NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

 

ENSAIOS DE THOMAS MANN

07/12/2011

 

 

Oportuna a publicação da resenha de Daniel Piza sobre a recém publicada tradução de alguns ensaios de Thomas Mann (Estética e ética em Thomas Mann) pela Zahar. Thomas Mann será talvez o autor mais substantivo para interpretar os acontecimentos maiúsculos da primeira metade do século XX, ele que carregava a tradição do esteticismo alemão e que teve tempo para superá-lo. O livro Doutor Fausto será essa superação.

 

O encômio de Daniel Piza, todavia, não toca nessa questão fundamental, a luta de Thomas Mann contra o esteticismo. É preciso ver o conjunto da obra para perceber a agonia manniana, sobretuto no seu embate contra seus mestres declarados, Goethe e Nietzsche. Isso dificulta qualquer análise parcial de qualquer de suas obras, por mais méritos que individualmente venham a ter. Todavia, o relevo que Daniel Piza deu à ética em Thomas Mann é o mesmo que eu dou. Foi esse instinto ético altamente desenvolvido que o salvou da tentação totalitária e o fez o maior inimigo civil do nazismo. Thomas Mann foi o primeiro exilado de Hitler.

 

Thomas Mann não se furtou a denunciar os "aleijões morais" que tomaram o poder na Alemanha, e não apenas nos tempos do nazismo. A Primeira Guerra Mundial não foi um acaso. Aconteceu também pelo mesmo clima faustico que persistiu no auge do totalitarismo que logo viria. Por linhas tortas Thomas Mann se tornou um severo crítico da modernidade.

 

Se corretamente Daniel Piza aponta que o Doutor Fausto contém um verdadeiro tratado sobre música, deixou de sublinhar o mais importante, que é a contribuição manniana à ciência política. O romance deu a explicação definitiva para o fenômeno do totalitarismo, desde a sua raiz teológica. Eu precisaria do espaço de um ensaio para demonstrar isso.

 

Assim, os ensaios de datas diferentes escritos por Thomas Mann expressam opiniões diversas. São opiniões datadas, portanto. O que ele escreveu sobre Nietzsche em 1947 (não publicado no volume) nada tem a ver com as opiniões anteriores emitidas sobre o filósofo. Da mesma forma, o Doutor Fausto é, ele mesmo, a mais devastadora crítica ao esteticismo e ao próprio Goethe. Thomas Mann jamais transformou essa crítica em ensaio, mas o romance fala por si.

 

Daniel Piza notou que a palavra "burguês" em Thomas Mann difere grandemente do sentido empregado pelos marxistas, mas ele mesmo não esgotou o seu significado. Em toda a sua obra, Thomas Mann a emprega como antinomia a "aristocrata", para diferenciar o tempo moderno do tempo medievo. O burguês em Thomas Mann é a nova classe dominante, nada tendo portanto a ver com a classe média, como sugere o resenhista. Essa distinção é essencial na obra de Thomas Mann e é, ela mesma, uma das ferramentas para compreender o seu legado.