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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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DOS
VALORES E DA ELITE 20 de outubro de 2009 Sou um
habitual leitor do que escreve Luiz Felipe Pondé,
filósofo da PUC de São Paulo, especialmente de seus artigos semanais
publicados na Folha de São Paulo. Sempre em ângulos surpreendentes e com um
diagnóstico preciso e corrosivo sobre a alma humana em geral, mais do que a
alma coletiva brasileira. Por exemplo, seu texto sobre o filme de Lars Von Trier, O
Anticristo, foi absolutamente surpreendente para mim e a meu ver o que de
melhor se escreveu sobre o assunto. Pondé viu o que
ninguém viu. Por textos assim é que aguardo todas as segundas feiras para ver
que surpresa ele nos trará. Meu temperamento tende a comungar quase sempre do
seu pessimismo. “Nada há de novo sob o
sol”. A crônica de
ontem, todavia, me fez parar para pensar se ele está certo (Os tais
valores). Coincidiu
que, à noite, pude rever o filme Um
homem para a eternidade, que retrata o duelo de Thomas Morus
com Henrique VIII e o seu sacrifício em nome dos “valores”, Que contraste há
entre o exemplo do santo católico e a crônica corrosiva de Pondé sobre os valores. Será que ele se esqueceu dos
santos? Dos filósofos? Dos profetas? Da aristocracia do espírito que sempre
houve, mesmo que esteja ocultada pela multidão ruidosa e repugnante dos
ignorantes? Ao contrário do filósofo, entendo que temos de falar dos valores.
Eu comungo da visão de que há um padrão imutável de justiça, consoante uma
lei natural, por mais que dela nos desviemos e por mais injustiça que
pratiquemos. E quero aqui que nos esqueçamos do Estado, esse monstro
desgraçado que, em nome da justiça, tornou-se o praticante das mais cínicas e
nefandas injustiças. Falo das almas individuais. O filme sobre
a vida do Thomas Morus é relevante não apenas por causa do seu exemplo, seu
apego aos “valores”, ainda que ao custo de dar ao cepo seu pescoço. Hoje
teria sido tomado por tolo. Foi até o fim na defesa de sua fé, dos seus “valores”.
Mas é relevante também porque mostra que naqueles tempos havia um sistema de
leis estatais que ainda guardava relação com a lei natural e que até a
maneira de vestir das pessoas era recatada e
decorosa, consoante os mandamentos. E pensar que Morus morreu por discordar
do divórcio do rei, nós que hoje praticamos o divórcio com a facilidade com
que tomamos um copo de água. Acho que Pondé se
esqueceu desse tempo em que ainda havia retidão moral em uma minoria
aristocrática, egrégia, que modelava o comportamento da maioria. Havia
valores superiores que eram reverenciados, mas certamente nem sempre eram
observados, pois é mais humano o vilipêndio do que vem do alto do que o seu
cumprimento. É a condição humana, “nada
de novo sob o sol”. A humanidade
não é hoje mais pecadora do que era antes. Ela é apenas mais cínica, mais
exibida, mais assumida diante da
impiedade. Antes, o praticante do erro sabia que estava em erro e procurava
corrigir-se; hoje, ufana-se de seus próprios erros e, pior, quer que todos
pensem que seus desvios de conduta são eles mesmos virtudes. E os quer elevar
à norma positiva do Estado, obrigando a todos a imitá-lo. A perfeita
caricatura da lei natural. O relevante
nos tempos de hoje é que esse sentido de permanência no padrão moral superior
acabou-se. É tudo relativo agora, é tudo ditado por uma elite cínica e
hedonista, absolutamente ignorante da existência desses valores permanentes,
que nunca mudaram. É a moral superior esquecida. Os homens mudaram, as leis
do Estado mudaram, mas a lei natural permanece a mesma sempre e sempre. Eu disse
elite? Sim, e aqui cabe um comentário adicional. Sou leitor assíduo de Ortega
y Gasset e nutro reverência pelo livro A REBELIÃO
DAS MASSAS. Mas sempre senti uma insuficiência neste grande livro e ela está
precisamente aqui, quando Ortega usa de forma inconveniente a palavra elite
(ver meu artigo
anterior). Ortega sempre quis dizer aristocracia, a aristocracia do
espírito e do saber superior, aquela que moldou a Europa em sua história,
desde o século IV a.C. O fato fundamental é que essa aristocracia deixou de
ser elite dirigente, ou seja, não comanda mais o Estado e nem as igrejas e
nenhuma outra magistratura onde se requer o elemento da aristocracia do
espírito. Essa elite está sendo recrutada entre os opostos aos egrégios, é
ela mesma uma ralé, como bem disse Voegelin, certa
vez. Quem é a
elite hoje? É qualquer um que alça a um cargo público, seja por concurso ou
por sufrágio, ou que comanda alguma grande empresa, recrutado por critérios
semelhantes. Os concursos são projetados sob medida para escolher aqueles que
são antípodas da aristocracia do espírito, papagaios repetidores de slogans
revolucionários e materialistas. Os niilistas convictos. Só acessam aos
postos de mando a ralé do espírito, os negadores da verdade, os aleijados da
alma. Essa ralé é certamente uma elite, mas não forma a aristocracia, nos
termos que o exemplo de Thomas Morus nos legou. É aquilo que certa vez eu
chamei de Elite de Zottmann, a ralé governando. Aliás, o
filme que trata da biografia de Morus relata precisamente o ponto de inflexão
entre o antigo e o moderno, entre a verdade e a mentira, entre a integridade
aristocrática do espírito e essa mesquinharia hedonista e vergonhosa que é
toda a modernidade. Se ignorarmos essa gente de escol, que não pode mais
sequer falar em público sem ser apupada, vez que a verdade está prejudicada,
então é preciso reconhecer que Pondé está certo e
sua crônica é um retrato fiel dos tempos. Ela teria sido completa se não
cometesse o erro de achar que é tudo a mesma coisas,
em todos os tempos: “que esse papo de
‘valores’ serve para evitarmos falar de coisas mais sérias”. Ora, falar
de valores é o que de fato é substantivo, é o que interessa à aristocracia do
espírito, esses “restos de Israel” que andam perdidos por aí. Falar de
valores é o repetir do eco de um tempo em que a humanidade estava em
consonância com a transcendência. |
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