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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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CNBB - A
IGREJA ENGAJADA 04/05/2003 “... todo infortúnio, inclusive os das
palavras, que é eminentemente o nosso, é ainda assim uma desgraça livre o
bastante para ensinar-nos a escapar por entre as malhas infernais da Dama
Idéia. E o afortunado que tiver juízo, ao ver-se em fim do outro lado, irá
logo encontrar-se com o mundo como tal, que é onde vivem o real e tudo o que,
não sendo dela, da veneranda Dama, só pode ser de Deus”. Bruno
Tolentino 1- Introdução É certo que o século XX trouxe
profundas transformações para a sociedade brasileira, que afetaram de forma
decisiva a ação da Igreja Católica no Brasil. A pesquisa histórica ainda está
insipiente para produzir um quadro explicativo definitivo para o que se
passou no interior da Igreja, mas podemos dizer que essas mudanças parecem
representar um certo desconcerto da hierarquia católica diante do processo de
urbanização, que foi acompanhado por forte aumento nos níveis de
alfabetização e tornou o país mais permeável às influências estrangeiras,
seja do ponto de vista econômico, social ou político. No contexto internacional
vimos a emergência e a derrocada do nazismo, do fascismo e do comunismo
soviético. Na segunda metade do século, a Guerra Fria teve poderosa
influência geopolítica e, na América Latina, Brasil inclusive, tivemos o
ciclo de governos autoritários, com apoio dos Estados Unidos da América, em
resposta à agressão comunista e, em especial, ao perigo da exportação da
revolução cubana. Não se pode esquecer que o caldo de cultura da expansão
dessas ideologias coletivistas deu-se dentro do relativismo moral, que afetou
profundamente as crenças das pessoas . Do ponto de vista
institucional, foi marcante a criação, em 1952, da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil – CNBB, órgão colegiado do episcopado que funciona como uma
estrutura de poder da Igreja no Brasil, que mais das vezes chocou-se com a
Santa Sé, seja em termos de doutrina, seja em termos de ação política. A CNBB
significou uma mudança de postura política radicalmente diferente da Igreja
no Brasil: serviu de instrumento para o crescente aparelhamento das
instâncias eclesiásticas pelos prelados de esquerda, a ponto de fazer surgir
a chamada teologia da libertação, que outra coisa não é que não uma leitura
marxista dos textos da Bíblia. No campo da filosofia, que
delineou, do ponto de vista teórico, esse novo evangelho de esquerda,
destacou-se a figura do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, que formou
gerações de lideranças políticas, desde os tempos do movimento Ação Católica
nos anos sessenta, balizando toda a ação da Igreja no campo político da
esquerda nos anos subseqüentes, culminando com a eleição de Lula para a
Presidência da República. No campo da assim chamada
teologia da libertação, o Brasil produziu vários autores de destaque, dentro
os quais sobressai-se o frei Leonardo Boff, hoje afastado da Igreja em
virtude dos seus radicalismos marxistas. Para tentar entender o
quebra-cabeças que é a ação política da Igreja no Brasil, ao longo desse
texto serão comentados vários artigos e documentos que estão inseridos no
sítio da CNBB (www.cnbb.org.br), em virtude da sua facilidade de acesso e da
sua atualidade, servindo adequadamente para se ter uma visão do que pensa a
alta hierarquia católica no Brasil, o que equivale a dizer, toda a Igreja em
nosso país. Espera-se que os textos escolhidos para comentários sejam os mais
adequados para dar uma visão panorâmica do pensamento da CNBB. II – Alguns Fatos Históricos Uma das conseqüências da ação
política da CNBB foi a criação da Juventude Universitária Católica – JUC, no
final dos anos cinqüenta, organização que definhou mas que deixou frutos
duradouros, como a Ação Popular – AP, organização que forneceu quadros de
liderança para a luta armada que se desenvolveu a partir dos anos sessenta e
que também gerou os principais quadros que seguiriam na liderança de
esquerda, até a composição do governo Lula. Podemos ler em Tibúrcio e Miranda
: “A AP surgiu dos quadros da
Juventude Universitária Católica (JUC), em 1963. Em 1968, assumiu uma
variante maoísta no campo do marxismo, e, em 1971, defendeu a união de todas
as correntes marxistas-leninistas. No mesmo ano, a
maioria da organização fundiu-se com o PC do B, e os que ficaram passaram a
denominá-la de APML (Ação Popular Marxista-Leninista)”. As chamadas Comunidades
Eclesiais de Base – CEBs, tornaram-se verdadeiro
instrumento de sovietização da Igreja, com
penetração em quase todas as paróquias e militância nos movimentos sociais
mais significativos. Com o Ato Institucional nº 5,
várias lideranças radicalizaram e recrutaram os seus quadros no meio católico
onde a CEBs estavam estruturadas. A partir dos anos oitenta, com
a entrada em cena do Papa João Paulo II, houve uma tentativa de Roma de
disciplinar a Igreja no Brasil. Várias figuras importantes, como Paulo
Evaristo Arns, foram jubiladas por idade e substituídos por prelados mais
afinados com o Papa. Várias reformas foram feitas no tamanho das dioceses,
entre elas a de São Paulo, com o objetivo de reduzir o poder da esquerda na
Igreja do Brasil. Como veremos, tal movimento foi ainda insuficiente para
mudar o quadro político dentro da Igreja. Em paralelo, durante toda a
segunda metade do século XX vimos a crescente penetração das igrejas
evangélicas, sejam as tradicionais, sejam as pentecostais, sejam as
neo-pentecostais no meio católico brasileiro. Esse fato comprova
estatisticamente que a resposta católica aos anseios espirituais dos
brasileiros ficou insatisfatória, espaço que foi crescentemente ocupado pelas
igrejas concorrentes cristãs. 3- A Análise de Conjuntura de
Fevereiro de 2000 O texto da Análise de
Conjuntura da CNBB, datado de fevereiro de 2001, é emblemático para entender
os conflitos hamletianos envolvendo o governo Lula
e a própria CNBB. Vejamos os seguintes trechos: “Cumprindo o que fora acordado
com o Fundo Monetário Internacional, a União obteve um superávit primário de
R$30.600 milhões. Incluindo-se o resultado dos Estados e municípios, o
superávit chegou R$38.200 milhões, ultrapassando em R$1.400 milhões a meta
estabelecida. Isso significa que o Governo ficou com todo esse montante para
o pagamento de juros, encargos e amortizações das dívidas interna e
externa...Esses números revelam o custo humano do superávit primário, que
permite ao Brasil continuar tomando empréstimos no mercado e gozando da
(relativa) confiança dos credores. O sacrifício da população que paga mais
impostos porque não são corrigidos pela inflação e deixa de beneficiar-se com
os investimentos e gastos públicos na área social, não permitiu cobrir sequer
a metade do serviço das dívidas interna e externa. Fica clara a prioridade
conferida aos recursos públicos para a área fiscal (pagar aos credores) e não
ao crescimento econômico e ao atendimento dos setores desprotegidos da
sociedade. Recoloca-se então a questão do círculo vicioso do endividamento
público: apesar da extraordinária economia realizada na execução do Orçamento
de Esse discurso supostamente
oposicionista elegeu Lula. Qual a surpresa que, Lula lá, aquela política não
apenas foi mantida, como foi acentuada. O superávit fiscal cresceu e a taxa
de juros subiu. A verdade nua e crua é que não há alternativa a essa política
dentro dos marcos estabelecidos pela estrutura de forças que sustenta o
governo. A única alternativa é a aplicação do liberalismo econômico, mediante
a redução do Estado, coisa que Lula jamais faria e a CNBB sempre exorcizou,
pelo lado da receita e da despesa. Haveria que contrariar profundos
interesses estabelecidos. O que restará para a Igreja
vermelha e para os “verdadeiros” militantes de esquerda? O nada, o vazio de
quem descobriu que seu discurso não pode ser posto em prática, que mentiram
para si mesmos e para os outros o tempo todo, que suas análises são expressão
de primitivismo cientifico aplicado à economia. É possível que parte da
Igreja volte aos cânones papais, ao bom caminho, mas também é possível que
parte de seus militantes radicalize para opções revolucionárias leninistas.
