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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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Entrevista
com Nivaldo Cordeiro, um dos palestrantes do FORTE 2008, da FEBRATEL, em São
Paulo
A sigla BRICS – Brasil,
Rússia, Índia, China – traduz o coletivo de países emergentes que disputam
lugar no privilegiado clube do Primeiro Mundo. A liderança empresarial, sua
formação e a dinâmica política são importantes fatores nessa disputa. A
entrevista com o economista José Nivaldo Cordeiro foi feita por e-mail.
As perguntas foram editadas para fins de publicação, mas as respostas estão
reproduzidas em sua íntegra, tal como nos foram enviadas pelo entrevistado. FEBRATEL – Em que consiste a liderança
empresarial, tema do FORTE 2008? É a liderança dos empresários perante a
sociedade ou é a liderança de pessoas nas empresas? Nivaldo Cordeiro – A liderança, enquanto tal, consiste nas duas coisas. No meio empresarial, há que
emergir vozes que representem seus pares junto à sociedade civil e ao
governo. Da mesma forma, há que liderar as ações dentro da empresa. Uma das
acepções do verbo “liderar” é “conduzir”. Um dos sentidos dado pelos
dicionários ao termo é “ir junto com ou dentro de (algo), de um lugar para
outro, dando-lhe direção e/ou comando”. Portanto, há o movimento que deve ser
orientado em direção a uma meta. FBT – Fale-nos da figura do
líder. NC – O líder é como o proverbial
pastor que sabe aonde vai e o caminho certo, se porta da maneira correta, com
a linguagem correta, faz as coisas no tempo certo. É a figura do spoudaios, o homem que amadurece com sabedoria e é
respeitado pelos pares e pelos mais jovens. Na empresa, essa figura é
representada pelo gerente, seja ele o administrador ou o técnico, o que sabe
fazer e sabe organizar o trabalho. FBT – A liderança empresarial é
um fenômeno comum para o sucesso de todos o BRICS
(Brasil, Rússia, China, Índia)? NC – Sim. É comum em toda parte,
embora cada cultura imprima a sua própria característica à liderança.
Confesso que me fascina saber como se dá a liderança em uma sociedade como a
chinesa, tão distante de nós em termos culturais e políticos. Certamente que
o viés autoritário seja uma constante, em face do sistema político. Mas, a
recente abertura ao ocidente impactou nas técnicas administrativas, de sorte
de a busca da cooperação e do exemplo, algo tão importante, para nós, devem
ter sido incorporados nos últimos anos. Mas, liderança não é apenas uma
técnica, vai além. Liderança
na China, Rússia e Índia. FBT – O que acontece na China? NC – A China, enquanto sociedade
fechada e comunista, tende a produzir um tipo de
líder que eu chamaria de “negativo”, não obstante ele conseguir obter os
melhores resultados técnicos e empresariais, tão bons quanto os nossos. O
fato é que liderar transcende a empresa, impacta a sociedade e a própria
estrutura de poder. Uma sociedade que não tem a liberdade como valor tende a
produzir líderes que não a valorizam e, por isso, enquanto homens, falham. Um spoudaios é,
antes de tudo, um defensor da liberdade. FBT – Vamos falar da Rússia? NC – Na Rússia, vemos emergir
uma sociedade conturbada com o fim do regime comunista, cujo regime
democrático ainda não está consolidado. Então temos fenômenos interessantes,
como uma grande agressividade empresarial casada com os males da sociedade
ocidental do século XIX. As estatísticas mostram que em 2007 houve queda na
população russa, pela mortalidade dos velhos e de pessoas jovens. Uma coisa
selvagem. A redução de população em uma unidade política será sempre uma
tragédia. Há, aqui, uma clara indicação de que houve uma escassez de bons
condutores, de bons líderes; e não apenas de líderes políticos. FBT – Só lhe falta comentar sobre
