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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ECONOMIA POLÍTICA DA CRISE 10 de janeiro 2009 Encontrei
em um sebo um antigo livro de Peter Drucker, A REVOLUÇÃO INVISIVEL, Como o Socialismo
Fundo de Pensão Invadiu os Estados Unidos (São Paulo, Editora Pioneira,
1977). O livro foi visionário. Uma leitura atenta do mesmo vai mostrar que Drucker conseguiu fazer a economia política dos fundos de
pensão, destrinchando as contradições internas do seu modo de funcionamento.
Meu ponto é que não compreenderemos a sociedade norte-americana de hoje sem
voltar ao que Drucker escreveu. Toda a crise que estamos vivendo de certo
modo está lá antevista. Parece
maluquice, mas dizer que a sociedade norte-americana caminhou decisivamente
para uma forma socialista é a expressão da pura verdade. Meus leitores
deverão lembrar-se da resenha que fiz do livro do Jonah
Goldberg, LIBERAL FASCISM, no qual o autor mostra a evolução
das forças políticas nos EUA ao longo do século XX. Goldberg demonstra que a
sociedade norte-americana tornou-se essencialmente fascista, dando destaque
para Hillary Clinton, que à época da publicação do livro parecia ser a
provável vencedora da disputa das prévias do Partido Democrata. Obama ganhou, mas só o conseguiu com o apoio do clã
Clinton, ele que está à esquerda da sua adversária nas prévias. O livro de
Drucker vai mostrar que o mesmo movimento em busca
socialismo aconteceu na base real da economia, com o chamado socialismo de
fundos de pensão. O fenômeno político está perfeitamente refletido na infraestrutura econômica. Podemos ver o tom de alarme de Drucker (escrito em 1975) já no primeiro parágrafo do
livro: “Se o ‘socialismo’ for definido como ‘a
propriedade dos meios de produção pelos trabalhadores’ – e essa é não só a
definição ortodoxa, como também a única rigorosa – então os Estado Unidos são
a primeira nação realmente ‘socialista’. Através de seus fundos de pensão, os empregados das empresas
americanas possuem hoje, no mínimo, 25% do capital acionário destas, o que é
mais do que suficiente para o
controle”. Números
mais recentes dão conta de que os fundos de pensão detêm cerca de 40% do
estoque das ações das principais empresas. Seus ativos, no final de 2007,
somavam cerca de US$
6 trilhões, para
um PIB estimado em cerca de US$ 15 trilhões, o que mostra o tamanho dessa
indústria e o seu poderio econômico. Essa
realidade explica muito da dinâmica política que estamos a ver na
administração da crise econômica. A lógica das corporações passou a refletir
a lógica dos sindicatos dos trabalhadores e das associações de aposentados.
Os interesses cristalizados tornaram-se poderosos. A disposição dos
governantes para fazerem bailouts, especialmente aqueles anunciados para a indústria automobilística, só
faz sentido se tivermos essa realidade política em vista. A GM, por exemplo,
tem cerca de 100 mil empregados e 400 mil pensionistas. O resgate portanto não é para dar sobrevida à indústria, mas aos
aposentados, que têm uma enorme influência política. A lógica dos fins foi
substituída pela lógica dos meios. Drucker mostra que há uma crescente transferência de rendas para os
empregados, via fundos de pensão, que chega a superar
o que se paga ao governo, a título de impostos, e aos acionistas como
dividendos. Ele sublinha que, quando os empregados tornam-se proprietários de
ações, o imposto de renda sobre o lucro das empresas transforma-se em uma
espécie de tributação altamente regressivas. O rico capitalista de outrora
deu lugar ao pequeno assalariado participante do fundo de investimentos, que
é um fundo de pensão. As
corporações agora são administradas por burocratas que, por sua, vez,
reportam-se a burocratas do governo. Há um conluio de burocratas cuja lógica
suplanta a criatividade e o empreendedorismo necessários para o bom
funcionamento da sociedade capitalista. Eis a razão da tolerância da
sociedade norte-americana ao crescente intervencionismo governamental e à crescente
taxação, fatos ocorridos ao longo de todo século XX. As lideranças
necessárias à democracia capitalista, comprometidas com as suas instituições,
simplesmente deram lugar a gente que pensa de maneira corporativa, o que quer
dizer, fascista. Goldberg está coberto de razão. Drucker concluiu: “Vimos que o socialismo-fundo-de-pensão e as alterações demográficas subjacentes
criarão problemas novos e exigirão novas diretrizes. Irão gerar novas
questões e, previsivelmente, tornar irrelevantes muitas das questões mais
debatidas da geração passada. Irão alterar fundamentalmente o temperamento, a
índole, os valores e o comportamento da sociedade norte-americana, e com ela,
da política americana”. Foi profético. Barack Obama eleito é a coroação do ethos
corporativista – vale dizer, fascista – na condução política da sociedade. E mais: “Vimos também que o socialismo-fundo-de-pensão
está no processo de criar um novo e genuíno ‘grupo de influência’. E que
através dos fundos de pensão, está criando as instituições em torno das quais
esse grupo de influência poderá organizar. Tais instituições representam as
preocupações, os interesses e as prioridades de um novo centro de gravidade
populacional e social: as pessoas idosas aposentadas e os trabalhadores mais
velhos (com mais de 50 anso) para os quais as
provisões de aposentadorias vão se tornando cada vez mais importante. Será
esse novo grupo de influência que acarretará também um realinhamento da
política americana? A resposta
é certamente afirmativa. A contradição dessa nova forma de ordem política
está expressa com todas as letras. As forças políticas foram mobilizadas para
manter o status quo não da produção, mas das massas
aposentadas. Há uma verdadeira cultura de rentista
espalhada nos EUA e Wall Street
entrou nessa onda. A crise é a expressão da ânsia por rendimentos fáceis
buscados pelos chamados investidores institucionais. Os resgates são
expressão do poder político dessa gente para preservar seus interesses. Há,
todavia, algumas contradições insanáveis. A queda no preço das ações leva a
perda do valor patrimonial; a queda da taxa de juros a perda de rendimentos.
Assim, os novos “capitalistas” precisam de resgates do Tesouro que, vindo na
forma de queda na taxa de juros e na compra de títulos “podres”, deprimem a
fonte de rendimento. É questão de tempo que a injeção monetária transforme-se
em inflação, que será o momento em que o empobrecimento real dessa massa de rentista acontecerá de forma mais rápida e direta.
Resgates governamentais apenas adiam, e por breve momento, o tempo de ajuste. A maior de
todas as contradições é a necessidade de valorizar as ações, mas os
dividendos esperados são decrescentes porque paga-se cada vez mais
compromissos com os fundos de pensão. Então a tendência de longo prazo é que
o valor dos investimentos caia, os rendimentos de capital decresçam. Essa
contradição é insanável. Não há bailout que possa
resolver o problema. A taxa atuarial do fundo da GM, por exemplo, prevê
rendimento de sua massa de ativos da ordem de 8,5% a.a.
Não há como conseguir isso de forma alguma. As contas não fecham. Uma
estrutura econômica assim edificada está condenada a uma crise permanente. |
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