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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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FALANDO DOS NORDESTINOS 17/05/2012 A sentença
proferida pela Justiça, condenando Mayara Petruso
por ter manifestado repulsa aos nordestinos, por terem votado em Lula, exige
uma meditação. A simplória Mayara nem percebeu que quem elegeu Lula foi a massa dos votos paulista, inumeráveis. Ela é paulista e
não é fácil ser nordestino em São Paulo, menos hoje que no passado, penso eu.
Eu não votei em Lula e o repudio não por ser nordestino, mas por ser
revolucionário populista, pondo em perigo as próprias instituições
democráticas, a economia de mercado e a higiene política do Brasil, coisas
sobre as quais a Mayara nem pensou. Nem por instinto. Apenas não gosta de
nordestinos. Preconceito
antigo. Que é ser nordestino? Nada. E tudo. Não é raça. Nem religião. É tudo
porque há um traço característico do nordestino migrante: a miscigenação.
Como a cantou Ary Barroso na linda Aquarela do Brasil. Música incompleta,
porque a nossa miscigenação é também mameluca e cafuza. Mayara é portadora de
preconceito antigo contra os “brasileiros”, que assim eram chamados os
mestiços no século XIX, em oposição aos brancos colonizadores, que se
consideravam europeus. E atribuíam aos mestiços as
más qualidades de sua sombra psíquica. Mayara deu o azar de viver em tempos
outros e de escrever no Twitter, gerando contra si
prova inconteste do seu racismo. “Ô abre a cortina do passado Tira a mãe
índia do esquecimento também, poderíamos dizer. O que é certo. O sangue do
bugre corre nas veias de cada um de nós. O racismo
contra os mestiços está presente em toda parte, inclusive na nossa literatura
mais vistosa. Sérgio Buarque de Holanda, ao falar do nosso homem cordial,
outra coisa não fez que não gravar, em letras
góticas, essa visão negativa do mestiço. Euclides da Cunha, sob o espanto da
resistência em Canudos, também o fez. Coube a Guimarães Rosa escrever em
letras garrafais a língua dos mestiços, agora elevada à condição universal
por sua arte literária. Mas nem ele, em seus primeiros exercícios literários –
no já monumental Sagarana – escapou de chapar esse
mestiço com as cores fortes do preconceito. Seu Salatiel
e sua Jiní, deliciosos personagens moldados desde
as páginas do Raízes do Brasil e do Casa Grande e
Senzala, são expressão dessa visão negativa do mestiço. Guimarães
Rosa redimiu-se pela eternidade ao criar o Riobaldo,
esse herói universal com cara de sertanejo, mestiço, matuto. Heroico. Gilberto
Freyre terá sido o primeiro a ir além de todos e dizer que o mestiço, além de
dar cor à nacionalidade, podia ser visto como um ser humano igual aos demais.
Se o mestiço singulariza nossa gente, não é mais e nem menos que qualquer outra
pessoa, portador de qualidades e defeitos. Ele escreveu quando o Brasil não
era nada e todo nosso atraso era tido como obra da mestiçagem, um grande
mérito do pernambucano. Depois de ocupar o lugar de uma das dez maiores
economias do planeta, o Brasil materializa seu destino manifesto de grande
país mestiço. O mesmo matuto construiu a prosperidade e superou o atraso. O racismo é
algo atávico porque se torna uma explicação simples e identifica a suposta
causa imediata de todas as mazelas. É a ferramenta dos estúpidos. De tanto
tempo em São Paulo por vezes eu sou confundido com um da terra. E sou o eventual
confidente de preconceitos, ditos a boca pequena, de paulista para paulista.
Aí o susto: faço pior do que o juiz da sentença de Mayara,
sou o juiz e o vingador. Alguns casos hilários, outros de franco
pugilato. Divirto-me, mas sou implacável. Ser conivente com o preconceito
contra os nordestinos é ser conivente com o preconceito contra os brasileiros
enquanto tal. “Brasil, meu
Brasil Brasileiro |
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