NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

DEPOIS DA DERROTA

22/12/2007

 

Peço a atenção do meu caro leitor para os acontecimentos que se sucederam depois da grande derrota do governo Lula no Congresso, traduzida pelo fim da cobrança da CPMF. Em um primeiro momento os membros mais graduados do governo passaram a dar declarações bombásticas e terroristas sobre os efeitos da não arrecadação do tributo, anunciando uma espécie do fim dos tempos, especialmente na área de Saúde pública. Essa escalada verbal, a par de expressar o ressentimento dos derrotados, mostrava também um enorme desconforto dos militantes de esquerda com a ordem democrática. Como poderia essa nova minoria de senadores, um núcleo sólido de oposição civil ao PT que nunca tinha se formado, ter a capacidade de atrasar e atrapalhar a marcha para a implantação do “socialismo do século XXI”?

 

Não podemos esquecer que essa gente está convencida de sua ação messiânica e, como supostamente são o Bem, não podem admitir de forma alguma que alguém ouse se colocar como impeditivo de seu projeto político. É uma convicção moral torta, mas que lhe dá a cegueira intrínseca aos fanáticos. Em nenhum momento essa gente parou para refletir que suas convicções são falsas, que o que de fato lhe move é o desejo de poder pelo poder, que o discurso messiânico é mero enfeite na sua propaganda política, um mote conveniente para a sua ação de conquista e manutenção do poder. Essas pessoas, mesmo da alta hierarquia do governo e do partido, não se dão conta de suas próprias inconsistências.

 

Aí veio o segundo momento, em que eu suponho que o reduto menor e mais poderoso do partido se reuniu e fez a fria e correta avaliação dos fatos. Admitiram que foi uma dura derrota, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista ideológico, mas  o momento era de encaixar e aceitar os fatos, recuar um passo para avançar dois. Então não caberia mais que ministros e líderes continuassem com sua ladainha terrorista, passando recibo sobre a derrota. Foi aí que Lula mandou Guido Mantega se calar e deu o tom de transformar a derrota fragorosa em uma suposta vitória do governo e da democracia. Os meios de comunicações foram mobilizados para passar essa interpretação (a revista Veja especialmente prestou-se vexaminosamente a esse serviço sujo de desinformação na sua edição da semana passada). Se não é inteiramente falsa, é falsificada em relação às convicções partidárias e ao fato de que se tratou da mais dura derrota do governo.

 

Quem ditou esse pragmatismo a Lula e ao PT foi o calendário eleitoral. Qualquer medida de força contra o contribuinte e contra a vontade do Congresso nesse momento seria altamente perniciosa em termos eleitorais. O PT sabe que, se quiser finalizar a implantação do “socialismo do século XXI” por meio de voto terá que ganhar as próximas eleições, especialmente ganhar a prefeitura de São Paulo, território de onde foi banido há algum tempo. Depois da queda do avião da TAM, do caos aéreo, das declarações desastradas de sua melhor candidata, Marta Suplicy, com o seu insensível “relaxa e goza”, tudo que o governo Lula não pode fazer é afrontar a classe média paulistana. Prevaleceu o realismo político-eleitoral.

 

 

Ontem à noite cheguei a Brasília e do carro pude ver, na saída do aeroporto, antes do trevo belissimamente decorado com o presépio de Natal, um back light da CUT dizendo que “leilão é privatização”, conclamando suas hostes a ficarem contra, provavelmente referindo-se aos leilões para a prospecção de petróleo. Este é o verdadeiro PT, o monstro que está latente no ventre da peste, à espera do momento de emergir à luz feito um personagem dos filmes de ET que usam homens como hospedeiros para nutrir o monstro. A base do PT está ansiosa para implantar de um golpe a sua sonhada ordem integralmente socialista, restaurar por aqui o terreno perdido no Leste europeu. Mas a liderança é quem dá o tom, é quem faz o tempo e o modo de ação. Lula e seus generais decidiram aguardar as próximas eleições, encaixando a derrota. Não espero nenhum pacote fiscal que coloque a classe média contra os candidatos do PT.