NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

THE MANCHURIAN CANDIDATE

30/11/2004

 

Como sempre, aqueles que se fiaram no que leram em nossa imprensa sobre o novo filme de Jonathan Demme, “The Manchurian Candidate”, traduzido para o título imbecil de “Sob o Domínio do Mal”, não foi ajudado na compreensão do enredo. Um grande diretor no comando de um grande elenco, com uma grande história para contar, só poderia produzir um ótimo filme. Só não é uma obra-prima porque deixou de explorar um pouco mais o tema fundamental do filme, o incesto, tabu maldito que se torna ainda mais maldito quando envolve mãe e filho. Temos um Édipo e uma Jocasta, só que aqui não mais produzidos pela vontade dos deuses, mas pela razão consciente de uma Mãe terrível, tomada por uma sede de poder desmesurada.

 

Esse é o ponto essencial. A questão política, à qual a imprensa deu grande ênfase, é adjacente e a guerra uma mera moldura para o desenrolar de uma história eletrizante, pela qual a Mãe terrível, plutônica, escraviza seu filho, tornando-o o seu próprio falo, um guerreiro obediente aos seus caprichos. O menino perde a individualidade, a vontade, a memória e passa literalmente a executar, qual zumbi, as vontades mais cruéis e megalomaníaca da Mãe.

 

O filme é um remake do roteiro originalmente dirigido por John Frankenheimer, tendo como principal astro Frank Sinatra. Nessa primeira filmagem a história se passa na Guerra da Coréia, enquanto Demme ambienta seu enredo na Guerra do Golfo. Frankenheimer coloca com toda a força o duelo da Guerra Fria e a vontade da Grande Mãe fica eclipsada pela conspiração comunista. Demme pôde ir mais longe na exploração das sutilezas psicológicas porque, com o fim do império soviético, o Ocidente afinal descobriu que o mal está dentro de si mesmo, em cada um. O feminino demoníaco, o súcubo que atenta e domina o homem tornado menino eterno, ao mesmo tempo filho, amante e herói, será talvez o que de pior pode acontecer ao Homem. O momento em que a Mãe beija o filho nos lábios, em ambas as fitas, é o seu ponto alto, a revelação de toda a tragédia psicológica do jovem dominado pela Mãe.

 

O elenco dirigido por Demme é sensacional. Meryl Streep não poderia estar melhor do papel da senadora, a Mãe, e ninguém faria esse papel melhor que ela. Denzel Washinton, a cada nova película me agrada mais e mais e aqui está de encher os olhos. Os atores todos são muito bons.

 

Em ambos os filmes, técnicas psicológicas são utilizadas para fazer a lavagem cerebral dos soldados, a fim de produzir um falso herói. Demme teve a felicidade de colocar o falso  herói no centro da trama, ao torná-lo o candidato à vice-presidência, destinado a se tornar ele próprio o candidato cabeça de chapa. Na versão de Frankenheimer os experimentos do picareta do Pavlov são lembrados, com o inverossímil uso de técnicas de hipnose e condicionamentos para obter os propósitos de lavagem cerebral, aparecendo os russos como vilões; na de Demme, vemos técnicas químicas produzidas por uma indústria de material bélico inescrupulosa, em conluio com a Mãe senadora.

 

O final, em ambos os filmes, é imprevisível e sensacional. São filmes assim que fazem do cinema a Grande Arte, sucedânea do conjunto de todas as demais.

 

ACASO E MALDADE EM “21 GRAMAS

15/01/2003

 

O filme “21 Gramas” é uma obra que tem como tema a questão da gratuidade do mal, da redenção, da culpa e da salvação. É, portanto, um filme que coloca a questão religiosa em primeiro plano. Durante a narrativa está sempre presente o símbolo da cruz. A presença marcante de um padre católico e de um templo também católico remete sempre para o binômio pecado e redenção.

 

O roteiro é muito bom mas o diretor, Alejandro González Iñárritu, que também assina o roteiro junto com Guillermo Arriaga, ainda precisa amadurecer no ofício. Não que o resultado final tenha sido ruim, pelo contrário. Mas um roteiro tão bom, trabalhando com atores tão primorosos, poderia ter produzido uma obra-prima inesquecível.

 

É um filme para adultos, colocando as grandes interrogações existenciais. Os principais personagens femininos são fortes e dominantes, refletindo a minha própria experiência com o ser feminino. As mulheres da história, muito bem interpretadas pelas atrizes Noami Watts, Charlotte Gainsbourg e Melissa Leo, literalmente “seguram a onda” dos seus homens, incondicionais diante daquilo que lhes é trazido pelo destino. Abnegação, amor, compreensão, perdão: vastas virtudes são nelas encontradas e sem elas a vida dos homens ou cessaria ou sucumbiria no vale sombrio da falta de sentido.

 

A história entrelaça a vida de três famílias, a de Paul Rivers (Sean Penn, novamente excelente no papel), a de Jack Jordam (vivido por Benicio Del Toro de forma espetacular) e o Michael (com Danny Houston no papel). O eixo principal da narrativa, feita de forma descontínua, o que torna o filme confuso nos seus primeiros momentos, se dá pela ocorrência de um acidente com Jack. Ele é um homem que cumpriu sentença por crimes, carregando um grande complexo de culpa, tendo abraçado o cristianismo católico de forma fanática. Sua fé é genuína. Jack é o motorista de uma caminhonete que mata Michael e suas duas filhas pequenas. O coração dele é doado para Paul, paciente terminal com doença cardíaca. A viúva Cristina entra em cena com toda a dor da solidão. A perda de toda a família torna a sua vida patética e sem sentido.

 

Jack é a encarnação da Sombra que precisa ser redimida. Ele, um homem muito pobre, pai de dois filhos pequenos, havia ganho o carro em um sorteio, tendo-o recebido como um presente de Deus, reforçando o seu fanatismo. Uma grande cruz tatuada no braço e um brinco em forma de cruz dão a medida de sua entrega ao Inefável. Seu carro estava pintado com dizeres religiosos, do tipo “Jesus salva”. O que torna mais trágica a história é que o acidente só aconteceu porque um amigo lhe retardou a partida de onde estava. Havia um encontro marcado com a tragédia naquela esquina. O mesmo Deus que lhe deu o carro fazia-o instrumento para destruir uma linda família. A ação de Benicio Del Toro como ator é simplesmente brilhante.

 

Não há respostas no filme, apenas indagações. Não há lição de moral, ele apenas mostra que do mal pode provir o bem, algo bastante paradoxal e inerente à condição humana. O acidente que ceifou a vida de Michael permitiu a Paul não apenas prolongar a sua existência, mas melhorar a sua qualidade de vida. Há um sentido na vida? Pode ser que sim, pode ser que não. Estou do lado daqueles que pensam haver um sentido e um Deus ordenador do Universo. Pensar o contrário me levaria à loucura e ao niilismo. O filme sugere, ainda que de forma não categórica, que há um sentido, sim, que tudo se conecta numa trama para além da compreensão das limitadas percepções do Homem..

 

 

 

MYSTIC RIVER

12/12/2003

 

Meu caro leitor, desde que vi a cena do choro de Pacino no filme THE GODFATHER III, no instante da morte da filha baleada na porta do teatro, aquele choro que arranca da alma a dor mais cruel, eu não via um ator interpretar de forma tão perfeita um personagem, sendo capaz de me levar às lágrimas. Refiro-me à Sean Penn no papel de Jimmy Markum no filme MYSTIC RIVER. Uma tripla obra-prima, pelo roteiro sensacional, pela direção espetacular de Clint Eastwood  e pela inesquecível atuação do ator principal. O filme é sublime. Entrou para a minha galeria especial, ao lado dos filmes de Kubrick e de Coppola. É uma superprodução com um superelenco de atores.

 

A tradução do título para SOBRE MENINOS E LOBOS banaliza o filme. O título em inglês é mais adequado, pois invoca o rio que separa a vida da morte, uma alusão ao Rio Estige da mitologia. É onde se chega à terceira margem do rio, do nosso grande Guimarães Rosa. É na margem do rio que Markum pratica a sua justiça com as próprias mãos. A cena em que ele abate sua vítima (Dave Boyle, vivido por Tim Robbins) a facadas e, depois, a tiros, de tão realista e cruel, de tão bem encenada, é simplesmente apavorante e poética. Afinal, poesia é vida e a crueldade faz parte da vida. É especialmente chocante que Markum exige a confissão antes do sacrifício, para ter certeza da sua justiça – afinal, eram amigos de infância – e Boyle, na confusão mental em que estava, acabou por fazê-la. É cruel.

 

O filme foca a história de três meninos, amigos na infância que continuam a morar na mesma cidade, e como o destino joga com a vida de cada um deles. Coloca no centro da discussão a dualidade livre arbítrio x destino e a ação do Mal nesse mundo. Dave Boyle é raptado por pedófilos na cena inaugural e passa quatro dias sendo seviciado por dois homens, um deles com aparência de sacerdote, que usa um anel onde está gravada uma cruz. É uma vítima inocente que cai diante dos algozes. Claro que a experiência deixa no menino seqüelas psicológicas profundas, a tal ponto que Boyle, adulto, acaba por matar um pedófilo que está abusando de um garoto.

