|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
EXÍLIO E
LIBERDADE 06/11/2002 “Mas o fato é que
o exílio é a própria condição humana e quem não aceitar essa dor justa, que
se crava na alma como um prego na palma presa ao lenho, está se recusando não
só a viver a vida com a intensidade que lhe é peculiar, mas também a cometer
o maior dos pecados: a recusa de enfrentar a aventura heróica da fé”. Martim
Vasques da Cunha Nasci exilado e, desde então,
tenho sido um exilado, sempre e sempre. Por isso foi com alegria que li o
texto de Martim Vasques da Cunha, “A política do
Espírito, ou: a luta pela unidade Ser”, publicado na revista eletrônica “O
Indivíduo” (www.oindividuo.com). Para quem não conhece, Martim é um escritor
surpreendente: erudito de linguagem simples, cujo texto é, simultaneamente,
direto e poético, numa clareza que honra os nossos melhores escritores. Não
casualmente que longos poemas ilustram a sua exposição. Na quinta seção do
texto citado ele trata do exílio de uma forma tão decisiva que decidi pensar
em meu próprio exílio. Remeto-lhe, caro leitor, ao denso texto de Martim, uma
obra-prima de investigação filosófica, de cujo conteúdo extraí
o que está em epígrafe. Desde que me entendo por gente
me senti ensimesmado, vivendo como estrangeiro em um país desconhecido. O
estranhamento do mundo sempre foi o sentimento que senti, diante das pessoas,
das coisas, das idéias, da realidade enquanto tal. E medo, muito medo, que
perseguiu o menino perquiridor, que sempre olhava
as coisas todas com interrogação e espanto. Evidentemente as respostas que me
davam, a vida e as pessoas, não me satisfaziam e
cedo se abateu sobre mim uma fome insaciável de conhecimento. O que queria
saber? Tudo, sobre tudo. O que soube até hoje? Pouco mais que nada, poucas
certezas adquiri, e uma delas é importante: para que
eu possa continuar a minha jornada de aprendiz só uma coisa é verdadeiramente
imprescindível, que é a liberdade. É um paradoxo descobrir que o
exílio não contraria a liberdade, muito ao contrário. O exílio não é um
conceito geográfico. É, antes, aquele velho sentimento de estranheza, a me
acompanhar desde o berço. Não que não tenha sofrido de fato o exílio
geográfico: também cedo parti da terra natal, para não mais voltar. E como é
doloroso o sentimento de perda de quem tem que partir! O exílio exterior,
todavia, é apenas uma materialização momentânea de algo muito mais
fundamental e perene, que é o apartamento da alma. Na verdade, sempre me
senti exilado em toda parte que fui e, paradoxalmente, onde fui encontrei o
meu lugar. “O sertão é em todo lugar”, traduziu Guimarães Rosa de forma seca
e poética. Ao ler essa frase muitas coisas ficaram claras para mim, que vim
lá do sertão. Exílio é solidão. Não obstante ter encontrado seres
excepcionais no meu percurso, sair da minha concha sempre foi bem mais
difícil do que eu gostaria. Marchar sozinho no mundo parece ser o destino de
algumas pessoas e certamente esse é o meu caso, a perguntar aos vivos e aos
escritores mortos o sentido das coisas ou, antes, se as coisas têm sentido.
Daí o meu estranhamento das soluções coletivistas, que nos primeiros anos de
juventude me seduziram, mas não me convenceram. As soluções coletivistas são
falsas, não servem para os ilhados de alma e nem para ninguém. A jornada do
ser é sempre individual, descobri, e com essa verdade o meu pendor religioso. Exilar-se no mundo é buscar
por Deus, então o exílio é uma condição essencial para o sentimento
religioso. Bem nos lembra Martim Vasques da Cunha: “Mas o fato é que o exílio é a própria
condição humana e quem não aceitar essa dor justa, que se crava na alma como
um prego na palma presa ao lenho, está se recusando não só a viver a vida com
a intensidade que lhe é peculiar, mas também a cometer o maior dos pecados: a recusa de
enfrentar a aventura heróica da fé. Pois para suportar o exílio é preciso ter
três armas: a fé, a esperança e a caridade”.
Estamos então falando do
Cristianismo, onde me reconheço. Mas vale o mesmo para qualquer outra
Tradição: desde Sócrates e os profetas hebreus, todos os homens notáveis foram
exilados. Seu legado escrito dá claramente o testemunho do seu exílio. Sem as
virtudes, é impossível a sobrevivência solitária e errante de um ser
consciente de si mesmo. Exílio e dor são uma única e mesma coisa. Tudo isso, caro leitor, para
dizer que meu exílio interior aumentou, na medida em que sinto que a
liberdade essencial está ameaçada. A mentira toma conta do espaço público, o
diálogo está quase impedido, por falta de interlocutores, e os novos tempos
políticos que se abrem, dominados pelos amantes da mentira e da falsificação
da realidade, prometem um estreitamento ainda maior do campo individual.
Estarei me exilando de novo? Não sei, vez que exilado sempre fui. Digamos que
o sentimento de isolamento acentuou-se com o perigo a ameaçar o espaço
público. Que se dane! Serei sempre
livre, a despeito de qualquer coisa que venha. Liberdade é uma folha de papel
em branco, à espera do texto. |
|