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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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DO
MULATO E MULATINHO 02/11/2012 Saí do cinema
emocionado. Esse Breno Silveira é um sujeito que sabe me arrancar lágrimas.
Repeti o gesto da emoção em Gonzaga -
De pai para filho que já vivera nos magníficos filmes anteriores do diretor.
Eu esperava menos ao entrar no cinema, pois afinal Luiz Gonzaga pode ser uma
máquina de fazer dinheiro, especialidade do Breno Silveira, mas havia me
esquecido que o notável diretor o tem feito sem qualquer sacrifício da
qualidade. Faz cinema de gente grande. O filme foca
a relação entre Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha. A narrativa tem como
pano de fundo o Brasil que se transformou violentamente desde que o menino de
Exu saiu de sua terra natal para voltar depois, famoso. Antes de chegar às
terras do sul passara por Fortaleza, no Ceará. Dez anos de serviço militar. Tudo no filme
emociona, ao menos a mim que, menino, aos cinco anos, pude uma única vez, ver
Luiz Gonzaga, montado às costa do meu pai, em Juazeiro do Norte, em 1964. Ele
já era herói em nossa família. Fui ninado ouvindo minha mãe cantar, com sua
voz melodiosa e sua entonação emocionada, as canções imortais de Seu Lua. E
vi meus pais dançarem os xotes e baiões em todas as festas que íamos. Gonzagão tomou o centro do entretenimento e lazer dos
sertanejos, cantando sua terra, suas alegrias e infortúnios. "Lá no meu pé de serra/deixei ficar meu
coração/ai que saudade tenho/eu vou voltar pro meu sertão". Assim
Luiz Gonzaga cantava seu amor por uma mulher e por sua terra natal. "Juazeiro, juazeiro/ onde anda meu
amor/juazeiro, juazeiro/me responda por favor". Eu não sabia que
esse amor tinha nome e que ao pé de um juazeiro estava tatuado com um coração
ardente. Gonzagão foi diversas vezes chorar suas
mágoas e libertar-se da saudade aos pés desse juazeiro amoroso. Foi uma
descoberta para mim, no filme, que Luiz Gonzaga tenha tentado no Rio de
Janeiro a vida de artista tocando tangos e fados. Confesso que pasmei! E que
só acidentalmente tenha descoberto o poder da música popular, cantando o
cotidiano de sua gente. Inventou gêneros musicais - o mais certo seria dizer:
divulgo-os - e virou Rei do Baião. Naquele momento minha cabeça já era de sociólogo
e as emoções das belas imagens e músicas não deixaram atrofiar o cérebro do
aprendiz de sociólogo que sou. Luiz Gonzaga,
o mulato escuro e pobre, era um pacifista convicto e um artista de
sensibilidade, negando os preconceitos da gente pensante. Um poeta popular. O
destino o transformou no cantor dos retirantes. Sua música acalantou os
deserdados e desterrados. Os exilados o foram menos porque a voz de Gonzaga
emergia dos aparelhos de rádio irradiando poesia e saudade. O que vemos no
filme são cenas nem sempre veladas de racismo, mas vemos também o homem dono
de si e convicto de suas forças e potencialidades, que triunfou. Gonzaga
criou um tipo, como o fez Charles Chaplin: aquele chapéu, que nem é de vaqueiro
e nem de cangaceiro, mas é dele,
homenageia as suas origens. O chapéu e as roupas, cheios de alusões à marca
registrada de nossa formação, em torno do gado e da vida lida livre do
sertão. Ao tentar
modernizar-se para manter seu público, Gonzagão
apenas estilizou um pouco mais o gibão e as vestes, como aquelas com as quais
recepcionou o papa João Paulo II, em Fortaleza. Não tinha jeito: fosse onde
fosse ele dizia a quem o visse que era o filho dileto do sertão, o seu poeta. Grande
Sertão. Do grande sertão para as veredas nada livres dos morros cariocas, que
viram seu filho correr em busca da liberdade, da felicidade. Gonzaguinha
puxou do pai a poesia e a musicalidade e o enorme desejo de amar e ser amado,
sobretudo pelo pai famoso. Relação difícil, o pai provedor e ausente, o filho
carente e sensível, frágil. A história da relação dos dois, foco do filme,
emociona. "Diz lá para Dina que volto/que seu guri
não fugiu/só quis saber como é/qual é/perna no mundo, sumiu". Um
retirante de si mesmo. Dina, a adorável mulher que fez as vezes de mãe
substituta, que deu-lhe o aconchego que não teve do pai ausente. A emoção sobe
no filme quando a entrevista "entra no ar". O reencontro de pai e
filho e o gravador como testemunha. O mulatão e o
mulatinho - por que não dizer, os
brasileiros? - se abraçam na recordação da vida sofrida. No sangue de
Gonzaguinha corria o do avô Januário e da avó Santana, mulher que impunha
respeito a todos. Uma história que espelha a realidade das mulheres fortes do
sertão. Breno Silveira teve muita sensibilidade ao dirigir e escolher as
atrizes que fizeram reviver a saga dos Gonzaga - a saga brasileira. A vida de
Luiz Gonzaga e de seu filho é um resumo épico da formação do brasileiro em
geral. Temos algo grandioso assim no Grande Sertão, Veredas, de Guimarães
Rosa. O mulato é a nacionalidade. Os Gonzaga calaram os teóricos racistas
tupiniquins, sempre falando de cordialidade, sempre desqualificando a
miscigenação, sempre maldizendo nas entrelinhas o nosso povo como ele é. Nem
malandro e violento: apenas gente sensível como toda gente. Nos Gonzaga a
brasilidade estampada na música. A saga do pai que lutou bravamente para
manter - ser o provedor - de seu família e que alcançou o seu objetivo, fez
do filho Gonzaguinha "doutor". Mas este só queria ser poeta, como o
pai. E foi. Grande como o pai. |
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