NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

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DISCUTINDO OS EUA

27/04/2008

 

O livro A NOVA CIÊNCIA DA POLÍTICA, de Eric Voegelin, é dedicado ao estudo do Estado e da política na modernidade, que ele considerava um “tumor” dentro da tradição ocidental. Passo por passo ele mostra como o sonho gnóstico (palavra usada por ele em um sentido técnico específico, referindo-se aos movimentos imanentes da modernidade, tanto os de caráter propriamente gnóstico como os de caráter panteístico) representa uma pneumopalogia, uma verdadeira ruptura com as fontes do Espírito. Voegelin escreveu sobretudo olhando as experiências européias, ele que fora um fugitivo da mão homicida do nazismo, esquecendo-se de olhar o que acontecia nos EUA. Talvez a sua relação de gratidão com aquele país o tivesse impedido de ver o que estava acontecendo. Voegelin escreveu nos EUA boa parte de sua monumental obra teórica, sentado diante do Atlântico e tendo às costas a terra que lhe deu abrigo.

 

No livro citado, na última página, ele escreveu: “O símbolo do Leviatã foi concebido por um pensador inglês em resposta ao perigo puritano. Entretanto, entre as principais sociedades política européias, a Inglaterra mostrou ser a mais resistente ao totalitarismo gnóstico. O mesmo deve ser dito dos Estados Unidos, embora o país tenha sido fundado pelos próprios puritanos que provocaram terror em Hobbes. Impõe-se uma palavra sobre tal questão à gui­sa de conclusão.”

 

Creio que o autor aqui padeceu de um erro de perspectiva, talvez pelo ano em que escreveu, em 1952, logo depois da II Guerra e nos temores trazidos pela Guerra Fria. Se ele tivesse se debruçado seriamente sobre a  história dos EUA, assim como da Inglaterra, ele percebido que o fenômeno por ele mesmo detectado de decadência e perigo estava em gestação em ambos os paises, embora em compasso mais lento do que aquele que vigeu nos países que passaram por regimes revolucionários, como a Rússia e a Alemanha. Voegelin completou:

 

A explicação deve ser buscada na dinâmica do gnosticismo. O leitor se recor­dará das repetidas advertências acerca do fato de que a modernidade é um tumor na sociedade ocidental, em competição com a tradição mediterrânea; recordar-se-á também que o próprio gnosticismo sofreu um processo de radicalização, da ima-nentização medieval do Espírito, que abandonou Deus em sua transcendência, à posterior imanentização radical do eschaton, tal como encontrada em Feuerbach e Marx. A corrosão da civilização ocidental através do gnosticismo é um processo lento, que se estende por mais de mil anos. As diversas sociedades políticas ociden­tais têm uma relação diferente com esse lento processo, dependendo da época em que ocorreu a revolução nacional de cada uma delas. Quando a revolução ocorreu cedo, seu portador foi uma onda menos radical de gnosticismo e a resistência das forças da tradição foi também mais efetiva. Nas revoluções ocorridas posterior­mente, o portador foi uma onda mais radical e o meio da tradição já estava profun­damente corroído pelo avanço generalizado da modernidade. A Revolução Inglesa, no século XVII, desenvolveu-se num momento em que o gnosticismo ainda não sofrerá sua secularização radical. Vimos como os puritanos da ala esquerda mostra­vam-se ansiosos para se passar por cristãos, conquanto de uma espécie particular­mente pura. Ao se alcançarem os ajustes de 1690, a Inglaterra preservara a cultura institucional do parlamentarismo aristocrático e os costumes de uma nação cristã, então sancionados como instituições nacionais. A Revolução Americana, embora influenciada em seus debates pela psicologia do iluminismo, também teve a boa sorte de encerrar-se dentro do clima institucional e cristão do ancien regime. Já na Revolução Francesa a onda radical era tão forte que cindiu permanentemente a nação entre a metade laicista que se baseou na própria revolução e a metade con­servadora que tentou, e ainda tenta, salvaguardar a tradição cristã. Por fim, a Re­volução Alemã, num meio desprovido de fortes tradições institucionais, pela pri­meira vez pôs inteiramente em jogo o materialismo econômico, a biologia racista, a psicologia corrupta, o cientificismo e a crueldade tecnológica — em suma, a mo­dernidade sem peias. Dessa forma, a sociedade ocidental como um todo é uma ci­vilização profundamente estratificada, na qual as democracias inglesa e norte-ame­ricana representam a camada mais antiga e mais firmemente consolidada da tradi­ção civilizacional, enquanto a área alemã representa a camada mais moderna do ponto de vista progressivista.”

