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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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EM BUSCA DA BARATARIA 02 de abril de
2010 Quando nos
debruçamos sobre o Dom Quixote, de Cervantes, é tudo
surpresa e encanto. Nem me refiro aos óbvios méritos literários que têm
encantado gerações, desde a publicação original. Refiro-me à fina análise
política que o espanhol, por força de sua experiência de vida e pela agudeza
de sua percepção, pode registrar no romance. Cada vez mais
me convenço de que o fato mais marcante da vida de Cervantes foi testemunhar
a “limpeza” da Península Ibérica, de onde foram expulsos os muçulmanos e os
judeus. Ele próprio foi suspeito de ser marrano e teve que arrumar atestados
de limpeza de sangue, essa tolice que redundou no nazismo, sem o que sua vida
teria sido pior do que de fato foi. Cativo em Argel, Cervantes testemunhou no
meio bárbaro a existência de uma sociedade plural, agora impossível na Europa
alucinada pelo poder criado pelos novos Estados nacionais. Surpreende que
a suposta pureza dos europeus fosse buscada na antiguidade da fé cristã dos
ascendentes, como se o cristianismo pudesse se traduzir nessa tosca idéia de
raça e pudesse ser um legado, e não uma escolha livre. Ser cristão é uma mera
adesão de fé, para o que se exige unicamente o batismo, seguido dos demais
sacramentos. Mas a Europa renascentista ansiava por pureza e perfeição,
perigosamente associada à idéia de raça. Mergulho fundo na Segunda Realidade
e a obra de Cervantes é a crônica desses tempos, bem como a profecia do que
viria no tempo vindouro. Sancho
Pança e sua idéia fixa de governar uma ínsula espelha
o novo tempo, em que a multidão dos desqualificados do espírito pretende-se
governante, dirigente. Sancho está encarnado em Lula e sua Barataria chamada
Brasil. Está em Obama. Está em toda parte. O tempo moderno é o tempo em que a
multidão de sanchos clama em praça pública por sua
ínsula. São os novos estadistas. Os novos príncipes. Os piores serão alçados
ao poder. Sancho e seu
jumento, o mesmo jumento endeusado por Giodano Bruno,
pelos franciscanos. O espírito do Renascimento. A inversão da hierarquia
natural que está no âmago de toda a Bíblia, a partir do princípio fundamental
de amar a Deus sobre todas as coisas.
Essa história de cultivar os “idiotas”,
inventada pelo franciscanismo, não tem respaldo
bíblico. Tem sido o fundamento da subversão da ordem e a eleição do
igualitarismo como o máximo objetivo político é seu instrumento de ação. O mal moderno. Cervantes viu
tudo isso e percebeu os desdobramentos. Por isso o livro Dom Quixote é
imortal e encanta a cada geração. Ali está a realidade e a descrição da
loucura da Segunda Realidade. Como Unamano certa
vez escreveu, a loucura agora é a solidão; sanidade
é comungar dos preconceitos da massa dos “idiotas’.
O isolamento de quem permanece na realidade aparta o ser da multidão
enlouquecida. A falsa sanidade é clamar por uma Barataria, a politização de
tudo. O desprezo cristão pelos poderes desse mundo, sua suspeita de que nele
pode residir o mal, foram deixados de lado. O poder político passou a ser o
instrumento para se alcançar a perfeição. O partido
tomará o lugar da Igreja como instrumento de salvação das almas. O primeiro
partido nasceu com a Reforma, essa busca desesperada dos“puros”pela perfeição. A alucinação ganhou assim
roupagem bíblica. O poder eclesiástico foi fragmentado na multidão de sanchos. Santa loucura! Mas o partido já estava em
embrião na alma de Felipe II. Ironicamente a subversão começou na realeza, no
próprio rei. “Loco, y no tonto”, escreveu Unamuno, referindo-se a Dom Quixote, por quem anseia para
fugir da multidão de sanchos. Sim, a loucura é a
solidão daqueles que se recusam a embarcar para o reino da Segunda Realidade.
Com os “idiotas” marcham seus
escribas. Nietzsche beijando o jegue na piazza
romana, a imagem plástica mais perfeita da subserviência dos homens de letra
aos “idiotas”. No caso, “loco y tonto”, na unidade da idiotice.
Rocio agora pode estar encarnado em um Airbus, o
transporte preferido pelos idiotas governantes em nossas plagas. |
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