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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ESTUPIDEZ ERUDITA (Publicado originalmente no número 3
da revista Dicta&Contradicta) Dados
Técnicos: MISSA NEGRA - Religião
Apocalíptica e o Fim das Utopias Autor: John Gray; Editora Record;
2007; 350 págs. Classificado por muitos como um dos maiores cientistas
políticos vivos e a cabeça pensante que norteia ao menos os mandatários
britânicos das últimas décadas, John Gray é professor de Pensamento Europeu
na London School of Economics e colunista do
jornal britânico The Guardian.
O autor já tem vasta obra publicada, parte dela já traduzida para o
português, com destaque para o aclamado Cachorros de Palha. Gray é um pessimista ateu,
que acredita que a humanidade não ocupa lugar de destaque no universo. Esta
crença deriva da sua hostilidade ao cristianismo e vai fundamentar toda a sua
análise política. O resumo que eu faço do livro MISSA NEGRA - Religião Apocalíptica e o Fim das
Utopias consiste em uma frase: estupidez
erudita. Não obstante, o livro tem muitos méritos, ao levantar questões
cruciais e pertinentes, sem as quais não compreenderemos os tempos atuais,
principalmente os fatos políticos de bastidores dos EUA e da Inglaterra até a
segunda guerra do Iraque, tão bem descritos no livro. Faz também um notável trabalho de
historiador do que aconteceu nos tempos recentes. Gray começa o livro com a seguinte frase: “A política moderna é um capítulo da
história da religião”. Como sublinhei acima, a palavra religião não é lisonjeira nos seus
escritos. O seu grande mérito consiste em notar que a política contemporânea
de massas adquiriu essa faceta de substituta das religiões tradicionais. O
que Gray não percebeu é que a imitação não é a obra genuína: o arremedo
grosseiro não pode tomar o lugar da religião revelada. Na verdade, o recuo
desta é que permitirá ao poder mundano assumir sua forma caricatural e
mortífera, ao fazer do Estado o deus redentor das massas, desde o início do
século XX. Ele escreveu: “A
história do cristianismo é uma série de tentativas de chegar a bom termo com
essa (a de Cristo) experiência fundadora de decepção escatológica” (o anúncio
do novo reino iminente). Aqui está a “acusação” principal e a incompreensão
mais aguda do que seja o cristianismo.
O autor nota que o discurso político contemporâneo consiste na
promessa de salvar a humanidade por meio da política, de fazer cumprir a
promessa escatológica aqui e agora. Piormente, consiste em assumir que certas formas
institucionalizadas das democracias liberais consistem no suposto Fim da
História (Fukuyama), tese que Gray repudia
fortemente. Aqui ele está certo. A essência do seu pensamento deságua no relativismo político e
cultural, ao que denominará erroneamente de realismo. Esse engano deriva de uma grande lacuna teórica, vez
que Gray não tem instrumentos para compreender o caráter gnóstico
salvacionista dos movimentos políticos modernos, fatos por ele mesmo
apontados, mas insuficientemente analisados.
Sua lacuna teórica deve-se à superficial apreciação que ele fez da
obra de Eric Voegelin, que mereceu no livro apenas
uma única citação. Como se sabe, Eric Voegelin não
apenas investigou à exaustão o fenômeno da gnose salvífica na política, como também deu a ele a resposta
teórica adequada. O que sobra em Voegelin falta em
Gray, embora este autor nunca perca de vista o paralelo entre o movimento
político e o fato religioso. Os surtos de matança citados no livro nos ligam diretamente à
definição do mal e do que seja o homem. O problema do quilialismo
(ou milenarismo, termo pelo qual o fenômeno é mais
conhecido) é conseqüência da deformação da mensagem revelada: o cristianismo
jamais pregou que a perfeição coletiva e mesmo individual aconteça neste mundo, ficando esta perfeição
como meta para o Além. Os milenaristas querem a perfeição imediata, usando a
engenharia social. Já o cristianismo tradicional, quando muito, incita a
cidade dos homens a tentar imitar a cidade de Deus. Os gnósticos é que
procurarão a perfectibilidade do homem e a salvação aqui e agora pelos instrumentos do Estado, algo inviável e
sacrílego. Ao falar em “missa negra”,
o autor acabou acertando no título, mas não teve como alargar a sua
compreensão dos fatos políticos por não compreender que a perversão do
cristianismo só existe porque existe também a sua versão integral, correta. Seu erro consiste em se apoiar teoricamente em dois autores
equivocados para sustentar o que ele mesmo chama de realismo político: Maquiavel e Keynes. Ora, o descenso moral da
obra do primeiro nada tem de realista enquanto tal. Maquiavel não apenas
representa a degeneração moral manifesta no sonho moderno de aperfeiçoar o mundo
pela conquista do poder político, sendo ele mesmo o inspirador do quilialimo de todos os revolucionários. A obra de
Maquiavel pressupõe um elemento metafísico que, à falta de melhor termo,
chamou de Fortuna (alusiva à Roda da Fortuna, do Tarô), algo que Gray,
materialista, desconsidera. O segundo autor, Keynes, que ele contrapõe a Hayek em
economia, realizou a mesma tarefa que Maquiavel na ciência econômica, ao
colocar o Estado como o centro aperfeiçoador da
sociedade e instância eliminadora das crises econômicas cíclicas. O século XX
foi o século de Keynes. A gravidade da atual crise econômica é resultado do
triunfo de suas teorias, que fizeram os governantes abandonarem precisamente