 

É nesse ponto que a questão do destino e da gratuidade do Mal surge com toda relevância. No mesmo instante e hora a filha de Markum é morta. Boyle está no bar em que ela é vista pela última vez. Como tem as idéias confusas e é incapaz de contar o que aconteceu, acaba por ser objeto da suspeita da própria esposa, que acaba por contar a Markum que ele teria sido o matador da filha. O interessante é que tudo levava a crer que era mesmo, desde o sentimento de culpa que ele carregava, a sua conversa desconexa, o horário, o local e, para o azar definitivo, o tipo sanguíneo de sua vítima é igual ao da menina morta. E, claro, a falsa confissão final.

 

Markum é o centro da história. É um pequeno comerciante que foi delinqüente, acabou preso, mas que passou a ter uma vida honrada. O homem que o entregou à polícia foi morto por ele mesmo, em vingança, à margem do rio, no mesmo local em que Boyle foi justiçado. Ele carrega várias tatuagens no corpo, entre elas uma cruz no alto das costas, que é focalizada após a morte de Boyle, a mesma cruz que aparece no anel do estuprador na infância. Boyle é duas vezes vítima inocente do destino. O símbolo da cruz aqui coloca muitas interrogações, pois está associada a Cristo e ao Bem. Como um inocente pode ser imolado à sombra de sua imagem?

 

É de se notar que os três amigos de infância formam uma trindade, outro símbolo caro à tradição cristã. Markum é católico praticante e a morte da menina sua filha ocorre no dia da Primeira Comunhão de sua outra filha, a alusão direta à morte de Cristo. Na hora da cerimônia, Markum ouve as sirenes da polícia de dentro da Igreja, se deslocando para a cena do crime. O policial que chefia as investigações é Sean Devine (vivido por Kevin Bacon), o terceiro componente da trindade de amigos.

 

O sacrifício de inocentes sempre foi o enigma da existência, pois nesse momento é que o Deus da bondade pode ser questionado seriamente. Na Bíblia temos muitas passagens sobre isso, a começar pelo próprio Cristo – o Supremo Bem – imolado no altar do Pai. Mas desde o antigo testamento temos muitos relatos, como o sacrifício dos primogênitos no Egito, o sacrifício dos adversários de Israel a mando do próprio Jeová, o sacrifício de , o bom servo de Deus atirado às tentações de Satanaz. E um que é especialmente tocante, o sacrifício do bom soldado de David, Urias, que foi mandado à morte propositalmente para que David lhe tomasse a esposa, com quem já havia cometido adultério. Dessa união virá a nascer o grande Salomão. É uma das mais terríveis histórias do Antigo Testamento.

 

Não há como não se indagar: por que Deus permite que o Mal opere? Por que ele é tão poderoso? Por que devora os inocentes como Dave Boyle? Por que, para combater o Mal, o próprio Cristo se deu em sacrifício? Diante do Nefando, só nos cabe calar e temer. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal”. Está além da capacidade humana compreender os propósitos divinos diante da autonomia do Mal. É como se alguns nascessem predestinados a serem suas vítimas e aí a simbologia astrológica do tema natal de cada um se impõe: ninguém nasce impunemente sob o poder de Plutão. Está escrito nas estrelas.

 

Paro por aqui. Apesar de antecipar algumas coisas importantes da história, há muito o que se ver. É toda uma mitologia e uma indagação religiosa que é posta diante dos nossos olhos pelas câmaras. Imperdível.

 

 

 

O IMPOSTOR

02/12/2003

 

Ontem ocupei o meu fim de noite de forma não planejada, assistindo ao muito bom filme de Gary Fleder, O Impostor,  na Tv a cabo. Há momentos na película em que citações são feitas a Blade Runner, o cult que todo mundo viu, mas considero que a temática é muito mais profunda no filme de Fleder.

 

O elenco tem Gary Sinise, Madeleine Stowe e Vicente D’Onofrio vivendo bons momentos em suas carreiras. Sinise encarna o personagem Spencer Olham, cientista notável, especialista em armas, casado com a médica Maya Olham (Stowe). D’Onofrio vive o agente especial Hathaway, que persegue alienígenas infiltrados nas comunidades humanas. O resumo da ópera é que o casal torna-se veículo dos alienígenas, carregando em seus corações formidável capacidade de destruição na forma de explosivos equivalentes, em poder de destruição, aos nucleares. O filme é surpreendente. Não se vê grandes efeitos especiais. Boa parte das seqüências de filmagens se dá no interior de ambientes fechados. Não obstante, prende o telespectador com a narrativa eletrizante.

 

A bomba no coração é uma metáfora perfeita para o mal e o seu poder de destruição sobre a humanidade. Tido como alienígena = fora do homem, o mal é uma força cósmica que pode se apossar de qualquer um, mesmo de um belo casal integrado na sociedade e exercendo atividades produtivas nobres. A humanidade, enquanto coletivo, precisa combater o mal. O poder de destruição que esse tem pode ser elevado à enésima potência, especialmente quando o coração que se torna o seu veículo tem destaque e acesso aos centros de poder. Literalmente se aplica no filme o nosso velho ditado popular de que, quem vê cara, não vê coração. O coração, no Ocidente, é associado ao centro das emoções e onde reside o amor. Pode se transformar no seu oposto.

 

No filme o duelo não se dá entre o indivíduo e a força maligna, mas entre o mal e o Estado, representado pelo agente Hathaway. Os indivíduos são mortos e substituídos pelo pelos alienígenas assumindo a sua forma humana, só restando como contraponto a enfrentá-los a força do Estado. O agente Hathaway encarna esse paradoxo de que, para combater o mal, é preciso praticar o mal. Ou seja, o mal precisa experimentar de seu próprio veneno. Hathaway não hesita em sacrificar inocentes no combate ao mal, não hesita em torturar, é um duro que não tem a menor ilusão sobre a sua tarefa: o mal precisa ser combatido e destruído a qualquer preço. A morte de dez inocentes é justificada pela salvação de milhares. É como a guerra: se o Ocidente não tivesse triunfado, talvez vivêssemos hoje sob o domínio nazista e comunista. Para derrotá-los, todavia, foi preciso usar de toda a força, praticar o mal, até mesmo explodir artefatos atômicos. É a condição humana.

 

O filme sublinha a tese valiosa dos liberais clássicos, de que é necessário o Estado para manter a ordem e enfrentar o mal da desordem destrutiva. Acredito nisso. Não gosto do Estado nem da sua violência e nem do mal que pratica, mas que ele é necessário, não há dúvida alguma. Essa é a grande lição da História. O problema é viver com uma anaconda (para usar a palavra da moda) dentro de casa, sabendo que ela cresce a cada dia e que, embora espante os inimigos, ela pode um dia devorar o próprio criador. São as contradições da alma humana, engarrafada em suas limitações cósmicas, que delimitam a sua existência no Universo manifesto.

 

 

 

 

UMA MENTE BRILHANTE

01/03/2002

 

Eu não sei porque uma bela história de amor pode ter tantas reticências da crítica. O filme de Ron Howard, estrelado pelo inquieto e competente neozelandês Russel Crowe – Uma Mente Brilhante - é capaz de arrancar lágrimas da platéia, simplesmente porque o diretor focaliza o essencial na história da vida de John Nash Jr., o brilhante e esquizofrênico matemático que fez revolução também na ciência econômica.

 

E o essencial na vida de John Nash Jr. nem era a economia e nem a matemática: era a mulher Alicia e a sua doença mental. Quem quiser saber das teorias que leia os livros, não precisa ver o filme. Teorias matemáticas não são simpáticas numa sala de cinema, até porque a maioria das pessoas nem entenderia. Mas quem quer ver a face humana de um homem doente que encontra a sua redentora musa, e está disposto a soltar uma lágrima desconcertante e viver duas horas de emoção e sonho, então vá correndo ao cinema antes que o filme saia de cartaz.

 

Penso que a arte maior do filme está na habilidade do diretor em narrar as tristes e desconcertantes cenas de esquizofrenia e na atuação ainda uma vez perfeita de Russel Crowe. E não é possível aqui não lembrar de Jung e da sua psicologia profunda. O homem de intelecto extraordinário só pode ser redimido pelo amor; o gênio tem a sua Anima personificada em uma figura infantil, não desenvolvida, que jamais cresce. E também não é possível deixar de notar o quatérnio formado pelas figuras projetadas.Tem algo mais junguiano?

 

“Tudo está conectado”, frase que me fez lembrar dos belos textos do escritor campineiro Martim Vasques da Cunha. Essa é a essência das teorias de Nash Jr e talvez seja a essência da própria existência humana. E a doença dele também “se conecta”: é a expressão sombria da genialidade. As funções psíquicas não desenvolvidas exigiram o seu lugar no mundo do personagem, ainda que ao preço de transformá-lo numa caricatura de gênio, sujeito à gozação de muita gente.

 

O filme impressiona também por isso. Vivo fosse, Jung aplaudiria o trabalho narrativo. Genialidade e loucura andam de mãos dadas. O que é deslumbrante na vida do personagem é precisamente que ele resiste ao mergulho na indiferenciação e, qual um Sócrates com o seu daimon, leva a vida a dialogar com os seres imaginários, nascidos das profundezas da psique. Como não admirar e não se apiedar de alguém assim?

 

O grande prêmio recebido pelo personagem foi o amor de Alicia. Ganhar as canetas dos sábios da universidade – e o Prêmio Nobel – foi apenas um detalhe para aquele que já recebera o prêmio maior. O que não deixou de ser momentos altos de sua existência.

 

É um filme muito bonito, vale a pena ver. Paga o ingresso e o tempo gasto.

