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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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DECIFRANDO
LULA 13/01/2008 Duas entrevistas de duas das
maiores lideranças do PSDB – Fernando Henrique Cardoso e Arthur Virgílio –
publicadas, respectivamente, na revista Veja e na edição de hoje do Estadão, permitem ao analista político meditar sobre Lula
e o PT a partir do que pensam sobre eles seus opositores. Como políticos
profissionais e fiadores da nossa democracia os entrevistados comportam-se
como se o PT fosse um partido como outro qualquer e que a força das
instituições irá prevalecer, não havendo mais a hipótese de um eventual
terceiro mandato de Lula. Não quero aqui analisar as entrevistas, mas a nossa
conjuntura política e a sucessão presidencial usando o mote nelas contido. Em certa altura da entrevista
FHC afirmou, comparando Lula com Hugo Chávez: “(Hugo
Chávez) ... conseguiu uma certa gravitação em torno de
sua figura, que vem da Nicarágua, Bolívia, Argentina, de Cuba. Isso complica
um pouco o jogo do Brasil. Mas Lula é uma liderança democrática. Não pode ser
outra coisa”. Ora, o próprio FHC alertava, por ocasião do congresso do
seu partido, o PSDB, sobre o caráter “nazista” do PT há bem poucos meses.
Será que Lula “não pode ser outra coisa”?
Quem garante isso? Quem impedirá que ele continue a ser uma metamorfose ambulante? Que não venha a
ter um eventual surto autoritário se se confirmar a impossibilidade institucional do terceiro mandato, com a
inevitável derrota de seu partido? O namoro do PT e de Lula com o modelo “bolivariano” não é de hoje. A entrevista de Arthur
Virgílio à Veja vai na mesma direção, usando um tom
mais arrogante de quem foi o grande artífice da derrota da prorrogação da
CPMF no Senado. Virgílio já se colocou como nome à sucessão presidencial. “Os petistas, desesperados com a
perspectiva de deixar o poder, alimentavam a fantasia de mudar a Constituição para permitir que Lula
se candidatasse ao terceiro mandato. Foi uma demonstração nítida para o
presidente Lula e seus áulicos de que o Congresso não compactua com essas
loucuras. O assunto está encerrado, e o país vai marchar para o pleito de
2010 em plena normalidade e com respeito às regras vigentes”. Certo, o PT e Lula têm três
fraquezas congênitas. A primeira, jamais conseguiram
uma maioria qualificada e ideológica no Congresso Nacional e essa falta de
votos é particularmente notável no Senado Federal. É isso que tem garantido a
estabilidade institucional do Brasil, do contrário a Constituição já teria
sido modificada para atender aos projetos inconfessos dos petistas. A
segunda, o fato de o PT não estar governando nenhum dos estados mais
relevantes da Federação, especialmente São Paulo, Minas Gerais, Rio de
Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Notadamente a falta de um petista no
governo paulista mostra-se uma fraqueza enorme do ponto de vista estratégico.
E, em terceiro lugar, a neutralidade “agressiva” das Forças Armadas, tratadas
desde sempre pelos petistas como suas inimigas. O projeto revolucionário do
PT só não progrediu mais em face dessa dura fraqueza política, que tem
amansado o discurso e a ação de suas lideranças. O problema que vejo são os
compromissos históricos do PT e sua veia leninista, sempre a vista. Quando
visitamos o site do partido (www.pt.org.br) fica claro para quem quer ver
a sua moldura de partido de vanguarda revolucionária, com as suas múltiplas
secretarias voltadas para formação política, organização, mobilização,
movimentos populares e relações internacionais. Claro aqui nesta última o elo
com o Foro de São Paulo e os partidos leninistas mundo a fora. O PT não é um
partido voltado apenas para campanhas eleitorais, mas sim, para a tomada do
poder, seja lá como for. Ele quer se infiltrar em tudo dentro do Estado e da
sociedade. Embora tenha logrado grande êxito nessa empreitada, ainda não está
forte o suficiente para reclamar para si a representação exclusiva na esfera
política, daí sua mansidão na prática do jogo democrático até agora. O ponto é que chegar à
Presidência da República foi o maior feito político do PT, que vem a ser o
legítimo sucessor – e muito melhor sucedido – do antigo Partido Comunista
Brasileiro - PCB. O PT propositadamente não define o que entende por socialismo, precisamente porque
defini-lo seria a declaração de suas (más) intenções revolucionárias. Uma
ambigüidade conveniente. Por isso é preciso suspeitar dos dirigentes do
partido e mesmo de Lula. Entendo que poderão não querer entregar facilmente o
poder, ainda que venham a perder de forma legítima a disputa eleitoral de
2010. Se as principais lideranças da oposição estão descansadas quanto a
isso, eu não estou. Por que o PT tem força justamente onde a
oposição é fraca: na capacidade de
mobilização, no controle dos sindicatos, na ligação com ramificações do crime
organizado, na relação com as forças subversivas em ação no Continente
Sul-americano. O PT, se quiser, pára o Brasil e tumultua a vida cotidiana de
maneira fulminante. É claro que não é tático fazer isso, mas eles podem fazer isso e esse é o fato
politicamente relevante. Não creio que a discussão
sobre a sucessão presidencial esteja encerrada. Quero aguardar os próximos
passos dos dirigentes do PT. Uma eventual crise internacional pode vir a
calhar para reforçar o mote continuísta e esta
crise está chegando, juntamente com a crise energética. É esperar para ver. |
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