São os escravos da Dama Idéia de que nos fala Bruno Tolentino em seu último
livro . É uma questão em aberto. Aliás, o mesmo vale para todos os militantes
de esquerda desiludidos com Lula Lá. O problema é que essa é a real
base de apoio de Lula, a mais sólida e a mais antiga. A Igreja Católica
praticamente gestou Lula como político. Ora, se
perder essa base, que pode lhe fazer uma oposição barulhenta, a sua condição
de governabilidade pode ficar comprometida. Lula e sua troupe estão entre a
cruz e a caldeirinha, para usar uma expressão típica das sociedades
católicas. O contorcionismo verbal ininteligível, que
tem sido a marca dos seus discursos, é uma arma fraca para o duelo de idéias
que se avizinha. 4- A Análise de Conjunta de
Maio de 2000 A Análise de Conjuntura da
CNBB, datada de 03 de maio de 2000 e apresentado a 38º Assembléia Geral da
instituição, teve por título “Brasil 500 Anos – Diálogo e Esperança”. O texto
teve revisão de Roma, daí o tom relativamente moderado que perpassa a redação
final, dada a público. Ele, todavia, se presta a uma reflexão sobre o que
pensa a própria Igreja Católica do Brasil sobre si mesma. No parágrafo 5, podemos ler:
“Nosso diálogo terá como tema um olhar sobre o passado, que nos permita
reconhecer feridas e cicatrizes que ele deixou, para buscar caminhos de
reconciliação e consenso no presente e discernir nossas responsabilidades e
compromissos com o futuro”. Na seqüência, faz uma
periodização da história da Igreja no Brasil, tomando como marco a sua
relação com o poder político. Do período colonial até a proclamação da
República, a unidade entre o Estado e a Igreja; Depois da República, a
unidade Estado-Igreja teria sido substituída pela
unidade Igreja-povo (sic); E, finalmente, no período recente, especialmente
depois do governo militar, a Igreja colocando-se contra o poder constituído. No parágrafo 21 vem a
esparrela de um pedido de perdão fora de foco, envergonhado e despropositado,
como podemos ler: “Não obstante muitos aspectos positivos do passado, ficaram
marcas negativas, fruto também dos erros cristãos (!). Sem pretender culpar
nossos antepassados, sentimos a necessidade de pedir perdão daquilo que
objetivamente foi contra o Evangelho e feriu gravemente a dignidade humana e muitos irmãos e irmãs
nossos. Aos índios foram tiradas as terras, a vida e até mesmo a razão de viver.
Dos negros foi violentada a liberdade e a eles foi dificultada a conservação
de sua cultura e memória, e até hoje, não lhes foi restituída a condição de
cidadania plena”. Ora, o que vemos aqui é a
Igreja Católica brasileira culpar-se por ter pregado o Evangelho e ter
convertido os não europeus ao catolicismo. Haverá, pergunto eu, algum outro
sentido para a existência da Igreja que não a Evangelização? Os bispos haveriam que repetir, com Paulo
Apóstolo, que não se envergonham do Evangelho de Cristo. Não há que
subordinar uma suposta razão ecumênica à missão evangelizadora. Se há um
sentido no Cristianismo, este é um só: é o sentido de civilização, ao qual
culturas neolíticas não podem, em hipótese alguma, ser comparadas. Dizer que terras foram
retiradas dos índios é um absurdo, na medida em que sequer existia o sentido
de propriedade. Teria sido ético deixar a multidão de índios nas trevas da
ignorância? Claro que não. E a assimilação cultural e racial, pela
miscigenação, de forma alguma pode ser equiparada a genocídio. Esse é o
grande legado que a colonização portuguesa nos deixou, uma nação única, que
tem no mestiço a sua base social. Mas esse mote é excelente gancho para gerar
palavras de ordem contra o capitalismo, negando a realidade imediata que se
dá. A questão da escravidão negra
não pode ser deslocada de seu contexto histórico. A humanidade daqueles
tempos era assim e o processo de escravidão começava nos costumes existentes
na própria África. É preciso entender que a própria libertação dos escravos
foi produto da ética cristã. Deslocar os fatos históricos para serem
mimetizados pelos valores vigentes hoje é uma violência e um método
inaceitável de análise. Infelizmente, a Igreja tem feito coro com uma visão
errônea da questão racial no Brasil, politizando perigosamente uma questão de
forma inteiramente desfocada de seu contexto. A
miscigenação brasileira é uma realidade. No catolicismo temos a
politização de tudo, a substituição do pecador, digno da salvação no Além e a
única razão de ser da encarnação do Verbo, pelo pobre, cuja salvação os
padres marxistas querem ainda nesse mundo, através da política. Pobre não
pode ser confundido com pecador e vice-versa. Ao abraçar o evangelho satânico
do marxismo, a Igreja Católica simplesmente deixou de cumprir a sua função
primordial. Não posso deixar de notar aqui o eco nostálgico da Igreja que era
Estado e quer tornar a sê-lo novamente, ainda que por vias revolucionárias. O restante do texto, como era
de se esperar, só fala no governo autoritário, em ações estatais, em
corrupção governamental, em pregação política e coisas do gênero. Claro que
não esqueceram nem da dívida interna, da dívida externa e nem da
globalização, como se isso tivesse alguma relevância espiritual. Não é à toa
que o rebanho decresce. Esses discursos podem ter elegido Lula Lá, mas
certamente minou a força espiritual da Igreja. A política muda como o vento e
a mensagem de Cristo é permanente. O maior não pode estar a reboque no menor.