 

 

GANGUES DE NOVA YORK

09/02/2003

 

Fui ver hoje o novo de filme de Martim Scorsese, “Gangues de Nova York”. Preparei-me de forma diferente para ir assisti-lo, pois não li as críticas e revi ontem o seu “Os Bons Companheiros”, filme pelo qual tenho especial predileção. Fiquei um pouco dividido ao sair do cinema, talvez porque esperasse mais do que pode ser considerada uma superprodução épica. Ainda assim é um filme que nenhum cinéfilo pode perder.

 

Por que gosto tanto de Scorsese? Acho que por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar, seus filmes refletem uma psicologia extremamente realista da violência, que, ao mesmo tempo, fascina e amedronta. Sangue corre aos rios nas películas e aqui acontece notável pletora sanguinolenta. Nada há de poético no ato violento, embora ele possa ter muito de heroísmo. A humanidade, desde sempre, louvou os seus guerreiros, que é uma forma branda de dizer que ela louvou os seus melhores e mais letais matadores. Mesmo os bandidos mais sanguinários são respeitadíssimos no meio popular, como é o exemplo de nosso Lampião, que virou lenda e sinônimo de valentia e, mais recentemente, os chefes do tráfico de drogas no Brasil. Há uma inclinação natural das pessoas a cultuarem os valentes.

 

[Um gênio como Sconsese faria um filme monumental sobre a história do cangaço, que ainda precisa ser mais bem contada pelas telas.]

 

Seus filmes são, por isso mesmo, viris. Os personagens masculinos estão longe da ambigüidade psicológica de muitas das produções. É o apogeu do macho. Os personagens femininos, por seu turno, são complementares e cumprem as funções femininas tradicionais de esposas, amantes, prostitutas, mães e filhas. Aqui não foi diferente.

 

Intercalar ficção com fatos históricos tem dado bons frutos aos grandes diretores. Não é essa a faceta talvez mais encantadora do “Godfather” do Coppola? Sconsese consegue algo semelhante aqui.

 

O elenco é magistral, sendo que Leonardo DiCaprio como Amsterdan Vallon foi uma grata surpresa. O desempenho de Daniel Day-Lewis como o arquivilão “William ‘The ButcherCutting” é simplesmente sensacional, o elemento central do filme. Um personagem fascinante, pois não obstante ser um carrasco sanguinário, tem consciência de sua própria força, é um destemido que tem no ar irônico um tom de desafio diante dos inimigos e, ao mesmo tempo, é portador de uma surpreendente honra pessoal, que louva a coragem dos vencidos. Lembra muito dos guerreiros da Grécia clássica, implacável.

 

Outro ponto notável é a percepção de que, por trás de tudo que é humano, há sempre o duelo de duas personalidade, mesmo que o enfrentamento seja coletivo. Organizações, turbas, gangues, máfias, polícias, exércitos, qualquer coletivo tem no topo de seu poder uma forte personalidade, que duela com seus inimigos. Os demais são mero instrumento de seu desejo de poder. Nesse sentido, há um forte eco nietiszchiano na construção dos seus personagens do filme

 

Posso dizer que tive uma bela tarde de domingo.

 

O TIGRE E O DRAGÃO

04/12/2002

 

Em meu comentário anterior sobre o filme “Dragão Vermelho”, cometi um lapso que só é perdoável porque me deu um mote para voltar ao tema. Referi-me no texto ao poeta Milton, quando na verdade quis dizer William Blake, que, além de poeta, foi também pintor. Graças ao gentil e-mail de um leitor, volto ao tema, pois o uso da citação desse autor é central na peça e só a partir da sua compreensão é que cenas obscuras à primeira vista tornam-se clara.

 

A figura tatuada do dragão às costas do personagem, uma viva e pictórica representação da Sombra, vale dizer, do mal, é de autoria daquele poeta e pintor. É mais do que evidente a necessidade de compreender o simbolismo envolvendo a obra de Blake.

 

É de se recordar a cena em que o o vilão Francis Dolarhydes (Ralf Fiennes) leva a personagem cega, Reba (Emily Watson), para um zoológico, no qual um magnífico espécime de tigre está anestesiado, à espera de cuidados odontológicos, ocasião em que Reba pôde acariciá-lo e até mesmo tocar propositalmente na sua genitália. Quem não conhecer o poema “O Tigre”, de Blake, não compreende a cena, que é essencial para o descortino da doentia personalidade de Dolarhydes. Eis o poema (tradução de José Paulo Paes):

 

O TIGRE

 

Tigre, Tigre, viva chama

Que as florestas da noite inflama,

Que olho ou mão imortal podia

Traçar-te a horrível simetria?

 

Em que abismo ou céu longe ardeu

O fogo dos olhos teus?

Com que asas ousou ele o Vôo?

Que mão ousou pegar o fogo?

 

Que arte & braço pôde então

Torcer-te as fibras do coração?

Quando ele já estava batendo,

Que mão & que pés horrendos?

 

Que cadeia? que martelo,

Que fornalha teve o teu cérebro?

Que bigorna? que tenaz

Pegou-lhe os horrores mortais?

 

Quando os astros alancearam

O céu e em pranto o banharam,

Sorriu ele ao ver seu feito?

Fez-te quem fez o Cordeiro?

 

Tigre, Tigre, viva chama

Que as florestas da noite inflama,

Que olho ou imortal mão ousaria

Traçar-te a horrível simetria?

 

Entre outras características, o tigre é um dos poucos animais que tem no homem uma de suas presas. É um caçador aterrador e implacável para as comunidades humanas que lhe são próximas, o que mostra a identificação do serial killer com o animal. Dolarhydes quis dizer a Reba que ele tinha a força e a psicologia de um tigre, que era o próprio tigre, um devorador soturno de homens.

 

É interessante notar que no verbete “Tigre” do Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Ed. José Olympio, 1992), podemos ler:

 

“O tigre evoca, de forma geral, as idéias de poder e ferocidade; o que só comporta sinais negativos. É um animal caçador e, nisso, um símbolo da casta guerreira. Tanto na geomancia quanto na alquimia chinesa, o tigre opõe-se ao dragão; mas se vem a ser, no primeiro caso, um símbolo maléfico, é, no segundo, um princípio ativo, a energia, em oposição ao princípio úmido e passivo, o chumbo oposto ao mercúrio, o sopro do sêmen”.

 

Voltemos ao poema. Os seguintes versos são enigmáticos:

 

Quando os astros alancearam

O céu e em pranto o banharam,

Sorriu ele ao ver seu feito?

Fez-te quem fez o Cordeiro?

 

 

A alusão a Cristo e, portanto, a Deus, é óbvia aqui. Como não ligar o Cordeiro às ovelhas de “O Silêncio do Inocentes”? E segue:

 

Que olho ou imortal mão ousaria

Traçar-te a horrível simetria?

 

Reba o faz. É a maneira com que Dolarhydes procura alerta-lhe do perigo de vida que corre estando próxima dele. A cena, vista desse ângulo, é ao mesmo tempo poética, forte, simbólica e dá pleno sentido à sua inserção na película. Compreendê-la assim induz-nos aplaudir ainda de forma mais intensa os seus criadores. É um belíssimo filme.

 

 

DRAGÃO VERMELHO

02/12/2002

 

Ontem fui ver o filme “Dragão Vermelho”, dirigido por Brett Ratner, diretor que eu não conhecia. É um excelente filme. No elenco, além do notável Anthony Hopkins, que dá vida ao personagem Hannibal Lecter, o psiquiatra que é psicopata, temos uma constelação de excelentes atores, como Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Mary-Louise Parker, Emily Watson e Philip Seymour Hoffmann.

 

O filme completa a trilogia da história de Hannibal Lecter e está ambientado no início de sua carreira macabra. O roteiro foi filmado  por Michel Mann em 1986 (“Manhunter”). Completam a trilogia o memorável “O Silêncio dos Inocentes”, de Jonathan Demme, e “Hannibal”, dirigido por Ridley Scott.

 

“O Silêncio dos Inocentes” foi objeto de um sensacional ensaio de Olavo de Carvalho ( www.olavodecarvalho.org ), analisando os diálogos e os personagens no que têm de mais simbólicos, nada havendo a acrescentar ao seu exaustivo texto. É das três a película mais importante, uma verdadeira obra-prima. O filme dirigido por Scott, por sua vez, foi mal recebido pela crítica, mas ainda assim eu gostei dele. Scott tornou o personagem mais sanguinário, perdendo muito das sutilezas do seu antecessor, mas ainda assim é um filme bem superior à média e merece ser visto.

 

“Dragão Vermelho” tem a sua história centrada no eixo que une os três personagens principais: Hannibal (Anthony Hopkins), que é identificado e preso pelo policial Will Graham (Edward Norton) e no novo serial killer Francis Dolarhydes (Ralf Fiennes). É, ainda uma vez, o duelo entre o bem e o mal. Dolarhydes é o personagem do cinema que melhor traduziu o conceito psicológico de Sombra: a enorme tatuagem impressa em suas costas, do dragão, figura teratológica extraída dos delírios de Milton, é a sua expressão mais plástica. A Sombra está sempre às costas, é o lado obscuro da consciência humana. O homem Dolarhydes ficou completamente possuído por ela, tornando-se um matador e mesmo um devorador de carne humana. Ainda assim, nos momentos de lucidez ele procura resistir ao mal.

 

Como o filme trata de um personagem masculino, o roteiro associa o mal com o feminino, o que é psicologicamente correto. Dolarhydes teria sido maltratado pela avó, que dele cuidou na infância, advindo daí o seu desequilíbrio psíquico. O que o diferencia de Hannibal é que esse último, por regra, matava e devorava suas vítimas, quase sempre escolhidas entre pessoas más. A única de suas vítimas que ele não devorou, mas deu sua carne ao cachorro, foi o pederasta que o persegue na película de Scott. Não nos escapa aqui o significado desse evento singular.

