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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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CORRUPÇÃO
E REVOLUÇÃO 07 de dezembro de 2009 A entrevista
da psicóloga Sandra Jovchelovitch publicada na
edição de hoje da Folha de São Paulo é um convite à reflexão sobre os
acontecimentos recentes da política brasileira. No centro a questão da
corrupção política. A psicóloga cometeu erros de avaliação que quero aqui
sublinhar, bem como não se deu conta do problema real nacional no campo da
política. Falar de
“brasileiro” em geral é sempre algo problemático e, como toda generalização,
comete injustiças e escorrega em imprecisão. Vejamos o que declarou a
psicóloga: “A corrupção no Brasil é um problema
sistêmico. Ela se alicerça em avatares muito
profundos da nossa cultura, o que explica a recorrência dos escândalos e a
nossa incapacidade histórica em lidar institucionalmente com eles. Isso está
vinculado a uma autointerpretação do brasileiro de
que nós somos um povo corrupto, de que a corrupção está na constituição do
nosso corpo político e social”. Quais são os
fatos? Os fatos são que a corrupção política (ela sempre fala como se a
corrupção política fosse a corrupção por
antonomásia, o que considero um erro) é inerente à condição humana [Lembro-me
aqui de um fato. Quando foi lançado o filme À ESPERA DE UM MILAGRE fui ler o
livro homônimo de Stephen King, que deu base ao roteiro. Lá pelas tantas o
personagem afirma que para fornecer ao governo dos EUA é preciso pagar 10% de
comissão. Lá como cá.]. A corrupção não é atributo nacional exclusivo. O
poder é sempre corrupção e a única forma de minimizá-la é reduzindo o Estado,
separando o mais possível o poder econômico do poder político. Para entender
os níveis de corrupção vigentes a autora teria que sublinhar que o Brasil
está mergulhado no processo revolucionário, que consiste basicamente em viver
dentro de uma realidade fantasmagórica – uma Segunda Realidade – em que o
poder de Estado é suposto capaz de tudo, inclusive de alcançar a
perfectibilidade do homem em vida. Essa distorção revolucionária é duplamente
a fonte da elevação a níveis intoleráveis da corrupção: pela promessa falsa
de alcançar a perfeição e pelos meios empregados, já que os revolucionários
justificam todos os meios de corrupção para alcançar a beatitude final da
sociedade socialista. Vimos isso em toda parte onde a revolução ocorreu.
Desde a entrega do poder pelos militares, período em que a corrupção era
notavelmente menor, estamos vendo o descenso
inexorável das práticas políticas, a corrupção moral em larga escala, culminando
com a compra de votos pura e simples, mediante bolsas estatais. O mecanismo
de cativar as multidões com benesses crescentes, à revelia do livre mercado e
da lei da escassez, é a corrupção que tangencia o espiritual e é esta a base
pela qual se move a estrutura de poder petista. Acontece que as massas são
sempre insaciáveis e cativá-las implica cativar vícios de difícil erradicação,
como a preguiça. Os meios de existência não caem do céu, mas os
revolucionários insistem que esses podem ser obtidos pelo concurso
benevolente do poder público, desde que este esteja sob seu controle. O que o PT
está fazendo é a fusão integral entre o poder econômico e o poder político,
uma notável reprodução da fórmula nazista e comunista. Para tanto, abraçou
todas as bandeiras corruptas em si, como a climática (coloca o homem a
serviço da natureza, contra a realidade contrária), a de raças (no Brasil não
há racismo, mas fusão de raças), de sexo, de classe. Junto a
promessa de que o governo tem o poder de resolver todos os problemas. Infelizmente, a autora não tem uma palavra
sobre esse quadro amplo que se desenrola. Penso até que ela não se deu conta
dele, estando inconsciente do processo revolucionário em curso, que é a “mãe de toda a corrupção”. Ela declarou:
“No Brasil, em geral, há uma
reafirmação de um fatalismo: "a política é assim", ‘esses caras não
têm jeito’, ‘quem pode faz mesmo’. Aqui tem
outra confusão. Nunca foi tarefa do chamado homem comum zelar pelas virtudes
públicas. Elas sempre estiveram a cargo da elite que comanda o Estado. Ocorre
que a elite que comanda o processo revolucionário é sempre uma elite
criminosa, que faz do crime instrumento para a tomada do poder. Normalmente o
homem comum pratica os valores conservadores tradicionais e, “caindo em
erro”, tem à sua espera o sistema judicial. Com a elite, ela própria moldando
o processo judicial e policial, a coisa corre diferente. É a corrupção da
própria lei e do aparato judicial. O caso do governador José Roberto Arruda,
analisado na entrevista, não pode ser percebido sem ter esse pano de fundo
geral de caráter revolucionário. O que é uma prática tradicional do regime
patrimonialista foi usado pelos revolucionários para a destruição dos
políticos envolvidos. Os homens que controlam a Justiça e a Polícia Federal
são corruptos muitos maiores, que usam de seu poder de Estado, dos valores
dos bons costumes ainda reconhecidos como desculpa e da sofisticação técnica
de espionagem apenas para alcançar o poder. Nada mais, nenhum compromisso com
as virtudes. Não se dar conta de que essa natureza de corrupção é mais séria
e mais grave – e ainda mais perigosa – do que a corrupção do estilo praticado
por José Roberto Arruda é cegueira atroz.
Nem poderia
ser diferente, pois a autora se baseia em referencial teórico aparentado com
aquele usado pelos revolucionários: “A
criminalidade é uma patologia social que tem origem, de certa forma, nas
desigualdades da nossa sociedade. A psicologia clássica descreve a relação do
criminoso com o espaço público exatamente como eu estava descrevendo a
relação do político que rouba com a esfera pública: ausência de investimento
no coletivo, no social. A dinâmica do psicopata é de não sentir culpa, não se
sentir responsável. E essa dinâmica é muito semelhante à da corrupção na
esfera política. O mantra da
desigualdade, o mantra mentiroso que vem desde Rousseau, está na boca da
psicóloga. Ela não poderia compreender o que se passa sem se afastar do
genebrino. É ela também escrava do coletivismo, como o são os revolucionários
petistas. Ela não dispõe de meios teóricos capazes para descrever a realidade
que se propôs a comentar. Por isso não tem respostas, tateia e falseia os
fatos. Escapar do discurso coletivista é o primeiro passo para apreender o
real. A origem da patologia social é precisamente o mergulho na Segunda
Realidade revolucionária, na qual a própria psicóloga está imersa. Não tem
como enxergar o real. |
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