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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O TRIUNFO DO ESTADO TOTAL 16/10/2008 Meu caro
leitor, a conseqüência mais inesperada e importante da catastrófica crise que
se instalou nas economias ditas ricas (merecem esse qualificativo porque viviam a crédito, dinheiro falso, não eram tão ricas
assim) é separar o trigo do joio ideológico. Está muito claro que a raiz da
crise é a exorbitância do Estado. O Estado gastou demais, incentivou o
surgimento de créditos “podres”, gerou déficits orçamentários inadministráveis, o mesmo se dando no balanço de
pagamentos. Todos os desequilíbrios agora aflorados são de responsabilidade
exclusiva do Estado. Mais
especificamente: todos os desequilíbrios originam-se de políticas estatais de
inspiração socialista. Então atribuir ao mercado – ou, pela variante, à
ausência de regulação estatal sobre o mercado – a origem da crise é simples
mentira, falsificação dos fatos. Mas é isso que eu tenho lido nos artigos
daqueles que professam a fé socialista: que a crise é uma crise do mercado,
do neoliberalismo. O que mais
me espanta não é que os defensores das doutrinas socialistas continuem na sua
crença infernal. Quem adora Satanás por escolha que o faça! E o fazem, eles
que controlam a maioria dos governos pelo mundo. A reação foi instantânea:
para se combater os males causados pelo Estado receitam maior agigantamento
da Besta. E tome estatizar bancos, emitir moeda, regular tudo. Mais do mesmo.
Vale o bordão: é apagar fogo com gasolina. A conseqüência é que vivemos no
momento o mais alto grau de estatização fora daquela verificada nas economias
centralmente planificadas de toda a História. O que me
espanta mesmo é ver liberais doutrinários, de boa fé,
receitando e aceitando esse crescimento da Besta estatal, como se ele fosse
solução para os males do mundo. Configura-se um trágico engano, não apenas
ideológico, mas científico. A ciência econômica tem a sua utilidade e a principal é demonstrar
a superioridade da economia de mercado sobre as economias socialistas. Outra,
não menos importante, é demonstrar que confiar no agigantamento do Estado é
trilhar caminho da servidão, que bem sabemos onde vai dar: no totalitarismo. A crise
vai cobrar seu preço em empresas falidas, em empregos destruídos, em desordem
política e social, em algum grau. Faça o que fizer a Besta estatal não
escaparemos à purgação. Agora, na ilusão de que o Estado teria o poder de
eliminar essa “destruição criadora”,
permitir que a Besta cresça e esmague os indivíduos é mais do que cegueira, é
suicídio. Vimos que o crescimento do Estado é secularmente irreversível, como
bem o demonstra a participação da carga tributária no PIB. A atitude
certa agora é aceitar os fatos. Quem quebrar, quebrou,
como fazemos quando acorre o falecimento de alguém querido: quem morreu,
morreu. É fato irreversível. O Estado não tem o poder da ressurreição
econômica, como não tem o poder de fazer nenhum defunto retornar à vida. Essa é a grande mentira socialista que
engana as multidões, mas que não deveria enganar aqueles que tiveram a luz da
ciência econômica. O Estado só tem o poder de gerar injustiça, ao custo de
roubar os que trabalham. Até o
momento a vitória ideológica dos partidários do socialismo – os sacerdotes da
Besta – foi total. A quantidade de pessoas que percebem a realidade como ela é, a de que o Estado é o grande perigo, na verdade o único
grande perigo para a humanidade é cada vez menor. O caminho da servidão está
pavimentado, em uma ida sem volta, em escala mundial. Não é só nos aspectos
econômicos que os tempos atuais lembram os anos Trinta: é também na
subserviência à Besta estatal e na crença irracional de que dele possa vir o
Bem. O altar do
holocausto está posto e falta apenas riscar o fósforo. Quem viver verá. EVOLUÇÃO DO PODER DE ESTADO 16/03/2008 Tenho
escrito uma série de artigos analisando o Estado nos tempos atuais,
utilizando o símbolo do Estado Total e da Hydra
mitológica. Esses textos podem ser encontrados na minha homepage
(www.nivaldocordeiro.net).
