fera assassina além de todos os
limites, mas sempre castigando aqueles que o traíram e que praticaram o mal.
Mas, paradoxalmente, era um homem de família, tudo que queria era proteger a
família, passando a vida inteira lutando para tornar-se uma pessoa
respeitável. Al Pacino é simplesmente brilhante na
interpretação do personagem. A cada vez que assisto mais me entusiasma a
competência do ator em encarnar o anjo vingador. Ele, sozinho, vale o
ingresso, uma aula de interpretação. O Poder é sempre ilusório e
traiçoeiro. A dor que Michel vive quando é traído comove, mas nada é tão
comovente quanto em dois momentos. O primeiro é a cruel confissão de Kay (a esposa) de que abortara um filho seu para “acabar
com essa história que já dura dois mil anos”. A
reação do persogem, o desespero, o tapa na mulher,
é algo indescritível. Só vendo. Kay conseguiu
atingi-lo de maneira muito mais profunda do que qualquer dos seus inimigos. O
segundo é a morte da filha Mary, no final antológico do terceiro filme da
trilogia. O grito que Pacino solta no ar mostra a
dor mais profunda que um homem pode ter. “Quando eles vierem, atacarão
primeiro aqueles você mais ama”, disse certa vez, profético, para Vicenzo. Os donos do poder são sempre suas
primeiras e maiores vítimas. O amor e o Poder são antípodas. A famiglia
de fato é um microcosmo que representa a estrutura imperial do Poder. É uma Estado em miniatura. O paralelo entre a ação de Michel
e a Igreja é também algo notável. Há a Graça, a redenção, mas elas são raras
e destinadas apenas para aqueles que transcendem o Poder, escapam de sua
escravidão. O Papa João Paulo I, personagem que é inserido no enredo do filme
de maneira brilhante, é daqueles personagens que fazem contraponto. A bondade
dele, a confiabilidade, a diferenciação das demais pessoas
que Michel conheceu levam-no a fazer a confissão, outra monumental
cena do filme, com estupenda interpretação de Pacino.
E aqui é de se registrar a visão pessimista de Puzzo/Coppola sobre o Poder. O Bem sucumbe ao Mal. O Cristianismo
ficou apenas na superfície dos ocidentais, não entrou nas suas entranhas. E a
morte de Michel, sozinho, com o cão a observar e depois cheirar o cadáver,
não precisa ser comentada. O próprio Mefisto veio buscar a sua alma. Na verdade, o resumo do personagem
Michel Corleone está na Epístola aos Romanos (7;23): ”Pois não
faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”. É a escravidão
do pecado determinando a ação dos homens, além de sua vontade. Não obstante
todo o pessimismo e toda a crueza - e a trilogia é um dos filmes mais
violentos que já vi - é um filme religioso. Se há alguém que ombreia com Kubrick na arte cinematográfica, este é Coppola. E a trilogia do Chefão é a sua obra-prima. NÁUFRAGO (Cast Away) 19/02/2001 A impressão maior do filme é a
beleza. Do começo ao fim, a sentimento do belo é exaltado, mesmo nas cenas
mais dramáticas. Acompanha esse sentimento a admiração que causa a
interpretação de Tom Hanks, no papel de Chuck Noland. Inicia como um
gordinho funcionário da Federal Express (FedEx) e acaba como um sobrevivente de uma
tragédia, que viveu por anos uma dieta de peixes, crustáceos e côco. Um sedentário que virou pescador. Um Robson Crusoe recriado para os nosso
tempo. A interpretação de Hanks é simplesmente
brilhante. É impossível reconhece-lo no homem peludo, barbudo, cabeludo,
magro e musculoso em que se transforma o personagem. Mas é um filme altamente
simbólico e nisso também consiste a sua beleza. A cena inicial, que mostra
uma encruzilhada de duas estradas (a cruz que indica os quatro pontos
cardeais), perfeitamente perpendiculares uma à outra, carregando todo o
simbolismo do filme e não casualmente é na mesma cena que o filme acaba: o
número quatro, os pontos cardeais, o centro do mundo onde o finito encontra o
infinito. Chuck Noland (No Land = nome
simbólico) tem uma vida unilateral, preso ao relógio. A obsessão pelo tempo é
inerente ao trabalho de quem está numa empresa de entregas rápidas. A
unilateralidade faz com que ele viva literalmente no ar, longe da terra. A
temática do Tempo (mitológico) permeia o filme do princípio ao fim: o escravo
do relógio será confinado a uma ilha deserta na qual terá tempo para tudo,
quando antes não tinha tempo para nada, nem para a ceia de Natal em família.