 

O requinte do filme é que seus personagens não são chapados, têm nuances. O próprio Dolarhydes descobre sua porção “do bem”, pois mesmo no Mal Absoluto a semente do seu oposto está presente, como na representação do Yin/Yang chinês.

 

Nesse filme a maldade de Hannibal é mais chocante, embora seja menos sanguinolento do que a película de Ridley Scott. É um homicida frio e implacável, que passa a usar o seu duplo em liberdade para realizar a sua vingança contra o policial que o prendeu. Isso o torna um roteiro de um suspense admirável. A cena em que ele ouve os erros do flautista, que é morto e servido aos membros dirigentes da orquestra, é chocante, nauseante.

 

A personagem cega, Reba (Emily Watson), é justamente a que “enxerga” o lado bom de Dolarhydes. Esse é outro requinte dos filmes da série, em que os duplos estão presentes.

 

Claro que, no final, o bem triunfa e o mal é destruído. Mas poderia ser diferente? O bem é sempre mais forte, por isso que a vida continua e a consciência humana também. O fundo religioso está sempre presente na trilogia.

 

 

A ESTRELA VERMELHA

31/08/2002

 

Amigo leitor, ver o filme "Doutor Jivago" nas circunstâncias em que se encontra o nosso Brasil é uma experiência singular, simultaneamente bela e assustadora. Se você é jovem e ainda não teve a chance de ver essa grande obra-prima, faça-o correndo. Os personagens do filme são arquetípicos e seus clones, aos magotes, podem ser encontrados de norte a sul em nosso país. É uma aula de política envolta em romance

e poesia.

 

O filme é uma superprodução dirigida por David Lean em 1965, tendo no elenco Omar Sharif no papel principal, que dá título ao filme, juntamente com Julie Christie, no papel de Lara. Filmado a partir de uma novela de Boris Pasternak, ele usa uma história de amor para

retratar a Revolução Russa de 1917 naquilo que ela teve de essencial. Lean/Pasternak mostram a revolução pelo olhar de um médico, sua família e sua amante (Lara), bem como o das pessoas que os cercam.

 

O filme saiu do lugar-comum de se fazer a crônica histórica a partir das lideranças políticas, captando os fatídicos acontecimentos de 1917 pelo impacto que causaram às pessoas alheias ao meio político.

 

Tudo no filme  é superlativo. Quem, no mundo, já não cantorolou o Tema de Lara, peça principal da formidável trilha sonora de autoria de Maurice Jarre? A fotografia, por seu turno,  é de tirar o fôlego. O diretor gosta de usar os planos largos, retratando uma paisagem

magnífica. Quando as tomadas se dão no interior de espaços menores, a impressão é que cada cena se desenrola como se o espectador estivesse diante de uma pintura de Da Vinci. Pura beleza.

 

Dois símbolos têm destaque em todo o filme: a bandeira vermelha e a também vermelha estrela de cinco pontas. Quem já não os viu por aí? Para quem não sabe, a estrela de cinco pontas é um cavernoso símbolo do Demônio e o vermelho é a sua cor predileta, cor de sangue. A Rússia, com a revolução, transformou-se em um inferno que virou de cabeça para baixo a vida de todos. O mergulho infernal durou setenta anos.

 

O personagem Pasha, o jovem professor secundário ngajado na causa, lembra muito dos nossos atuais professores. Cego pela ideológia, insensível e obstinado, tudo que quer é a revolução. Usa óculos assemelhados aos de John Lennon. Podemos hoje ver centenas de milhares de pessoas iguais a ele nos comícios do PT. Posteriormente ele assume o comando de uma unidade militar e fica conhecido como Strelnikov, um assassino frio que destrói tudo que encontra pela frente.

 

Outro personagem que espelha muita gente é o burguês Komarovsky, o oportunista mal-caráter que acha que, com a revolução, ele se dará bem. Até consegue, se comparado aos que ficaram fora do comando político, mas seu mundo também virou de cabeça para baixo, pois uma revolução comunista simplesmente impede que a vida normal conteça. Quantas pessoas ricas de hoje, os chamados empresários, se iludem ao achar que um governo revolucionário será igual aos demais e que a vida continuará como sempre? Encontro-os todos os dias, alegres eleitores de Lula Lá.

 

Os líderes da revolução só aparecem em alguns momentos, em painéis gigantescos. Vemos Lênin, Trotsky e Stalin no estilo do realismo monumental revolucionário. O filme, todavia, busca mesmo é mostrar o chefete, o guarda de quarteirão. É inesquecível a cena em que o irmão de Jivago, membro do partido comunista, chega à casa dele, agora tomada por uma multidão de desconhecidos, que passaram a partilhá-la, e estala os dedos, fazendo todos se calar. É chocante.

 

Outra cena que choca é quando a família de Jivago está no trem, em direção a uma chácara da família, na qual pensavam que a vida poderia continuar normal, e um sujeito acorrentado, condenado aos trabalhos forçados, diz: "eu sou o único homem livre aqui". A liberdade deixaria de existir na Rússia por muitas décadas.

 

Outra é quando os revolucionários, alistados no exército para combater contra a Alemanha, de caso pensado provocam a derrota, entregando o território e a sua população ao exército invasor, com o objetivo de enfraquecer o governo e dar o golpe de Estado. O grau de perfídia contra seu próprio povo não poderia ser pior. Os portadores da estrela vermelha de cinco pontas são capazes de qualquer maldade para tomar o poder.

 

"Não há mais vida pessoal", diz Pasha a Jivago, em um certo momento. Resume tudo. Na ordem comunista as pessoas passam a ser apenas um número nas estatísticas e a sua vontade e o que pensam  não importam. Só o comando político importa, só os líderes são, de fatos, pessoas.

Os demais não passam de gado descartável e a vida humana perde qualquer valor.

 

Se os nossos canais de TV fossem mais decentes programariam a exibição desse filme agora, no período eleitoral. Ele diz mais do que qualquer livro de História contemporânea, mais do que qualquer anúncio e qualquer panfleto político. David Lean pode ter filmado

cenas que poderemos viver muito em breve.

 

 

REVISITANDO KUROSAWA

29/08/2002

 

Tive o privilégio de rever, na seqüência, duas obras-primas da cinematografia japonesa: “Os Sete Samurais” e “Ran”, ambas de Akira Kurosawa, disponíveis em DVD.

 

O filme ‘Os Sete Samurais”, rodado em 1954, tornou o diretor conhecido no Ocidente e foi muito premiado. Ainda em preto-e-brando, ele retrata a vida de uma pequena aldeia perdida no interior do Japão “medieval”, ameaçada por um bando de facínoras. Esse filme é de uma beleza única, diria que retrata poesia. Não obstante, faz uma análise didática do que significa a ordem e a o flagelo que é a sua ausência, em uma situação que deve ser assemelhada a todas as povoações do mundo em algum estágio de sua existência, antes que alguma ordem pudesse ser estabelecida.

 

Nesse filme a elite política está ausente. O que vemos são camponeses, de um lado, e os bandidos, do outro. Entre eles, os sete samurais que foram contratados para combater os bandidos. A mensagem é que a ordem só pode ser estabelecida pela espada. Na sua ausência, impera o caos. Quem vive com os problemas de segurança não resolvidos, como os habitantes das grandes cidades brasileiras, passa a ter uma empatia imediata com a película. A problemática é a mesma, pena que aqui não haja samurais em número suficiente, com o mesmo código de honra e a disposição de dar a vida ao custo de refeições para enfrentar os inimigos da ordem.

 

Os atores escolhidos são muito bons. Os cenários, magníficos. As técnicas de uso da espada exibidas pelos samurais lembram um dança. Belíssimo.

 

O final, com os camponeses realizando a semeadura, acompanhados por cânticos, é simplesmente poético. Kurosawa recheia a sua história com humor e com romance. Aqui ele não esqueceu de nada do que é relevante para a humanidade.

 

Ran” é por muitos considerado a obra máxima de Kurosawa. É uma adaptação à história japonesa da peça de Shakespeare “Rei Lear”. Na verdade, o filme parece ser uma grande ópera ao ar livre. Os exércitos em movimento, com suas armaduras de combate coloridas e as suas bandeiras, formam uma beleza singular.

 

É uma tragédia que mostra o ocaso de um senhor feudal que chega ao apogeu da vida e do poder. Para conseguir tanto poder, fez a guerra e praticou o mal. Ao tomar a decisão de passar o poder ao primogênito, desaba sobre si e os seus a desgraça. É um filme que disseca a alma humana naquilo que ela tem de mais demoníaco, o poder. Os diálogos são verdadeiras aulas de psicologia.

 

É um filme triste, como o poder é triste. Mas nisso também consiste a sua beleza.

 

 

HOMEM-ARANHA

21/05/2002

 

Fui ver o filme do Homem-Aranha, uma grata surpresa para mim, que aprendi a ler manuseando os gibis do herói. Embalei os meus sonhos juvenis nas suas aventuras, e quanto não compensei das minhas limitações dando asas à imaginação?

O Homem-Aranha foi uma referência de infância. E nunca esqueço também o desenho-animado, cuja música trago sempre na memória. Foram tempos de sonho e de esperança, de devaneio da meninice difícil.