Lamentavelmente, a alta hierarquia da Igreja Católica escolheu o caminho
errado. 5- A Análise do 11 de Setembro Os dois documentos relativos a
setembro e a outubro de 2001 debruçam-se sobre a conjuntura internacional,
com foco nos acontecimentos de 11 de setembro nos EUA. É impressionante o que
escreveram: "O atentado ocorre num
momento delicado nas relações econômicas e políticas dos EUA com o resto do
mundo. O País já estava vivendo o início de uma forte desaceleração no seu
crescimento econômico (havia quem previsse uma recessão, com graves
conseqüências para a economia mundial) e seu presidente vinha tomando medidas
politicamente desastrosas (como a rejeição do acordo de Kyoto,
a permissão para exploração do petróleo em reserva ecológica no Alasca, o
abandono da reunião da ONU contra o racismo, na África do Sul, e a conivência
com a repressão israelense à intifada). Se o
contexto global fosse diferente, e os EUA estivessem em posição politicamente
confortável, o atentado certamente seria absorvido como foram os muitos atos
terroristas do século XX. Mas a percepção unânime é que não se trata de um
gesto tresloucado de algum grupo fanático, e sim de uma virada na história
dos EUA. De uma hora para outra, vieram à tona os seus crimes contra a
Humanidade (talvez a charge mais expressiva seja a montagem da célebre foto
de crianças vietnamitas atingidas por napalm correndo por Nova Iorque, tendo
ao fundo os escombros do WTC). Também foram lembrados seus ataques ao Iraque,
as bombas sobre Hiroshima e Nagazaki, seu apoio ao
terrorismo contra governos adversos e as intervenções em países caribenhos e
latino-americanos para a instalação de governos títeres. Nesse contexto, o
episódio soa como um sinal de fim do império e início de uma era de
incertezas e agressividade descontrolada. Será esta a marca do século que
agora começa?" (Grifo meu) Essa análise é de uma
impiedade muito pouco cristã. Justifica os atentados dentro de uma de uma
lógica ao mesmo tempo vingadora dos supostos pecados dos EUA e responsabiliza
a vítima pelo seu próprio sofrimento, da mesma forma com que os intelectuais
engajados do mundo inteiro o fizeram. E não dá para não perceber o tom
comemorativo e de aprovação que o texto confere aos autores daquele crime
hediondo. E, na verdade, não obstante os
seus erros pontuais, o mundo deve aos EUA diretamente a sua liberdade e a
longa prosperidade que conheceu desde 1945, pois foi a nação vencedora das
hostes do nazismo e do comunismo, que ameaçavam a todos, mas em especial o
Ocidente, isto é, a tradição cristã. Não fosse a generosidade dos vencedores
a realidade teria sido bem outra. Não reconhecer essas verdades é ser
conivente com a mentira, algo bem pouco cristão. O que veio a tona de uma hora
para outra com os atentados não foram os supostos pecados daquele País, mas o
ódio que multidões nutrem por ele, motivadas Deus sabe porque. O espantoso é
que tal ódio seja veiculado em um site supostamente dedicado a tratar da paz
de Cristo e da Justiça Divina, sob a bênção da mais alta hierarquia católica. Os textos de outubro mudam o
tema mas não mudam o foco. A ladainha é contra a ordem neoliberal, que
supostamente traz o sofrimento ao mundo. Um dos textos destila uma visão
conspiratória dos EUA e do capital financeiros contra os países pobres,
supondo que eles querem o pior para esses últimos. Uma análise assaz primária
das relações internacionais. A mensagem do Papa João Paulo
II para a comemoração do Dia Mundial da Paz (01/02/2002), intitulada “Não há
paz sem justiça; Não há justiça sem perdão”, é um documento exemplar da
postura da Santa Sé em relação aos acontecimentos de 11 de setembro. O
interessante é também compará-lo com a linha de análise dos fatos adotada
pela CNBB, na Análise de Conjuntura relativa ao mês de novembro. O abismo
entre ambas as posições é maior do que aquele que separa o Céu da Terra. A
seguir vou tentar comparar os textos. A mensagem do Papa tem um
caráter intimista, daí a sua leitura ser ainda mais excitante, tangenciando o
poético. E ele não usa de meias palavras para condenar os atentados: "Este ano o Dia Mundial
da Paz é celebrado tendo como pano de fundo os dramáticos acontecimentos do
passado dia 11 de Setembro. Naquele dia, foi perpetrado um crime de terrível
gravidade: em poucos minutos milhares de pessoas inocentes, de várias
procedências étnicas, foram horrorosamente massacradas. Desde então, por todo
o mundo as pessoas tomaram consciência, com nova intensidade, da sua
vulnerabilidade pessoal e começaram a olhar o futuro com um sentido, jamais
pressentido, de íntimo medo. Diante deste estado de ânimo, a Igreja deseja
dar testemunho da sua esperança, baseada na convicção de que o mal, o mysterium iniquitatis, não tem
a última palavra nas vicissitudes humanas. A história da salvação, delineada
na Sagrada Escritura, projeta uma grande luz sobre toda a história do mundo
ao mostrar como sobre ela vela sempre a solicitude misericordiosa e
providente de Deus, que conhece os caminhos para sensibilizar mesmo os
corações mais endurecidos e alcançar bons frutos mesmo de uma terra árida e
infecunda. Esta é a esperança que anima a Igreja no início do ano 2002: com a
graça de Deus este mundo, no qual as forças do mal parecem uma vez mais
triunfar, há-de realmente transformar-se num mundo
em que as aspirações mais nobres do coração humano poderão ser satisfeitas,
num mundo onde prevalecerá a verdadeira paz". Quanta diferença quando
comparamos com o que escreveram os analistas conjunturais da CNBB! Vejamos o
seu primeiro parágrafo: "A conjuntura continua
marcada pelo atentado terrorista do dia 11 de setembro e pela guerra contra o
movimento Taliban, do Afeganistão. À medida que
passa o tempo, vai ficando claro que aquele atentado condensou a sensação de
mal-estar mundial dos últimos anos. A guerra que se seguiu, desproporcional à
sua pretensa causa, só veio agravar esse mal-estar, como se a Humanidade no
seu todo estivesse febril". Em todo o texto do Papa vemos
a justa indignação com os atos terroristas perpetrados contra os EUA, não
havendo uma única palavra de condenação do Santo Padre contra as ações
militares no Afeganistão, ainda em andamento à época, até porque o Papa, em
momento anterior, já havia classificado a guerra como "justa". Já
os conjunturalistas da CNBB iniciam seu texto relativizando, afirmando com o acontecido em 11 de
setembro "condensou a sensação de mal-estar mundial nos últimos
anos", implicitamento colocando a ação
criminosa calculada e pensada como uma resposta a uma agressão anterior. Nada
mais falso. Além disso, condena de forma categórica ação dos EUA no
Afeganistão, em clara contradição com a visão do Sumo Pontífice. Eles acrescentam à sua
análise: "À medida que passa o tempo e continuam
as operações militares comandadas pelos EUA na Ásia Central, vai ficando
claro que esta guerra tem outros objetivos além do alegado combate a grupos
que adotam o terrorismo como estratégia política. Um desses objetivos é
assegurar aos países membros do G-7 o controle sobre as rotas de petróleo e
gás natural da Ásia Central e do mar Cáspio (cujas reservas serão a grande
alternativa para o Ocidente quando se esgotarem os recursos do Oriente Médio,
dentro de 20 anos no máximo). Outro objetivo, de importância estratégica, é a
presença militar nas vizinhanças da China (a potência emergente dos próximos
anos, já se preparando para ocupar o terceiro lugar na corrida espacial), da
Índia e da Rússia/Sibéria. Enfim, é preciso lembrar que a guerra aumenta os
investimentos na indústria bélica e dinamiza a economia estadunidense para
fazê-la sair da recessão que já a ameaçava antes mesmo de 11 de