Para Agostinho, o tempo é “a imagem
móvel da imóvel eternidade”. É interessante o que diz o
livro Dicionário dos Símbolos (Jean Chevalier e Alain Gheerbrant):
“Todo movimento toma forma circular, no
momento em que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim e cai
sob a possibilidade de uma medida, que não é outra senão o tempo. Para tentar exorcizar a angústia e o efêmero, a relojoaria
contemporânea não encontrou nada melhor, inconscientemente, do que dar aos
relógios e aos seus despertadores uma forma quadrada, em lugar da redonda,
simbolizando, assim, a ilusão humana de escapar à roda inexorável e de
dominar a terra, impondo-lhe a sua medida. O quadrado simboliza o
espaço, a terra, a matéria”. A vida de Chuck
é um conjunto de relógios marcando tempo e recebe da namorada, no Natal (a
história se dá no tempo de Natal) também um relógio, herança de família, de
formato redondo, com uma foto dela, presente que o acompanhará nos seus
infortúnios. Outro ponto singular do filme
é mostrar claramente os quatro elementos em destaque: a
terra, em sua encruzilhada, o ar (e o avião, causa da tragédia), a água, na
qual faz um mergulho para o tempo eterno (é dado como morto e volta no final,
renascido) e o fogo, primeiro sobre o oceano por ocasião do desastre (fogo
purificador), depois na difícil tentativa de produzi-lo em ambiente
completamente primitivo. Qual um ancestral, ao consegui-lo festeja o
evento de forma espontânea, diria mesmo religiosa. É o fogo salvador. Água, terra, fogo e ar: os
quatro elementos que remetem à encruzilhada, ao centro do Mundo. Chuck, qual um Jonas, terá que fazer o seu mergulho no
oceano profundo (a cena em que a baleia o observa na jangada é antológica). Chuck vivia unilateralmente o elemento ar, o intelecto, o
tempo escravizante cada vez mais curto da vida
moderna, que chega ao limite do sincronismo. Quis o destino obrigá-lo a viver
um outro tempo, que não passa, a contemplar o oposto do que sempre viveu: o
tempo que é “parado”, a espera, a impotência, a solidão. Passou a viver numa
ponta de terra cercada de água, com a ajuda breve do fogo e sem o elemento ar
(notável a cena em que constata o inútil e encharcado aparelho de telefone
celular). Não havia mais pressa alguma ou, antes, havia agora a espera das
longas horas que demorariam a passar. É notável também os cálculos de tempo e navegação.
Quatro anos na ilha. Área de busca, raio Viveu o homem primitivo. O
isolamento. A angústia da fraqueza humana diante da natureza, a ela
inteiramente submisso e dependente apenas da sua inteligência e dos seus
músculos. O final remete à cena
original, isso eu já disse. Simboliza o novo começar. É uma belíssima cena.
Diz ainda o Dicionário dos Símbolos “que a finalidade do símbolo é a tomada
de consciência do ser (em todas as dimensões do tempo e do espaço), bem como
de sua projeção no além”. Melhor não poderia dizer. É um filme imperdível. MUNIQUE 09/02/2006 Fui ver o
MUNIQUE, filme do Spilberg. Não fiquei
propriamente decepcionado, fiquei chocado com o que vi. Spilberg
teve na mão um material perfeito para fazer uma obra de arte, mas fez tantas
concessões ao politicamente correto que conseguiu estragar tudo. Três coisas
absolutamente fora de lugar: uma equipe de matadores a mando de um Estado com
problemas de consciência, uma história sobre o terrorismo palestino sem citar
o papel de Yasser Arafat e uma ambivalência moral
absurda da narrativa, a ponto de não identificar claramente quem são os
heróis e os bandidos da história. É verdade que um esquadrão de
extermínio está para além do bem e do mal, além da moral judaica. Mas não se
pode perder o contexto dos fatos, pois o grupo representou o papel de
carrasco e não creio que caiba a ninguém fazer julgamentos morais dessa
hedionda profissão. O carrasco “é”, cumpre ordens.
Alguém sempre faz o trabalho sujo, como fazem os coveiros. O ponto melhor do
filme é quando mostra a primeira-ministra Golda Meir dando a grande ordem, para se fazer justiça à
revelia do sistema jurídico, sumariamente. Então já se vê que o extermínio é
apenas o cumprimento da decretação de pena de morte por parte de um Estado,
que diferente não poderia fazer em face da ferocidade e da gratuidade dos
crimes praticados pelos terroristas contra seus cidadãos inocentes e
indefesos. Fosse eu primeiro-ministro faria igual. Não se pode equiparar o papel
dos israelenses vingadores com o dos terroristas que mataram atletas civis de
forma covarde. Esse relativismo moral é inaceitável e é o grande erro do
filme. Foram liquidar os assassinos que se vangloriavam do feito e prometiam
repeti-lo, não gente inocente. O filme deveria claramente mostrar que há uma
hierarquia na questão moral. Imoral seria o poder político israelense deixar
barato o episódio e impunes os assassinatos covardes de seus concidadãos.
