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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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DIREITO
NATURAL E VONTADE GERAL 10/02/2008 O grande corte na mentalidade
ocidental se deu de fato no Renascimento, para infausto do próprio Ocidente e
do mundo todo, que acabou por lhe copiar as instituições. Sublinho ao caro
leitor que o progresso na ciência certamente teria acontecido,
como aconteceu, com o desenvolvimento das ciências naturais que seguiam seu
curso, pelas obras de Copérnico, Kepler, Galileu e seus sucessores. Não é
mérito do Renascimento o desenvolvimento posterior das ciências. Também não é
o desenvolvimento das ciências naturais que singulariza a modernidade,
portanto. Nem mesmo a generalização das práticas capitalistas [Weber
equivocou-se redondamente em atribuir às mudanças na teologia a causa de sua aparição], que afinal são espontâneas, “naturais”.
O capitalismo é um arranjo que se
impôs na medida em que a urbanização crescia e em que as trocas em escala mundial
ganharam volume e velocidade. A singularidade do mundo
moderno é a revolução que houve na filosofia política, especialmente nas
figuras de Maquiavel, Hobbes e Rousseau. Com efeito, a tradição grega de
Platão e Aristóteles, endossada pelos pensadores cristãos, via o homem como
um ser social “por natureza” e, enquanto tal, esses autores buscavam
investigar em que consistia o direito natural. Em última análise o fundamento
primeiro da Justiça, que aceitavam ser de origem transcendente, cabendo ao
filósofo, usando a luz da razão, descobrir sua origem. Aos governantes
caberia a administração da Justiça visando o bem-comum pautando-se por
respeitar as individualidades. O indivíduo tinha dignidade acima do Estado. Dos
cidadãos esperava-se a prática das virtudes, cabendo ao Estado combater os
vícios que eventualmente colidissem com os interesses da coletividade.
Somente em tempos de guerra é que os interesses do Estado se sobrepunham aos
interesses das pessoas. Maquiavel inverteu tudo isso.
Colocou a vontade do príncipe acima de qualquer interesse privado e elevou a
lógica excepcional dos tempos de guerra como substituta da lógica que
presidia os tempos de paz nos séculos anteriores. Maquiavel é o pai fundador da modernidade,
logo seguido por Hobbes, que criou uma nova filosofia política de caráter
inteiramente ateu, o primeiro que ganhou dimensão de Estado desde a
Antiguidade. Hobbes redefiniu o conceito de direito natural ampliando a
inovação maquiavélica. As virtudes deixaram de fundar o direito natural, cuja
origem foi transportada para o medo da morte imposto pelo Soberano ao seu
talante. O Estado ateu hobbesiano assume essa feição
de deus-Estado, senhor da morte. Não mais Justiça se procura, mas a paz
imposta pelo terror de Estado, tornada a única virtude. A politeia,
os costumes consagrados na alma de uma Nação qualquer, as tais “leis não
escritas”, foi deixada de lado, passando a valer exclusivamente o direito
positivo. E o vínculo entre as pessoas deixou de se dar pelas tradições –
novamente ignorando-se as virtudes milenarmente procuradas e praticadas –
colocando-se em seu lugar o frio contrato. O elemento jurídico foi elevado
assim à dimensão divina. Numa sociedade formatada desse jeito não caberia
sequer a idéia de Deus. Por isso o cristianismo definhou, vez que os Estados
tornaram-se não apenas ateus (contra o Deus cristão), mas eles mesmos
definiram-se enquanto deuses. As potestades de que nos alertaram os textos
bíblicos. O gesto de Napoleão de colocar sobre si mesmo a coroa, dispensando
qualquer bênção da Igreja, terá sido o mais significativo para mostrar de
maneira plástica essa completa descristianização do poder. Quando Rousseau escreveu sua
obra O Contrato Social ele apenas completou o ciclo iniciado por Maquiavel na
fundação (e teorização) do totalitarismo. A Vontade Geral defendida por ele já estava na obra do florentino,
assim como na de Hobbes. Obviamente que essa Vontade Geral é uma abstração que na prática significa a vontade
de um único indivíduo (ou o coletivo de um partido único) que se arroga à
prerrogativa da representação de toda a sociedade: a vontade particular se
transforma no seu oposto, escravizando toda a gente. Veja,
caro leitor, que hoje em dia não mais é necessária a personificação de um
ditador ou soberano no comando do Estado. O corpo jurídico positivado
funciona como o ego autônomo a se impor sobre a coletividade, qualquer que
seja o governante de plantão. O monstro estatal ganhou dinâmica própria a
despeito dos homens que o fazem. É Baal ele mesmo
renascido, o novo deus que exige sacrifícios, oferendas, louvação e paradas
cívico-religiosas. A classe política é ela mesma a classe sacerdotal que cuida
do Novo Ídolo, secundada pela burocracia profissional, os novos levitas. Em Nietzsche essa idéia
amaldiçoada de Vontade Geral toma o nome de Vontade de Potência. Por isso o filósofo alemão é o profeta dos
tempos apocalípticos que foram o século XX. A exceção da lógica da guerra
tornada regra corrente só poderia redundar em guerras e destruições como
jamais houve em todos os tempos. Esse é o estágio em que nos encontramos, um
tempo de paz que é instável e que tende para a beligerância. Não creio que tenhamos,
no século XXI, um nível de violência menor do que vimos no século passado. A
única salvação seria a recristianização do poder,
algo que não está no horizonte. Basta ver a recusa da União Européia em se
declarar cristã. Nisso há coerência, pois nada há de cristão naquele monstro. Vivemos realmente tempos de
grandes perigos. |
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