setembro". Fica claro nesse trecho que os
analistas adotam uma visão conspiratória, tratando os EUA como agressores e
não como quem combate em ato de defesa, aí englobando o G-7. Como se países
como França não tivessem suas reservas contra os EUA e aquele colegiado fosse
um monolito. Na visão dos analistas, a mobilização
militar no Afeganistão não tem por objetivo destruir as bases terroristas,
mas fazer a guerra de conquista, em claro desacordo com a realidade dos
fatos. A paranóia vai além, sugerindo que o Ocidente precisaria de bases militares
adicionais por causa da China e da Rússia, como se ainda estivéssemos vivendo
a Guerra Fria e o comunismo não tivesse sido derrotado em O seguinte trecho é ainda mais
insípido: "A escolha do mundo
árabe-muçulmano como alvo de guerra, porém, pode ter efeitos explosivos no
médio prazo. Como já foi assinalado (Conjuntura de setembro), a opção pela
guerra provoca a radicalização de posições extremas e dificulta o
desenvolvimento de alternativas viáveis para a Justiça e a Paz mundial (como
as alternativas nascentes do Fórum Social Mundial). Vemos multiplicarem-se
medidas autoritárias contra pessoas suspeitas, principalmente nos EUA, onde o
governo Bush está fazendo lembrar o AI-5 da ditadura militar brasileira. A
recente vitória eleitoral da direita na Dinamarca parece ser um mau presságio
de agravamento da xenofobia e do endurecimento político do Ocidente. Os
problemas mundiais tendem a ser resolvidos pela força das armas e em favor
dos mais fortes sob o ponto de vista econômico e militar, uma vez que agora
mais que nunca é evidente a inter-relação entre segurança e economia.. A
aversão ao risco ganha maior peso como fator de decisão sobre os investimentos:
o Estado que não oferecer segurança aos investidores ficará prejudicado no
financiamento da sua economia". Os EUA escolheram os mundo
árabe-muçulmano como alvo? Foi exatamente o contrário, eles atacaram os EUA
de forma rapace e traiçoeira. Aqui os analistas conjunturais transformam o
agredido em agressor. E, como bons marxistas, colocam o drama como sendo
motivado por razões econômicas, quando toda a gente sabe que a motivação é de
outra natureza, está no ódio ancestral e tribal contra a modernidade, contra
a sociedade aberta, contra a libertação feminina e, podemos dizer, contra as
liberdades em geral do meio árabe. E as medidas de proteção contra os novos
prováveis atentados (quem esquece do terrorista do sapato tentou derrubar um
outro avião, uma forma de terrorismo que poderíamos chamar de pé-de-chinelo? É possível não ser previdente contra esses
dementes?) Quem tentou resolver os problemas mundiais pelas armas foram os
terroristas. E, que mal pergunte, o que tem a ver a segurança dos
investidores com os atos terroristas? Só marxistas cegos pela ideologia para
misturar alhos com bugalhos. É a Dama Idéia em
ação. Mas voltemos ao texto do Santo
Padre: "Os recentes
acontecimentos, com os terríveis fatos sangrentos aqui lembrados,
estimularam-me retomar uma reflexão que freqüentemente brota do mais íntimo
do meu coração, quando lembro os acontecimentos históricos que marcaram minha
vida, especialmente nos anos da minha juventude. Os indescritíveis
sofrimentos de povos e indivíduos, vários deles meus amigos e conhecidos,
causados pelos totalitarismos nazista e comunista, sempre interpelaram o meu
espírito e motivaram a minha oração. Muitas vezes me detive a refletir nesta
questão: qual é o caminho que leva ao pleno restabelecimento da ordem moral e
social tão barbaramente violada? A convicção a que cheguei, raciocinando e
confrontando com a Revelação bíblica, é que não se restabelece cabalmente a
ordem violada, senão conjugando mutuamente justiça e perdão. As colunas da
verdadeira paz são a justiça e aquela forma particular de amor que é o
perdão". Quanta diferença! Enquanto que
a CNBB emprega declaradamente a sociologia marxista para fazer o seu arremedo
de interpretação da realidade, o Papa usa a doutrina de cristã, prega o
Evangelho, a grandeza da justiça e do perdão. E vai além. Denuncia o
totalitarismo, inclusive o comunista, que é tão caro para uma parcela
importante do clero brasileiro. Continua o Papa: "Mas, nas circunstâncias
atuais, pode-se falar de justiça e, ao mesmo tempo, de perdão como fontes e
condições da paz? A minha resposta é que se pode e se deve falar, apesar da
dificuldade que o assunto traz consigo, e da tendência que há a conceber a
justiça e o perdão em termos alternativos. Mas o perdão opõe-se ao rancor e à
vingança, não à justiça. Na realidade, a verdadeira paz é « obra da justiça »
(Is 32, 17). Como afirmou o Concílio Vaticano II, a paz é « fruto da ordem
que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve ser
realizada pelos homens, sempre ansiosos por uma mais perfeita justiça » (Const. past. Gaudium et spes,
78). Há mais de quinze séculos que na Igreja Católica ressoa o ensinamento de
Agostinho de Hipona, segundo o qual a paz, a ser
conseguida com a colaboração de todos, consiste na tranquillitas
ordinis, na tranqüilidade da ordem (cf. De civitate Dei, 19, 13). Por isso, a verdadeira paz é fruto
da justiça, virtude moral e garantia legal que vela sobre o pleno respeito de
direitos e deveres e a eqüitativa distribuição de benefícios e encargos. Mas,
como a justiça humana é sempre frágil e imperfeita, porque exposta como tal
às limitações e aos egoísmos pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de
certa maneira completada com o perdão que cura as feridas e restabelece em
profundidade as relações humanas transtornadas. Isto vale tanto para as
tensões entre os indivíduos, como para as que se verificam em âmbito mais
alargado e mesmo as internacionais. O perdão não se opõe de modo algum à
justiça, porque não consiste em diferir as legítimas exigências de reparação
da ordem violada; mas visa sobretudo aquela plenitude de justiça que gera a
tranqüilidade da ordem, a qual é bem mais do que uma frágil e provisória
cessação das hostilidades, porque consiste na cura em profundidade das
feridas que sangram nos corações. Para tal cura, ambas, justiça e perdão, são
essenciais". Há, nesse trecho, apoio
implícito a ação dos EUA, que têm a missão de restabelecer a ordem quebrada,
o equilíbrio perdido. A tranqüilidade da ordem exige a ação da justiça, que
deve ser seguida da ação do perdão, tão bela e poeticamente aqui lembrado
pelo Santo Padre. Nada mais diferente do que a
pífia análise dos analistas conjunturais da CNBB. O Papa não usa de meias
palavras para condenar o terrorismo, como podemos ler no seguinte trecho: "É precisamente a paz
baseada na justiça e no perdão que, hoje, é atacada pelo terrorismo
internacional. Nestes últimos anos, especialmente após o fim da guerra fria,
o terrorismo transformou-se numa rede sofisticada de conluios políticos,
técnicos e econômicos, que ultrapassa as fronteiras nacionais e se estende
até abranger o mundo inteiro. Trata-se de verdadeiras organizações, dotadas
freqüentemente de enormes recursos financeiros, que elaboram estratégias em
vasta escala, atingindo pessoas inocentes, de forma alguma envolvidas nos
objetivos que se propõem os terroristas. Usando os seus mesmos sequazes como
armas para atingir pessoas incautas e indefesas, estas organizações
terroristas manifestam de modo assustador o instinto de morte que as
alimenta. O terrorismo nasce do ódio e gera isolamento, desconfiança e
retraimento. A violência atrai violência, numa trágica espiral que arrasta
também as novas gerações, herdando elas assim o ódio causador das divisões
precedentes. O terrorismo baseia-se no desprezo da vida do homem.