O filme superou qualquer das minhas expectativas. Pensei que não fosse passar de mais um filminho caça-níqueis de Hollywood, tipo Titanic. Engano. Não é casual que esteja batendo todos os recordes de bilheteria, inclusive no Brasil. Se tivessem feito um filme de censura livre, como o Harry Porter, provavelmente teria uma bilheteria muito maior.

É uma superprodução muito bem cuidada. Nunca imaginei que pudesse ver o herói de outrora voando entre os arranha-céus, em sua teia, de forma tão perfeita, tão convincente. O diretor Sam Raimi foi muito competente. Gostei especialmente do ator escolhido para ser o herói, Tobey Maguirre, que se mostrou muito adequado ao papel. E mesmo Willen Daffoe, no papel do vilão Duende Verde, me agradou, não obstante as críticas do meu amigo Martim Vasques da Cunha.

Por trás de um enredo simples, vemos a eterna luta do bem contra o mal. Talvez aí esteja o segredo do sucesso, antes no gibi, como agora na tela grande. A história da arrogância e do poder do dinheiro sendo derrotados por aquele que foi abençoado pela dádiva. “Quanto maior o poder, maior a responsabilidade”, relembra o tio do nosso herói. A união da ciência, do poder e do dinheiro na mesma pessoa, possuída de suprema soberba, não poderia projetar uma sombra diferente da máscara mefistofélica do vilão. É o demônio encarnado.

E não escapa também o significado simbólico da mordida da aranha geneticamente modificada (ou radioativa, como nos gibis) pela ciência, justamente no momento em que o mal ganha relevo destruidor, sem meios de ser combatido senão pelo herói escolhido. A aranha é uma espécie de símbolo da mãe primitiva, um ser que emerge do mais indiferenciado para combater a arrogância unilateral da ciência = psique do homem moderno. O fundo religioso é evidente.

Peter Parker é alguém demasiado humano, com quem podemos nos identificar instantaneamente. A sua fraqueza – e a sua força mágica – trazem o encanto de um conto de fadas. É como se nos dissesse que guardamos em nós mesmos a força capaz de tudo enfrentar, a despeito da nossa condição humana.

Não escapa também o esquema quadrangular típico dos contos de fadas, os dois duplos (Parker/Homem-Aranha e Osborn/Duende Verde) e mais a Anima, Mary Jane, aquela que dá sentido à vida do herói, o objeto amado e fugidio. Não escapa também ao observador que ele só foi mordido pela aranha = agente do inconsciente que lhe dá a força mágica, porque se atrasou para fotografar a amada.

Ver o filme é diversão garantida, uma viagem pelo requinte da técnica do cinema.

 

 

O FIM DO RIO

06/01/2002

 

"Éis que cedo venho! Bem aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro."

Ap 22-7

 

Vi hoje o Apocalypse Now Redux, a versão ampliada do filme com as cenas que não foram utilizadas na primeira versão apresentada ao público pelo diretor Francis Ford Coppola. Ficou muito mais belo, mais coerente, mais chocante, mais artístico, mais explícito. As cerca de três horas e meia de projeção parecem um tempo curto em face da beleza da obra. Ao final muita gente da platéia ficou sentada, sem pressa de ir embora – uma reverência à obra e ao artista – ouvindo a bela música e vendo desfilar os créditos. Para mim, tornou-se um outro filme, pois, com outros olhos, eu o vi.

 

Alguns temas se prestam sob medida a falar do Mal metafísico, como são os policiais (e as prisões) e aqueles que retratam dramas envolvendo hospitais e hospícios. Tratam, por assim dizer, do Mal no varejo, envolvendo indivíduos isolados. Já o tema da guerra fala do Mal coletivo, do Destino (ou da Divina Providência, como se queira chamar), dos horrores por atacado que engolfam as multidões e mesmo povos inteiros, sem que os integrantes nem mesmo compreendam o que se passa. Mas mesmo na guerra o Mal tem autoria: há sempre indivíduos que o encarnam e o simbolizam.

 

O Coronel Kurtz, personagem do filme, é uma dessas encarnações do Mal. Embora a narrativa de Coppola ainda traga um pouco do engajamento contra a Guerra do Vietnã, e por isso seja um tanto politicamente correta, o diretor nunca perde de vista a dimensão religiosa do Mal. "O horror, o horror..." , as palavras finais do personagem, em agonia de morte, resumem bem essa dimensão: a morte como sendo o horror dos viventes, mais para o homem que dela tem plena consciência. O horror da violência gratuita que ceifa, destrói. Coppola bem capta essa falta de sentido no diálogo com os franceses, quando é dito que a guerra fazia sentido para o vietnamitas, para eles mesmos, que desbravaram a terra e lá estavam há três gerações, mas e para os americanos? Que diabos eles estavam fazendo lá?

 

Hoje sabemos que a guerra local era um retrato da guerra global travada pelos EUA contra o totalitarismo comunista, o que não era claro para muita gente à época, inclusive para Coppola. Mas isso não tira o brilho da obra. Os fatos históricos são o de menos, o que vale é a arte de falar da alma e das coisas transcendentes, o que ele conseguiu de forma magistral. Na verdade, a violência vista ao microscópio, bem de perto, ela é bem estúpida, mas tem um sentido. Jamais podemos esquecer o Dia da Ira do Senhor. O Cristo do Apocalipse mais parece um carneiro iracundo do que um cordeiro imolado. E, como nos alerta o livro no versículo destacado em epígrafe, "cedo Ele vem", ou seja, está sempre aí, de atalaia.

 

E diga-se desde logo que é falso afirmar que a temática do filme é o embate entre civilização e barbárie. Isso é uma simplificação besta. O filme vai muito além.

É notável o momento em que um soldado se espanta ao saber o destino do capital Willard e afirma, com uma característica muito própria do nosso Guimarães Rosa, que aquele lugar ficava no fim do rio, local em que ninguém deveria ir e, aqueles que teimavam, jamais retornavam. O rio tomado como metáfora da fronteira entre o Bem e o Mal.

 

O Coronel Kurtz, ao fazer a guerra, ficou fascinado pelo Mal e passou a agir à revelia do comando, praticando a violência cada vez mais desenfreada, fazendo-o regredir a práticas pagãs no meio da selva, nas quais a morte – sobretudo o assassinato em larga escala – passou a ter um papel central. Por conta disso, Kurtz passa a ser idolatrado como um deus, pois praticava a destruição em escala verdadeiramente apocalíptica. Era uma espécie de deus do Mal em seu templo encravado na selva. Quando o major Willard, escalado para matá-lo, é capturado, eles conversam e Kurtz diz que é preciso enfrentar o horror, inclusive o horror moral, a fim de eliminar o medo. É como se dissesse que para enfrentar o Mal é preciso praticá-lo.

 

Alguns momentos são patéticos. Quando, nas cenas iniciais, há o bombardeio da aldeia, vemos um padre improvisar uma missa em pleno combate, rezando a Oração do Pai Nosso ao som dos helicópteros bombardeando e do matraquear das metralhadoras. É chocante. De alguma forma, liga-se à temática do filme, desde o título. "Mas livrai-nos do Mal", pede Cristo ao Deus-Pai. Será que nem Ele, Cristo, sabia como? E as cenas em que Robert Duvall interpreta o fanfarrão e aloprado coronel Kilgore, que faz da guerra o seu parque de diversões, também são patéticas. Coppola ridiculariza o militarismo.

 

Parece claro que a coisa lógica a fazer seria mesmo matar o coronel Kurtz, como decidiu o Alto Comando. Kurtz tornou-se um assassino psicopata em larga escala, fora de controle. Mas, e essa questão precisa ser colocada, seria possível combater o Mal com o Bem? Seria possível fazer justiça com perdão? Para um assassino psicopata, só um carrasco profissional?

Essa é uma questão bem interessante. Não há dúvida que o Mal tem nos Estados um dos seus instrumentos mais eficazes e não casualmente eles é que são os instrumentos da guerra. Mas, muitas vezes, cumpre-se o dito de Mefisto: "aquele que sempre quer praticar o Mal, mas acaba sempre praticando o Bem" (Goethe). Talvez esta seja a questão: ao Estado cabe a prática do Mal para combater o Mal, desde que o lado do Bem vença. Mas haverá alguma garantia de que isso sempre vá acontecer? Será que sempre os Aliados vencerão as eternas forças do Eixo que estão sempre se reorganizando e jamais sofrem uma derrota final? Os acontecimentos de 11 de setembro não são a prova mais cabal de que os demônios estão sempre à espreita?

 

 

HARRY PORTER

O mergulho em busca do Si Mesmo

19/12/2001

 

Fui ver o filme Harry Porter e adorei. Agora entendo porque os livros da tetralogia já publicados têm encantado multidões de jovens e adultos em todo o mundo. Se o roteiro do filme tiver sido fiel à obra, o que temos é a exposição dos símbolos mais profundos da alma, que estão impressos em todas as sagas, de todos os temos e lugares. Mas, diga-se, Harry Porter é uma saga que guarda as tradições cristãs, uma recriação dos nossos contos de fadas e da lenda da busca do Santo Graal. O filme, e provavelmente os livros, retratam o embate de cada um de nós em busca da pedra que não é pedra, do ser mais profundo: numa palavra, de Deus.