Penso que vale a pena agora dar uma olhada ampla na história o Estado,
tentando captar as grandes tendências, esmiuçar a sua evolução. Na origem
era o duelo entre Beemoth, as massas desembestadas,
o caos original, e o incipiente Leviatã, fundado por uma elite de homens
iluminados, a elite guerreira. O poder de Estado é o princípio civilizador
que precede a sociedade. A própria polis só surge depois de a instituição de
Estado surgir. No início se confunde com a força militar e depois, pouco a
pouco, foi constituído também um sistema de justiça. Por primeiro a segurança
diante do inimigo externo. Depois a lei válida para os súditos de um rei. O
sistema tributário nasce com o próprio Estado. A história
do Estado, até a Revolução Francesa, tem sido a história da domesticação do
poder. Foi Platão quem criou a idéia de dar caráter jurídico ao poder, grande
idéia que na prática foi uma auto-limitação de sua
ação. O filósofo está inscrito no rol dos maiores benfeitores da humanidade
por essa realização. Nada será feito a partir de então pelos governantes que
não aquilo previsto em lei e a inovação da ação estatal deverá ser precedida de uma inovação no corpo de leis. Terá sido essa
uma das grandes conquistas da civilização, a própria domesticação do poder. Um segundo
momento da maior importância nessa marcha civilizatória foi o surgimento da
Igreja. Claro, para que essa viesse a existir antes foi necessária a
revelação do Deus único em Israel. Os impérios cosmológicos da antiguidade
ocidental viam no poder político a própria encarnação da divindade. O imperador
era o deus vivo. O próprio Júlio César percebia-se como a encarnação de
Júpiter Capitolino. Obviamente que tal confusão
pagã permitia o arbítrio autoritário do poder temporal. Nada era maior do que
o poder político. O Deus
único de Israel foi uma revolução transcendental sem paralelo. A verdade
teológica afirmava que o Deus único não tinha território, não era um Deus
estatal, portanto. Sequer era um Deus nacional, era a verdade de toda a
humanidade. A revolução no poder foi ainda maior do que aquela levada a cabo
por Platão. A cisão do poder de Estado da realidade divina provocou a maior
de todas as revoluções, que culminou na harmonia medieval: o poder político
agora deveria ser balizado pela lei e pela Igreja. Carlos Magno foi coroado
pelo papa, em nome de Deus e a ele submisso. Foi um fantástico salto
civilizacional. Essa
revolução está belamente relatada nas Escrituras com a libertação do povo
judeu do Egito. Recordemos que o Faraó era a máxima autoridade, o deus na terra, e a ordem dependia da própria integridade
de sua pessoa. Eu vejo a travessia do Mar Vermelho como o grande momento de
ampliação da consciência jurídica e política da humanidade, o momento da desdivinização do poder, tão essencial para o que viria
depois. A Páscoa cristã que agora se aproxima é o coroamento dessa
libertação: a libertação do próprio pecado, da escravidão. O
cristianismo virá identificar no poder o oposto do bem, um grande pecado, um
grande perigo para a integridade da alma. A terceira tentação a que Cristo
foi submetido ilustra essa mudança formidável na percepção do poder de
Estado. Agora o poder temporal não apenas foi desdivinizado,
como foi identificado com o mal. O fruto mais radical do Deus único de
Israel. Pedro dirá: “Mais vale obedecer
a Deus do que aos homens” (Atos 5,29). Com a
Igreja estabelecida e a submissão do poder temporal ao poder espiritual a
Europa viveu séculos de harmonia, que foi quebrada quando a aceitação da
verdade transcendente foi abandonada pela classe letrada. Ainda assim, mesmo
com as loucuras da modernidade, foi possível aos filósofos modernos propor o
corpo de idéias liberais fundado na tese do Estado mínimo. Ortega y Gasset pôde registrar no livro A REBELIÃO DAS MASSAS: “A forma que na política representou a mais
alta vontade de convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a
resolução de contar com o próximo e é protótipo da “ação indireta”. O
liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público,
não obstante ser onipotente, limita-se a si mesmo e
procura, ainda à sua custa, deixar espaço no Estado que ele impera para que
possam viver os que nem pensam nem sentem como ele, quer dizer, como os mais
fortes, como a maioria. O liberalismo – convém hoje recordar isto – é a
suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é,
portanto, o mais nobre grito que soou no planeta. Proclama a decisão de
conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era inverossímil que
a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão
elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve surpreender que
tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. E um
exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra.
Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já
incompreensível semelhante ternura?” Um grande
auge que foi sucedido por seu declínio. Desde então o Estado muda de figura e
reassume a velha idolatria. As idéias coletivistas que triunfam no século XX
são a reencarnação do Faraó. O homem-massa anseia por Beemoth,
que exige a presença do grande Leviatã. Por isso Ortega podia concluir nos
anos trinta: “Nada acusa com maior clareza a
fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde
existe a oposição. Em quase todos, uma massa homogênea pesa sobre o Poder
público e esmaga, aniquila todo o grupo opositor. A massa – quem o diria ao
ver seu aspecto compacto e multitudinário? – não
deseja a convivência com o que não é ela. Odeia de morte o que não é ela”. O
totalitarismo, o Estado Total, é a forma primitiva assumida pelo poder
político que renasce com toda força nos tempos modernos. O drama é que tal
regressão política não ocorre apenas nos países nominalmente totalitários,
embora neles a coisa ficasse mais evidente. Mesmo nos EUA e na União Européia
vemos essa divinização do poder traduzida na crença das massas de que o
Estado pode ser provedor de seus meios de vida, de saúde, educação, de
emprego. Nos governantes é como se Júpiter Capitolino
ressurgisse investido dos poderes redentores. Acontece que o Estado
mitológico romano dependia de suas guerras de conquista para manter a plebe
saciada. Hoje o Estado precisa saquear sua própria gente, via impostos e
supressão da liberdade, para manter privilégios que jamais poderão ser
generalizados. Serão sempre privativos de uma minoria. O reino da injustiça
foi novamente implantado. Em política o descenso foi rápido e perigoso.
Novamente é necessário um enviado para libertar o povo do Faraó redivivo e guiar
na travessia no Mar Vermelho. Quando se
vê que uma boa metade do PIB em muitos países é tomado na
forma de impostos é que podemos constatar que a liberdade econômica
foi suprimida, que se vive na abjeta opressão burocrática, que os homens
deixaram de ser pessoas e passaram a ser um mero número na assistência
social. Uma ordem política dessa não pode se manter
muito tempo. Mais do que se perguntar qual
a ordem que sucederá essa loucura impõe-se a pergunta de como ela mudará e quem
fará a mudança. Eu não tenho respostas. 13/03/2006 O
relatório da fundação Pew Center on the States (http://www.pewcenteronthestates.org/) sobre as incríveis taxas
alcançadas pela população carcerária nos EUA deu-me o que pensar. Não creio
que a moralidade dos norte-americanos tenha piorado, mas a “eficiência” do
sistema para aprisionar certamente aumentou. Pela primeira vez a instituição
registrou, em janeiro último, que mais de 1% da população masculina adulta
encontra-se atrás das grades, sendo que o Estado da Flórida já contabiliza
quase 5%. Destaque para a população negra: mais de 10% dos homens adultos
estão presos, não estando disponível a informação específica para a Flórida. A
população encarcerada dobrou em cinco anos e, mantida a tendência, pode
dobrar nos próximos cinco. Se, para cada prisioneiro, houver um burocrata do
sistema jurídico-policial cuidando do assunto, inclusive os seus
terceirizados, teríamos algo como 4% da população adulta masculina envolvida
nessa economia, dobrando a cada lustro. Um disparate e um delírio só possível
em estágios avançados da implantação do Estado Total, sempre um Estado
policial. É
próprio do totalitarismo latente no Estado moderno
essa tendência de esmagar os indivíduos de qualquer forma e o sistema
jurídico-policial é o instrumento mais feroz desse processo. O prisioneiro é
o cliente ideal: é compelido depois da sentença, ficando inteiramente na
dependência do Estado-mamãe: é alimentado, cuidado,
curado e mimado. Gera milionários contratos para fornecedores e empregos bem
remunerados em toda a “cadeia produtiva” em torno do prisioneiro. E o eleitor
homem-massa, sem desconfiar dos
perigos, a cada problema na área de segurança clama por mais intervenção estatal.
