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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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DILEMA DE ESTADISTAS 31/12/2008 Ando com o
espírito do Coélet: nada há de novo debaixo do sol,
quanto mais conhecimento, mais sofrimento. E o ano de 2008 trouxe-me luminoso
despertar na análise política. Meu mergulho na literatura de Ortega y Gasset, Voegelin, Strauss, Aron
e gigantes assemelhados me trouxe mais conhecimento
e muito mais sofrimento. É inútil o saber na ciência política? Visto do ponto
de vista dos operadores do poder, sim. Os novos operadores do poder – os
novos príncipes – não querem saber da essência do seu ofício, mas apenas de
como chegar lá. Tem sido assim desde o Renascimento. Visto do ponto de vista
da sabedoria, não. O saber será sempre superior à ignorância. A
discussão inaugurada por Platão é se a moral é algo que tem origem nos
costumes, construído socialmente, como queriam os sofistas, ou se é algo
descoberto de uma matriz metafísica. Ele mesmo e seus sucessores inauguram a
tradição de que a base real da moral e da política continha um elemento
transcendente, cabendo ao filósofo e ao governante seguir o curso “segundo a
natureza”. Os limites do bem e do mal estavam em Deus e não na alma do homem.
Ao governante caberia legitimar-se para administrar os apetites irracionais
dos governados, das multidões. É a imagem de Moisés descendo do Sinai com as
Tábuas da Lei e mandando destruir os bezerros de ouro. O bom governante é aquele
que legitimamente diz “não” às irracionalidades coletivas e faz prevalecer a
Justiça, a virtude do príncipe. Faz valer a lei natural. A
dialética entre governante e governados pressupunha a aceitação recíproca
desses pólos irreconciliáveis: o governante sábio cumpria o seu papel de
líder, escolhendo os destinos coletivos mirando o fundamento metafísico da
existência. Essa foi a grande vitória política do
platonismo (que formou a tradição política cristã) contra os sofistas, entre
os quais a tradição epicuréia e a arrogante e
ególatra proposta estóica. Definitivamente o homem não é a medida de todas as
coisas e a razão é muito limitada para fundar a ordem justa sem o amparo da
metafísica. Com
Maquiavel essa ilusão sofística retorna para não mais sair. Prevalecerá agora
a lógica do aventureiro que só enxerga o feitiço do poder e não tem nenhum
compromisso com a ordem da alma. Mira-se nos fins, que passam a justificar
todos os meios. O florentino é o pai espiritual de todos os revolucionários,
dos jacobinos franceses aos puritanos ingleses e aos comunistas de todos os
quadrantes. Maquiavel
foi secundado pela dupla Hobbes e Locke, aparentes opostos que comungam da fé
na razão e introduzem o conceito moderno de direitos humanos no seu
fracionamento alucinado. Inventaram-se direitos para todos os usos. Ainda
ontem li nos jornais que políticos italianos protestavam contra o que
consideram a violação pelo governo daquele país dos supostos direitos dos
imigrantes ainda não aportados. Que direito (juridicamente falando) tem um
imigrante ilegal indesejado? Nenhum, pois não integra a ordem política do
país que pretende invadir. E ainda
que supostamente dispusesse de algum direito, este colidiria frontalmente com
os direitos dos cidadãos fundadores e residentes no país a que se destina.
Qual a hierarquia desses direitos? Obviamente que aqueles que fundaram e
mantêm uma ordem têm não apenas o direito, mas o poder de impô-lo. A
alucinação da modernidade tem um dos momentos basilares quando modifica o
conceito de direito natural, originalmente fundado na metafísica, e inventa a
mentira dos direitos humanos, desconectados que estão da antropologia
filosófica. O homem é uma unidade que não pode ser fracionada. A alucinação é
de tal ordem que declarações pomposas foram sendo feitas sucessivamente desde da Revolução Francesa e da norte-americana,
culminando com a da ONU e a da Comunidade Européia. A alucinação de Locke
tomou a alma moderna, de tal sorte que os homens supostamente cultos e sábios
se prestam a escrever e a querer cumprir esse conjunto de tolices
contraditórias. Esses
filósofos e juristas modernos quedam como um Dom Quixote diante das
prostitutas, chamando-as de donzelas. São dignos de risos. Estão na fronteira
entre a estupidez inteligente e a estupidez criminosa de que nos falava Voegelin em sua obra. Em
perspectiva histórica a obra de Rousseau não passa de um eco desses falsos
filósofos mais antigos. Ele fez uma grande síntese, deu a receita completa
para os revolucionários, condensou nos seus escritos o mau-caratismo que
estava disseminado nos seus predecessores. Rousseau impregnou o kantismo e a
sua alucinação em busca de uma paz perpétua e de um governo mundial; deu
também o lema para o marxismo e o vocabulário para cunhar as palavras de
ordem das modernas democracias de massas. Rousseau é o profeta das massas no
poder, o ideólogo da igualdade. Locke era cínico, sua liberdade e igualdade
eram meros enfeites para legitimar a desigualdade burguesa originária da qual
tinha plena consciência. Rousseau não, levou a sério
sua idéia de vontade geral e de
igualdade, idéias que são as fundações das grandes tragédias políticas desde
então. Sou
cético. Não creio que se possa mais restabelecer a visão monista
originária de Platão como ethos da vida política. A
maldição é ainda maior porque esse fracionamento da consciência – ou mergulho
na inconsciência, dependendo de como se olhar a história política – coincide
com a máxima habilidade técnica dos homens. A capacidade de destruir está no
apogeu. Gente moralmente incapaz tem a voz de comando para pôr
em movimento grandes máquinas de destruição. Não hesitarão em fazê-lo,
se a ocasião aparecer. Sou
pessimista. A arrogância da humanidade será o combustível do seu próprio holocausto.
Foi assim no passado, será assim no presente. Se a crise econômica tomar
proporções inadministráveis a alucinação populista
dos governantes deixará o estado de latência e mesmo que homens isolados
tentem resistir à irracionalidade das massas desembestadas serão prontamente
substituídos por representantes mais “realistas”. Vimos agora a eleição de Obama, que explorou
os instintos mais primários das massas, valendo-se da crise econômica. O que
esperar dele? O pior, sem dúvida. Mas como não tomou posse ainda dou-lhe o
benefício da dúvida. Espero que em sua alma habite um estadista. O dilema
dos estadistas foi sempre este: ou praticam o bem, a Justiça, e contrariam as
massas, ou atendem aos apelos da multidão e praticam a mais profunda
injustiça, que em última análise leva à guerra e à destruição em massa. Os
que seguem o segundo caminho prometem, como Obama o
fez, o que não podem cumprir: dar segurança, bem-estar social, eliminação da
lei da escassez, prosperidade perene. É o espírito de Beemoth
dominando o Leviatã. Sob o céu de Saturno Plutão espalha o seu beijo de
morte. |
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