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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ENFADO E TRISTEZA 13/03/2003 Dedicado a Aníbal Alves Cordeiro (1928/2003), meu pai. É repetitivo e aborrecido
acompanhar o noticiário econômico e político. A mesmice tomou conta de tudo.
A mediocridade do governo parece ter contaminado os acontecimentos. Nem dá
vontade de tomar um tema para explorá-lo. Tudo como dantes no quartel de
Abrantes. Menos mal que tenhamos pouca
ou nenhuma novidade, com a sempiterna repetição do mesmo. Parece que a tola
visão de Nietzsche sobre a circularidade do tempo
se manifesta nesse breve interregno do governinho Lula, tão tolo quanto. Quando elas vierem, as novidades, serão
devastadoras, disso não tenhamos dúvida, meu caro leitor. A única exceção nos
últimos dias tem sido o ativismo, já previsto, dos combatentes do MST, que
intensificaram as suas ações. A colombização do
Brasil certamente começará por aí. Valha-nos Deus. Mas deixemos de lado essas
coisas de somenos importância. Não paga a pena. Ontem perdi meu pai (eufemismo
para dizer que ele morreu). Foi uma figura única e não por ser o meu pai. Homem de espírito guerreiro, enraizado nas lides do campo,
na postura e na linguagem, foi, das pessoas que conheci, quem melhor encarnou
os personagens de João Guimarães Rosa. Era um grande contador de causos,
sempre com muito humor. Foi um misto de vaqueiro, jagunço e tropeiro, que por
circunstâncias teve que se urbanizar. Homem inculto, mas de sabedoria
espontânea. Para ele, o sertão era em todo o lugar. Foi um espírito livre,
jamais se subordinando a ninguém. Jamais suportou o trabalho assalariado.
Jamais conseguiu se fixar muito tempo no mesmo lugar. Era um rebelde anarquista por
natureza, um conquistador romântico. Daí talvez tenha derivado a sua
inabilidade com as coisas materiais. Sempre encantou as mulheres, sempre
houve uma alma feminina abnegada a confortar-lhe as muitas feridas do corpo e
da alma (a começar por minha mãe,
falecida há alguns anos, a sua eterna Maroly) e a
perdoar-lhe as faltas e as conseqüências de sua extrema liberdade. Detestava
governos, embora deles tivesse pouca compreensão. Na verdade, detestava a
autoridade. Sempre reinou sobre si mesmo. Era o oposto desse gado urbano
submisso em que se transformou boa parte da população brasileira. Por isso
era um homem respeitado e temido, um valente. Foi por isso também que sempre
detestou o comunismo, pois dele suspeitava. Para ele, aqueles que não
respeitam a propriedade privada e a liberdade individual só poderiam ser
malfazejos, para usar um termo de sua preferência. Era um ser orgulhoso,
quase arrogante, e jamais poderia ser seduzido pelas idéias coletivistas. Foi pobre a vida inteira, mas
penso que foi feliz, a despeito das agruras das privações a que teve de se
submeter. Afinal, a sua geração foi a geração por
excelência da diáspora nordestina para o Sul. O que mais lhe doeu não foi
partir da terra natal, mas sim, ter sua raiz cortada com o meio rural. Jamais
se sentiu bem nas cidades, pequenas e grandes, por onde viveu. Foi um errante
em busca do ponto de partida. “Quando olhei a terra ardendo Qual fogueira de São João Eu perguntei a Deus do Céu Por que tamanha judiação?” Como falar de meu pai sem
falar do Gonzagão? Quem melhor que meu pai encarnou
as canções da diáspora? Quem melhor que Gonzação
cantou o homem que foi meu pai? “Hoje, longe muitas léguas, Numa triste solidão, Espero a chuva cair de novo Para eu voltar pro meu sertão”. A chuva não veio e no seu
lugar veio a morte. Seu Céu, para ele, era lá, no Cariri Velho, na Paraíba.
Mas quem disse que a morte não pode ser como a chuva? Ele agora deve estar cantando no meio de seus aboios nostálgicos, nos
braços da minha mãe, ainda outra vez os versos eternos: “Quando o verde dos teus olhos Se espalhar nas plantações Eu te asseguro, não chore não, viu, Que eu voltarei, viu, meu coração”. E com ele canto eu, em sua
homenagem. Saudade é uma palavra que só pode ser plenamente compreendida
quando chega a morte daqueles a quem amamos. |
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