Mais polícia, mais justiça, mais prisões. Os
EUA estão na vanguarda do esmagamento das pessoas indefesas diante do Estado.
Estou dizendo isso não porque não reconheça o papel que tem o Estado nessa
área. Mas o que vemos é o descolamento dos códigos penais do direito natural.
Há um clamor por tipificar cada vez mais áreas da ação humana enquanto
crimes. Deveria ser crime o que sempre se reconheceu como tal, sem haver
esparramo e exorbitância. Polícia e prisões não redimem e nem aperfeiçoam a humanidade,
muito ao contrário. O sistema serve apenas como forma de castigo e de
retirada dos elementos perigosos de circulação. Pudemos
ver a crônica dessa realidade exorbitante do Estado no filme O GANGSTER, de
Ridley Scott, um roteiro biográfico estrelado por Denzel Washington e Russel
Crowe. O notável do roteiro, além de ter um negro como chefe de gangue, é ter
um único policial incorruptível nas forças de repressão. Quando o personagem
cai e entrega os nomes quase toda a equipe policial da sua região foi presa.
Vícios de uso de drogas, corrupção e abuso de poder é o menos que se viu
naqueles policiais. O sistema de repressão não tem qualquer compromisso com
as virtudes pelas quais supostamente vela. Os
agentes não estão acima da lei, são a própria lei e
tiram proveito disso. Quantas
vezes não vimos esse filme aqui no Brasil? Todas as grandes atividades do
chamado crime organizado que chegam para a opinião pública têm suporte e
sociedade de policiais, juízes e outros elementos envolvidos na repressão, a
dar crédito ao que sai na imprensa. Cabe uma reflexão sobre tudo isso. Muita
coisa que não devia ser crime foi criminalizada. Vimos agora a ilustrativa queda do governador de Nova York causada por
escutas telefônicas legais (novamente!), feitas por agentes do Estado. Qual o
crime? Prostituição. Justo com ele, um promotor público que se notabilizou
por perseguir pessoas em causas moralistas. Ironia. Nem prostituição deveria
ser crime e nem seus clientes deveriam ser grampeados, mesmo sendo um fariseu
desses. O ex-governador não deveria cair por isso. A
reação automática de toda a gente é clamar por mais Estado sempre que algum
problema coletivo surge. E a classe política, juntamente com a burocracia
estatal, responde solícita a cada apelo. O resultado é essa coisa
teratológica que se criou, esse Estado monstruoso.
