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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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EXPORTANDO INDÚSTRIAS 09/02/2012 A coluna do ex-ministro Delfim Netto na edição de ontem da Folha de São Paulo (É a
indústria...) me levou a meditar sobre a nova
divisão internacional do trabalho, que se configurou a partir das últimas
décadas do século passado com a entrada da China como grande produtor
mundial. Até então este país tinha papel marginal e era voltado para seu
próprio mercado interno. Desde então a China passou a ser o
endereço das empresas dedicadas à indústria de transformação. Eu próprio, nos
anos oitenta, militava na indústria de brinquedos e vi praticamente toda a
indústria nacional naufragar. Mal se sabia que a quebradeira do setor não era
episódica e não se devia apenas à crise que então grassava no país. A mudança
era estrutural e a China acabou por ter o quase monopólio da fabricação de
brinquedos. Outros setores seguiram o exemplo.
Parte da indústria do EUA, no primeiro momento, mas de todo o mundo no
momento seguinte, transferiu-se para a China. Nossa própria indústria foi
para lá deslocada. Como entender o processo? Em primeiro lugar, houve a
vontade da estrutura política da China de se integrar ao mercado mundial, no
famoso dito de Deng Xioping
“Um país, dois sistemas”. Um arremedo de capitalismo vitoriano foi
por lá implantado, sem qualquer modernização das relações políticas,
integralmente controladas pelo Partido Comunista. Em segundo lugar, a China ofertou como
diferencial uma reserva inesgotável de mão de obra barata e um sistema
tributário bastante favorável em comparação com o Ocidente. A indústria de
transformação, em regra estruturada no formato de mão de obra intensiva,
encontrou ali um local favorável para se desenvolver. Boa parte da
prosperidade que se verificou no momento subsequente
se deveu à incorporação desse enorme contingente de pessoas à economia
mundial. Em terceiro, a fronteira econômica de
expansão no Ocidente estava determinada pelo binômio
informática/telecomunicações. O setor de serviços expandiu-se enormemente.
Dessa forma, a indústria de transformação deslocou-se para a China sem que
impactos estruturais maiores fossem verificados nos países que perderam
indústrias de transformação. O Ocidente pôde assim manter sua
estrutura social democrata, convivendo com custo muito mais elevado da mão
de obra, que ganha mais e trabalha menos em relação aos chineses, absorvendo
os frutos do acréscimo de produtividade daquele país. Os preços baixos do
Oriente semearam a prosperidade. Um último fator foi bastante favorável
ao Brasil, produtor que é de comida e matérias primas. A incorporação da
China ao mercado mundial demandou intensamente nesses mercados, melhorando preços
de forma permanente. O Brasil portanto foi duplamente beneficiado, seja pela
revolução tecnológica, seja pela ampliação de seus mercados tradicionais. A
perda do setor de indústria de transformação quase não foi sentida. Delfim Netto
sempre raciocina, no artigo, como formulador de política industrial, do que
foi useiro e vezeiros quando de sua passagem pelo poder. Ocorre que as relações
estruturais dos mercados se sobrepõem e por vezes esmagam a vontade do
governante. É inútil e extemporâneo tentar reimplantar indústrias que se
transferiram para o Oriente. Elas
só voltarão se o modelo social democrata for extinto, o que parece estar
sendo ensaiado na Europa. Para concorrer com a China só com mão de obra
barata e mercado desregulamentado, ou seja, com o desmonte do chamado Estado
de bem estar social. E com baixa tributação. Isso não vai acontecer aqui, ao
menos em um horizonte de tempo discernível. Logo, essa divisão internacional
do trabalho se manterá pelos próximos anos. A China é a dona da indústria de
transformação por razões estruturais. |
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