a Índia... NC – A Índia, por sua vez,
conseguiu adaptar sua cultura milenar ao que de melhor tem o ocidente. Seus
jovens invadiram as universidades ocidentais e levaram para o seu país
inovações importantes, tanto que criaram centros de excelência notáveis. FBT – Quais as vantagens
competitivas do Brasil? NC – O Brasil tem grande vantagem
por estar próximo dos mercados consumidores do ocidente, ter fartura de
matéria prima, fuso horário compatível com os EUA. FBT – As vantagens da China? NC – A China, por sua vez, tem mão
de obra barata, o que tem o lado ruim, o dos indicadores sociais. FBT – E as vantagens da Índia e
Rússia? NC – A Índia conseguiu ter centros
de excelências tecnológicas; a Rússia, fartura de petróleo. Liderança
no mundo empresarial. FBT – Há alguma diferença entre
"empresa pequena, média ou grande" para a "liderança
empresarial do Brasil no contexto dos BRICS?” NC – Veja. A função de liderar tem
um fundo comum, que é a inteireza de alma, o compromisso de vida com seus
liderados, com a família, com a pátria. É uma responsabilidade muito grande
ser líder, em qualquer contexto, seja numa pequena, numa média
ou grande empresas. O desempenho mais das vezes é medido no processo
competitivo, que leva em conta inovações tecnológicas, técnicas de
comercialização, organização no processo produtivo e motivação das pessoas
envolvidas no processo. Então, há um fundo comum. Cada líder tem que saber
tirar proveito daquilo que tem à mão. FBT – Como deve agir o Brasil? NC – O estrategista que “toca”
negócios no Brasil precisa saber os pontos fortes e fracos dos competidores,
e não apenas daqueles que vendem no mercado mundial. O mercado mundial também
é aqui, na medida em que os produtos importados chegam às prateleiras de
nossos supermercados. Compreender o processo como um todo pode ser a chave do
sucesso empresarial. FBT – Há diferença entre
"empresa multinacional" e "empresa nacional" para a
"liderança empresarial do Brasil, no contexto dos BRICS?” NC – Essencialmente, não. Certos
setores multinacionais têm grandes desvantagens quando vêm para o Brasil.
Veja o caso de bancos de varejo. Não conseguiram entrar. É difícil, muito
regulamentado. Veja o setor de TI. As multinacionais fabricantes tiveram que
desenvolver uma rede de parceiros para entrar no nosso mercado, por muitas
razões, o que abriu um leque de oportunidades para pequenas e médias empresas
do setor. FBT – O que distingue uma
multinacional? NC – As multinacionais têm várias
vantagens, como um conhecimento amplo do mercado mundial, facilidades de
financiamentos mais baratos, produção própria de tecnologia e um padrão
competitivo de classe mundial. Elas são muito cuidadosas com o
desenvolvimento de seus quadros gerenciais, seus líderes. E têm também a
vantagem de importar talentos, quando esses faltam, com algum perfil
específico. O
sistema sindical. FBT – Qual
sua visão sobre o sistema sindical praticado no Brasil, visto
em perspectiva histórica? NC – Eu não gosto desse sistema, de
concepção fascista. Sou favorável ao livre mercado, ao livre sindicalismo;
sou pelo fim do imposto sindical. Penso que associações desse tipo devem ser
voluntárias e custeadas pelos interessados. FBT – Qual a importância dos
sindicatos patronais? NC – Os sindicatos patronais são
muito importantes para representar os setores e cuidar para que os interesses
coletivos não sejam ameaçados, seja por medidas legislativas, seja por
medidas arbitrárias do Poder Executivo. FBT – E dos sindicatos laborais? NC – Já os
sindicatos laborais são de grande importância para manter o equilíbrio
na relação capital/trabalho. A
presença do Estado. FBT – No contexto dos BRICS
(Brasil, Rússia, índia, China), como o Sr. percebe a
presença e a atuação do Estado? NC – Aqui está a questão central.