Não se pode mais ter uma vida sossegada, tem-se que estar de prontidão
permanente, pois qualquer descuido pode custar a
liberdade da pessoa. Defrontar-se com o Estado pode ser o encontro marcado com
o destino. O Leviatã é gigantesco e insaciável. O sensato é que a
coletividade passe a vê-lo dessa forma, como grande perigo ao indivíduo e não
como redentor de quem quer que seja. E assim mudar o seu comportamento,
passando a clamar por menos Estado. Restaurar a liberdade exige uma redução
do Estado: redução nos impostos, na regulação e também no número de pessoas
feitas prisioneiras. Estamos longe disso, infelizmente. ENTENDENDO O ESTADO TOTAL 01/03/2008 Podemos
listar pelo menos cinco visões alternativas sobre o Estado. A primeira e a
mais antiga, consagrada pela tradição, é a que vem da linha greco-cristã, que estabelece a
tríade razão, legalidade e ordem (logos/nomos/taxis)
para conduzir os negócios do Estado. E esta, por sua vez, substituiu a antiguíssima
visão mitológica do Estado, a luta sem tregua entre
o caos original (Beemoth) e o Leviatã. A visão greco-cristã deu ao Estado a
racionalidade que perdura, de uma forma ou de outra, até os nossos dias,
fundamentando seu caráter jurídico. Desde Platão aceitou-se que o poder não é
um fim em si mesmo, mas deve ser regulado pelo princípio de Justiça, a fim de
alcançar o bem-comum. Há, por assim dizer, um fundamento teológico (ou
metafísico) do poder, cabendo aos estadistas ter compreensão desse princípio
para bem realizar o seu mister. A visão greco-cristã é adequada e
aplicável a quaisquer das formas de governo conhecidas, o que demonstra a sua
verdade permanente e universal, sendo ela talvez a maior conquista da ciência
política de todos os tempos. Esse objetivo de alcançar a Justiça como forma
de se chegar ao bem-comum foi aquele de todos os governantes ocidentais até o
surgimento de Maquiavel, que deu forma ao Renascimento refazendo o cerne da
ciência política. Desde então o mundo mudou de forma célere. As razões de
Estado substituíram o nobre objetivo antes perseguido pelos governantes. A
conquista e a manutenção do poder passaram a ser o norte dos novos príncipes. Uma nova
forma foi divisada por Lincoln, no famoso Discurso de Gettysburg.
Recordemos: “Cumpre-nos, antes, a nós os vivos,
dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente
adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos
a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente –
que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual
deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes
solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação
com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo,
pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra”. Lincoln
aqui explicita um dos ângulos mais essenciais dessa mudança de perspectiva,
arrancando qualquer elemento metafísico da representação política. O povo, as
massas, é que passaram a ser o juiz e a motivação dos governantes, quebrando
completamente a hierarquia natural das coisas. O maior curva-se
miseravelmente ao menor, a cabeça passou a ser conduzida pelas patas. É a
Ação Direta com outro nome, a massa assumindo o papel de legislador. Em todos
os tempos o povo foi estúpido e reconhecia numa minoria nobre a condição de
governante e esta, por sua vez, buscava nos filósofos e nos teólogos o
aprendizado da arte de bem governar. Com Lincoln, ecoando os novos tempos da
Revolução Francesa e das novas teorias do direito natural, vemos o reboar das
massas em movimento, a subversão de toda a hierarquia natural que só poderia
levar aonde levou: ao tenebroso século XX. Já
Mussolini, o homem-massa alçado diretamente ao poder (como Hitler e Lula), em
um discurso datado de 1928 fez a sua famosa declaração: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. O
Estado é a expressão da massa, a unidade da turba desconectada de qualquer
valor. É o apogeu do populismo e a expulsão da razão enquanto luz para
gerenciar os negócios do Estado. Claro que uma distorção da realidade da alma
dessa envergadura só poderia levar ao desastre mais completo. Mussolini e
Hitler morreram violentamente porque esse é o destino do homem-massa que se
liberou de qualquer liderança sensata e quis ele mesmo ser o príncipe. Já Lenin, em “O
Estado e a Revolução”, definia: “A