Ficou em cima do muro. Nesse contexto, as piadinhas
supostamente típicas de judeus colocadas nas falas, como o pedido de recibo
de quem cuidava das finanças da operação, soaram grotescas. Não tiveram graça
nenhuma. Spilberg não fez algo semelhante com os
palestinos. Sua licença de ser judeu não lhe confere mandato para
ridicularizar quem teve a responsabilidade e a coragem de fazer o que
precisava ser feito. Poupar a figura monstruosa de
Arafat no filme é desonrar a memória dos inocentes mortos. Ele foi a peça-chave na trama criminosa. Por que a omissão? E para mim soou pouco crível
que o grupo exterminador fosse composto de amadores e que as informações sobre
os alvos chegassem ao mesmo tempo de forma fácil e alheia a uma estrutura
profissional de inteligência militar. Inverossímil. Nem os alvos palestinos
eram tão estúpidos e nem o bando improvisado de vingadores poderia ser tão
eficaz deixado por sua própria conta, como quer fazer crer o diretor. Essa trama teria que ser
narrada em contornos épicos, retratando dilemas semelhantes aos contados nas
tragédias gregas. Virou um filminho enfadonho. Se fosse dirigido por um
palestino não seria pior sob as vistas de um
ocidental. Mas parece estar na moda tomar a defesa pública de todos aqueles
que empunham armas contra os que representam a
civilização. Basta lembrar do tenebroso CRUZADA, que comentei anteriormente. Estão no mesmo patamar, fazendo propaganda da causa
islâmica. DOIS FILMES 23/10/2005 Ontem vi o filme Constantine, estrelado por Keanu
Reeves e dirigido pro Francis Lawrence.
Apesar de algumas incongruências com a fidelidade aos
textos bíblicos, a começar por atribuir a morte de Jesus a uma lança, uma
forma guerreira de morrer bem alheia a Cristo, e não à Cruz (tinha Jesus que
ser degradado até a última gota, sem honra alguma, como o mais reles dos
homens, daí a Cruz), gostei da obra. O filme é,
todo ele, símbolos. Na cena inicial do achado da ponta de lança perdida – a
Lança do Destino da citação inaugural –, vemos o cão, o mesmo bicho que
acompanha a morte de Victor Corleone, o mesmo
canídeo do outro filme de que quero falar, o
Lobisomem, filmado em 1941. É sempre o Cão, o Andrógino nojento a ameaçar a
humanidade. Claro, é o Mal que está em
tela. No Constantine vemos os diferentes planos
interagindo, os anjos e demônios duelando pela alma e pela posse do corpo dos
homens e mulheres. John Constantine é especial
porque vê os demônios e os anjos, algo fora do alcance da maioria dos
mortais. O Mal metafísico tem manifestações reais e é disso que trata o
fenômeno religioso desde a Origem. A descoberta do Deus Único e a sua Piedade
para com a humanidade, a encarnação do Verbo – em suma, a Revelação, dá o
antídoto contra o Mal, o caminho para a Salvação. Desde tempos imemoriais os
homens convivem com esses seres especiais, os médiuns. Assim nos tempos
bíblicos, assim agora. Como entender Nietzsche e seu Zaratustra deslocado
dessa realidade fantasmagórica? Jung levou toda a vida a falar desses anjos e
demônios. Eu convivo com quem tem o “dom” ou a maldição de enxergar mais
além. Sei que o filme não é uma mera recriação para o cinema de histórias em
quadrinhos. Relata uma realidade mística conhecida. [Quando se vê as imagens de
Hitler no filme de Leni Riefenstahl,
por ocasião do VII Congresso do partido Nazi, ao
receber a palavra percebe-se claramente quando o ser humano é tomado pela
besta. Essas imagens têm um valor histórico inestimável
sobretudo por documentar essa metamorfose em alguém radicalmente
possuído pelo Mal transcendente.] Mas falemos dos símbolos. As
armas de John são amuletos, água benta e fórmulas feitas, que lhe dão o poder
do exorcismo. Em uma cena chama a atenção especial o amuleto usado para
proteção pelo padre, com a imagem do Laço Infinito, o mesmo que está na
logomarca do Unibanco, comentada por mim anteriormente. No filme ela é posta
de forma positiva, protetora. Mas é um símbolo satânico, invocador de
demônios. Está aí uma outra incoerência do filme, pelo menos até onde me é
dado conhecer tal símbolo. John é um homem comum, mortal,
fumante, doente e cínico. Mas com grandes dotes espirituais, que usa para o
bem. Embora narrando uma simbologia confusa, minimizando o poder da Cruz, no
conjunto o filme reconhece o poder da Igreja de Cristo, da própria Cruz ela
mesma, como instrumento de salvação. A arma de John tem a forma de Cruz e
lança água benta. O inferno é retratado como um
duplo da Terra, devastada. Multidões em agonia. O inferno está na multidão,
preciso reconhecer. Todo coletivo é demoníaco, carrega a semente do Mal. O
Bem só pode residir no indivíduo, na consciência individual. Os demônios são
retratados como figuras deformadas derivadas do homem, lembrando cadáveres e
esqueletos. Estão associados a insetos, seres primitivos e horrendos,
nauseantes. Horríveis, como que saídos do quadro de Bosch. As realidades se
sobrepõem, sendo a consciência dos homens o campo onde se dá o duelo entre o
Bem e o Mal. Cabe ao homem fazer a escolha. Nisso nem Deus pode ajudar, é seu
grande fardo. Isabel, irmã-gêmeas de Ângela,
personagem central na trama, escolheu suicidar-se para se livrar dos
demônios. Sem perdão. Fez a escolha errada, não tem volta, está
irremediavelmente condenada. Fez do “dom” a sua maldição. O filme Lobisomem (Wolf Man), dirigido por George Waggner em 1941, é um trabalho notável. Não o conhecia.