Todos os arquétipos do inconsciente coletivo definidos por Jung estão lá. O Velho Sábio, a Sombra, o círculo (a bola dourada voadora), a trindade, a quaternidade. Harry Porter poderia ter sido apresentado com qualquer idade, pois a história continuaria a ser interessante e verossímil. Ele é a personalidade consciente, o arquétipo do Eu. A menina é uma manifestação da Anima. Os dois outros garotos representam as outras duas funções psicológicas e são do sexo masculino porque a saga refere-se a psicologia de um homem. O filme representa a obra alquímica da transformação da alma.

 

Repete-se sempre a fórmula do 3+1, totalizando o número 4, símbolo da personalidade total. Os quatro elementos da Astrologia, os quatro Evangelistas, as quatro estações do ano, os pontos cardeais. É a totalidade do mundo manifesto.

 

O tempo todo vemos que o Eu do Harry Porter é lançado na aventura da alma por forças mágicas, como que em um sonho. É a longa aventura da alma em busca de sua própria individualidade, em busca do Si Mesmo, em busca da Divindade. Não é casual que a pedra filosofal tem o poder de dar a vida eterna, toca-la é entrar em contato com a Eternidade. A jornada começa com a revelação da serpente, repetindo o livro do Gêneses com outra alegoria. Como Harry Porter, cada um de nós nasce com um símbolo na testa e tem a obrigação de ir em busca de si mesmo, no mais profundo do ser. É talvez isso que encante tanto as multidões e faça do livro um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos.

 

Depois aparecem as corujas, símbolos da sabedoria. São as mensageiras, as que trazem a Boa Nova. Harry Porter é transportado para o seu sonho mais profundo, saindo da sua vida tirana. Na verdade, a sua história lembra um pouco a da Gata Borralheira contada para os sexo masculino. Depois vem o mensageiro que lhe dá o bilhete para o Trem da Vida, para que possa mergulhar na sua aventura.

 

Então a sua saga só se torna vitoriosa porque os elementos mágicos do inconsciente cooperam, a começar pela menina – sua Anima que usa a lógica de forma implacável. O outro garoto, mais amigo e mais próximo, representa a sua segunda função psicológica mais diferenciada. O menino louro e mal, que também é representado pelo menino bobo que é petrificado, á a terceira função com alguma diferenciação. A menina, claro, é a sua função psíquica mais inconsciente e por isso aparece como sexo oposto. E é ela quem sempre vai lhe ajudar nos momentos decisivos.

 

O poço representa esse mergulho no mais profundo do ser. É guardado pelo cão tricéfalo, que aparece em diversos mitos. É o cão que guarda a passagem para o reino dos mortos. Lá tem a planta que mata, uma espécie de Árvore da Vida, o elemento mais primitivo que há no ser, seu componente vegetal. Só quando ultrapassa esse nível, quando verdadeiramente se entrega ao inconsciente, é que Harry Porter se defronta com o espelho mágico, que lhe diz uma única mensagem: a pedra filosofal está em você mesmo, no seu bolso. Foi preciso ir até lá apenas para que ele tivesse a consciência disso.

 

O jogo de xadrez é bem emblemático. O xadrez é a combinação do número 8 (8 x 8), que é a composição dupla do número 4. Simboliza o infinito. Então a salvação não é gratuita, tem que ser conquistada. É preciso ganhar o jogo. A pedra está lá, mas é preciso enfrentar os medos e as fraquezas e superar-se a si mesmo para fazer o lance final da jornada, para entrar no recinto do espelho. Lá está a Sombra, o Mal, que também precisa ser vencido. Quem toca a pedra tem o poder de destruir a Sombra, o que significa redimi-la, integrá-la à personalidade total.

Ver o filme foi uma grata surpresa. É muito bem dirigido, denso. Com certeza não foi fácil transpor a narrativa literária para o meio audiovisual. Mas o diretor foi muito bem sucedido. Até por isso vale a pena assisti-lo. São três horas de pura magia e de puro encanto.

 

 

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

07/12/2001

 

Combinar a brutalidade e a crueza da guerra com poesia e lirismo não é algo fácil, sem cair na pieguice e sem fugir ao tema. Mas Spilberg conseguiu essa proeza no seu O Resgate do Soldado Ryan. A cena inaugural, do desembarque na praia de Omaha, é daquelas inesquecíveis. Não há como deixar de ficar tocado por ela, seja pela crueza, pela estupidez da guerra em sua totalidade, pelo sangue, pelos corpos despedaçados. A narrativa, em tom de documentário, não deixa o espectador respirar. A impressão que a audiência tem será talvez a mesma de alguém que embarcou para aquele inferno, ou seja, a de que todos morrerão, que não há defesa, que tudo é inútil. A força dos defensores era muito maior do que a dos atacantes. Não há música acompanhando a cena, apenas o som horrorizante das explosões e dos tiros. É difícil esquecer o estalido seco dos disparos.

 

Aí é que entra o personagem vivido por Tom Hanks, o misterioso capitão John. Os seus homens simplesmente o reverenciam pela coragem e pela ousadia, pela capacidade de improvisar e de vencer. Hanks dá vida ao personagem de forma magistral. Ele é a combinação de um simples cidadão, um professor de redação que acabamos por saber no final, que também ensinava aos seus alunos o jogo de beisebol, que se transforma no guerreiro frio e implacável. "A cada homem que matamos (dos seus, óbvio) poupamos a vida de outros dez e talvez vinte. Isso faz sentido". O herói não é um superhomem, é alguém como qualquer um que apenas enxergou a sua missão e tem a coragem de vive-la, sendo inclusive acometido por sintomas de alguma doença neurológica que faz a sua mão tremer. Não teme a morte. Não se impressiona com ela. Mas também não a deseja. Tudo que quer é voltar ao lar.

 

Um dos momentos de que mais gosto é quando Spilberg mostra uma sucessão de rostos – os rostos da guerra – de angustiados, amedrontados, esmagados por forças maiores que provavelmente os soldados que combateram não compreendiam. É poético. Outra quando a mamãe Ryan vai ser informada da morte dos seus filhos. Vemos uma fazenda perdida em algum lugar do interior dos EUA, muito bem cultivada, um mulher cuidando dos seus afazeres domésticos, que enviou quatro filhos para o front. A força verdadeira do exército dos EUA está nesse componente, naqueles valentes caipiras que saem dos seus afazeres para morrer em locais longínquos. Como é bela a cena em que ela cai ao chão, como qualquer mãe, de qualquer lugar cairia ao receber a notícia triste. Me fez lembrar o poema de Fernando Pessoa "O Menino de sua Mãe". Outra cena que muito gosto é quando ele diz aos seus comandados: "mais importante do que cumprir a missão, é vencer a guerra". Um agudo sentido do momento, algo grandioso. Outra que muito gosto também é a citação de Emerson, sobre o sentido da guerra, que talvez exprima de forma adequada a psicologia do personagem principal.

 

Não é um filme que agrade à maioria das mulheres. Ao contrário, é um filme masculino. Ainda assim as mulheres são heroinas, as esposas e mães à espera de que seus guerreiros retornem vivos e inteiros do inferno que é a guerra.

 

O roteiro insere no drama coletivo um drama pessoal, que serve de instrumento para a narrativa. O soldado Rayan é o único sobrevivente dos quatro irmãos que foram à guerra e o comando, tendo que enviar três cartas em simultâneo à mãe informando a morte dos três, decide retirar o sobrevivente. Aí escolhe o melhor de todos os seus capitães de campo, John, para, em meio ao caos das batalhas da invasão do Dia D, encontrar e resgatar Ryan para a sua mãe.

 

Mesmo aqueles que não gostam do gênero se emocionam. Spilberg é um poeta do cinema. E aqui é uma das suas obras maiores. Ele conseguiu transmitir a mensagem sempre verdadeira de que, nos momentos decisivos, é a personalidade individual que faz a diferença, seja pela coragem pessoal, seja pelo discernimento, seja pela compaixão. O personagem vivido por Hanks transmite-nos tudo isso. Spielberg não dá glamour à guerra, mas dignidade ao homem guerreiro. E resiste à tentação de satanizar os soldados alemães, retratados também como vítima do infortúnio político, o que não é pouco, se analisarmos a filmografia da guerra feita em Hollywood. Outro dos grandes méritos do diretor.

Sem dúvida, é um filme para ser visto muitas vezes.

 

 

A SAGA DO PODER

22/11/2001

 

Rever a saga de Francis Ford Coppola, The Godfather, é daquelas experiências estéticas inesquecíveis. A recente chegada ao mercado da versão em DVD permitiu-me um mergulho na trilogia. O filme é a crônica do Poder, na sua expressão transcendente, o Poder como força que lança suas raízes nos fundamentos do Bem e do Mal. Mario Puzzo e Coppola conseguiram transpor para as telas o exato sentido do fascínio feiticeiro do Poder, o domínio demoníaco que este tem sobre aqueles que são o seu instrumento de expressão e também suas vítimas. Quando o personagem Luchesi afirma, na fita III da série, que crime e política são a mesma coisa e que finanças é apenas uma arma diferente do que a pistola, ele sintetiza o enredo de toda a saga.

Os nomes dos personagens que constituem a dinastia do Chefão são emblemáticos: Vitor, o vitorioso, Michel (Michele), o vingador e Vicent (Vicenzo) o vencedor, dizem muito de cada uma das partes. O velho fundador da dinastia é alguém que teve a mão do poder do Mal desabando sobre a sua família, matando todos os seus parentes. Escapou quase que por milagre. Migra e “faz a América”. Por sua frieza e coragem, para não ser feito de tolo, ou seja, para não continuar sendo vítima do Poder, torna-se ele mesmo o seu agente, um matador que passa a usar a violência como última palavra para os negócios. Marlon Brando nesse papel tem atuação notável. O mesmo pode ser dito de Robert de Niro. 