Precisamente por isso, dá origem não só a crimes intoleráveis, mas constitui
em si, enquanto recorre ao terror como estratégia política e econômica, um
verdadeiro crime contra a humanidade". E também não usa de meias
medidas para o seu combate: "Existe, portanto, um
direito a defender-se do terrorismo. É um direito que deve, como qualquer
outro, obedecer a regras morais e jurídicas na escolha quer dos objetivos
quer dos meios". Mais um claro apoio à ação
internacional que está em curso. O restante do texto continua explorando por
outros ângulos o mesmo tema, condenando o terrorismo e apoiando a ação
"justa" e o perdão. 6- A CNBB e o Fórum Social
Mundial A CNBB tornou-se porta-voz do
Fórum Social Mundial na Análise de Conjunta de fevereiro de 2002. Os
analistas conjunturais não se cansam de repetir os clichês desgastados que a
esquerda tem repetido onde pode, como se vê no trecho que segue, retirado
daquele documento: “O lema do Fórum “Um Outro
Mundo é possível” já propõe a superação do pensamento único no neoliberalismo
vigente por um processo de diversidade em todos os campos do saber e em todos
os níveis da vida humana: “o mundo do outro é possível”, estudaram os
psicólogos; “a economia solidária é possível”, disseram os economistas;
“outro tipo de justiça é possível” refletiram os juristas; “outra maneira de
integração na globalização é possível”, “no meio rural outra maneira é viver
é possível”. Em suma, “um mundo sem guerra é possível” desde que a paz seja
baseada na justiça e na solidariedade”. Um outro Mundo possível... Só
mesmo mentes tomadas pelo afã gnóstico de transformar a natureza humana para
repetir essa sandice. Onde o empreendimento foi tentado o que a História
registrou foi o caos demoníaco, a guerra, a fome, a escravidão. Todas as pragas
trazidas pelos cavaleiros do Apocalipse foram disseminadas pelos portadores
do lema que se propõe transformar o Mundo. Aqueles possuídos pelo fogo demiúrgico de fundadores de novos mundos são na verdade
os portadores do caos e da negação do Espírito. E, pior, onde se empreendeu a
construção de um Mundo Novo, a primeira coisa que se fez foi instituir o
ateísmo como credo oficial. As experiências socialistas radicais, como o
nazismo e o comunismo soviético, sempre tiveram como principal objetivo
destruir a fé cristã. Superação do pensamento
único... Ora, o pensamento único que se tem hoje é a idéia do socialismo. Até
mesmo a mensagem cristã, que deveria ser cara aos membros da Igreja, foi
deixada de lado para exaltar a mensagem revolucionária. O que se vê é que
mais valem as coisas desse Mundo do que a salvação da alma. Os Evangelhos
foram deixados de lado, a bíblia que vale mesmo é O Capital e a subliteratura
dele derivada. 7- A Análise de Abril de 2002 O documento dado ao público em
abril de 2002 é uma aula de deturpação da História e de aplicação das
técnicas gramscianas para a formação de
revolucionários, sem qualquer compromisso com a verdade dos fatos. Como de
costume, o documento passa ao largo de temas religiosos. Os analistas
conjunturais da CNBB só têm olhos para a pregação mundana da revolução. Para
piorar, o texto pode ser considerado um panfleto eleitoral em prol do Partido
dos Trabalhadores, então disputando a eleições gerais e o cargo de presidente
de República. O seguinte trecho é interessante:
“Portugal criou aqui uma classe de proprietários de terra e escravos, capaz
de comandar a produção de mercadorias (açúcar, ouro, café e outras) e assim
movimentar o comércio com a metrópole. Para isso, os povos indígenas foram
desestruturados enquanto nações, sendo incorporados à sociedade brasileira
apenas enquanto famílias ou indivíduos. Os africanos escravizados foram
submetidos a um processo ainda mais forte de desestruturação política,
social, familiar e cultural”. Os conjunturalistas
historiadores só esqueceram de dizer que Portugal foi o agente de
civilização, que conseguiu implantar nessas terras o Cristianismo católico
romano e que aquela era a única forma possível de ocupação econômica do
território. Se não fosse por Portugal, aqui nem haveria catolicismo, nem
CNBB, nem padres, ou seja, nem eles mesmos. A alternativa de deixar os
nativos como eles próprios se encontravam, assim como os africanos recém
chegados, não existia: o diferencial de cultura era tremendo, seja na
religião, seja nas técnicas, seja nas artes militares, seja no conhecimento
em geral. Os vencidos de guerra, à época, tanto na América como na África, só
com muita sorte eram escravizados, pois estavam sujeitos a serem mortos
sumariamente e mesmo devorados em rituais antropofágicos. É a civilização
européia, representada por Portugal, que tirará esses povos do tempo
neolítico, trazendo-os para a modernidade. Incorporá-los como famílias e
indivíduos era a única alternativa cristã, na medida em que os portugueses
estavam muito convictos de sua fé, o que não parece ser o caso dos padres
redatores das análises de conjuntura. Outro trecho: “A afirmação de
que essa estrutura social é um problema não resolvido desde a colônia, não
isenta, contudo, a atual elite no poder de sua responsabilidade. Este é o
discurso escapista de quem não admite mudanças
estruturais e atribui aos antepassados a culpa por uma ordem social injusta.
