|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
DIREITOS
HUMANOS, POR SEPÚLVEDA PERTENCE 26 de janeiro de 2010 Peço aos
caros leitores paciência por eu insistir em abordar o tema dos direitos
humanos, mas estou convencido da sua superlativa relevância, não apenas
porque o governo Lula fez do tema um instrumento de combate político –
visando a aceleração da revolução socialista no Brasil. Ele é importante
também do ponto de vista teórico para a compreensão não apenas da ciência
política, mas também da filosofia do direito. São temas relevantes demais e
que têm impactos decisivos nos rumos que a Nação deverá tomar. Quero
aqui tecer alguns comentários à entrevista dada pelo ex-ministro do Supremo
Tribunal Federal – STF, Sepúlveda Pertence, à revista Carta
Maior. De fato, suas opiniões me surpreenderam, eu que agora estou atento
para a temática, que mais e mais tem pautado as decisões políticas nos cenários nacional e internacional. Homens doutos agora se
revelam advogados incondicionais dessa alucinação que recebeu o carimbo de
direitos humanos. Vejamos um trecho das suas declarações: “Na base das críticas ao 3º Plano
Nacional de Direitos Humanos - o PNDH–3 - está um cipoal que entrelaça galhos
e raízes desconexas. Elas partem da ignorância de quem não leu o Plano e do
desconhecimento da verdade – estabelecida há quase dois séculos – de que a
liberdade e a igualdade formais do liberalismo clássico valem muito pouco, se
não se efetivam os pressupostos substanciais mínimos da dignidade da pessoa
humana e, portanto, da fruição por todos dos direitos humanos. A essa
ignorância – quando não se servem propositadamente dela – se tem somado para
aviventar atoarda contra o Plano, desde a manifestação legítima de
divergências a algumas de suas propostas e metas - assim, a da Igreja, a
respeito da descriminalização do aborto – os temores de segmentos das Forças
Armadas, na questão da Lei de Anistia de 1979 – , e
a voz poderosa dos interesses e privilégios a preservar contra qualquer
ameaça, ainda que remota, de trazê-los à agenda da discussão nacional”. Essa
visão do ministro de que as liberdades formais valem muito pouco é algo demasiadamente perigoso e basta ler o que escreveu o
prestimoso filósofo britânico, Isaiah Berlin, sobre
o confronto entre as chamadas liberdades negativas e as liberdades positivas
para se dar conta desse perigo. As liberdades negativas, garantidas
constitucionalmente, dentro de uma ordem democrática representativa, é o
ápice da civilização, na qual o ente Estatal aceita ficar de fora da vida
prática, intervindo tão somente quando a ordem pública é ameaçada. Essa
maneira de organizar a sociedade é a única que, de fato, garante as
liberdades e a igualdade de todos diante da lei. Substituí-la por um sistema
de liberdades positivas, como ensinou o filósofo, é negar a própria liberdade,
na medida em que se passa a delegar ao governante a capacidade de garantir
“direitos”, sempre em benefício de uns, mas em prejuízo de outros.