o real, o mundo como ele é, pondo em troca o voluntarismo estatal. À mão
invisível de Adam Smith as teorias de Keynes pretendem precisamente ser antídotos para as crises pela força da mão visível do
Estado. Se é óbvio que o quilialismo
à esquerda é mais notório e inegável, não é tão óbvio que o mesmo fenômeno se
passa à direita do espectro político. Isso porque a chamada direita tem ainda
no seu ideal de ação restos da tradição, que lhe impõem travas morais no
exercício do poder. Mas Gray quer nos convencer que os supostos crimes de
Bush, Thatcher e Blair têm parentesco
com os crimes passados dos coletivistas no poder, em especial aqueles da
primeira metade do século. Isso é uma evidente má fé intelectual. Leiamos o
seguinte trecho: “À medida que se
tornava mais militante, a direita utópica também se tornava menos secular, e
em seu apogeu na América apresentava muitas das características de um
movimento milenarista”. Aqui, Gray ataca a ação no Iraque e todas as medidas
preventivas tomadas contra o terrorismo internacional. Seu argumento é que a
intervenção no Iraque tinha como pano de fundo messiânico implantar a
democracia naquele país. Gay defende o relativismo cultural e político –
chamando a isso de realismo – e no texto fica implícito que a manutenção
de Saddam no poder, bem como tolerar a tirania nos países não ocidentais,
seria ato desse realismo político. Ora, aceitar esse relativismo é um engano
brutal. A guerra no Iraque era necessária inclusive como forma de dissuasão
dos Estados delinqüentes que apoiavam ostensivamente o terrorismo. A
superioridade das instituições e dos valores ocidentais não pode ser
contestada. O exemplo do Japão no Pós-guerra é o
mais paradigmático do fato de que essas instituições podem ser adaptadas em
qualquer parte. Concluiu: “Em sua
militante fé no progresso, a direita aceitou uma corrente radical do
pensamento iluminista que renovava, sob novas formas, alguns dos mitos
centrais do cristianismo”. Direita e cristianismo tornam-se assim
sinônimos. Gray, todavia, não distingue o cristianismo reformado (iluminista)
que comanda os EUA e a Inglaterra, da Tradição ocidental. Por isso pôde
dizer, de forma sofistica, que os governos de direita tornaram-se algo menos secular, como se nos EUA de Bush
tivéssemos um núcleo clerical. Boa parte da obra John Gray gasta na discussão dos fundamentos
teóricos da política dos governantes da direita, como Reagan,.Bush, Margaret Thatcher e Toni Blair Seu primeiro grande erro foi não
diferenciar o discurso desses governantes de sua ação política. Na prática,
esses governantes foram keynesianos em economia e
maquiavélicos na ação de política externa, praticando aquilo que Gray
recomenda: uma suposta política realista.
Não diferenciar ação de discurso é um erro elementar em um investigador
sério. Gray tangencia
a má fé quando analisa a obra de Leo Strauss, a quem contesta duramente, como
o faz a Hayek, tentando provar que o neoliberalismo é uma utopia do livre
mercado. Ignora que o mercado é uma realidade dada, e não uma ideologia. A
esses autores ele associa todos os equívocos dos governantes, impingindo-lhes
o mesmo caráter messiânico óbvio nos coletivismos escancarados, como o
comunismo e o nazismo. E aqui temos o segundo erro catastrófico do autor: não
perceber a estrutura social do Ocidente como ela está construída, como uma
ordem coletivista, mercantilista, socialista, edificada sob a efígie das
idéias de Rousseau. No dizer famoso de Peter Drucker,
os EUA são hoje um socialismo-fundo-de-pensão. A
democracia de massas assassinou o sentido da hierarquia social e transformou
o Estado em babá de vastas corporações de desocupados, dependentes de mesada
estatal. Por não ver o real é que realismo de John Gray se revelou um
verdadeiro ouro de tolo. A suposta direita governou em bases socialistas e as
alargou. Mas sua
crítica a Strauss é profunda, embora errada. Ele mostra o essencial do autor
alemão: o resgate do direito natural clássico, a idéia de que a razão não é
senhora e nem fundamento da moral, que a revelação é condição principal para
se perceber o real. Quando insinua que Strauss não escreveu tudo que pensava
tem certa dose de razão. Strauss viu o que Ortega y Gasset
viu, a insustentabilidade da democracia
representativa nos termos em que está construída. Ela patrocina a rebelião
das massas, leva ao niilismo e ao socialismo. Mas isso Strauss não precisava
escrever, está implícito na sua obra. O auto denominado realista John
Gray se revela inteiro ao final, o progressista que é. Ele defende que o
grande perigo para a humanidade é o famigerado aquecimento global e que os
governos deveriam aderir ao Protocolo de Kyoto. Na prática, está advogando
pelo governo mundial, contrariando sua apaixonada defesa da autodeterminação
das tiranias não ocidentais. Ou será que sua idéia de governo mundial só terá
jurisdição sobre o Ocidente? Ora, a grande verdade que foi desvelada nos
últimos meses é que a humanidade não corre risco algum com as naturais
flutuações climáticas. Nem sequer corre riscos com uma ou outra incursão
guerreira de suas potências dominantes, sejam estas da Rússia, da China ou
dos EUA. Falando em linguagem crua, pouca diferença faz que aconteça uma
pequena guerra na Geórgia, no Tibete ou no Iraque. O grande perigo está no
uso do Estado como instrumento para a impossível eliminação do risco
existencial. A crise está aí para nos ensinar essa dura lição. |
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