De fato, em pelo menos 3 momentos cruciais de nossa formação econômico-social
a elite jogou politicamente contra a justiça: em 1850, quando a Lei de Terras
substitui o regime das sesmarias pelo regime da compra de terras; em 1888,
quando a Lei Áurea abole o trabalho escravo e quando, no pós-guerra, a
industrialização e a urbanização pouco alteram os regimes agrários e de
trabalho. A estratégia sempre foi de evitar que a massa viesse a se tornar um
povo organizado, isto é, capaz de exercer a cidadania em igualdade de
direitos e deveres”. É próprio da ignorância
histórica caminhar para uma teoria conspiratória, aqui explicitada com todas
as letras. É como se uma minoria de macrocéfalos malfeitores tivesse
projetado fazer o mal para os mais pobres, o que não passa de delírio. A Lei
das Terras foi uma necessidade imposta para a criação do mercado de trabalho,
a única forma de organização social que permite a liberdade e a prosperidade
de todos. A abolição da escravatura era um imperativo de civilização, que de
fato tardou, sendo esse o único senão a colocar sobre a matéria. E, se há
algo a reparar no pós-guerra, é o fato de que jamais se conseguiu a
experiência de um mercado de trabalho livre, mas o seu contrário: passamos de
uma sociedade agrária escravocrata para outra regulamentada por leis
inspiradas no fascismo, que não passa de outro nome para experiência
coletivista, vale dizer, socialista. Depois de anatematizar a
globalização e os EUA, eles afirmam: “A conjuntura política de 2002 mantém-se
polarizada entre duas propostas radicais: a manutenção da atual política
econômica, e uma virada em seu eixo para resgatar as dívidas sociais num novo
pacto nacional. Visando o êxito eleitoral, contudo, os partidos buscam
abrandar suas propostas em direção a um meio-termo mais palatável tanto às
elites (a propalada aliança entre o PT e o PL), quanto para os setores médios
e populares, que repudiam a continuidade pura e simples do governo FHC”. Polarizada entre o vermelho e
o mais vermelho cor-de-sangue? Não havia
polarização alguma. Havia aqui os que têm sede de poder e aqueles que têm
mais sede de poder, ou os que estão no poder e aqueles que o querem a
qualquer preço, o delírio faustico de quem vendeu a
alma ao Diabo e busca a salvação nesse mundo. Não havia polarização alguma,
exceto se entendermos por elas a sua personificação. As políticas de longo
prazo são rigorosamente as mesmas, antiempresariais, anticapitalistas
e anti-EUA. E concluem: “No outro pólo (ao
governo FHC), está a proposta de política econômica cujo eixo é o pacto
social entre os trabalhadores incluídos no sistema produtivo, o empresariado
como um todo e a população hoje excluída do mercado. Enfatizando o Projeto
“fome zero”, essa proposta em suas linhas-mestras se inscreve no largo
processo sócio-histórico de constituição da cidadania nacional que, desde o
início do século XX perpassa as organizações populares (como hoje a CUT e o
MST) e movimentos específicos (mulheres, negros, indígenas e tantos outros),
e adquiriu forma política no Partido dos Trabalhadores (PT) e em outros
pequenos partidos de esquerda. Essa proposta alternativa vem ganhando vulto
na medida em que se insere na corrente mundial de movimentos alternativos à
globalização capitalista, da qual o II Fórum Social Mundial é a melhor
expressão. Consolidando a convicção de que Um Outro Mundo é Possível (este
foi seu lema), ele quebra a hegemonia neoliberal no campo ideológico e abre
horizontes políticos alternativos ao propor uma planetarização
solidária”. É com tristeza que leio coisas
assim em um site católico. Nada tem a ver com a linha pastoral do Papa João
Paulo II, certamente a maior e mais brilhante personalidade viva e um reserva
moral do mundo. Entre outros feitos, o Papa ajudou a destruir o comunismo da
Cortina de Ferro, especialmente em sua querida Polônia. E, é bom que se diga,
nada tem a ver com a tradição cristã. Sempre foi propósito dos partidos
comunistas destruir o cristianismo em sua essência. E, inversamente, a
liberdade cristã e a sacralidade dada por ela ao
indivíduo nunca poderia endossar qualquer fé coletivista. Essa, todavia, é a missa dos
padres redatores, endossada pela cúpula da CNBB. Reduziram a Igreja do Brasil
a um departamento de propaganda petista. É um aviltamento voluntário e
irracional para quem vê de fora. O que a hierarquia católica ganha ao assumir
um papel tão menor no processo? Por que não obedece ao Papa, que recomendou
explicitamente o desengajamento da Igreja do
processo político? Por que esquecem a sua missão pastoral e se empenham na
causa revolucionária, algo bastante distante dos anseios religiosos? 8- A Análise de Agosto de 2002 O preâmbulo da análise de
agosto é uma síntese desse do discurso contra os EUA e o neoliberalismo.
Vejamos: “Mais que um período de crise,
o mundo vive um tempo de desordem causada pela subordinação dos povos ao jogo
do mercado. Na ausência de uma instância mundial de poder legítimo, os
interesses dos mais fortes se impõem aos mais fracos. Essa conjuntura mundial
afeta diretamente a economia brasileira, agora em sua maior crise desde o
início do Plano Real, e muda o curso do processo eleitoral, retirando-lhe o
caráter plebiscitário que, desde 1989, marca as
eleições presidenciais. É provável que as grandes decisões políticas venham a
ser tomadas num “terceiro turno” que o ápice da crise econômica provocará.
Entender a natureza dessa crise, de modo a nos prepararmos para melhor
enfrentá-la e dela sair com um projeto de sociedade globalmente solidária, é
o que procuramos oferecer nesta Análise conjuntura”. Como alguém que clama contra a
globalização pode reclamar da ausência de um governo mundial? É lógico isso?
O que seria uma “instância mundial de poder legítimo”? O texto não
especifica, mas provavelmente, a crer no que têm escrito, seria uma ONU,
dominada que está pelas esquerdas, com poder militar e de polícia sobre o
conjunto das nações, uma forma qualquer de ditadura mundial. Seria o fim das
liberdades individuais. O primeiro capítulo do texto é
dedicado à análise dos EUA e do que chamam de desordem mundial. Para começar
discorrem sobre os acontecimentos de 11 de setembro. Para os conjunturalistas, os culpados pelos atentados foram os
próprios EUA e os atacantes têm um tratamento de vítima, na mais completa e
injusta inversão de responsabilidades de que tenho conhecimento. O texto
denuncia “morte atroz dos combatentes talibãs”, mas
silencia sobre o horror das pessoas desavisadas que estavam naqueles
edifícios no dia do traiçoeiro atentado e foram mortas de forma impiedosa.