Esses países têm em comum o fato de viverem ou vive de experiência com algum
grau de socialização. Como a literatura prova à exaustão, a ingerência do
Estado é perniciosa para a produtividade e para o desenvolvimento econômico,
além de prejudicar a justa distribuição da renda. FBT – O Sr.,
então, vê a redução do Estado como algo positivo? NC – Sim; aquele que conseguir
reduzir o Estado e a regulamentação e patrocinar as livres trocas
internacionais irá proporcionar o maior institucional para que as empresas
alcancem seu apogeu. FBT – Poderia citar um exemplo? NC – É esse o segredo da China, que,
não obstante manter o regime político fechado, abriu
largas zonas para o livre comércio. Está crescendo a taxas espetaculares,
semelhante às alcançadas pelo Brasil nos tempos do “milagre”. Livre mercado é
o combustível desse processo. FBT – E o caso do Brasil? NC – No Brasil estamos na
contramão, com o crescimento da regulamentação, da carga tributária, da
ingerência estatal. Nossos líderes empresariais precisam fazer-se também
líderes políticos para fazer mudar essa realidade. Estado Mínimo é o
essencial para tornar nossas empresas competitivas. Os
BRICS no cenário mundial. FBT – Os BRICS competem ou se
aliam no cenário internacional? NC – Depende do tema. Nos mercados,
eles competem ferozmente. O crescimento da China, por exemplo, em alguns
mercados, está sendo feito à custa da nossa indústria. Por outro lado, abriu
enormes mercados para os produtos que não chocam com nossa matriz industrial. FBT – E quando se trata de
política? NC – Na arena política, há um certo alinhamento dos governos contra os EUA, que eu
considero um erro. O Brasil não tem porque hostilizar aquele que é nosso
maior mercado e tem uma democracia que é exemplo para o mundo. Entendo a
postura da China e da Rússia que têm pretensões geopolíticas diferente das
nossas. Entrar nesse coro, todavia, só nos trará perdas. FBT – O Sr.
acha que o Brasil, que é o "B" dos BRICS, tem vocação natural para
basear seu sucesso em commodities e produtos extrativos ou deve
investir em inovação? NC – Veja que o Brasil tem uma
forte vocação agrícola. Isto é um fato que até as pedras sabem. O Brasil já é
o maior produtor (senão o maior exportador) em muitos mercados, como carne,
soja, álcool, frutas etc. E o País vai crescer porque tem território, água e
uma liderança empresarial nesse setor de fazer inveja a concorrentes. FBT – Então, a vocação do Brasil
seria explorar seus recursos naturais? NC – A situação do Brasil não se
esgota aí. Temos uma grande matriz industrial. No setor de TI, a vocação para
crescer é total, com fuso horário favorável e estabilidade política, que
falta aos concorrentes (a Índia tem ogiva atômica do Paquistão apontada para
ela). Então, não temos que fazer nenhuma escolha; temos é que explorar as
potencialidades de ambas as áreas. Essa é uma falsa questão. A
presença do Estado. FBT – O Brasil já foi apelidado
de um "BRIC lento". O Sr. concorda ou
discorda? NC – O Brasil ficou lento nas
décadas recentes. Visto em um contexto mais amplo, a afirmação não se
sustenta. O que tem segurado nosso desenvolvimento são dois fatores: o
descontrole de preços, que perdurou muito, e o agigantamento do Estado, que
ainda continua. Na verdade, o primeiro fator está contido no segundo. FBT – O Estado, então, seria
grande demais no Brasil? NC – Sim. Vejo que precisamos
mobilizar as forças da nação para reduzir o gigante estatal. E quando falo
isso, estou pensando pelo lado da receita e da despesa. É preciso reduzir
impostos, mas igualmente as despesas. FBT – Como seria, no seu
entender, a redução de impostos e das despesas do Estado? NC – Não tenho nenhuma fórmula,
apenas sei que se precisa ser feito e aqui a demanda por
líderes positivos e genuinamente comprometidos com os interesses gerais da
nação precisam emergir. Não será um processo nem curto e nem fácil.