 

A história de Michel é mais comovente e mais heróica. O velho Vitor não teve muita escolha, ele era a vítima que se tornou algoz. Michel teve a oportunidade de não entrar na espiral de violência, mas preferiu torna-se o vingador e fez o seu batismo de sangue, ao matar o concorrente Solozzo e um capitão da polícia. Depois do batismo de sangue, veio a escalada vingadora, que não perdoou sequer o irmão. Tornou-se uma fera assassina além de todos os limites, mas sempre castigando aqueles que o traíram e que praticaram o mal. Mas, paradoxalmente, era um homem de família, tudo que queria era proteger a família, passando a vida inteira lutando para tornar-se uma pessoa respeitável. Al Pacino é simplesmente brilhante na interpretação do personagem. A cada vez que assisto mais me entusiasma a competência do ator em encarnar o anjo vingador. Ele, sozinho, vale o ingresso, uma aula de interpretação.

 

O Poder é sempre ilusório e traiçoeiro. A dor que Michel vive quando é traído comove, mas nada é tão comovente quanto em dois momentos. O primeiro é a cruel confissão de Kay (a esposa) de que abortara um filho seu para “acabar com essa história que já dura dois mil anos”. A reação do persogem, o desespero, o tapa na mulher, é algo indescritível. Só vendo. Kay conseguiu atingi-lo de maneira muito mais profunda do que qualquer dos seus inimigos. O segundo é a morte da filha Mary, no final antológico do terceiro filme da trilogia. O grito que Pacino solta no ar mostra a dor mais profunda que um homem pode ter. “Quando eles vierem, atacarão primeiro aqueles você mais ama”, disse certa vez, profético, para Vicenzo. Os donos do poder são sempre suas primeiras e maiores vítimas. O amor e o Poder são antípodas.

 

A famiglia de fato é um microcosmo que representa a estrutura imperial do Poder. É uma Estado em miniatura. O paralelo entre a ação de Michel e a Igreja é também algo notável. Há a Graça, a redenção, mas elas são raras e destinadas apenas para aqueles que transcendem o Poder, escapam de sua escravidão. O Papa João Paulo I, personagem que é inserido no enredo do filme de maneira brilhante, é daqueles personagens que fazem contraponto. A bondade dele, a confiabilidade, a diferenciação das demais pessoas que Michel conheceu levam-no a fazer a confissão, outra monumental cena do filme, com estupenda interpretação de Pacino. E aqui é de se registrar a visão pessimista de Puzzo/Coppola sobre o Poder. O Bem sucumbe ao Mal. O Cristianismo ficou apenas na superfície dos ocidentais, não entrou nas suas entranhas. E a morte de Michel, sozinho, com o cão a observar e depois cheirar o cadáver, não precisa ser comentada. O próprio Mefisto veio buscar a sua alma.

 

Na verdade, o resumo do personagem Michel Corleone está na Epístola aos Romanos (7;23): ”Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”. É a escravidão do pecado determinando a ação dos homens, além de sua vontade. Não obstante todo o pessimismo e toda a crueza - e a trilogia é um dos filmes mais violentos que já vi - é um filme religioso.

 

Se há alguém que ombreia com Kubrick na arte cinematográfica, este é Coppola. E a trilogia do Chefão é a sua obra-prima.

 

 

NÁUFRAGO (Cast Away)

19/02/2001

 

A impressão maior do filme é a beleza. Do começo ao fim, a sentimento do belo é exaltado, mesmo nas cenas mais dramáticas. Acompanha esse sentimento a admiração que causa a interpretação de Tom Hanks, no papel de Chuck Noland. Inicia como um gordinho funcionário da Federal Express (FedEx) e acaba como um sobrevivente de uma tragédia, que viveu por anos uma dieta de peixes, crustáceos e côco. Um sedentário que virou pescador. Um Robson Crusoe recriado para os nosso tempo. A interpretação de Hanks é simplesmente brilhante. É impossível reconhece-lo no homem peludo, barbudo, cabeludo, magro e musculoso em que se transforma o personagem.

 

Mas é um filme altamente simbólico e nisso também consiste a sua beleza. A cena inicial, que mostra uma encruzilhada de duas estradas (a cruz que indica os quatro pontos cardeais), perfeitamente perpendiculares uma à outra, carregando todo o simbolismo do filme e não casualmente é na mesma cena que o filme acaba: o número quatro, os pontos cardeais, o centro do mundo onde o finito encontra o infinito.

 

Chuck Noland  (No Land = nome simbólico) tem uma vida unilateral, preso ao relógio. A obsessão pelo tempo é inerente ao trabalho de quem está numa empresa de entregas rápidas. A unilateralidade faz com que ele viva literalmente no ar, longe da terra. A temática do Tempo (mitológico) permeia o filme do princípio ao fim: o escravo do relógio será confinado a uma ilha deserta na qual terá tempo para tudo, quando antes não tinha tempo para nada, nem para a ceia de Natal em família. Para Agostinho, o tempo é “a imagem móvel da imóvel eternidade”.

 

É interessante o que diz o livro Dicionário dos Símbolos (Jean Chevalier e Alain Gheerbrant): “Todo movimento toma forma circular, no momento em que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim e cai sob a possibilidade de uma medida, que não é outra senão o tempo. Para tentar exorcizar a angústia e o efêmero, a relojoaria contemporânea não encontrou nada melhor, inconscientemente, do que dar aos relógios e aos seus despertadores uma forma quadrada, em lugar da redonda, simbolizando, assim, a ilusão humana de escapar à roda inexorável e de dominar a terra, impondo-lhe a sua medida. O quadrado simboliza o espaço, a terra, a matéria”.

 

A vida de Chuck é um conjunto de relógios marcando tempo e recebe da namorada, no Natal (a história se dá no tempo de Natal) também um relógio, herança de família, de formato redondo, com uma foto dela, presente que o acompanhará nos seus infortúnios.

 

Outro ponto singular do filme é mostrar claramente os quatro elementos em destaque: a terra, em sua encruzilhada, o ar (e o avião, causa da tragédia), a água, na qual faz um mergulho para o tempo eterno (é dado como morto e volta no final, renascido) e o fogo, primeiro sobre o oceano por ocasião do desastre (fogo purificador), depois na difícil tentativa de produzi-lo em ambiente completamente primitivo. Qual um ancestral, ao consegui-lo festeja o evento de forma espontânea, diria mesmo religiosa. É o fogo salvador.

 

Água, terra, fogo e ar: os quatro elementos que remetem à encruzilhada, ao centro do Mundo. Chuck, qual um Jonas, terá que fazer o seu mergulho no oceano profundo (a cena em que a baleia o observa na jangada é antológica). Chuck vivia unilateralmente o elemento ar, o intelecto, o tempo escravizante cada vez mais curto da vida moderna, que chega ao limite do sincronismo. Quis o destino obrigá-lo a viver um outro tempo, que não passa, a contemplar o oposto do que sempre viveu: o tempo que é “parado”, a espera, a impotência, a solidão. Passou a viver numa ponta de terra cercada de água, com a ajuda breve do fogo e sem o elemento ar (notável a cena em que constata o inútil e encharcado aparelho de telefone celular). Não havia mais pressa alguma ou, antes, havia agora a espera das longas horas que demorariam a passar.

 

É notável também os cálculos de tempo e navegação. Quatro anos na ilha. Área de busca, raio 800 milhas. Não dá para deixar de perceber o número quatro (a totalidade do ser) e o número oito (4+4), o infinito. O filme é uma sucessão de símbolos.

 

Viveu o homem primitivo. O isolamento. A angústia da fraqueza humana diante da natureza, a ela inteiramente submisso e dependente apenas da sua inteligência e dos seus músculos.

 

O final remete à cena original, isso eu já disse. Simboliza o novo começar. É uma belíssima cena. Diz ainda o Dicionário dos Símbolos “que a finalidade do símbolo é a tomada de consciência do ser (em todas as dimensões do tempo e do espaço), bem como de sua projeção no além”. Melhor não poderia dizer.

 

É um filme imperdível.

 

MUNIQUE

09/02/2006

 

Fui ver o MUNIQUE, filme do Spilberg. Não fiquei propriamente decepcionado, fiquei chocado com o que vi. Spilberg teve na mão um material perfeito para fazer uma obra de arte, mas fez tantas concessões ao politicamente correto que conseguiu estragar tudo. Três coisas absolutamente fora de lugar: uma equipe de matadores a mando de um Estado com problemas de consciência, uma história sobre o terrorismo palestino sem citar o papel de Yasser Arafat e uma ambivalência moral absurda da narrativa, a ponto de não identificar claramente quem são os heróis e os bandidos da história.

 

É verdade que um esquadrão de extermínio está para além do bem e do mal, além da moral judaica. Mas não se pode perder o contexto dos fatos, pois o grupo representou o papel de carrasco e não creio que caiba a ninguém fazer julgamentos morais dessa hedionda profissão. O carrasco “é”, cumpre ordens. Alguém sempre faz o trabalho sujo, como fazem os coveiros. O ponto melhor do filme é quando mostra a primeira-ministra Golda Meir dando a grande ordem, para se fazer justiça à revelia do sistema jurídico, sumariamente. Então já se vê que o extermínio é apenas o cumprimento da decretação de pena de morte por parte de um Estado, que diferente não poderia fazer em face da ferocidade e da gratuidade dos crimes praticados pelos terroristas contra seus cidadãos inocentes e indefesos. Fosse eu primeiro-ministro faria igual.

