NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

CRISE DE CONFIANÇA

03/01/2009

 

Uma amiga minha, sem formação econômica, quedou-se espantada ao eu lhe dizer que a maior potência econômica do mundo, os EUA, não tem reserva monetária nenhuma e que vive de emitir moeda e títulos de crédito, aceitos pelo resto do mundo. Os leigos em economia tendem a achar que os EUA teriam “dinheiro”, alguma reserva física sólida que justifique a sua força financeira.

 

O fato é que o dólar é o meio de pagamento internacional e a reserva de valor do mundo, assentado que está em duas fundações. A primeira é a força econômica e militar dos EUA, que deu o elemento fundamental para que sua moeda nacional seja aceita pelo resto do mundo: a confiança. Em última análise, é a confiança que dá a base real para que os EUA façam o que têm feito nas últimas décadas, que é emitir dinheiro sem lastro algum praticamente em escala ilimitada, boa parte dessa emissão tornando-se posteriormente dívida pública a financiar os déficits do Estado. Aquele país está severamente endividado.

 

É essa coisa imensurável e fluida chamada confiança que dá a supremacia dos EUA no mundo financeiro. E é precisamente ela que está sendo erodida pela heterodoxia da elite governante daquele país, formada por gente notavelmente irresponsável. Vimos recentemente um paradoxo interessante, pois ao estourar a crise, a partir de setembro último, mesmo com a trilionária emissão adicional de dólar ainda assim registrou-se apreciação dessa moeda em relação às demais moedas. Considerando que os juros da dívida pública estão próximos de zero, vimos que as pessoas preferem ter rendimento nenhum a correr riscos desnecessários, em meio às incertezas da crise.

 

Esta, todavia, é uma situação transitória que pode não se manter, se a irresponsabilidade dos governantes for mantida.  No momento em que houver uma primeira crise de confiança – um movimento especulativo contra o dólar – a lona do circo pode desabar por conta da quebra do mastro principal. Esse será o momento decisivo da crise econômica ora em curso. Os investidores do mundo estão desconfortáveis com a gestão monetária dos EUA, mas confiam ainda menos nos demais países, nominalmente a União Européia, a China, a Rússia e o Japão. Países como o Brasil não contam nesse jogo, em face das irresponsabilidades pretéritas (e atuais) na gestão de sua moeda. Nem seus próprios cidadãos confiam nos seus governos e nas suas moedas, de modo que sempre preferirão fazer hedge em moedas de outras nacionalidades. É nisso que tem residido a força do dólar.

 

A quebra da confiança nesta moeda será o turning point, o momento em que se atravessará a ponte, para em seguida explodi-la. Não haverá mais retorno. O mundo, sem um porto seguro para investimentos financeiros e desprovido de uma moeda confiável, terá o processo de trocas mundiais ameaçado de interrupção, ao ponto de obrigar a um retorno a formas pretéritas de meio de pagamento, como o ouro. Aquilo que é talvez a maior conquista da economia contemporânea, a mundialização dos mercados, entrará em retrocesso. O significado disso é dramático: a depressão mundial.

 

Por isso que é vital observar os passos do Secretário do Tesouro dos EUA e do presidente do Federal Reserve (FED). Essa gente tem abusado da confiança que o resto do mundo (e os cidadãos americanos) depositam em suas ações. Para manter essa confiança teriam apenas que praticar a ortodoxia, respeitando as leis monetárias que foram descobertas há séculos. O papel do presidente eleito Barack Obama será decisivo para esse mister, mas temo que ele será o maior dos heterodoxos, fazendo de nosso Sarney o mais conservador dos gestores de moeda, em comparação consigo mesmo.

 

Lamentavelmente o que vemos é a heterodoxia prevalecer. Toda semana noticia-se bailouts, emissões, estatização de bancos, compra de títulos “venenosos”, subsídios a indústrias falidas. Nessa marcha a confiança vai desaparecer e, com ela, a chance dessa crise mundial ser minorada e superada rapidamente. Confiança é algo que, uma vez perdida, não se restabelecerá facilmente. Temo que estejamos próximos desse verdadeiro dia “D”, o Dia da Desconfiança mundial no dólar.