Teremos que enfrentar crenças socialistas fortemente arraigadas. Mas, essas
crenças são malignas, erradas, são os grilhões que nos prendem e impedem o desenvolvimento voltar a ocorrer de forma
acelerada. FBT – O Sr.
acha que seria necessário reformular tudo? NC – Acho que precisamos redesenhar
o Estado, repensar a federação, a representação. É uma demanda para redundar a nação. FBT – Mas, isso seria possível? NC – Sei da importância do que
estou dizendo, da gravidade das minhas palavras. Mas, não seria honesto com
os leitores não dizer o que penso e vislumbro. Temos que redundar
politicamente o Brasil para que os brasileiros possam enriquecer e prosperar
e se tornar um povo mais feliz. Para tanto, precisamos reduzir o monstro
estatal. Não temos alternativa. Pensador
brasileiro FBT – A programação do Forte 2008
se refere a Ortega y Gasset. Qual o pensador
brasileiro que dele se aproxima? NC – Olavo de Carvalho. Ele é
profundo e comprometido com a nacionalidade. FBT – Algum outro tema que queira
comentar? NC – Sim. Seria relativo aos
rumos políticos atuais do Brasil que vejo com muita apreensão. Estamos na
rota revolucionária. O PT está, desde que assumiu o
poder, ocupando todo a aparelho de Estado e conduzindo o Brasil no rumo da
socialização, exatamente na contramão da nossa necessidade histórica, de ir
em busca da liberdade. FBT – O momento atual
seria, então, motivo de preocupação? NC – Eu vejo com muita preocupação
a hipótese ou do terceiro mandato ou de ser eleger alguém da linha do PT.
Podemos estar em véspera da destruição da alternância de poder no Brasil,
algo que na prática já vige, na medida em que não existem forças políticas ditas
de “direta”. Não há organizações partidárias verdadeiramente comprometidas
com o livre mercado, o que é uma tragédia colossal. FBT – O Sr.
poderia explicar? NC – Agora dar o monopólio do poder
político às forças em torno do PT é muito grave, pois equivale a manter o
curso do processo revolucionário. Isso se casa com o que está acontecendo com
a maioria dos países vizinhos, todos atuando no âmbito do Foro de São Paulo,
com a notável exceção da Colômbia, que acabou de infringir vigorosas derrotas
às FARC, o braço colombiano do FSP. FBT – Algum recado? NC – Nossos líderes empresariais
precisam largar a passividade e ir para a arena política, tendo consciência
dos perigos que estamos vivendo. Esses perigos podem significar uma regressão
civilizacional de grande monta, como vimos na
Venezuela e no Zimbábue, este em maior proporção. Não estamos longe disso. E
não existe nenhum determinismo histórico que nos diga que as forças do livre
mercado devem ser derrotadas. Não. FBT – Como assim? NC – Se lutarmos, se líderes
assumirem as suas responsabilidades, podemos,
aqueles que combatem pela liberdade, retomar o caminho perdido e colocar o
Brasil na trilha do desenvolvimento. Mas, isso não acontecerá por inércia,
terá que vir pela mãos de homens inteligentes,
sóbrios e comprometidos com a nação. Certamente que os setores das Teles com
e de TI terão que dar sua contribuição de novos líderes, que confrontem os
adversários socialistas, para mudar o curso da nossa História. FBT – Suas palavras finais. NC – Acredito firmemente que esse é
o lado “certo”. Como dizia Ortega, não se pode permanecer no “erro”. O
socialismo é um erro que precisa ser corrigido. As lideranças empresariais
não poderão escapar ao enfrentamento dos inimigos da civilização. Inscrições gratuitas
para o FORTE 2008: Veja aqui a programação
completa do FORTE 2008 |
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