 

O argumento neste parágrafo é claramente contraditório, pois se o tumor emergiu há mais de mil anos e se essas duas sociedades são frutos do puritanismo, então a sua natureza deveria ser tida igualmente como deformada e sujeita à mesma doença espiritual apontada. A vitória na II Guerra por parte dos Aliados foi meramente acidental, não representava uma força espiritual sintonizada com a Tradição. A leitura do livro de Jonah Goldberg (LIBERAL FASCIM, comentada por mim anteriormente em http://www.nivaldocordeiro.net/quemsaoosfascistas.htm) só comprovou que a intuição e a teoria de Voegelin estavam corretas e não caberia o parágrafo esperançoso com que concluiu o livro: “Há uma centelha de esperança nessa situação, pois as democracias norte-ame­ricana e inglesa, em cujas instituições está mais solidamente representada a verdade da alma, são, ao mesmo tempo, as potências mais fortes. Mas todos os nossos es­forços serão necessários para transformar essa centelha numa chama, pela repres­são da corrupção gnóstica e pela restauração das forças da civilização. Atualmente, o desfecho é incerto.”

 

Tinha razão Voegelin em fechar o livro com a frase angustiada “Atualmente, o desfecho é incerto”. Mesmo ele agradecido pela hospitalidade não poderia fechar os olhos diante do que se passava. Em 1973, ao ditar as suas REFLEXÕES AUTOBIOGRÁFICAS (cuja edição acabou de ser lançada no Brasil pela eRealizações), ele registrou:

 

Nada dura para sempre, e a ‘polarização’ atual também perecerá. Por enquanto, porém, a condução racional que o governo americano tem dado à sua política está seriamente comprometida, pois a ação governamental, no conflito com as fantasias utópicas, foi praticamente inviabilizada. Até que ponto essa limitação do raio de ação americano – que se deve à perda de contato dos intelectuais com a realidade – representa um perigo real para o país é algo que só o futuro poderá dizer. Seguramente, hoje nos confrontamos com o poder social arrasador da desonestidade intelectual, que permeia o mundo acadêmico e outros setores da sociedade. Esta situação, a tornar-se realmente crítica, pedirá para ser corrigida no devido tempo.” (Página 171)

 

O grande filósofo se redimiu de suas reticências e falsas esperanças com que fechou o brilhante  A NOVA CIÊNCIA DA POLÍTICA. Todavia, aqui ainda não foi suficientemente claro a respeito das “fantasias utópicas” e creio que ele se referia basicamente à política de enfrentamento do comunismo, sem se dar conta de que o verdadeiro problema se encontrava intramuros, dentro das fronteiras dos EUA. O grande drama do que ele chama de gnosticismo do ponto de vista da política interna é precisamente a tentativa de abolir a lei da escassez, expressa em termos bíblicos pela máxima “Comerás o pão com o suor do teu rosto”. Traduzindo em linguagem moderna é o respeito à propriedade, à livre iniciativa e à instituição do Estado Mínimo. Essas verdades da alma foram abandonadas e criou-se o tumor maligno que agora se desenha como a grave crise monetária que ameaça o dólar e a própria economia mundial.

 

Foi uma crise dessa envergadura que, há um século, desencadeou as forças que redundariam nas guerras mundiais, particularmente a II Guerra. O cenário que se arma agora me parece ser da mesma natureza, tendo como inimigo as forças em redor do coletivismo marxista lideradas pela China. Do lado dos EUA nem se pode mais dizer que representam os valores liberais, tendo restado lá meros resquícios dessa idéia-força. O duelo não se dá mais entre a Tradição e a modernidade, mas entre as duas cabeças da Hydra coletivista, uma oriental e outra ocidental. Ambos os lados armados até os dentes de artefatos atômicos. O puro terror.

 

O que esperar? Não tenho resposta, não sei o que vai acontecer. Sei, todavia, que não há motivos para esperança e risos. O debate entre os possíveis sucessores de George W. Bush dá conta de que nenhum dos candidatos à sucessão sabe exatamente o que vai encontrar e, menos ainda, o que vai fazer, exceto manter a roubalheira estatal, a promoção do nefasto igualitarismo e o conseqüente enfraquecimento daquele país, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista militar. O cenário para os próximos anos é desesperador.