ditadura do proletariado é a dominação não restringida pela lei e baseada na
força”. O poder sem qualquer limite e sem nenhuma regra moral. É
Maquiavel na plenitude. É a teratologia política aplicada, que deu no que
deu: nos cem milhões de mortos contabilizados na macabra epopéia dos partidos
comunistas em menos de um século. Compreender
a ciência política nos seus termos corretos é uma necessidade prática, não
uma necessidade meramente teórica. Não é diletantismo de eruditos. É vacina
contra o vírus do totalitarismo, que imuniza preventivamente contra os males
do genocídio. A ciência política virou um conhecimento essencial para ação
das pessoas sensatas nos tempos de hoje. A desordem do Estado é o reflexo da
desordem da alma individual. Eu deveria
ter escrito como epígrafe os versos terríveis de Walt Whitman, o profeta dos
novos tempos, que vão aqui à guisa de nota de
rodapé: “Rufai, rufai,
tambores! Soai, clarins, soai! Sem parlamentos, sem discutir com
ninguém, Sem preocupações com o tímido – nem
com aquele que chora ou reza, Sem preocupação com a súplica do
ancião ao jovem, Calai as vozes das crianças, calai
os rogos das mães, Agitai os mortos nos seus caixões
enquanto aguardam a carroça fúnebre, Batei com força, ó terríveis
tambores, soai alto, clarins”. ESTADO TOTAL E TOTALITARISMO 09/01/2008 Tenho me
referido em minhas últimas notas ao que chamei de Estado Total enquanto
característica predominante dos tempos contemporâneos. Alguns leitores têm me
perguntado a diferença eventualmente existente entre este e o totalitarismo
tradicional. Vou tentar aqui clarificar os conceitos. O
totalitarismo é na verdade a forma extremada assumida pelo Estado Total, mas
não se confunde com este. A ordem totalitária existe quando as instituições
democráticas foram substituídas pela vontade de um líder ou de um partido
político único, que vem a substituir e se sobrepor ao Estado. Os casos
clássicos em nossos tempos são o comunismo e nazismo, onde a separação entre
os poderes desaparece e a representação política extingue-se. Aqui na América
do Sul presentemente temos o caso da Venezuela, em que o tirano detém todos
os poderes e sua vontade é a lei. Mas podemos usar os casos da China, Coréia
do Norte e Irã como exemplos acabados de ordem totalitária. O Estado
Total é a degeneração da democracia representativa pela revolução gramsciana que tem ocorrido por décadas a fio em todo o
Ocidente, de tal sorte que sobraram apenas as formalidades da democracia,
como o voto direto e universal e a separação de poderes. Essa revolução tomou
por dentro os aparelhos de Estado, mas antes precisou tomar o centro formador
de idéias, basicamente as universidades e as instituições de ensino, bem como
a indústria editorial e os meios de comunicação. Ao fazer essa tomada da
formação da consciência da sociedade, reduzindo-a aos valores socialistas, a
revolução gramsciana fez degenerar a ordem
política. Como todas
as idéias foram uniformizadas pela ideologia socialista, na prática temos uma
realidade de um governo de partido único. Um magistrado, um parlamentar ou um
representante do Executivo acabam por dar unidade à sua ação enquanto membros
do Estado por deixarem-se conduzir pelas idéias de gente como Gramsci, Nobbio e Rawls, para ficar
apenas com esses mais conspícuos. Duas
conseqüências são as mais evidentes desse processo degenerativo. A primeira,
e mais óbvia, que não pode ser contestada, é o crescimento assombroso da
carga tributária em todos os países, de forma persistente e ininterrupta por
décadas a fio. Desde, na verdade, os anos trinta do século passado. Em doses
homeopáticas o produto social foi cada vez mais apropriado pelo ente Estatal
na forma de impostos, de sorte que pelos menos metade da destinação do mesmo
depende diretamente dos agentes políticos. Essa enorme massa de recursos
criou gerações de parasitas, enormes distorções alocativas
e fez do controle dos orçamentos do Estado a varinha
mágica criadora das grandes fortunas. Não é mais possível nenhum grande
negócio, mesmo no Ocidente, sem que agentes públicos intervenham e deliberem
sobre o mesmo. O papel da classe empresarial ficou reduzido a fazer bons
contatos com os agentes políticos. Isso
significa dizer que tanto o consumo, mas sobretudo
os investimentos agregados, passaram a depender da esfera política, ficando o
mercado de fora de suas principais funções alocativas.