Essa avaliação, além de injusta, é imoral. Um verdadeiro cristão não pode dar
as costas aos fatos. E, para piorar, cristãos foram mortos por muçulmanos
pelo simples fato de serem cristãos, algo que agrava ainda mais a inversão de
valores propagada pelo texto. O texto revela grande
ignorância sobre o processo de funcionamento da economia mundial e dos EUA em
particular. Afirma que “o pouco que a economia norte-americana tem conseguido
crescer deve-se ao investimento público”. Isso é mais que resultado de
ignorância, é má fé. A pujança da economia daquele país tem sido resultado de
sua sólida economia de mercado. Afirma também que “as medidas protecionistas
visam garantir que a recessão não piore”. Ora, qualquer economista recém
formado sabe que protecionismo só piora a recessão e não o contrário. Na seqüência, o texto dedica
um capítulo à cúpula Rio + 10, que ainda não se havia encerrado quando
fizeram o texto. Expressa otimismo que a tal “Agenda O capítulo seguinte fala da
crise cambial na América do Sul. Vejamos a pérola: “Apesar da diminuição do
fluxo de divisas, o ideário neoliberal impôs o preceito da estabilidade
monetária e a abertura comercial”. Ora, o ideal de estabilidade monetária e
de abertura comercial é um imperativo de boa governança
e uma condição para a prosperidade econômica, nada tendo de impositivo de
fora para dentro. Qual a alternativa? O caos da inflação e da inadimplência
internacional. Quem escreve algo assim não pode ser considerado normal. Não é
uma questão de simples ignorância, mas de sociopatia. “A financeirização
substitui o critério da produção eficiente de mercadorias, pelo critério de
retorno de capital”. Isso é sandice e ignorância misturados. Eficiência
econômica é retorno de capital. E o que os conjunturalistas
não querem ver é que a crise do Brasil, como de resto dos demais países da
América Latina, tem origem unicamente no excesso de intervencionismo estatal,
na irresponsabilidade dos gastos públicos, na castração sistemática da
iniciativa privada. É exatamente o contrário do que dizem e querem fazer, que
é aumentar o Estado. A dívida pública não nasce do nada, é resultado de
décadas de descaso dos governantes populistas, que nunca enxergam além da
próxima eleição. Finaliza com um capítulo
dedicado ao processo eleitoral brasileiro. É curioso o puxão de orelhas que é
dado em Lula. O seguinte trecho é notável: “A crise cambial e o risco de
moratória da dívida pública, contudo, alterou a conjuntura. O acordo com o
FMI submeteu os presidenciáveis aos imperativos do sistema financeiro,
retirando destas eleições o caráter plebiscitário,
que era dado pela candidatura do PT. O próprio slogan de Lula, por um Brasil
“decente”, mas não “diferente”, como em 1998, evidencia essa mudança. Nem ele
fala mais em “ruptura” ou “mudança de eixo” na orientação da política
econômica. É como se a crise econômica tivesse vindo restabelecer a hegemonia
do “pensamento único” e feito esquecer a mensagem do Fórum Social Mundial que
afirmou “um outro mundo é possível”. Seria esta apenas uma estratégia
eleitoral, sabendo que a fama de “radical” assustou o eleitorado e impediu
sua eleição em 1989? Ou é o realismo – afinal, a política é “a arte do
possível” - que recomenda uma transição lenta, gradual e segura, e adia a
verdadeira mudança para Um outro mundo possível? Só
com a ressurreição, mas dessa os sacerdotes militantes não querem mais saber.
O negócio mesmo é trabalhar pela revolução. 9- A Análise de Novembro de
2002 Na última edição de novembro de
2002, temos a interessante constatação da cisão esquizofrênica de que padece
Lula, candidato da CNBB que venceu as eleições, bem como os seus apoiadores.
Lula teve que passar por uma súbita e postiça metanóia,
mudando de posição relativamente a quase tudo que defendeu há não muito
tempo, objetivando obter apoios mais amplos para a sua candidatura. Deu
certo, elegeu-se, mas ao preço de criar a cizânia insuperável. O problema é
que os seus aliados históricos, como a CNBB, não engoliram esse processo e
prometem cobrar a coerência do candidato com o seu passado. Nas suas
palavras: “A batalha está agora apenas
começando. Passados os dias de alegria e festa, a celebração da posse e os
primeiros dias do novo governo – como concessões ao povo e ao presidente
eleito – os donos do poder vão querer recolocar tudo em ordem, como se nada
houvesse acontecido, como se FHC e Malan não tivessem perdido as eleições,
como se estas não fossem mais do que uma encenação... Para eles, a
legitimidade de um governo não vem das urnas e das políticas que respondam às
necessidades básicas da população, mas sim do cumprimento das obrigações
financeiras. Fazer uma política social? Faça Lula o que quiser, desde que
respeite as promessas e concessões feitas durante a campanha. Submeta-se e
será aceito. Sua estratégia é a neutralização da Memória subversiva e do
Desejo de mudança, fazendo de Lula um De La Rua
que, elei to para fazer mudanças, foi impedido de
mudar qualquer coisa. Se Lula tentar implementar algo novo, será chamado de
“populista” e “irresponsável”, criando-se um clima tensão e confronto com os
donos do capital, do saber, da mídia e o apoio militar dos EUA. Serão 52
milhões de eleitores, já desmobilizados e pouco organizados, contra um
pequeno mas poderoso grupo que, com alguns telefonemas, pode provocar uma
crise econômica de grandes proporções”. Memória subversiva... Os
analistas conjunturais não escondem que se movem pelo receituário
revolucionário nos moldes leninistas. Pelo trecho em tela, vê-se que eles
esperam de Lula que reviva na memória “de que lado está”. É como se problemas
sociais e econômicos existissem por capricho das políticas estatais e a
pobreza fosse decorrência disso. O remédio, fica claro, é fazer a revolução,
que para eles é voluntarismo estatal ilimitado, ainda que, para isso, seja
necessário o uso da violência revolucionária (um pleonasmo). Já nas conclusões do texto, os
escribas insistem: “Diante do clima de medo
reinante no mundo, as eleições no Brasil, em clima de festa nacional, são um
sinal de esperança. Um movimento social gestado há
meio-século, tem agora um de seus principais expoentes alçado à Presidência
da República. Sua prioridade é erradicar a fome, e isso implica profundas
reformas na sociedade brasileira. Mas é e será forte a pressão do capital
financeiro para que tais mudanças não afetem seus interesses. Será possível
conciliar essas duas forças? A participação política dos cristãos, motivados
pelas exigências éticas e evangélicas de superação da miséria e da fome,
poderá ser um peso importante nessa correlação de forças, fazendo pender a
balança em favor dessa grande causa popular”. Aqui está, com todas as
letras, a promessa de que o governo Lula não terá trégua, se não seguir o
caminho há muito tempo traçado. Quando se referem ao capital financeiro,
podemos ler os detentores nacionais e internacionais da dívida pública, o
FMI, o Banco Mundial e todas as instituições que o funcionamento do mercado e
a inserção do Brasil no comércio internacional. Essas pessoas não querem a
normalidade de mercado e vão grudar na pele de Lula até que ele revele
coerência com as suas origens. 10- A Análise de Fevereiro de
2003 Eu sempre leio e releio os
Evangelhos e quanto mais me aprofundo, mais me convenço de que a opção
preferencial de Cristo foi a de salvar os pecadores, e não os pobres. Várias
passagens dos Evangelhos comprovam isso e não é o caso aqui de enumerá-las,
pois que futuramente pretendo explorar melhor o tema. Cristo jamais
demonstrou preocupação com os bens materiais, a imanência, pois para Ele o Pai
sempre provê: “Olhai os lírios do campo...” Essa tal de opção preferencial
pelos pobres não passa de um recurso sofístico para enganar os incautos. É
triste ver o que deveria ser a Casa de Deus fazer do púlpito um local da
mentira e dela o seu emblema. O texto está dividido em
vários segmentos, analisando a guerra do Iraque, as tensões políticas na
América Latina, faz também um balanço do III Fórum Social Mundial e do
Programa Forma Zero. O ponto que realmente nos interessa, todavia, é aquele
em que analisa o governo Lula
(“Perguntas incômodas sobre o novo Governo”). Os escrevinhadores
conjunturais não escondem as suas decepções, embora ainda mantenham uma
linguagem civilizada. O texto afirma: “A vitória do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva deve-se, entre outros fatores, ao grande leque de
alianças que ele foi capaz de costurar durante a campanha eleitoral.
