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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ESTADÃO
MENTE SOBRE LULA 04 de novembro de 2009 O adesismo do
jornal Estadão ao PT será talvez o gesto mais insidioso e vergonhoso da
imprensa nacional das últimas décadas. Um exemplo notável desse fato está no
editorial de hoje (O
"autoritarismo popular" de Lula), comentando o já célebre artigo de FHC de domingo
último, no qual, a pretexto de concordar com o ex-presidente, acaba por
retirar do artigo aquilo que tem de mais substantivo, personalizando a
questão política na figura pública do Lula. Além do mais, o editorial
aproveita – não de todo errado, mas de forma insidiosa – para jogar nas
costas dos líderes da oposição a responsabilidade de não atacar Lula. Um
verdadeiro golpe de judô da refinada desinformação estadônica. Começa o
texto por comparar Lula a Chávez, elogiando-o de fato, ao declarar que o
nosso presidente não é tão tosco como Chávez. Ora, campeonato difícil, esse.
Chávez pode ser mais afirmativo, mas de sofisticado Lula não tem nada. Na
verdade, ambos representam papéis diferentes na revolução em curso na América
Latina, no âmbito do Foro de São Paulo. Fazer comparação entre ambos sem dar
ao público essa informação preliminar é já um trabalho desinformativo. Lá está escrito: “Lula, que, em parte por convicção, em parte por um cálculo do
custo-benefício da aventura reeleitoral, recusou a
possibilidade, acredita que pode chegar aonde quer por outros meios, mais
sofisticados do que é capaz de conceber a mentalidade tosca do coronel de
Caracas”. Salta aos
olhos que a diferença está nas sociedades que ambos presidem, e não na
formação ou suposto caráter mais primitivo
de Chávez. O Brasil, sim, é muito mais complexo do que a Venezuela, que
tolera sem qualquer anestésico o ditador histriônico. Repetir o modelo aqui
seria suicídio. Por muito menos foi feito o Movimento Cívico-militar de FHC é cúmplice e patrono da situação política que está criada,
mas não é tolo a ponto de achar que as coisas estão cristalizadas em Lula. O
assalto está na tomada do Estado pelo PT, onde se constata a tirânica unidade
entre os dois, o partido e o Estado. O controle quase total das ações
políticas e econômicas por parte do grupo dominante. Não há uma palavra do
editorial mostrando essa ameaçadora realidade. É como se o editorial tivesse
sido escrito sob encomenda para desconversar sobre esse ponto, que é o ponto
mais substantivo do artigo de FHC. Aqui o jornal está sendo mais que
mentiroso, está distorcendo o conteúdo do texto que se propôs analisar.
Personalizar as coisas em Lula é apenas mentira. Escreveu o editorialista: “No
interior do governo, Lula aninha uma burocracia sindical que se apropria
sistematicamente do mando dos gigantescos fundos de pensão das estatais, os
quais, por sua vez, têm assento nos conselhos das mais poderosas empresas
brasileiras. Forma-se assim uma intrincada trama de interesses que se
respaldam reciprocamente, não raro em parceria com empresários que conhecem o
caminho das pedras - "nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas",
diz Fernando Henrique -, fundindo-se ‘nos altos-fornos do Tesouro’. Isso dá
ao presidente um poder formidável sobre o Estado nacional que extrapola de
longe as suas atribuições constitucionais. É uma espécie de volta, em trajes
civis, ao regime dos generais”. Seria mais
apropriado dizer que Lula serve de cabo eleitoral para que a burocracia
sindical, e também a cúpula revolucionária, tenha tomado conta do Estado.
Lula não é autor do processo, é um ator que recita um texto previamente
escrito, dentro da revolução grasmciana em curso,
cujo fito de tomar todo o aparelho de Estado já foi alcançado. Não dizer isso
é enganar a opinião pública. O certo teria sido escrever que se vive uma
forma fascista de organização do poder, prenhe de ameaça totalitária. Nem uma
palavra sobre o assunto. O artigo de
FHC dá o grito contra o continuísmo, que o jornal não ecoou. É no continuísmo
que a ameaça totalitária se consuma. Aqui o analista teria que entrar nas
entrelinhas do discurso fernandista. O continuísmo
será possível agora como resultado de muitas forças, mas
sobretudo da ação do bloco do PT sobre a agremiação do ex-presidente,
o PSDB. As figuras de Aécio Neves e José Serra estão jogando um jogo
particular que ignora as ameaças institucionais sobre a Nação. Um misto de
esperteza, sedução e medo. E adesismo, vez que não parecem ter qualquer
discordância ideológica com o PT. O fato é que o continuísmo depende muito
dessa ação, sobre a qual FHC parece ter perdido qualquer influência. FHC usou a
expressão “subperonismo lulista” para designar o fascismo
implantado no Brasil. O peronismo não é Perón,
como o lulismo não é Lula. Lulismo
é petismo, na sua facção triunfante. É como se, com um eventual passamento de
Lula, a coisa toda acabasse. Ora, temos um partido revolucionário de
vanguarda no poder, organizado em termos leninistas, articulado em escala
internacional, exercendo na plenitude o poder e desejando nele se perpetuar
de forma totalitária. Parece que vai conseguir mesmo, com a benção
assalariada do Estadão. |
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