Vimos a politização da economia como jamais houve em
toda história da humanidade. A segunda
conseqüência desse processo foi esculpir os sistemas jurídicos de cada país
de acordo com as insanidades propostas pelos socialistas. Grande parte das
coisas da esfera privada – casamento, divórcio, cuidado com os filhos,
planejamento familiar, relações religiosas, educação e saúde, para ficar com
algumas – tudo passou a depender de escopo legal, usurpando direitos
fundamentais dos indivíduos que estavam preservados desde tempos imemoriais e
consagrados pelas grandes religiões e pelos costumes. O Estado conseguiu até
mesmo monopolizar a caridade, como se isso fosse possível. Essa conseqüência
será mais nefasta do que o crescimento dos impostos. Feita em doses
homeopáticas ao longo dos anos, permitiu a desfiguração da forma se ser
ocidental, na verdade destruiu pela base o que se chama de valores
judaico-cristãos. Consertar as mazelas produzidas pela deformação da
estrutura legal não será tarefa simples e implica certamente no resgate dos valores
da tradição. Caracteriza-se
o Estado Total porque nenhum espaço da vida prática hoje fica fora da
regulação da esfera política. A máxima “Tudo
para o Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado", expressão
consagrada por Mussolini, resume a realidade que vivemos agora. A regulação
da vida privada é na verdade a eliminação da liberdade. O próprio mercado
passa a ser um epifenômeno dos gastos e das
permissões estatais. O Estado tornou-se ele mesmo o mercado. Não posso
deixar de lembrar o impacto que as novas tecnologias trouxeram para alavancar
os poderes do monstro estatal. As grandes bases de dados contendo todas as
informações, tanto das pessoas como das empresas, simplesmente eliminaram a
privacidade, seja da vida econômica, seja da vida em geral. Vivemos o
esplendor do Estado policial, que é apenas outro nome para o Estado Total.
Câmaras, antenas, microfones e a informática permitiram o controle não apenas
dos indivíduos isoladamente, mas da multidão. O espaço de vida privada ficou
reduzido a nada e a engenharia social tornou-se uma profissão dos burocratas
do Estado. Só há dois
antídotos para enfrentar esses tempos de escravidão. Na esfera econômica,
reviver os valores do liberalismo clássico em todas as suas conseqüências,
especialmente no que se refere ao Estado mínimo. É preciso lutar pela redução
dos impostos e dos gastos, de forma implacável. É preciso impor uma redução
no número de funcionários públicos e das chamadas competências do Estado.
Acabar com a farsa do welfare state, o
engodo que deu sustentação eleitoral a essas idéias nocivas. É necessário
desregulamentar no que for possível a ação econômica. É preciso reviver o
mercado. O outro
antídoto, agora na esfera jurídico-política, é o
regate dos valores tradicionais, devolvendo às famílias e aos indivíduos
aquilo que lhes foi usurpado. É preciso de novo consagrar, no sistema
jurídico, os valores da tradição, o respeito à propriedade privada, a
meritocracia, o cultivo do empreendedorismo e das virtudes reconhecidas desde
sempre. As legiões de parasitas que hoje vivem à custa do Estado terão que
trabalhar novamente. Não será tarefa das mais simples. Espero, meu caro leitor, ter atendido aos propósitos que me dei aqui
neste espaço. O Estado Total precisa ser destruído para que a liberdade possa
renascer, essa é a síntese de tudo. A ERA DO ESTADO TOTAL 09/11/2007 Tenho
escrito artigos sublinhando uma analogia para retratar o Estado utilizando a Hydra mitológica, a mãe ancestral terrível (ver link http://www.nivaldocordeiro.net/ahydratodos.html
). Faço isso porque a imagem é perfeita: a forma aquosa que penetra em todos
os recantos dá a sensação de afogamento inerente à inundação do líquido e
também pela imagem do mito ela mesma, a terrível serpente que destrói o homem
frágil. Tenho usado, em paralelo, outra imagem mitológica, a de Saturno, o
pai terrível e cego que devora inapelavelmente os filhos gerados. Penso que
ambas as imagens não são alternativas, mas complementares, revelando aspectos
particulares do Estado, formando uma totalidade. Há esse
elemento de androginia no Estado, o senhor desse mundo, e como o caro leitor
deve recordar o andrógino será talvez o símbolo mais completo para