Estava a rodar os canais da Tv
por assinatura quando o mesmo estava começando. Parei o que fazia para vê-lo
até o final. Interessante como aqui a figura do lobo (cão), o Mal e o
pentagrama estão intimamente associados. A estrela de cinco pontas marca a
mão daqueles que serão levados pelo Demo. Poucas vezes vi esse símbolo ser
exaltado com tanta nitidez. A estética é a dos anos quarenta, os atores foram
mal escolhidos (o filho é corpulento e alto, o pai miúdo, baixo). No mais, é
muito bem feito. Vale conferir, especialmente se você, leitor, estiver
interessado na questão do Mal metafísico e do símbolo do pentagrama. A GUERRA DOS
MUNDOS 05/06/2005 Eu tinha me prometido não comentar
esse filme do Spielberg (hesitei em escrever “filme horrível”, mas vá lá, que
seja), que é daquelas obras do cinema que, ao acabar a exibição, você se
pergunta porque perdeu ali o seu tempo. O argumento
do filme é, para dizer o mínimo, estúpido: alienígenas que depositaram na
Terra máquinas de guerra há milhões de anos voltam,
quais vampiros assassinos, exterminadores da raça humana, e fazem a sua
devastação até serem eles mesmos destruídos por bactérias. Como é possível que seres inteligentes, que “plantam” máquinas de guerra que
resistem ao tempo estelar, atravessam galáxias, que adoram carne
humana fresca, não notariam o minúsculo detalhe da bactéria? Tenha dó. É
preciso um QI de ameba para embarcar numa história tão pobre. O fato é que decidi comentar o
dito cujo por causa do comentário mendaz feito por Luiz Carlos Merten, na edição do último sábado do “Estadão”. Com um roteiro que tira a essência do livro e
do filme originalmente dirigido por Byron Haskin em
1953, Spielberg produz uma caricatura cinematográfica, quando comparado à sua
obra pretérita. Mas o comentarista não vê assim. Primeiro, Merten diz que o filme propõe o desarmamentismo. Vi o contrário, a reação instintiva de
um pai que toma a sua arma para a defesa de seus filhos é ela mesma a
apologia do uso da arma de defesa pessoal. Tinha a arma à mão, pouco importa
se era eficiente contra o inimigo. Segundo, diz que Spielberg retrata a
inutilidade das armas de guerra. Quem é autor de O Resgate do Soldado Ryan não pode ser “acusado” desse crime. Só se forem
inúteis contra ETs mesmo.
Sem elas, a China e o Islã tomariam de assalto a Europa e as Américas. São
elas, as armas, que garantem a continuidade da Civilização. Sem falar da ala
vermelha, o inimigo interno que faria pó do que há de mais requintado na
tradição judaico-cristã, que são os seus valores morais. As hordas ainda
podem ser controladas, graças às armas. O filme, para Merten, seria um libelo contra Bush. Balela. É um filmeco, talvez o pior do diretor, que imagino será um
relativo fracasso de bilheteria em face da sua vacuidade. Filme horrendo,
barulhento, sem enredo, sequer tem um história paralela, um romance, nada. É
feio e barulhento do princípio ao fim. Até mesmo nas cenas de ação há “pouca”
ação. Quase dormi, dormiria se não fosse o barulhão
catastrófico. Não fui embora antes porque não quis estragar o passeio de quem
foi comigo. |