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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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DÉCADA
PERDIDA 29 de dezembro de 2009 “Ainda que eu caminhe por um vale
tenebroso, nenhum
mal temerei, pois estás junto de mim; teu bastão e teu cajado me
deixam tranqüilo”. Salmo 23 Tempo de
balanço, fim de década, fim de um ciclo. Para mim uma década perdida, no
sentido material, mas no sentido espiritual muito ao contrário. Se nos anos
noventa conheci o meu zênite, posso dizer que no último decênio conheci o meu
ocaso, o meu nadir. Mergulhei no abismo, como Nietzsche narrou de seu
Zaratustra, depois de dez anos gloriosos. Tive que olhar nos olhos o lado escuro da força e carregar um
cadáver às costas para enterrar em um oco de árvore qualquer, o meu próprio. Pelos
vales tenebrosos caminhei. Um cão medonho me fez companhia, que nenhum passeio
no Tártaro se pode fazer sem que o Cão nos mande o seu representante. Paradoxalmente,
me elevei ao fazer o meu mergulho no vale das sombras. Para começo de
conversa, jamais perdi a conexão com Deus e sempre e sempre o sangue vertido
por Nosso Senhor Jesus Cristo me protegeu, assim como o manto sagrado de
Maria. Não julgue, caro leitor, que isso é mera retórica.
É um fato. E eu nada fiz para ter a dádiva, diga-se, foi-me dada pela graça
de Deus, que eu nada mereço. Quis o bom Deus que eu sobrevivesse a tudo,
apesar de tudo. Para falar nos termos poéticos de Bob Dylan, bati nas portas do céu, tendo antes
descido aos infernos. Uma experiência e tanto para se contar, embora possa
parecer a um incrédulo uma história literária. Quem me dera! Deixei no
caminho as dores e as lascas do meu couro, que endureceu com as cicatrizes.
Só espero que o período que agora se abre eu possa
novamente trilhar, como Dante, o caminho da elevação e que, ao final, possa
de novo voltar-me para a Luz. Beatriz já está comigo, com outro nome, doce
nome. Dez anos de mergulho na floresta escura é o bastante para mim. Aprender
é sobreviver de forma consciente. Não se aprende, a não ser por puro impulso pavloviano (que não é verdadeiro aprendizado), se não
sabemos de onde vem a dor e porque ela vem. Eu sei da minha dor porque sei
como gira a minha Roda da Fortuna. “Mãe,
guarde esses revólveres para mim”, poderia eu dizer para minha mãe, se
ela fosse viva. Estou cansado de guerra e de derrotas. Mas não estou cansado
nem da vida e nem do bom combate. “Mãe!
Tire o distintivo de mim”. Bem sei que ela não pode fazê-lo, porque o
tempo de maiores combates virá, na verdade já chegou. O distintivo é feito
tatuagem, irremovível. Precisei primeiro enfrentar o dragão interior para
emergir e se o bom Deus quis assim é porque outros combates,
agora no mundo exterior, terei eu que combater. (Ouço a voz fanhosa de
Bob Dylan, batendo na porta do céu). Filme da
década? Claro, a trilogia Matrix, de longe o grande
filme. Certo que temos a obra de Clint Eastwood e outros grandes, mas nada se
compara à aventura de Neo. Seriado? Roma, da HBO, sem dúvida. A mais perfeita
reprodução de César já feita. O personagem Voreno
encarna o guerreiro romano como sempre imaginei. Livro? Bem, fico com o
Quixote, de Cervantes. Alguém dirá que não é da década. É, sim, é um livro para
todo o século XXI, como ensinou Vargas Llosa. Se não é o livro para a
multidão, é para mim. Junto com o livro de Guimarães Rosa, Grande Sertão,
Veredas. Reli-o muitas vezes. Estão ali as minhas raízes, o meu pai, a minha
mãe, eu mesmo. Toda a minha aventura, a minha alma brasileira. É o grande
romance brasileiro, que honra Cervantes. Elejo-os. No
cinema brasileiro tenho que citar Tropa de Elite. Capitão Nascimento é o novo
capitão do mato, o novo bandeirante que dormita em cada um de nós que está
ansioso por restabelecer a ordem perdida para a malta niilista que tomou o
poder. Bela história, grande atuação de Wagner Moura. Na crônica, João Ubaldo
Ribeiro. Sem seu humor dominical eu teria ficado mais triste e infeliz. Sem
seus ricos personagens da Ilha de Itaparica a política medonha dos podres
poderes teria ficado impune. João Ubaldo vinga-nos a todos nós com a sua fina
ironia, sua implacável elegância. Que se
vá logo esse tempo sombrio dominado pelas massas e pelos idiotas por elas
eleitos, como o apedeuta Lula. Que se vá logo! Não
vejo a hora de raiar o Ano Novo, um grande dia.
Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! |
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