representar o Demônio. Mel Gibson foi de grande felicidade ao retratá-lo
dessa forma no seu monumental A PAIXÃO,
o filme. Aquela imagem bem espelha o que está em minha mente quando analiso o
Estado contemporâneo. Recordo aqui também que a terceira tentação a que
Cristo foi submetido refere-se justamente ao poder mundano,
veementemente repudiada pelo Salvador. Em todas as ocasiões Cristo
sempre afirmou que seu reino não é desse mundo e de forma alguma sua ação
messiânica poderia ser confundida com a de um chefe guerreiro, um rei na
plenitude do comando do Estado. A entrada triunfal em Jerusalém a montar um
jumento é a explicitação plástica desse contrate,
uma ênfase da humildade do mais grandioso. Fosse ele um rei vitorioso nos
termos meramente humanos, um líder militar, ele entraria em uma luxuosa
carruagem puxada por quatro fogosos cavalos, como seria usual nos tempos dos
césares. Para mim a
ordem de Deus a Moisés para libertar seu povo do Egito deve ser compreendida
nesse contexto. O Faraó é a encarnação do Estado. Deus quis libertar seu povo
do poder demoníaco que envolve o Estado enquanto tal. Libertar o povo do
Faraó é uma ordem que se renova a cada geração. Um homem de Deus precisa
libertar-se do poder desse mundo, de uma forma ou de outra. Precisa escapar das garras do Faraó. É a
única maneira de exercer o bem mais precioso, a liberdade pessoal. O que
marca a história da modernidade é precisamente o percorrer do caminho
inverso: ao invés das gentes serem libertadas dos novos Faraós o que vemos é
a escravização alargada, contínua e total ao Estado moderno. Nunca o monstro
foi tão grande, tão letal e tão esmagador. Mesmo nas modernas democracias
ocidentais quase já não há mais espaço para a liberdade pessoal, toda a vida
cotidiana é intermediada e regulada pelo entre estatal. É como se não
existisse vida fora do Estado. A tributação alcançou proporções jamais vistas
na História. A arrogância dos novos Faraós é tamanha que mesmo a liberdade
religiosa, a principal, está sendo vedada sem qualquer cerimônia. No Brasil,
como de resto em todo o Ocidente, simples crucifixos, o mais banal e o mais
belo dos símbolos cristãos, estão sendo destruídos e
substituídos pelo signo da besta, o pentagrama, presente em profusão
na vida cotidiana. Não é apenas o signo do PT, o partido governante, está
também radiante no próprio escudo da República. Por isso que até tribunais,
em nome de uma suposta laicidade do Estado, estão
retirando os símbolos cristãos para pôr o signo do Negador em seu lugar. E
ainda querem fazer crer que esse gesto é feito em nome da liberdade
religiosa. É precisamente o contrário: aqui só há liberdade quando se cultua
Satanás ele mesmo. Não é liberdade portanto, é a
restauração da escravidão que vigia nos tempos do Egito. Agora como antes. Talvez
tenha chegado o tempo de se discutir esse assunto nos termos em que deve ser
discutido. É o destino da humanidade que corre perigo. O fenômeno é mundial.
Basta ver a recusa da União Européia em se reconhecer cristã. Restaurar as liberdades públicas implica em enfrentar o Faraó, em
desinflar o poder de Estado, em reduzir o número e a abrangência das leis, em
esvaziar as prisões lotadas de pessoas que lá não deveriam estar, pois
cometeram falsos crimes imputados por leis injustas, como os empresários
acusados de sonegação de impostos. É preciso dar um basta ao esbulho
tributário, ao abuso das multas arbitrárias que só alarga a ladroeira
estatal. Sobretudo é preciso restaurar a moralidade que está nos primeiros
capítulos da Bíblia: que cada um viva dos frutos do seu próprio trabalho, com
o suor de seu rosto, denegando o rendoso modo de vida que faz a riqueza
daqueles que usufruem dos impostos. Em suma, é
preciso refundar o Estado, cristianizá-lo
novamente, enquadrar o sistema jurídico dentro dos preceitos do Direito
Natural da tradição greco-judaico-cristã,
e não do falso direito natural de Locke e Kant, que torna a razão a sua
fonte. O monstro mitológico em que se transformou o Estado contemporâneo é
produto dessa deformada concepção do Direto. Como se
vê, está tudo errado na esfera do setor público. Só Deus para ajudar as
gentes a humanizar novamente o Estado. |
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