Entretanto, à medida que tais alianças se consolidavam, crescia a
insatisfação numa determinada ala do Partido dos Trabalhadores, aquela mais identificada
com os núcleos de base e com os princípios originários do partido. Mas o
clima da campanha, as expectativas do novo governo e as festividades da posse
eclipsaram momentaneamente as diferenças no interior do partido vitorioso. O
que importava era chegar no Palácio do Planalto. As divergências seriam
resolvidas depois”. Como resolver as divergências
depois? O que querem os bispos integrantes da CNBB? Digo-lhe, caro leitor, o
que está na cabeça deles é uma forma de socialismo que imagina que o mercado,
a ordem capitalista, é o seu inimigo. Não desconfiam que colocar em prática
as suas crenças é condenar a população brasileira como um todo ao desespero,
a regredir em anos o progresso econômico, é tornar o país um pária na comunidade internacional. Socialismo marxista,
que é o que verdadeiramente professa a maior parte da Igreja do Brasil, é
suicídio econômico. O texto continua: “Deve-se reconhecer que as
preocupações da ala esquerda do PT têm fundamento. O programa Fome Zero
custará R$ 6 bilhões este ano, mas os juros da dívida pública consumiram R$
114 bilhões em 2002 (um crescimento de 32% em relação a 2001) e agora
certamente aumentarão. A cada dia do ano passado, o governo (União, estados e
municípios) transferiu R$ 312,268 milhões para os bancos e fundos de
investimento. Os gastos com juros foram mais do dobro do superávit primário
(R$ 52,4 bilhões) e o setor público fechou 2002 com um rombo de R$ 61,6
bilhões. Fernando Henrique ainda deixou como herança a dívida bruta de R$
1,132 trilhão. A meta de superávit primário para 2003 é 4,25% do PIB (R$ 68
bi), e certamente não será sequer a metade do pagamento de juros no ano”. Os homens da Igreja não
percebem que a dívida de hoje foi o bem-estar de ontem. Os brasileiros das
gerações anteriores sacaram contra as gerações futuras. A dívida é legítima e
deve ser honrada. Não há nenhum roubo nos juros. Ninguém foi obrigado a
assinar contratos de empréstimos, nisso o nosso governo tem sido soberano. É
de espantar que homens supostamente íntegros na sua formação sugiram
implicitamente alguma forma de calote na dívida, como se nisso houvesse
alguma virtude cristã. Não há. Não passa de slogan de revolucionários
leninistas. Quem não lembra que Lênin pregou retoricamente certa vez: “O que
é um ladrão de banco perto do próprio banco?” “Isso é o que está fazendo a
atual equipe econômica. Diante do agravamento da situação (volta da inflação,
queda da taxa de câmbio, recrudescimento do “risco Brasil”), ela intensifica
as doses dos mesmos remédios (maior superávit primário, taxa de juros
elevadíssima, intocabilidade do Banco Central)
embora eles não tenham dado resultado positivo e ainda façam diminuir as
possibilidades de crescimento econômico e do nível de emprego”. Não enxergam os nossos
prelados que a ÚNICA salvação para os brasileiros (o Brasil não passa de uma
abstração jurídica) é reduzir o Estado. Cada centavo que se retira dos
cidadãos produtivos para alimentar o ogro
filantrópico serve apenas para agravar o empobrecimento coletivo. Deveriam
ler as encíclicas “Rerum Novarum”
e “Centesimus Annus”,
verdadeiras aulas de mestres católicos sobre a economia e as relações de
trabalho. O problema é que nossos bispos lêem mesmo é Marx, Lênin e Gramsci,
homens que encarnaram a visão das trevas e pregaram o conflito, a guerra, a
escravidão e, tudo sobre tudo, a mentira pura e simples, para confundir os
espíritos tolos. É desagradável ler as análises
conjunturais da CNBB. Mas é necessário. Estou curioso para saber aonde vai
dar a linha de raciocínio dos bispos, com o agravamento da crise econômica e
o acirramento das contradições do governo Lula. 11- Palavras Finais A visão de mundo da alta
hierarquia católica está balizada pelo materialismo dialético marxista-leninista,
o que coloca os prelados diante de um dilema insuperável: o Cristianismo não
se coaduna com o materialismo e vice-versa. Passa-se a impressão de que os
sacerdotes fizeram da Igreja Católica brasileira um baluarte para a luta
revolucionária, tendo deixado de lado completamente os fundamentos
transcendentais da fé cristã. Essa forma de e agir no mundo
afastou a Igreja da orientação papal, tendo, em
certos momentos, havido uma cisão próxima de uma cisma. Felizmente a gestão
do Papa João Paulo II, habilidosa e diplomática, conseguiu contornar os
problemas mais agudos, substituindo alguns dos prelados mais engajados por
outros de sua confiança. É preciso reconhecer, no entanto, lendo as Análises
de Conjuntura da CNBB, que há um núcleo duro de revolucionários na Igreja que
está empenhado em engajar a instituição em um processo revolucionário não
apenas no Brasil, planejando, a partir de uma revolução bem sucedida aqui,
multiplicá-la por todo o mundo. O ódio aos Estados Unidos da
América, ao livre mercado, às instituições capitalistas, um ideal igualitário
que deita raízes na Revolução Francesa, uma incompreensão absoluta das leis
econômicas, uma confusão filosófica que não distingue mais materialismo de
transcendentalismo, uma inadequação intrínseca ao mundo moderno transformaram
a Igreja em uma perigosa escola formadora de quadros para a ação
revolucionária. Sua maior vitória foi ter feito Lula presidente da República,
mas isso não foi o bastante para os bispos, vez que, no poder, Lula tem feito
concessões que desagradaram os seus apoiadores. O que virá agora? É uma
questão em aberto. Sei apenas que uma legião de homens de batina e e leigos por eles influenciados estão de prontidão, para
fazer a luta revolucionária, construindo um outro mundo possível. |
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