 

Não se pode equiparar o papel dos israelenses vingadores com o dos terroristas que mataram atletas civis de forma covarde. Esse relativismo moral é inaceitável e é o grande erro do filme. Foram liquidar os assassinos que se vangloriavam do feito e prometiam repeti-lo, não gente inocente. O filme deveria claramente mostrar que há uma hierarquia na questão moral. Imoral seria o poder político israelense deixar barato o episódio e impunes os assassinatos covardes de seus concidadãos. Ficou em cima do muro.

 

Nesse contexto, as piadinhas supostamente típicas de judeus colocadas nas falas, como o pedido de recibo de quem cuidava das finanças da operação, soaram grotescas. Não tiveram graça nenhuma. Spilberg não fez algo semelhante com os palestinos. Sua licença de ser judeu não lhe confere mandato para ridicularizar quem teve a responsabilidade e a coragem de fazer o que precisava ser feito.

 

Poupar a figura monstruosa de Arafat no filme é desonrar a memória dos inocentes mortos. Ele foi a peça-chave na trama criminosa. Por que a omissão?

 

E para mim soou pouco crível que o grupo exterminador fosse composto de amadores e que as informações sobre os alvos chegassem ao mesmo tempo de forma fácil e alheia a uma estrutura profissional de inteligência militar. Inverossímil. Nem os alvos palestinos eram tão estúpidos e nem o bando improvisado de vingadores poderia ser tão eficaz deixado por sua própria conta, como quer fazer crer o diretor.

 

Essa trama teria que ser narrada em contornos épicos, retratando dilemas semelhantes aos contados nas tragédias gregas. Virou um filminho enfadonho. Se fosse dirigido por um palestino não seria pior sob as vistas de um ocidental. Mas parece estar na moda tomar a defesa pública de todos aqueles que empunham armas contra os que representam a civilização. Basta lembrar do tenebroso CRUZADA, que comentei anteriormente. Estão no mesmo patamar, fazendo propaganda da causa islâmica.

 

 

 

DOIS FILMES

23/10/2005

 

Ontem vi o filme Constantine, estrelado por Keanu Reeves e dirigido pro Francis Lawrence. Apesar de algumas incongruências com a fidelidade aos textos bíblicos, a começar por atribuir a morte de Jesus a uma lança, uma forma guerreira de morrer bem alheia a Cristo, e não à Cruz (tinha Jesus que ser degradado até a última gota, sem honra alguma, como o mais reles dos homens, daí a Cruz), gostei da obra. O filme é, todo ele, símbolos. Na cena inicial do achado da ponta de lança perdida – a Lança do Destino da citação inaugural –, vemos o cão, o mesmo bicho que acompanha a morte de Victor Corleone, o mesmo canídeo do outro filme de que quero falar, o Lobisomem, filmado em 1941. É sempre o Cão, o Andrógino nojento a ameaçar a humanidade.

 

Claro, é o Mal que está em tela. No Constantine vemos os diferentes planos interagindo, os anjos e demônios duelando pela alma e pela posse do corpo dos homens e mulheres. John Constantine é especial porque vê os demônios e os anjos, algo fora do alcance da maioria dos mortais. O Mal metafísico tem manifestações reais e é disso que trata o fenômeno religioso desde a Origem. A descoberta do Deus Único e a sua Piedade para com a humanidade, a encarnação do Verbo – em suma, a Revelação, dá o antídoto contra o Mal, o caminho para a Salvação.

 

Desde tempos imemoriais os homens convivem com esses seres especiais, os médiuns. Assim nos tempos bíblicos, assim agora. Como entender Nietzsche e seu Zaratustra deslocado dessa realidade fantasmagórica? Jung levou toda a vida a falar desses anjos e demônios. Eu convivo com quem tem o “dom” ou a maldição de enxergar mais além. Sei que o filme não é uma mera recriação para o cinema de histórias em quadrinhos. Relata uma realidade mística conhecida.

 

[Quando se vê as imagens de Hitler no filme de Leni Riefenstahl, por ocasião do VII Congresso do partido Nazi, ao receber a palavra percebe-se claramente quando o ser humano é tomado pela besta. Essas imagens têm um valor histórico inestimável sobretudo por documentar essa metamorfose em alguém radicalmente possuído pelo Mal transcendente.]

 

Mas falemos dos símbolos. As armas de John são amuletos, água benta e fórmulas feitas, que lhe dão o poder do exorcismo. Em uma cena chama a atenção especial o amuleto usado para proteção pelo padre, com a imagem do Laço Infinito, o mesmo que está na logomarca do Unibanco, comentada por mim anteriormente. No filme ela é posta de forma positiva, protetora. Mas é um símbolo satânico, invocador de demônios. Está aí uma outra incoerência do filme, pelo menos até onde me é dado conhecer tal símbolo.

 

John é um homem comum, mortal, fumante, doente e cínico. Mas com grandes dotes espirituais, que usa para o bem. Embora narrando uma simbologia confusa, minimizando o poder da Cruz, no conjunto o filme reconhece o poder da Igreja de Cristo, da própria Cruz ela mesma, como instrumento de salvação. A arma de John tem a forma de Cruz e lança água benta.

 

O inferno é retratado como um duplo da Terra, devastada. Multidões em agonia. O inferno está na multidão, preciso reconhecer. Todo coletivo é demoníaco, carrega a semente do Mal. O Bem só pode residir no indivíduo, na consciência individual. Os demônios são retratados como figuras deformadas derivadas do homem, lembrando cadáveres e esqueletos. Estão associados a insetos, seres primitivos e horrendos, nauseantes. Horríveis, como que saídos do quadro de Bosch. As realidades se sobrepõem, sendo a consciência dos homens o campo onde se dá o duelo entre o Bem e o Mal. Cabe ao homem fazer a escolha. Nisso nem Deus pode ajudar, é seu grande fardo. Isabel, irmã-gêmeas de Ângela, personagem central na trama, escolheu suicidar-se para se livrar dos demônios. Sem perdão. Fez a escolha errada, não tem volta, está irremediavelmente condenada. Fez do “dom” a sua maldição.

 

O filme Lobisomem (Wolf Man), dirigido por George Waggner em 1941, é um trabalho notável. Não o conhecia. Estava a rodar os canais da Tv por assinatura quando o mesmo estava começando. Parei o que fazia para vê-lo até o final. Interessante como aqui a figura do lobo (cão), o Mal e o pentagrama estão intimamente associados. A estrela de cinco pontas marca a mão daqueles que serão levados pelo Demo. Poucas vezes vi esse símbolo ser exaltado com tanta nitidez. A estética é a dos anos quarenta, os atores foram mal escolhidos (o filho é corpulento e alto, o pai miúdo, baixo). No mais, é muito bem feito. Vale conferir, especialmente se você, leitor, estiver interessado na questão do Mal metafísico e do símbolo do pentagrama.

 

 

 

A GUERRA DOS MUNDOS

05/06/2005

 

Eu tinha me prometido não comentar esse filme do Spielberg (hesitei em escrever “filme horrível”, mas vá lá, que seja), que é daquelas obras do cinema que, ao acabar a exibição, você se pergunta porque perdeu ali o seu tempo. O argumento do filme é, para dizer o mínimo, estúpido: alienígenas que depositaram na Terra máquinas de guerra há milhões de anos voltam, quais vampiros assassinos, exterminadores da raça humana, e fazem a sua devastação até serem eles mesmos destruídos por bactérias. Como é possível que seres inteligentes, que “plantam” máquinas de guerra que resistem ao tempo estelar, atravessam galáxias, que adoram carne humana fresca, não notariam o minúsculo detalhe da bactéria? Tenha dó. É preciso um QI de ameba para embarcar numa história tão pobre.

 

O fato é que decidi comentar o dito cujo por causa do comentário mendaz feito por Luiz Carlos Merten, na edição do último sábado do “Estadão”. Com um roteiro que tira a essência do livro e do filme originalmente dirigido por Byron Haskin em 1953, Spielberg produz uma caricatura cinematográfica, quando comparado à sua obra pretérita. Mas o comentarista não vê assim. Primeiro, Merten diz que o filme propõe o desarmamentismo. Vi o contrário, a reação instintiva de um pai que toma a sua arma para a defesa de seus filhos é ela mesma a apologia do uso da arma de defesa pessoal. Tinha a arma à mão, pouco importa se era eficiente contra o inimigo. Segundo, diz que Spielberg retrata a inutilidade das armas de guerra. Quem é autor de O Resgate do Soldado Ryan não pode ser “acusado” desse crime. Só se forem inúteis contra ETs mesmo. Sem elas, a China e o Islã tomariam de assalto a Europa e as Américas. São elas, as armas, que garantem a continuidade da Civilização. Sem falar da ala vermelha, o inimigo interno que faria pó do que há de mais requintado na tradição judaico-cristã, que são os seus valores morais. As hordas ainda podem ser controladas, graças às armas.

 

O filme, para Merten, seria um libelo contra Bush. Balela. É um filmeco, talvez o pior do diretor, que imagino será um relativo fracasso de bilheteria em face da sua vacuidade. Filme horrendo, barulhento, sem enredo, sequer tem um história paralela, um romance, nada. É feio e barulhento do princípio ao fim. Até mesmo nas cenas de ação há “pouca” ação. Quase dormi, dormiria se não fosse o barulhão catastrófico. Não fui embora antes porque não quis estragar o passeio de quem foi comigo.