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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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FHC E O TEMA DE NOSSO TEMPO 01 de novembro de 2009 O tema de
nosso tempo é o totalitarismo (que chamei de Estado Total) e o Brasil caminha
a passos largos na sua direção. Os leitores que me acompanham estão
perfeitamente cientes dos perigos que nos rondam. E quero confidenciar aqui
que o artigo hoje publicado em vários jornais pelo ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso (Para
onde vamos?), ao mesmo tempo que
me envaideceu, me deixou entristecido. Vejo que vários dos pontos preocupantes
que tenho levantado em minhas análises foram plenamente endossados por ele. FHC
também está muito preocupado com o futuro político do Brasil. Ter a concordância
de FHC mostra que, de fato, não tenho errado nas análises, algo a envaidecer-me.
Porém, fico triste porque acertar aqui é perder, pois os riscos emergem de
todos os lados, as ameaças brotam, a sociedade treme inerme diante do Estado
Total petista. FHC inicia
o artigo indo direto ao ponto principal, a plena alienação da sociedade
brasileira diante da arrogância e exorbitância do governo Lula: “A enxurrada de decisões governamentais
esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda
talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde
vamos? Coloco o advérbio ‘talvez’ porque alguns estão de tal
modo inebriados com ‘o maior espetáculo da terra’, de riqueza fácil
que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de
conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei,
dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu
continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima
melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos
desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?” FHC só não
pode afetar surpresa por isso. Ele sabe perfeitamente bem que o grande
eleitor de Lula e o pavimentador dos caminhos do PT
ao poder foi ele mesmo. A alienação da sociedade aconteceu em larga medida em
seu próprio tempo de poder e oriunda de seus próprios métodos. Não faz muito eu
comentei a entrevista que FHC deu à revista Dicta&Contradicta, na qual ele se declarou partidário dos métodos
políticos de Gramsci. Ora, o resultado disso não seria coroado no seu
governo, socialista meia-boca, ainda com o ranço “burguês”. A
social-democracia sempre preparou o terreno para que os radicais
desembarcassem no poder de Estado. Como teórico da revolução gramsciana ele tem perfeitamente claro como funciona a
coisa toda. FHC
completou no exórdio do artigo: “Só que
cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o
original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método.
Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem
sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca
possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um
estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e
sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos”. Sim, tem
método, o método usado por FHC ele mesmo e seu grupo, desde antes de chegar
ao poder. Impessoal, a despeito do príncipe tresloucado, um estúpido com cara
de torcedor e futebol. A revolução no ensino, alienando os jovens, a edição
de material didático mentiroso, o agigantamento acelerado do Estado, do lado
da receita e da despesa, o controle ideológico dos meios de comunicação, foi
tudo que FHC realizou. Até mesmo as malditas bolsas em troca de votos foi
criação sua. FHC se preocupa talvez porque um insensato é um príncipe despreparado.
Ora, quando os demônios são soltos fazem coisas que se esperam deles. Afinal,
são demônios. É o que estamos vendo. Nada do que Lula faz é diferente do que
FHC fez, exceto que o processo é cumulativo e está
em grau muito mais avançado, praticamente temos vinte anos nessa marcha
forçada no rumo do totalitarismo. Que a revolução gramsciana
se faz assim mesmo, “devagarinho, quase sem que se perceba”. Agora FHC
chama a isso de “pequenos assassinatos”,
figura notavelmente apropriada, mas ele é mais que cúmplice desses crimes,
pode ser considerado o mandante. FHC poderia ter salvo
o Brasil desse desastre, mas jamais quis isso. Como um Fausto tupiniquim
achou que poderia negociar com Mefistófeles sem entregar a alma. O fogo arderá
para todos. FHC deu-se conta da dimensão da tragédia que nos espera. Completou:
“Pouco a pouco, por trás do que podem
parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do ‘autoritarismo
popular’ vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe
regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na
contramão disso tudo, vamos regressando a formas
políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto”
(alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram
penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam
os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição
do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas,
outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam
pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não
importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os
benefícios: ‘Minha casa, minha vida’; biodiesel de mamona, redenção da
agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans,
pré-sal para todos”. FHC teve a
coragem de vir a público dizer essas coisas todas, uma surpresa para mim. Falar,
como fez, em autoritarismo
popular é ainda um eufemismo, mas uma figura de linguagem que já dá a
dimensão trágica do real. Afinal, FHC carrega a autoridade de ex-presidente,
patrono de todos os esquerdistas, inclusive e sobretudo
de Lula e seu grupo. De uma maneira que me pareceu desapropriada comparou as
ações de Lula com as dos governos militares, esquecendo-se de dizer que os
militares implantaram o regime de força para livrar o Brasil das mesmas
forças totalitárias aglutinadas em torno de Lula; e, depois, fizeram a
abertura política e entregaram o poder aos civis, sem qualquer trauma. O
processo agora é precisamente o inverso e mais paralelo vejo com o período
imediatamente anterior ao pré-64: as esquerdas se aproximando do poder total
pela via democrática, objetivando destruir a ordem democrática para perpetuar-se.
FHC não perdeu o sestro de falar mal dos militares, para cortejar talvez
aqueles a quem denuncia no artigo. Seu medo ainda não
alcançou as devidas dimensões. Não
obstante, foi capaz de escrever: “Se há
lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder
presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e
poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem
método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais
fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados”.
Nesse trecho podemos notar sua ansiedade e sua urgência. Partido e Estado formando
uma unidade é o totalitarismo com todas as letras e o Brasil já vive isso,
conforme ele observou. Infelizmente, é o que tenho escrito há bem mais tempo.
Esse processo começou no dia da posse de Lula. Este artigo tardou a ser
escrito. Em meus
artigos os leitores têm lido muito sobre o papel adquirido na economia pelos
fundos de pensão e como eles se tornaram instrumentos para a chegada ao
socialismo, a partir da resenha que fiz do livro de Peter Drucker. É a primeira vez que vejo o problema
colocado nos mesmos termos que tenho escrito: “Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem
a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a
funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a
representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com
isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente
de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil,
os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e
comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos
conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos
fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no
governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre
o qual o subperonismo lulista
se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos?
Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes
que seja tarde”. Pergunta:
quem tem força para dar basta ao continuísmo? Ora, direis, as estrelas. Quais? As quatro, aquelas mesmas quatro
que em 1964 tiveram a força e o discernimento para espantar os alucinados do
poder. Que venham enquanto é tempo. Ora,
direis, ouvir estrelas... Melhor ouvir clarins? |
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