Assassina-se a própria liberdade. Aqui o
ministro alinhou-se ao lado dos jacobinos, que vêm no Estado a instância
capaz de eliminar a dificuldades humanas inerentes à vida, como se a
humanidade pudesse ser aperfeiçoada por força da engenharia legal. O ministro
aponta ignorância dos críticos, por não lerem, do III Plano Nacional de
Direitos Humanos. Eu aponto a ignorância do ministro relativamente à
etiologia dessa nefasta expressão – direitos humanos – que desde a origem
jogou a humanidade no beco sem saída dos aduladores das multidões, dos
candidatos a ditadores como foram Hitler e Mussolini e Stalin e todos os que,
por uma via ou outra, advogam pelo igualitarismo de corte comunista. Pugnar
por direitos “positivos” é adotar a via curta da ditadura do sistema legal
para corrigir supostas imperfeições humanas. Algumas
das proposta elencadas enquanto direito no Plano, como o aborto, é mais que
uma caricatura, é transformar um crime contra a vida em uma permissão
prevista em lei. Chamar a isso de direito humano é fazer galhofa com a
inteligência alheira, é querer ridicularizar o que de mais sagrado nos legou
a tradição. Vejamos mais: “Desse modo, a crítica que se poderia fazer
ao PNDH-3 – e no plano da estratégia política –, é a de sua abrangência,
deveras ambiciosa. Nesse sentido, a censura do brilhante jornalista Willian Waack no seu programa de televisão, do qual participei,
ao lado de Gregori e de Bolívar Lamonnier a de que
o Plano, de tão amplo, pretenderia ser uma nova constituição do Pais. O dito
é inteligente e espirituoso. Mas não é exato. Ao contrário, o Plano é fiel à
Constituição. Não apenas ao que dela já se implementou, mas principalmente,
ao arrojado projeto de um Brasil futuro, que nela se delineou, e que falta
muito para realizar”. O Plano
é fiel à Constituição? Não é mesmo, a começar pela forma de sua elaboração,
em um processo sovietizado, integralmente controlado
pelas forças petistas, alijando do processo as forças conservadoras, que não
dispõem de qualquer know how
leninista de assembleísmo. O processo é não apenas ilegítimo, mas contrário
ao ordenamento jurídico em vigor, que reconhece legitimidade apenas ao
Congresso Nacional para atuar no âmbito das modificações do corpo jurídico. O
ministro se fez de sonso, ignorando que o governo Lula está tentando sovietizar o Brasil por meio dessas conferências, mais de
sessenta delas já realizadas. A
Constituição em vigor não ampara as teses que lhe contrariam formalmente. Ao
pé da letra, as “propostas” do Plano equivalem, se aprovadas, a um novo
projeto constituinte, que abole o que restou da ética cristã e coloca em
vigor o corpo de doutrina comunista. Não creio que o ministro ignore essa
obviedade, mas o que me espanta é que ele esteja concordante com a forma e o
conteúdo do Plano. O ministro faz-lhe ampla apologia: “O
PNDH-3, como o Plano que o antecedeu, é um esforço admirável de sistematizar
propostas no rumo da concretização do programa constitucional de uma
sociedade futura- “justa, livre e solidária”. Lido sem preconceito, é claro
que se sujeita a críticas e objeções pontuais. Nunca, porém, à reação global
e desenfreada – às vezes, histérica – de que tem sido alvo, e que só os
interesses atemorizados explicam”. Sua
leitura da realidade está fundada na mais rasteira das teses da luta de
classes, como podemos ler: “O que resta é confiar em que, passo a
passo, a diminuição da pobreza gere a difusão e o aprofundamento da
consciência da cidadania, e esta, a organização da maioria explorada pelos
privilégios arraigados por séculos de brutal desigualdade. Eu não verei essas
transformações, mas sou otimista, e creio que os meus netos as viverão”. Qualquer pessoa letrada sabe que a pobreza só pode ser combatida
com o crescimento da riqueza total e esta só se expandirá se o capitalismo, o
regime de propriedade privada e a segurança jurídica de um sistema de leis
justas imperarem. Os experimentos onde o político se sobrepôs ao econômico
redundaram em miséria e atraso, como bem podemos ver na indigente economia
cubana, um fóssil vivo à disposição, para estudos. Com
relação à perseguição ao militares que deram combate ao terrorismo o ministro
parece ter uma visão equilibrada, colocando que não cabe perseguição penal
aos que foram para o enfrentamento, mais das vezes com o risco da própria
vida. Foi claro: “E lei de anistia é essencialmente
irreversível, porque implica, na lição dos mestres, tornar não criminosos
atos criminosos ao tempo de sua prática. E, por isso, sua eficácia jurídica
se exaure e se faz definitiva, no momento mesmo em que entra em vigor”. Em
resumo, o ministro é favorável a essa loucura de sovietização
do Brasil, essa caricatura de democracia direta, e não vê reparo à
instituição do direito “positivo” em substituição aos direitos “negativos”
que asseguram a democracia. Mais uma alta autoridade que, de público,
assumi-se como revolucionário sem qualquer pudor. |
|